A família do ex-presidente Jair Bolsonaro ampliou sua presença institucional nas eleições deste domingo, 4 de outubro. Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro foram eleitos para o Senado, Jair Renan Bolsonaro e Renato Bolsonaro conquistaram vagas na Câmara dos Deputados e Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno da eleição presidencial na liderança, avançando para uma disputa direta contra Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de outubro.
O resultado mantém o sobrenome Bolsonaro em posições relevantes da política nacional mesmo sem Jair Bolsonaro nas urnas. Pela primeira vez desde 1990, o ex-presidente não concorreu a nenhum cargo em uma eleição geral. Inelegível e condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo relacionado à tentativa de golpe de Estado, ele acompanhou uma eleição na qual filhos, mulher, ex-mulher, irmão e cunhados disputaram diferentes postos pelo país.
O saldo mais expressivo veio do Congresso. Dois integrantes da família chegarão ao Senado em fevereiro de 2027 e outros dois ocuparão cadeiras na Câmara. Flávio, por sua vez, ainda poderá ampliar esse resultado caso derrote Lula no segundo turno presidencial. Com 100% da apuração praticamente concluída, o candidato do PL recebeu cerca de 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos válidos, contra 45,16% do presidente.
A diferença entre os dois ficou abaixo de dois pontos percentuais, o que transforma a eleição presidencial no principal teste político da família. Flávio chegou à disputa como senador pelo Rio de Janeiro e, depois de mais de duas décadas de carreira eletiva, conseguiu terminar o primeiro turno à frente do presidente da República. O resultado também confirma sua passagem de uma trajetória essencialmente estadual e parlamentar para a liderança nacional do campo político construído pelo pai.
Michelle estreia com vitória no Distrito Federal
Michelle Bolsonaro obteve a vitória mais simbólica entre os familiares que buscavam novos cargos. Em sua primeira eleição, a ex-primeira-dama recebeu 938.496 votos para o Senado pelo Distrito Federal, equivalentes a 29,1% dos votos válidos para o cargo, e terminou a disputa na primeira colocação. A segunda vaga ficou com Bia Kicis, também do PL, com 27,4%.
A eleição consolida uma trajetória política própria que Michelle começou a desenvolver depois da saída de Jair Bolsonaro da Presidência. Entre 2023 e 2026, ela percorreu o país à frente do PL Mulher, participou de campanhas municipais e se transformou em uma das principais vozes do partido junto ao eleitorado feminino e evangélico.
A candidatura ao Senado foi construída em meio a disputas internas no próprio campo bolsonarista e só foi confirmada depois de meses de incerteza. Michelle chegou a protagonizar divergências públicas com Flávio durante a pré-campanha, mas recebeu posteriormente o aval de Jair Bolsonaro para disputar a cadeira.
A vitória também produziu uma configuração inédita na representação do Distrito Federal. Michelle e Bia Kicis vão se juntar a Damares Alves, do Republicanos, cujo mandato termina em 2031. A partir de fevereiro, as três cadeiras do DF no Senado serão ocupadas por mulheres, embora pertencentes a duas bancadas partidárias diferentes.
O irmão de Michelle, Diego Torres, integra a chapa como primeiro suplente. Isso precisa ser distinguido de uma eleição para cadeira própria: o suplente do Senado não ocupa automaticamente um mandato, mas pode assumir a vaga em casos previstos em lei, como licença, afastamento ou saída definitiva da titular.
Outro irmão da ex-primeira-dama, Eduardo Torres, concorreu a deputado distrital pelo PL. Recebeu 17.314 votos e não ficou entre os titulares eleitos para a Câmara Legislativa, terminando na suplência do partido.
Carlos troca sete mandatos no Rio pelo Senado em Santa Catarina
Em Santa Catarina, Carlos Bolsonaro encerrou uma trajetória de sete mandatos consecutivos como vereador do Rio de Janeiro e conseguiu transformar a mudança de domicílio eleitoral em uma cadeira no Senado. Ele recebeu 2.041.840 votos, equivalentes a 25,35%, e terminou em segundo lugar na disputa pelas duas vagas.
A primeira colocação ficou com Carol de Toni, também do PL, que recebeu 2.694.918 votos e 33,46%. A eleição dos dois terá um efeito partidário relevante: a partir de 2027, as três cadeiras de Santa Catarina no Senado serão ocupadas pelo PL, porque Jorge Seif, eleito em 2022, permanece com mandato até 2031.
Carlos construiu toda a carreira eleitoral anterior no Rio de Janeiro. Foi eleito vereador pela primeira vez em 2000 e permaneceu na Câmara Municipal por sete mandatos. A transferência para Santa Catarina provocou resistência de setores da direita local durante a campanha, especialmente porque o Estado já tinha outras lideranças conservadoras interessadas nas duas vagas disponíveis.
A entrada de Carlos alterou a composição originalmente imaginada pelo campo bolsonarista e aumentou a competição com Esperidião Amin, do PP. No resultado final, porém, o PL conseguiu levar as duas cadeiras, consolidando Santa Catarina como um dos principais redutos eleitorais do partido.
Jair Renan dá salto da Câmara Municipal para Brasília
Jair Renan Bolsonaro também foi eleito em Santa Catarina, mas para a Câmara dos Deputados. O filho mais novo do ex-presidente recebeu 131.555 votos e conquistou uma vaga de deputado federal apenas dois anos depois de iniciar sua trajetória eleitoral.
Em 2024, Jair Renan havia sido eleito vereador de Balneário Camboriú, usando “Jair Bolsonaro” como nome de urna. Terminou aquela eleição como o candidato mais votado para a Câmara Municipal e, antes de completar metade do mandato, decidiu disputar uma vaga no Congresso.
O resultado deste domingo representa uma ascensão rápida. Aos 28 anos, ele deixa uma Câmara Municipal para integrar a bancada federal catarinense e passa a dividir espaço no Congresso com o irmão Carlos, embora em Casas diferentes.
A votação de Jair Renan ficou muito abaixo dos líderes da disputa catarinense — Julia Zanatta, também do PL, recebeu mais de 560 mil votos —, mas foi suficiente dentro do sistema proporcional para garantir a cadeira.
Esse aspecto é importante porque eleições para deputado federal não são definidas apenas pela colocação individual. O desempenho do partido e a distribuição das vagas pelo quociente eleitoral também entram no cálculo. O forte resultado do PL em Santa Catarina ajudou a formar uma bancada numerosa e abriu espaço para diferentes nomes da legenda.
Renato Bolsonaro chega à Câmara por São Paulo
O irmão mais novo de Jair Bolsonaro, Renato Bolsonaro, também foi eleito deputado federal, desta vez por São Paulo. Ele recebeu 379.312 votos, equivalentes a 1,60% dos votos válidos destinados a candidatos ao cargo, e terminou entre os mais votados do Estado.
Foi a primeira eleição de Renato que resultou em um mandato federal. Empresário e politicamente ativo no interior paulista, ele já havia participado de outras disputas e, em 2024, concorreu à Prefeitura de Registro, no Vale do Ribeira, sem conseguir se eleger.
Em 2026, concorreu numa chapa do PL que teve resultados expressivos em São Paulo. Lucas Pavanato recebeu mais de 3 milhões de votos e liderou a disputa, enquanto Renato terminou com a sexta maior votação nominal do Estado.
A eleição acrescenta outra ramificação da família à Câmara. Até agora, a presença parlamentar federal dos Bolsonaro havia sido construída principalmente pelos filhos de Jair. Renato leva o irmão do ex-presidente ao Congresso e amplia a representação familiar para além da geração dos filhos.
Rogéria recebe 65,5 mil votos, mas fica como suplente
No Rio de Janeiro, o resultado foi diferente para Rogéria Bolsonaro, primeira mulher de Jair Bolsonaro e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo. Ela recebeu 65.496 votos na disputa para deputada federal pelo PL e não conquistou uma vaga de titular.
Rogéria terminou como suplente da legenda. Aos 66 anos, tentava retornar a um cargo eletivo depois de uma longa ausência. Ela foi vereadora do Rio em 1992 e conseguiu a reeleição em 1996, antes de os filhos consolidarem suas próprias trajetórias políticas.
A história eleitoral dela se cruza diretamente com a de Carlos. Em 2000, Rogéria tentou conquistar um terceiro mandato como vereadora, enquanto o filho disputava pela primeira vez uma cadeira na Câmara Municipal. Carlos foi eleito e iniciou a sequência de sete mandatos; a mãe ficou de fora.
Mais de duas décadas depois, ambos voltaram a disputar uma eleição no mesmo ano, mas em Estados e cargos diferentes. Carlos conseguiu chegar ao Senado por Santa Catarina, enquanto Rogéria permaneceu na suplência da bancada federal do PL no Rio.
Flávio passa a carregar sozinho a disputa pelo Planalto
Embora quatro familiares já tenham garantido mandatos, a eleição de maior consequência ainda não terminou. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos no primeiro turno e enfrentará Lula, que terminou com 45,16%.
A vantagem de aproximadamente 1,9 ponto percentual corresponde a pouco mais de 2,2 milhões de votos, num universo superior a 119 milhões de votos válidos destinados aos dois candidatos. É uma diferença estreita e não há transferência automática dos resultados do primeiro turno para a votação de 25 de outubro.
Flávio chega à nova etapa com uma estrutura familiar politicamente fortalecida. Michelle poderá atuar no Distrito Federal e em agendas nacionais; Carlos e Jair Renan saíram vitoriosos de Santa Catarina; Renato obteve votação expressiva em São Paulo. Todos pertencem ao PL e podem funcionar como mobilizadores regionais durante as três semanas de campanha.
Ao mesmo tempo, o candidato terá de ampliar sua votação entre eleitores de candidatos eliminados e disputar parte dos aproximadamente 33 milhões de brasileiros que não compareceram no primeiro turno. Lula já anunciou que também pretende concentrar esforços nesse grupo.
A eleição parlamentar da família, portanto, é relevante menos pelo número absoluto de quatro cadeiras do que pela distribuição territorial dos resultados. O grupo garantiu representação no Distrito Federal, em Santa Catarina e em São Paulo, três áreas em que a direita apresentou desempenho elevado neste primeiro turno.
Família amplia presença mesmo com Jair fora das urnas
O resultado de 2026 mostra que a influência eleitoral do sobrenome Bolsonaro não desapareceu com a inelegibilidade do ex-presidente. Pelo contrário, a família conseguiu distribuir candidaturas por diferentes Estados e níveis da representação política.
Michelle ingressará no Senado pelo Distrito Federal. Carlos também chegará à Casa, mas representando Santa Catarina. Jair Renan será deputado federal pelo mesmo Estado e Renato Bolsonaro assumirá uma cadeira por São Paulo. Rogéria e Eduardo Torres não conquistaram vagas de titular, mas permanecem como suplentes em suas respectivas disputas.
Há ainda Diego Torres, irmão de Michelle, cuja situação é distinta: ele foi registrado como primeiro suplente da própria chapa senatorial da ex-primeira-dama e poderá assumir o mandato caso haja afastamento ou vacância.
Por isso, não é preciso somar todos esses nomes como se tivessem obtido o mesmo tipo de resultado. A fotografia objetiva da eleição é de quatro familiares eleitos para cargos legislativos, um candidato presidencial no segundo turno e outros integrantes posicionados em suplências.
A principal mudança em relação aos últimos ciclos eleitorais está na dispersão geográfica. Durante muitos anos, a força eleitoral direta da família esteve concentrada no Rio de Janeiro. Em 2026, os mandatos conquistados pelos Bolsonaro estão distribuídos entre Distrito Federal, Santa Catarina e São Paulo.
O Rio, berço político de Jair, Flávio e Carlos, foi justamente onde a candidatura familiar a deputada federal não conseguiu uma cadeira de titular.
A nova geografia ajuda a explicar a transformação do bolsonarismo de um grupo inicialmente fluminense em uma estrutura eleitoral nacional. O resultado final dessa expansão, porém, ainda depende da principal votação que resta.
Em 25 de outubro, Flávio Bolsonaro enfrentará Lula pela Presidência da República. Depois de uma eleição em que sua família colocou quatro nomes no Congresso, a disputa pelo Planalto determinará se o grupo encerrará 2026 apenas com uma representação parlamentar ampliada ou também com o comando do Executivo federal.
Fontes
Tribunal Superior Eleitoral — resultados oficiais do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.
Senado Federal — resultados das eleições para o Senado no Distrito Federal e em Santa Catarina.
Tribunal Superior Eleitoral — totalização para deputado federal em São Paulo e Santa Catarina.
Tribunal Superior Eleitoral — resultados para deputado federal no Rio de Janeiro e deputado distrital no Distrito Federal.








