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Equipe econômica de Flávio Bolsonaro reúne ex-Guedes e mercado; veja o que está no programa

Daniella Marques e Adolfo Sachsida lideram grupo que propõe reduzir impostos, rever despesas, enxugar a máquina pública e ajustar a reforma tributária, mas ainda não apresentou a conta completa das medidas.

por Álvaro Lima
05/10/2026 às 11h01
em Economia
Equipe Econômica De Flávio Bolsonaro Reúne Ex-Guedes E Mercado; Veja O Que Está No Programa - Gazeta Mercantil - Economia

A liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno colocou sob atenção maior a equipe responsável por desenhar sua política econômica. O grupo reúne ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro, economistas com passagem pelo Ministério da Economia, acadêmicos e profissionais do mercado financeiro e é coordenado pela ex-presidente da Caixa Daniella Marques, com participação de Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia e ex-secretário de Política Econômica.

A campanha apresenta o núcleo como responsável não apenas pela elaboração técnica do programa, mas também pelo diálogo com empresários, especialistas e representantes dos diferentes setores da economia. Sete economistas e profissionais foram incorporados formalmente ao grupo em agosto: Alexandre Messa, Alexandre Ywata, Andrei Spacov, Arilton Teixeira, Eduardo Cavendish Carvalho, Myrian Prado e Vladimir Kühl Teles. Eles se somaram a Daniella e Sachsida e a colaboradores anunciados anteriormente em áreas como infraestrutura, energia e políticas voltadas às mulheres. A participação na campanha, entretanto, não significa indicação automática para ministérios ou outros cargos em um eventual governo.

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O desenho da equipe mostra uma intenção clara de retomar parte da orientação liberal adotada durante o governo Jair Bolsonaro, mas sem reproduzir exatamente a estrutura comandada por Paulo Guedes. A agenda apresentada até agora combina redução de impostos, controle mais rígido das despesas públicas, desburocratização, revisão de benefícios tributários, maior participação privada em infraestrutura e reorganização das empresas estatais.

O ponto ainda em aberto é a intensidade dessa agenda e, principalmente, como ela será financiada. Flávio promete reduzir tributos ao mesmo tempo em que afirma que buscará melhorar as contas públicas. Para que as duas coisas ocorram simultaneamente, será necessário compensar a perda de receita com cortes efetivos de despesas, eliminação de benefícios, privatizações, crescimento econômico ou uma combinação dessas alternativas.

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Até agora, a campanha ainda não apresentou uma memória de cálculo que permita verificar integralmente essa equação.

Daniella Marques ocupa o centro do programa econômico

Daniella Marques tornou-se a principal voz econômica da campanha. Economista formada pela PUC-Rio, trabalhou no Ministério da Economia durante o governo Jair Bolsonaro e presidiu a Caixa Econômica Federal entre julho de 2022 e janeiro de 2023. Na campanha de Flávio, assumiu a coordenação do núcleo econômico e passou a representar o candidato em encontros com empresários, instituições financeiras e entidades do setor produtivo.

Adolfo Sachsida funciona como outro eixo da formulação. Economista com longa trajetória acadêmica e passagem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ele foi secretário de Política Econômica, assessor especial do Ministério da Economia e ministro de Minas e Energia no governo anterior. Sachsida entrou formalmente na coordenação do programa em agosto.

A escolha dos dois ajuda a compreender a linha que a campanha pretende transmitir ao mercado. Daniella traz experiência executiva na Caixa e proximidade com a agenda de redução do tamanho do Estado, enquanto Sachsida está associado às políticas econômicas e regulatórias adotadas entre 2019 e 2022.

Ao redor deles, a campanha montou um grupo com diferentes especialidades. Alexandre Messa, pesquisador do Ipea, foi secretário de Acompanhamento Econômico. Vladimir Kühl Teles foi secretário-adjunto de Política Econômica e tem atuação acadêmica na FGV. Alexandre Ywata ocupou cargos no Ipea, na Caixa e nas secretarias de Infraestrutura e Produtividade do Ministério da Economia. Myrian Prado trabalhou nas áreas de desestatização, infraestrutura e empreendedorismo.

Andrei Spacov traz experiência em política monetária e fiscal no mercado financeiro. Arilton Teixeira atua nas áreas de finanças internacionais, crescimento econômico e finanças corporativas. Eduardo Cavendish Carvalho trabalha com investimentos e mercado de capitais.

A própria campanha afirma que esses profissionais atuam tecnicamente na elaboração do plano e na apresentação das propostas ao setor produtivo. Não existe, até agora, anúncio de que algum deles esteja reservado para assumir o Ministério da Fazenda, Banco Central, Planejamento ou outra função específica.

Corte de impostos é uma das principais bandeiras

Uma das promessas mais explícitas da equipe é revisar aumentos tributários ocorridos durante o atual governo. Daniella Marques afirmou em setembro que recebeu de Flávio a orientação de examinar os impostos criados ou elevados durante a gestão de Fernando Haddad na Fazenda e trabalhar para revertê-los.

Duas medidas são citadas com maior frequência. A primeira é devolver o Imposto sobre Operações Financeiras aos parâmetros de 2022. A segunda é eliminar o imposto sobre exportação de petróleo.

A tributação das exportações de petróleo merece uma ressalva temporal. A alíquota de 12% foi estabelecida pelo governo em julho de 2026 como medida de duração inicialmente limitada a 60 dias. Portanto, o alcance de uma eventual promessa de revogação dependerá da situação efetivamente vigente quando o próximo governo assumir. O compromisso político da campanha é contrário a esse tipo de tributação sobre a exportação de óleo bruto.

No IOF, o impacto seria mais amplo. O imposto alcança operações de crédito, câmbio, seguros e diferentes aplicações financeiras, e alterações em suas alíquotas afetam tanto arrecadação quanto custo financeiro de empresas e famílias.

O argumento da equipe é que a redução de impostos pode estimular investimento, atividade econômica e arrecadação em outras bases. É uma tese econômica possível, mas o resultado depende do tamanho dos cortes, da resposta da economia e do comportamento das despesas públicas. Redução tributária não se transforma automaticamente em aumento de receita.

Esse é um dos pontos que ainda exigem maior detalhamento.

Reforma tributária revela mudança de posição

A posição da campanha sobre a reforma tributária é mais complexa do que uma defesa simples de revogação.

Em agosto, a comunicação oficial de Flávio Bolsonaro afirmou que a “suspensão da reforma tributária” estaria entre os primeiros atos de um eventual governo. O próprio candidato defendia naquele momento mais tempo para rediscutir o modelo aprovado e criticava a carga tributária resultante da implementação do novo sistema.

Menos de um mês depois, Daniella Marques adotou uma formulação diferente. No seminário Brasil Hoje, promovido pela Esfera, afirmou que a equipe era favorável à estrutura construída, mas pretendia “aprimorar” a reforma. Segundo ela, reabrir completamente uma discussão constitucional dessa dimensão não seria a melhor alternativa.

A principal crítica da equipe passou a se concentrar nas exceções concedidas durante a tramitação. A avaliação é que benefícios destinados a determinados setores pressionaram para cima a alíquota de referência do IBS e da CBS paga pelas atividades sem tratamento favorecido.

Na prática, portanto, a posição mais recente conhecida não é simplesmente extinguir o novo sistema, mas renegociar pontos de sua regulamentação e tentar reduzir exceções e carga tributária.

Essa diferença importa porque a reforma já está em implementação. Em 2026 começou o período de testes do IBS e da CBS, e empresas de todo o país vêm investindo em sistemas, contabilidade e adaptação operacional. Uma suspensão ampla produziria efeitos jurídicos e empresariais muito maiores do que alterações pontuais na regulamentação.

Ajuste fiscal é promessa central, mas cortes ainda não foram detalhados

Outro pilar apresentado por Daniella e Sachsida é um ajuste rápido das contas públicas. A coordenadora tem defendido redução de despesas, revisão de benefícios tributários e enxugamento da máquina administrativa, ao mesmo tempo em que afirma que programas sociais não seriam alvo do corte.

A dificuldade está na passagem do discurso para a composição do Orçamento.

Grande parte das despesas federais é obrigatória ou vinculada a regras legais e constitucionais. Previdência, benefícios sociais, folha de pagamento e pisos de determinadas políticas ocupam parcela elevada do gasto público. Isso reduz o volume de despesas que pode ser eliminado rapidamente por decisão administrativa.

A campanha chegou a trabalhar com um ajuste fiscal equivalente a cerca de 1,5% do PIB e com uma nova regra de controle das despesas ligada à trajetória da dívida pública, mas não detalhou integralmente quais programas, subsídios ou despesas seriam reduzidos para atingir esse objetivo.

Daniella também tem defendido uma espécie de “revogaço” de normas e obrigações consideradas desnecessárias. A campanha afirma ter mapeado mais de mil regras para revisão, incluindo normas infralegais e obrigações burocráticas.

Desburocratização pode reduzir custos para empresas sem necessariamente produzir grande economia orçamentária. Cortar normas e cortar gastos são objetivos relacionados, mas não equivalentes. Para melhorar o resultado primário, será necessário mostrar de onde virão economias fiscais mensuráveis.

Referência a Milei encontra limites no caso brasileiro

Daniella cita a experiência do presidente argentino Javier Milei como referência em redução de burocracia, revisão de gastos e reorganização do Estado. A comparação, contudo, tem limites importantes.

Brasil e Argentina possuem estruturas institucionais, federativas e fiscais muito diferentes. Medidas que podem ser adotadas pelo Executivo argentino não necessariamente podem ser reproduzidas no Brasil por decreto. Parte relevante das mudanças brasileiras dependeria do Congresso e, em alguns casos, de emendas constitucionais.

A equipe de Flávio também não propõe simplesmente reproduzir o ajuste argentino. A campanha diz que pretende preservar programas sociais e tem evitado defender mudanças que atinjam diretamente aposentadorias ou o salário mínimo, áreas que representam parcelas relevantes do gasto obrigatório.

Essa combinação aumenta o desafio fiscal. Quanto mais itens importantes do Orçamento são protegidos, maior precisa ser o ajuste nos gastos restantes ou a necessidade de medidas estruturais capazes de reduzir despesas no longo prazo.

Estatais serão avaliadas antes de eventual privatização

Privatizações permanecem na agenda, mas a campanha não apresentou até agora uma lista definitiva de empresas que pretende vender.

Daniella e Sachsida defendem reorganizar as estatais, avaliar desempenho, governança e função econômica e só depois decidir quais devem continuar sob controle público e quais poderiam ser transferidas ao setor privado.

Essa formulação é mais cautelosa do que a agenda adotada no início do governo Jair Bolsonaro, quando várias empresas foram incluídas explicitamente em programas de desestatização.

A Caixa aparece como exceção importante. Daniella tem defendido utilizar o banco público como instrumento para crédito, educação financeira e capacitação profissional, o que indica manutenção de sua função estatal.

Petrobras, Banco do Brasil e outras grandes companhias tendem a permanecer no centro do debate durante o segundo turno, sobretudo depois da forte valorização de ações estatais registrada nesta segunda-feira após Flávio terminar o primeiro turno à frente de Lula.

O movimento do mercado reflete expectativa de investidores sobre menor interferência estatal e uma política econômica mais liberal. Não significa, contudo, que privatizações dessas empresas tenham sido oficialmente anunciadas.

Mercado reagiu antes de conhecer todos os detalhes

A reação dos ativos brasileiros depois do primeiro turno deixou clara a preferência inicial de parte do mercado financeiro por um cenário de mudança política. O Ibovespa chegou a superar os 200 mil pontos nesta segunda-feira, o dólar caiu abaixo de R$ 5 e as curvas de juros registraram forte recuo.

Parte desse movimento está relacionada à expectativa de que um eventual governo Flávio adote uma política fiscal mais restritiva, reduza a intervenção sobre empresas estatais e retome uma agenda econômica próxima àquela conduzida pelo Ministério da Economia no governo de Jair Bolsonaro.

A presença de Daniella Marques e Adolfo Sachsida reforça essa interpretação. Ambos são conhecidos pelo mercado e já exerceram funções de primeiro escalão ou de formulação econômica no governo anterior.

Mas há uma diferença importante entre o que os investidores estão antecipando e aquilo que já foi formalmente detalhado pela campanha.

A direção geral está relativamente clara: menos impostos, Estado menor, revisão de gastos, desburocratização, participação maior da iniciativa privada e ajustes na reforma tributária.

O desenho fiscal completo ainda não.

Promessa de menos impostos terá de fechar com a conta dos gastos

Esse será provavelmente o principal teste econômico da campanha no segundo turno.

Flávio pretende apresentar ao eleitor e ao mercado uma agenda que combina redução tributária com responsabilidade fiscal. As duas coisas são compatíveis, mas exigem escolhas concretas. Se a arrecadação cair, a despesa precisa cair em proporção suficiente ou o crescimento econômico precisa compensar parte da diferença.

O Brasil chega à eleição com dívida pública elevada, juros ainda restritivos e projeção de crescimento inferior a 2% para 2026. O Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira mostra inflação esperada de 5,01% e expansão do PIB de 1,85%. Nesse ambiente, a credibilidade do próximo governo dependerá menos do discurso genérico em defesa do equilíbrio fiscal e mais da capacidade de apresentar medidas executáveis.

A equipe de Flávio já identificou áreas que pretende atacar, mas ainda não demonstrou quanto cada uma produziria de economia ou redução de receita. Tampouco apresentou uma sequência completa de reformas capaz de mostrar como a dívida seria estabilizada.

A partir do segundo turno, essa cobrança tende a aumentar.

Daniella Marques, Adolfo Sachsida e os demais integrantes do núcleo econômico deixam de preparar um programa para um candidato que tentava chegar à etapa final e passam a trabalhar para um presidenciável que terminou o primeiro turno na liderança.

O mercado já precificou parte da expectativa.

Agora a campanha terá de mostrar a conta.

Fontes

Comunicação oficial da campanha de Flávio Bolsonaro — composição da equipe responsável pelo plano econômico e propostas divulgadas durante a campanha.

Reuters — anúncios da equipe econômica e declarações de Daniella Marques e Adolfo Sachsida.

Seminário Brasil Hoje, Esfera Brasil — declarações dos coordenadores econômicos sobre reforma tributária, ajuste fiscal e papel do Estado.

Câmara de Comércio Exterior — decisão sobre o imposto de exportação de petróleo.

Banco Central — dados fiscais, Relatório Focus e indicadores de juros e dívida pública.

Tribunal Superior Eleitoral — plano de governo e documentos das Eleições 2026.

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