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Raízen (RAIZ4) avalia recuperação extrajudicial com aporte bilionário de R$ 4 bilhões

por Alice Nascimento
04/03/2026 às 23h58
em Negócios
Credores Resistem À Divisão Da Raízen, Dizem Fontes

Raízen (RAIZ4) avalia recuperação extrajudicial e aporte bilionário para enfrentar crise financeira

A Raízen (RAIZ4), joint venture entre Shell e Cosan, entrou em um momento crítico de sua trajetória financeira e estuda medidas excepcionais para evitar a deterioração de seu negócio. A companhia anunciou nesta quarta-feira, 4, que avalia a possibilidade de pedido de recuperação extrajudicial, uma estratégia que, se aprovada, permitiria reestruturar dívidas e receber aportes de até R$ 4 bilhões de seus acionistas controladores.

O cenário atual da Raízen reflete o aumento expressivo do endividamento nos últimos anos. A dívida bruta da empresa alcançou R$ 70 bilhões, sendo R$ 55,3 bilhões em dívida líquida, representando uma alavancagem de 5,3 vezes sobre o Ebitda. O custo financeiro para manter esse passivo já supera R$ 7 bilhões por ano, exigindo atenção imediata de Shell, Cosan e parceiros financeiros.

Leia também: Queda de ações Ambipar: papéis AMBP3 despencam 38% em meio à crise financeira

Leia também: Raizen (RAIZ4): Shell mantém aporte de R$ 3,5 bilhões e prevê acordo com credores até junho.


Aportes e estratégias em discussão

O plano em análise inclui um aporte significativo de R$ 3,5 bilhões proveniente da Shell e R$ 500 milhões da Aguassanta Investimentos, ligada à família de Rubens Ometto, controladora da Cosan. Além disso, a Raízen discute a conversão de parte da dívida em participação acionária e o alongamento do saldo remanescente do passivo.

O objetivo central é manter a operação da Raízen, especialmente a rede de combustíveis e a marca Shell, sem comprometer os parceiros de negócios e fornecedores. A companhia também sinalizou que dará continuidade à venda de ativos classificados como não estratégicos, reforçando a liquidez necessária para atravessar o período de reestruturação.


Impasse entre Shell e Cosan

Apesar das negociações intensas, não houve consenso entre os controladores durante reuniões recentes em Londres. A Shell defende uma solução rápida, com aporte de cerca de R$ 7 bilhões, combinado à renegociação de dívidas, incluindo possíveis haircuts e conversão parcial do passivo em ações da Raízen. Essa abordagem objetiva garantir a sobrevivência do negócio de combustíveis sem alterar significativamente a composição acionária da empresa.

Por outro lado, a Cosan, co-controlada por Rubens Ometto e BTG Pactual, propõe uma divisão mais estrutural: separar a Raízen em duas empresas distintas, isolando a produção e processamento da cana-de-açúcar da operação de distribuição de combustíveis. Nesse modelo, fundos de private equity do BTG aportariam cerca de R$ 5,5 bilhões na empresa de combustíveis, assumindo o controle da operação, com a Shell mantendo participação majoritária na marca e nos postos.


Distinção entre negócios agrícolas e de combustíveis

A proposta da Cosan evidencia a diferença de risco entre os dois segmentos da Raízen. A distribuição de combustíveis apresenta fluxo de caixa mais previsível, enquanto a produção de etanol e açúcar está sujeita às flutuações de commodities e à volatilidade das safras. Separar essas operações permitiria atrair investimentos direcionados, mas exigiria uma redefinição da estrutura de governança da companhia.

No entanto, regras internas do private equity do BTG limitam investimentos diretos em empresas expostas a commodities, o que justifica o foco exclusivo na operação de combustíveis, sem participação na área agrícola e industrial.


Dívida bilionária e custo financeiro

O endividamento da Raízen chegou a níveis alarmantes, com R$ 70 bilhões em dívida bruta e R$ 55,3 bilhões líquidos. O serviço anual desse passivo já consome mais de R$ 7 bilhões, e só nos nove primeiros meses da safra 2025/26, a empresa desembolsou cerca de R$ 4 bilhões com juros e amortizações. Esse cenário reforça a urgência em definir uma estratégia de reestruturação robusta, com participação ativa da Shell, que detém ativos críticos da companhia.


Shell assume protagonismo

Diante do impasse, prevaleceu a avaliação de que caberia à Shell liderar a solução, considerando que a marca Shell e os postos de combustíveis são ativos centrais e de propriedade do grupo anglo-holandês. A decisão é estratégica, pois a sobrevivência do negócio depende do fortalecimento do segmento mais rentável da Raízen, garantindo continuidade operacional e confiança de investidores e mercado.


Contexto da Raízen no setor energético brasileiro

A Raízen (RAIZ4) se consolidou como uma das maiores produtoras de etanol e energia renovável do Brasil, com forte presença no mercado de combustíveis. A empresa atua em toda a cadeia produtiva: da produção de cana-de-açúcar e etanol à distribuição de combustíveis em postos de bandeira Shell, integrando soluções energéticas modernas e sustentáveis.

O plano de reestruturação e aporte bilionário, se implementado, busca não apenas reduzir a pressão financeira imediata, mas também permitir que a Raízen continue como referência no setor energético, mantendo empregos, contratos e projetos de inovação.


Impacto para acionistas e mercado

Caso a recuperação extrajudicial seja formalizada, a operação pode incluir conversão de dívida em participação acionária, afetando a composição acionária de Shell e Cosan. A estratégia visa equilibrar interesses, reduzir risco financeiro e assegurar continuidade operacional sem comprometer parceiros estratégicos.

Investidores acompanham atentamente os desdobramentos, dado que a movimentação da Raízen impacta o setor de energia, combustíveis e mercados de commodities, além de influenciar indicadores de mercado relevantes, como o Ibovespa e o valor das ações RAIZ4.


Próximos passos e expectativas

Nos próximos meses, Shell, Cosan e demais investidores devem definir o formato do aporte, o detalhamento da reestruturação e a estratégia de venda de ativos não estratégicos. A definição de uma solução efetiva será determinante para reduzir a pressão sobre a dívida bilionária, manter a confiança do mercado e garantir a sobrevivência da Raízen em um cenário de volatilidade global.

Especialistas destacam que a empresa enfrenta desafios significativos, mas possui ativos sólidos e posição de destaque no setor, fatores que podem viabilizar a recuperação financeira e reposicionar a Raízen de forma competitiva no mercado de energia e combustíveis.

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