Família de Daniel Vorcaro é vinculada a esquema bilionário de crédito de carbono em terras da União
Novos desdobramentos nas investigações sobre as operações financeiras do Banco Master colocam a família de Daniel Vorcaro no centro de uma complexa teia de estruturação de fundos e ativos ambientais sob suspeita de fraude. Documentos recentes revelam que o pai e a irmã de Daniel Vorcaro figuram como investidores e controladores de um projeto de créditos de carbono avaliado em bilhões de reais, lastreado em terras públicas da Amazônia e com precificação considerada artificial pelo mercado. O caso, que envolve cifras monumentais e engenharia financeira sofisticada, lança novas dúvidas sobre a governança das instituições ligadas ao banqueiro.
O Elo Familiar e a Alliance Participações
A conexão direta entre o clã familiar e o esquema investigado se dá através da empresa Alliance Participações. Trata-se de uma sociedade anônima de capital fechado controlada por Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel. Henrique é pai de Daniel Vorcaro, enquanto Natália é sua irmã e esposa de Fabiano Zettel, executivo que também foi alvo de operações recentes da Polícia Federal.
A participação da família de Daniel Vorcaro neste negócio não é periférica. Segundo apurações detalhadas, a Alliance Participações esteve envolvida na gênese de um plano para explorar créditos de carbono na região de Apuí, no Amazonas. A estrutura montada visava a alavancagem financeira de fundos administrados pela gestora Reag, utilizando ativos ambientais cuja existência física e valor econômico são contestados por auditorias e órgãos de controle. Embora Daniel Vorcaro negue participação direta na gestão desses ativos, a presença de seus parentes de primeiro grau no controle da empresa que originou os créditos cria um cenário de alto risco reputacional e jurídico para o controlador do Banco Master.
A Mecânica da Suposta Fraude: Bilhões em “Ar”
O cerne da investigação reside na superavaliação de ativos. O projeto de carbono, que conta com a participação da família de Daniel Vorcaro, serviu de base para inflar o patrimônio de dois fundos geridos pela Reag. A estratégia envolveu a reavaliação contábil de duas empresas investidas pelos fundos: a Global Carbon e a Golden Green. Juntas, essas companhias tiveram seus valores de mercado elevados para mais de R$ 45,5 bilhões.
Essa valorização estratosférica foi fundamentada exclusivamente em unidades de estoque de carbono atribuídas a uma área que, segundo documentos do Incra e da União, é pública e destinada à reforma agrária. Especialistas apontam que a operação possui características de “engenharia de papel”, uma vez que as empresas não realizaram a venda efetiva de um único crédito de carbono no mercado voluntário ou regulado que justificasse tal montante. Para Daniel Vorcaro e o Banco Master, a questão é sensível: investigadores suspeitam que esses ativos inflados foram utilizados para ampliar artificialmente o patrimônio líquido do banco, permitindo que a instituição continuasse captando recursos no mercado de varejo através da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs).
O Contrato de 2022 e a Estrutura do Negócio
A cronologia dos fatos aponta para agosto de 2022 como o marco inicial da operação envolvendo a família de Daniel Vorcaro. Nessa data, foi firmado um Contrato de Opção de Compra e Venda entre a Alliance Participações, o fazendeiro Marco Antônio de Melo (suposto proprietário da área) e o intermediário José Antônio Ramos Bittencourt.
Pelo acordo estabelecido, a empresa controlada pelo pai e pela irmã de Daniel Vorcaro passaria a deter 80% dos direitos sobre as unidades de carbono da Fazenda Floresta Amazônica. O intermediário ficaria com os 20% restantes. A estruturação do negócio previa que a remuneração dos envolvidos não se daria em dinheiro vivo, mas sim através de participação em cotas de fundos e “tokens” de carbono — ativos digitais lastreados nessas promessas de compensação ambiental.
Em 2023, a operação foi formalizada e as estimativas de estoque de carbono — cerca de 168,8 milhões de unidades — foram convertidas em ativos financeiros dentro dos fundos da Reag. A complexidade dessa transação, que transforma uma expectativa de direito sobre uma terra pública em bilhões de reais em cotas de fundos, é o ponto nevrálgico que conecta os interesses da família de Daniel Vorcaro às investigações sobre fraudes no sistema financeiro nacional.
A Controvérsia da Terra Pública e o Lastro Inexistente
Um dos pilares de um projeto de crédito de carbono legítimo é a regularidade fundiária. No entanto, o projeto ligado à família de Daniel Vorcaro está assentado sobre um terreno pantanoso juridicamente. A área em Apuí é identificada como terra pública da União, o que torna nula qualquer negociação de direitos de exploração econômica por terceiros não autorizados.
Ainda assim, auditorias contratadas pelas partes teriam chancelado os valores informados pelas próprias empresas interessadas, sem a devida due diligence material sobre a titularidade da terra ou a capacidade real de geração de créditos. Isso permitiu que a Golden Green fosse avaliada em R$ 14,5 bilhões e a Global Carbon em R$ 31 bilhões. Esses números, que agora assombram a gestão de Daniel Vorcaro, não refletiam caixa disponível, mas sim um ativo contábil questionável que servia para sustentar a cadeia de crédito do grupo.
A defesa de Daniel Vorcaro e de seus familiares sustenta que as operações seguiram normas de governança e que as estimativas são de responsabilidade das gestoras. Contudo, a materialidade do lastro — a terra e a floresta — pertence ao Estado brasileiro, o que configura, em tese, crime de grilagem digital ou financeira.
O Fluxo Financeiro e a Conexão com o Banco Master
A investigação policial e os processos administrativos no Banco Central buscam desenhar o fluxo do dinheiro. A hipótese principal é que os fundos inflados pelos créditos de carbono da família de Daniel Vorcaro serviram para “tapar buracos” ou alavancar o balanço do Banco Master.
A Global Carbon tem como investidor o fundo New Jade 2, enquanto a Golden Green é investida pelo fundo Jade. Ambos são administrados pela Reag. O fundo New Jade 2, especificamente, aparece no final de uma cadeia de investimentos que se origina no fundo Hans 95. Este último já havia sido apontado pelo Banco Central como um veículo fraudulento utilizado em operações anteriores ligadas ao Banco Master. A recorrência de nomes e estruturas reforça a tese de que Daniel Vorcaro ou pessoas de sua estrita confiança operavam um sistema circular de financiamento.
Se comprovada a fraude, a responsabilidade de Daniel Vorcaro poderá ultrapassar a esfera administrativa. O uso de fundos de investimento para mascarar a insolvência ou inflar o patrimônio de uma instituição bancária atenta contra a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional (SFN). A presença de Henrique e Natália Vorcaro na ponta de origem do ativo tóxico (o crédito de carbono) enfraquece a narrativa de que Daniel Vorcaro era apenas um gestor distante das operações cotidianas.
Riscos de Compliance e Lavagem de Dinheiro
Além das questões contábeis, a Operação Carbono Oculto investiga suspeitas ainda mais graves: a utilização dessa estrutura para lavagem de dinheiro de organizações criminosas, como o PCC. Embora não haja acusação formal de ligação direta de Daniel Vorcaro com o crime organizado, a contaminação dos fundos geridos pela Reag com capitais de origem ilícita coloca todos os partícipes, incluindo a Alliance Participações, sob escrutínio.
Para um banqueiro como Daniel Vorcaro, o risco de imagem é devastador. O mercado financeiro opera com base na fidúcia, e a associação do nome do controlador a projetos sem lastro e investigações de lavagem de dinheiro afugenta investidores institucionais. A insistência de Daniel Vorcaro em afirmar que o Banco Master não participa da gestão ou modelagem técnica dos fundos contrasta com os laços familiares e societários expostos pelos documentos apreendidos.
A Defesa e as Versões Apresentadas
Diante das revelações, as defesas se movimentam. Henrique Moura Vorcaro e Natália Bueno Vorcaro Zettel, pai e irmã de Daniel Vorcaro, manifestaram-se por meio de advogados, alegando que atuam de boa-fé e desconhecem irregularidades. A nota oficial ressalta que a Alliance Participações é uma investidora e não a gestora dos fundos.
Já Daniel Vorcaro adotou uma linha de defesa que busca isolar a figura do banco e de seu controlador das atividades das gestoras e das empresas de carbono. Em comunicado, Daniel Vorcaro afirmou categoricamente que o “Banco Master e seu controlador não participam da gestão, da administração, da precificação ou da modelagem técnica dos fundos mencionados”. A estratégia de Daniel Vorcaro é clara: transferir a responsabilidade pelas avaliações bilionárias para a Reag e para as auditorias que validaram os números.
Entretanto, o intermediário do negócio, José Bittencourt, trouxe uma informação que contradiz a viabilidade do projeto defendido indiretamente pela estrutura de Daniel Vorcaro. Bittencourt afirmou que o projeto foi interrompido na fase pré-inicial devido a questões fundiárias e a um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) junto ao Incra. Se o projeto estava parado e com problemas fundiários, como as empresas ligadas à família de Daniel Vorcaro foram avaliadas em R$ 45,5 bilhões? Essa é a pergunta de bilhões de reais que Daniel Vorcaro e seus associados terão de responder às autoridades.
Impactos no Mercado de Crédito de Carbono
O escândalo envolvendo a família de Daniel Vorcaro tem potencial para desestabilizar o nascente mercado de créditos de carbono no Brasil. O setor, que depende fundamentalmente de credibilidade e certificação rigorosa, vê sua reputação ameaçada por operações especulativas dessa magnitude.
Quando projetos baseados em terras públicas e sem adicionalidade comprovada são usados para inflar balanços financeiros, cria-se um “subprime ambiental. a associação de grandes players financeiros, como o entorno de Daniel Vorcaro, a práticas de greenwashing financeiro pode levar a um endurecimento regulatório por parte da CVM e do Banco Central, prejudicando projetos sérios de conservação.
Investidores ESG (Environmental, Social, and Governance) observam o caso Daniel Vorcaro como um exemplo clássico de falha de governança. A falta de transparência sobre a titularidade das terras e a metodologia de precificação dos ativos da Alliance Participações ferem os princípios básicos do investimento responsável.
O Papel da Reag Investimentos
A Reag Investimentos, gestora dos fundos Jade e New Jade 2, mantém-se em silêncio, declarando que não comentará o assunto. No entanto, sua relação com o Banco Master e com Daniel Vorcaro é um ponto focal da investigação. A gestora foi o veículo que permitiu a transformação de promessas de carbono em ativos financeiros bilionários.
A responsabilidade fiduciária da gestora está em xeque. Ao aceitar ativos de alta complexidade e risco, oriundos de uma empresa controlada por familiares de Daniel Vorcaro, a Reag deveria ter aplicado filtros de compliance rigorosos. A aparente falha nesses controles sugere ou incompetência grave ou conivência com o esquema de alavancagem patrimonial que beneficiaria, em última instância, as operações de crédito do banco de Daniel Vorcaro.
Conclusão: O Futuro de Daniel Vorcaro e do Banco Master
O cerco se fecha em torno das operações financeiras lideradas ou influenciadas por Daniel Vorcaro. A revelação de que seu pai e sua irmã estão na origem dos ativos tóxicos desmonta a tese de desconhecimento ou distanciamento. O envolvimento da família Vorcaro sugere uma ação coordenada, onde diferentes braços — o banco, a gestora parceira e a empresa de participações familiar — atuariam em sintonia para fabricar valor contábil.
As consequências jurídicas para Daniel Vorcaro podem incluir acusações de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e organização criminosa, caso fique comprovado o dolo na estruturação do esquema. Para o Banco Master, o risco é de liquidez e solvência, à medida que os ativos que garantem seus índices de Basileia viram fumaça.
O mercado aguarda os próximos passos da Polícia Federal e do Ministério Público. A sustentabilidade da posição de Daniel Vorcaro à frente da instituição financeira torna-se cada vez mais tênue. O caso serve como um alerta severo sobre os perigos da criatividade financeira desmedida e da falta de segregação entre interesses familiares e corporativos no alto escalão bancário brasileiro. A história de Daniel Vorcaro e os créditos de carbono da Amazônia infelizmente se desenha não como um case de sucesso ambiental, mas como um dos capítulos mais controversos da engenharia financeira nacional recente.
A sociedade exige respostas. O uso de terras públicas para enriquecimento privado, sob a roupagem de sustentabilidade, atinge não apenas o sistema financeiro, mas o patrimônio de todos os brasileiros. Cabe agora às autoridades determinar a extensão exata da responsabilidade de Daniel Vorcaro e de sua família nesse intrincado quebra-cabeça bilionário.






