A Polícia Federal aguarda uma definição do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, sobre como deverá tratar referências a cinco ministros encontradas na extração do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo informação divulgada nesta sexta-feira, 2 de outubro, pela colunista Andreza Matais, do Metrópoles, o material contém menções a Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e André Mendonça.
A informação sobre os cinco nomes parte da reportagem e não foi confirmada em comunicado público da Polícia Federal ou do STF. Também não foi divulgado o conteúdo específico das menções, o contexto em que os ministros aparecem ou se alguma delas apresenta elemento que possa indicar irregularidade. A simples presença de um nome em mensagens, documentos ou contatos extraídos de um aparelho não significa, por si só, participação em crime ou conduta imprópria.
Segundo a apuração publicada, a PF solicitou uma reunião com Fachin para decidir qual tratamento deve ser dado ao material. Entre as possibilidades mencionadas estão a produção de relatório analítico, a separação e encaminhamento das referências sem análise policial ou a exclusão de informações consideradas sem relevância para a investigação. Até a publicação da reportagem, o gabinete do presidente do STF não havia agendado o encontro.
O impasse ocorre em meio a uma discussão institucional mais ampla no Supremo sobre a forma de tratamento das informações extraídas do telefone de Vorcaro e sobre procedimentos envolvendo autoridades com prerrogativa de foro.
STF já discute critérios para tratar magistrados citados
O caso não começa com a notícia desta sexta-feira. Em setembro, o Plenário do STF iniciou uma discussão sobre a tramitação conjunta das Petições 16.662 e 16.704, ambas relacionadas a desdobramentos do caso Banco Master e a informações produzidas pela Polícia Federal.
Na sessão de 15 de setembro, o ministro Gilmar Mendes apresentou uma questão de ordem propondo, entre outras medidas, a reunião dos dois processos, sua posterior redistribuição e a certificação dos magistrados mencionados no material do Banco Master sobre os quais existissem indícios de recebimento de valores indevidos. Depois dessa certificação, a proposta previa manifestação da Procuradoria-Geral da República e dos magistrados envolvidos.
Esse detalhe estabelece uma distinção essencial. A discussão submetida ao Plenário não tratava toda menção a um ministro como indício de crime. A proposta estabelecia um filtro adicional: deveriam ser identificados os magistrados citados sobre os quais houvesse elementos relacionados a possível recebimento indevido de valores.
O julgamento não foi concluído. Flávio Dino pediu vista, suspendendo a análise da questão de ordem. O andamento oficial da Petição 16.662 continuava registrando o processo sob vista de Dino após a sessão de 15 de setembro.
Isso significa que o Supremo ainda não fixou definitivamente o procedimento sugerido para todos os desdobramentos desse material.
Caso chegou à Presidência do STF em setembro
Fachin passou a ocupar posição central na administração dos processos relacionados ao Banco Master depois de uma série de conflitos envolvendo a condução das investigações.
Em 3 de setembro, o presidente do Supremo abriu a Petição 16.704 para examinar alegações de irregularidades na condução de investigações da Polícia Federal envolvendo autoridades com foro no STF. Na ocasião, Fachin determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, prestassem esclarecimentos.
Dias depois, a Presidência tomou novas providências e reuniu documentos relacionados ao caso na Petição 16.704. Em 12 de setembro, Fachin determinou ainda o envio à Presidência dos processos relacionados à Petição 15.556, vinculada ao caso Master, e assumiu a relatoria da Petição 16.662 após o encaminhamento realizado por André Mendonça.
A formulação de que Fachin “avocou” todo o caso Master, portanto, precisa ser usada com precisão. O que os registros oficiais mostram é uma série de decisões pelas quais processos específicos relacionados às investigações foram encaminhados à Presidência do Supremo e passaram a ser tratados sob sua condução institucional.
PF mantém material original sob cadeia de custódia
Outro elemento já confirmado oficialmente é a situação da extração do telefone de Vorcaro.
Em 13 de setembro, a Polícia Federal informou ao STF que os dados originais extraídos do aparelho permaneciam integralmente nas dependências da corporação, submetidos a cadeia de custódia formalmente documentada, com lacres e mecanismos de verificação da integridade digital.
A PF também esclareceu que uma cópia encaminhada ao gabinete de André Mendonça em março não correspondia ao material original. Segundo a instituição, o envio ocorreu após solicitação do próprio gabinete e o conteúdo original nunca deixou a custódia policial.
No dia seguinte, 14 de setembro, a PF anunciou ter entregue cópias idênticas da extração aos gabinetes de Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, atendendo a solicitações recebidas pela instituição. Novamente, a corporação informou que o original continuava preservado em suas dependências.
A cadeia de custódia é relevante porque permite verificar se o material submetido posteriormente à análise corresponde ao conteúdo extraído originalmente do aparelho e se houve alteração durante o processo de armazenamento e reprodução.
Relatório anterior já tratou de menções a Moraes
Uma parte do conteúdo do celular de Vorcaro já havia produzido repercussões processuais antes da notícia sobre os cinco ministros.
O próprio STF informa que a Petição 16.662 se originou de um relatório elaborado pela Polícia Federal com base em dados extraídos do telefone do ex-controlador do Banco Master. Esse documento apontou supostos diálogos que teriam relação com Alexandre de Moraes.
O mérito dessas informações não foi decidido pelo Supremo na sessão de 15 de setembro. O julgamento foi interrompido justamente durante a discussão processual sobre como as Petições 16.662 e 16.704 deveriam tramitar e quais critérios seriam utilizados para tratar as referências a magistrados.
Portanto, a existência de relatório anterior sobre determinado conjunto de mensagens não significa que o STF já tenha reconhecido irregularidade praticada por Moraes ou por qualquer outro ministro mencionado no material.
Lista de cinco ministros ainda carece de detalhamento oficial
A reportagem desta sexta-feira acrescenta ao caso uma informação nova: além de Moraes, a extração conteria referências a Dias Toffoli, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e André Mendonça.
Até agora, entretanto, não foram divulgados oficialmente os trechos em que esses quatro ministros aparecem, quem fez cada referência, em qual contexto ou se as menções envolvem conversas diretas com Vorcaro.
Também não está estabelecido que os cinco ministros mantiveram comunicação com o banqueiro. Um nome pode aparecer em mensagens trocadas entre terceiros, documentos, agenda, arquivos encaminhados ou outros tipos de informação existentes em um telefone.
Essa diferença impede que a expressão “cinco ministros no celular de Vorcaro” seja interpretada automaticamente como evidência de cinco relações pessoais entre os integrantes do STF e o ex-banqueiro.
Da mesma maneira, a expressão “bancada de Vorcaro”, utilizada no subtítulo da coluna que revelou a informação, constitui uma caracterização editorial do veículo, e não uma denominação oficial utilizada pela Polícia Federal ou pelo Supremo.
Fachin precisa definir extensão da análise
A questão que está diante da Presidência do Supremo é também uma questão de competência.
A Polícia Federal pode encontrar em uma extração forense grande quantidade de dados sem pertinência criminal. Quando o material envolve autoridades detentoras de prerrogativa de foro, a decisão sobre aprofundar determinadas informações pode exigir supervisão judicial específica.
É nesse contexto que ganha importância a definição sobre produzir ou não um relatório.
Produzir um relatório significaria analisar determinado conjunto de dados, contextualizá-lo e identificar possíveis relações com os fatos investigados. Separar as menções sem análise teria alcance menor: a PF apenas preservaria e encaminharia os conteúdos para que a autoridade judicial decidisse posteriormente se há fundamento para aprofundamento.
Uma terceira possibilidade seria considerar algumas referências sem pertinência investigativa e impedir que produzam novos desdobramentos.
A reportagem afirma que a PF procura justamente uma orientação de Fachin sobre esse limite.
Plenário ainda não solucionou conflito processual
A indefinição se torna ainda mais relevante porque o Supremo iniciou, mas não terminou, a construção de uma regra para esses casos.
Na questão de ordem apresentada em setembro, Gilmar Mendes propôs a tramitação conjunta das Pets 16.662 e 16.704 e a redistribuição posterior dos processos. Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin acompanharam essa posição.
Fachin e André Mendonça votaram contra a questão de ordem. Luiz Fux e Cármen Lúcia anteciparam votos acompanhando Fachin. Kassio Nunes Marques foi declarado impedido naquele julgamento e Dias Toffoli declarou suspeição. Antes da conclusão, Dino pediu vista.
O resultado, portanto, permanece em aberto.
Essa situação ajuda a explicar por que novas informações extraídas do aparelho de Vorcaro podem exigir decisões adicionais sobre quem deve analisá-las e qual procedimento deve ser utilizado.
Menção e indício são categorias diferentes
Do ponto de vista jornalístico, o principal cuidado com o novo episódio está em não misturar três níveis diferentes de informação.
O primeiro é a menção: o nome de determinada pessoa aparece no conteúdo de um aparelho.
O segundo é a existência de informações relevantes para uma investigação, o que exige contexto e alguma relação possível com o objeto investigado.
O terceiro é a existência de indícios de irregularidade, estágio em que os elementos podem justificar diligências adicionais, manifestações da Procuradoria-Geral da República ou outras providências.
A reportagem desta sexta-feira confirma, com base em sua apuração, o primeiro nível em relação aos cinco ministros. Não apresenta o conteúdo necessário para afirmar que todos se encontram no segundo ou terceiro.
O próprio debate iniciado no STF reforça essa diferença ao propor tratamento específico apenas para magistrados sobre os quais recaiam indícios de recebimento de valores indevidos, e não simplesmente para qualquer pessoa mencionada nos arquivos.
Próxima decisão pode definir destino do material
A expectativa da Polícia Federal, segundo a reportagem, é que Fachin esclareça qual procedimento deve ser seguido antes que os policiais avancem sobre as referências aos ministros.
Até que isso ocorra, não há informação pública de que a PF tenha produzido um relatório específico sobre os cinco nomes.
Também não há anúncio de abertura de investigação contra Dias Toffoli, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques ou André Mendonça em razão exclusivamente dessas menções.
A situação de Alexandre de Moraes possui histórico processual diferente porque informações relacionadas a ele já deram origem a relatório policial e estão entre os temas discutidos nas Petições 16.662 e 16.704. Mesmo nesse caso, o Supremo ainda não julgou o mérito do material.
Assim, o dado novo é institucionalmente relevante, mas seu alcance permanece limitado: a Polícia Federal dispõe de uma extração do celular de Vorcaro que, segundo a apuração publicada, contém referências a cinco ministros e aguarda orientação sobre como tratar essas informações.
O conteúdo, a relevância e as eventuais consequências jurídicas dessas menções ainda dependem de análise e de decisões que não foram tomadas.
Fontes
Polícia Federal — notas oficiais de 13 e 14 de setembro de 2026 sobre a extração do celular de Daniel Vorcaro, cadeia de custódia e fornecimento de cópias do material.
Supremo Tribunal Federal — Petições 16.662 e 16.704 e decisões relacionadas ao caso Banco Master.
Supremo Tribunal Federal — sessão extraordinária de 15 de setembro de 2026 e questão de ordem sobre a tramitação das investigações.





