O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira, 5 de novembro de 2026, sua renúncia ao cargo em meio à crise financeira provocada pelo colapso do Ueno Bank, uma das maiores instituições bancárias digitais do país. A decisão ocorreu depois que o Banco Central paraguaio determinou a intervenção na instituição por problemas graves de solvência e a Câmara dos Deputados reuniu apoio para avançar com um processo de impeachment contra o mandatário. A renúncia, entretanto, ainda não foi efetivada, pois a sessão conjunta do Congresso encarregada de examiná-la terminou sem quórum.
A crise ganhou dimensão nacional após a suspensão das operações do Ueno Bank, que atendia aproximadamente três milhões de clientes. A indisponibilidade temporária dos depósitos comprometeu o acesso de famílias, trabalhadores e aposentados aos recursos mantidos na instituição. O episódio também expôs possíveis irregularidades envolvendo empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo controlador do banco, aplicações de recursos públicos e a atuação dos órgãos responsáveis pela supervisão financeira.
Peña, que assumiu a Presidência em agosto de 2023, manteve participação empresarial no grupo ligado ao Ueno até março de 2025, segundo os antecedentes apresentados por parlamentares paraguaios. A oposição questiona possíveis conflitos de interesses e a nomeação de Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central, em 2023, depois de ele ter dirigido a instituição financeira. O presidente nega ter participado diretamente da administração do banco e afirma que as responsabilidades pelas irregularidades devem ser esclarecidas pelas autoridades competentes.
Banco Central interveio no Ueno após identificar insuficiência de capital
O Banco Central do Paraguai decidiu em 2 de novembro iniciar o procedimento de resolução do Ueno Bank, medida anunciada publicamente no dia seguinte. A decisão foi unânime entre os integrantes de seu diretório e ocorreu após a identificação de um índice de solvência inferior à metade do mínimo exigido pela legislação bancária.
A insuficiência patrimonial foi constatada depois de ajustes realizados nas demonstrações financeiras durante o processo de regularização da instituição. Segundo o Banco Central, as alterações revelaram uma situação incompatível com os requisitos necessários para a continuidade regular das operações.
O índice de solvência mede a capacidade de uma instituição financeira de sustentar os riscos assumidos em suas operações com uma base adequada de capital. Quando esse indicador cai abaixo dos limites regulatórios, aumenta a vulnerabilidade do banco a perdas e dificuldades de financiamento. No caso do Ueno, a deterioração atingiu um nível que levou o regulador a iniciar o procedimento extraordinário previsto na legislação.
A resolução não deve ser confundida automaticamente com a liquidação definitiva. O procedimento permite a adoção de medidas destinadas à preservação dos ativos, à identificação das obrigações e à proteção dos depositantes, incluindo a possibilidade de transferência de operações e pagamentos pelo fundo garantidor.
A Superintendência de Bancos ficou responsável pela designação de interventores para avaliar a situação patrimonial da instituição e conduzir as providências necessárias. O Banco Central sustenta que a medida busca preservar a estabilidade do sistema financeiro e evitar que os problemas de uma instituição comprometam o funcionamento das demais.
Empréstimos a empresas ligadas ao grupo controlador estão sob investigação
A crise financeira também passou a ser investigada pelo Ministério Público paraguaio. Na quarta-feira (4), os promotores apresentaram acusações preliminares contra 27 pessoas vinculadas ao Ueno Bank e a empresas relacionadas, por suspeitas de operações financeiras irregulares realizadas entre 2025 e 2026.
Entre os fatos investigados estão a concessão de empréstimos e limites de crédito a companhias pertencentes ao mesmo grupo econômico, supostamente sem garantias suficientes ou avaliação adequada da capacidade de pagamento. Os investigadores também identificaram indícios de transferências de recursos entre empresas relacionadas e operações que poderiam ter comprometido a situação patrimonial do banco.
De acordo com a documentação do Ministério Público, os saldos pendentes das operações examinadas alcançam aproximadamente US$ 167 milhões e 343,2 bilhões de guaranis. Os valores correspondem às obrigações sob investigação, cuja recuperação pode estar comprometida, e não a uma perda definitiva já reconhecida pelas autoridades.
Uma das operações envolve a transferência de uma carteira de crédito de aproximadamente US$ 74,4 milhões para outra sociedade. A suspeita é de que a operação tenha utilizado, indiretamente, recursos originados da própria instituição bancária, comprometendo a transparência sobre a natureza dos ativos negociados.
As acusações preliminares envolvem possíveis crimes de lesão de confiança, tentativa de estelionato, conduta indevida em situação de crise e descumprimento de obrigações relacionadas à escrituração comercial. O Ministério Público solicitou medidas cautelares pessoais e patrimoniais, incluindo restrições de movimentação de bens e contas bancárias.
A investigação ainda está em andamento. Os elementos apresentados pelos promotores constituem hipóteses acusatórias que deverão ser submetidas à análise judicial, sem representar condenação dos investigados.
Relação de Peña com grupo controlador ampliou crise política
Os questionamentos contra Santiago Peña não se limitam à situação financeira do Ueno Bank. Parlamentares de oposição apontam possíveis conflitos de interesses decorrentes de sua participação anterior no Ueno Holding, ligado ao Grupo Vázquez, controlador da instituição.
Outro ponto envolve a indicação de Carlos Carvallo para presidir o Banco Central do Paraguai em 2023. Carvallo havia dirigido anteriormente a financeira Ueno, circunstância que passou a ser questionada por congressistas diante das irregularidades identificadas na instituição.
A oposição sustenta que o histórico profissional do então presidente do Banco Central poderia comprometer a independência da fiscalização bancária. A nomeação anterior de um executivo de instituição privada para uma função regulatória, entretanto, não comprova, isoladamente, favorecimento ou interferência indevida em decisões administrativas. Essas suspeitas dependem de investigação e de demonstração dos atos eventualmente praticados.
Em 3 de novembro, depois do anúncio da intervenção no Ueno, Peña solicitou a renúncia de Carvallo, que deixou o comando da autoridade monetária. O governo apresentou posteriormente o nome do economista Raúl Vera Bogado para a presidência do Banco Central, indicação sujeita às etapas constitucionais de aprovação.
As acusações políticas também abrangem a concentração de recursos públicos no Ueno Bank. Parlamentares questionam aplicações realizadas pelo Instituto de Previsão Social (IPS), responsável pela administração de fundos de aposentadoria e benefícios, e alegam que determinadas operações poderiam ter ultrapassado os limites legais de exposição financeira.
Essas suspeitas motivaram a abertura de três novas investigações pelo Ministério Público nesta quinta-feira. A decisão foi formalizada pela Resolução nº 4.474 da Fiscalía General del Estado e abrange denúncias relacionadas à supervisão bancária, à aplicação de recursos públicos e à atuação de autoridades e ex-autoridades paraguaias.
Uma das investigações incorpora elementos de denúncia anteriormente apresentada contra Santiago Peña. A abertura dos procedimentos não representa comprovação das acusações nem responsabilização criminal do presidente.
Câmara aprova impeachment por 78 votos após anúncio da renúncia
A pressão sobre Peña aumentou quando 35 deputados apresentaram formalmente pedidos de impeachment contra o presidente e o vice-presidente Pedro Alliana. As propostas foram encaminhadas para análise em sessões extraordinárias convocadas para esta quinta-feira.
Antes da conclusão da votação, Peña anunciou que apresentaria sua renúncia à Presidência, justificando a decisão pela necessidade de preservar a estabilidade política e institucional do Paraguai. A iniciativa, entretanto, não interrompeu o andamento da acusação parlamentar.
A Câmara aprovou por 78 votos favoráveis a abertura do processo de impeachment contra o presidente. A decisão representa a aprovação da acusação pela Casa legislativa, mas ainda não corresponde à destituição definitiva. Pela Constituição paraguaia, cabe ao Senado examinar as acusações e decidir sobre eventual responsabilização política, mediante aprovação por maioria qualificada de dois terços.
A votação relacionada ao vice-presidente teve resultado diferente. O pedido de impeachment contra Pedro Alliana foi rejeitado por 48 votos contrários e 30 favoráveis, impedindo seu prosseguimento ao Senado.
A distinção ganhou importância para a sucessão presidencial. A permanência de Alliana no cargo permite que ele assuma a Presidência caso seja formalmente reconhecida a vacância, conforme os requisitos constitucionais.
O destino da renúncia de Peña, porém, continua pendente. Uma sessão conjunta do Congresso foi convocada para examinar o pedido, mas perdeu quórum depois da saída de parlamentares governistas. Sem deliberação conclusiva, a apresentação da renúncia não produziu automaticamente a transferência definitiva do comando do Executivo.
Aceitação da renúncia pode alterar situação jurídica de Peña
A disputa entre aceitar a renúncia ou dar continuidade ao impeachment também possui consequências institucionais. A Constituição do Paraguai atribui ao Congresso a competência para aceitar ou rejeitar a renúncia do presidente, enquanto estabelece procedimento específico para sua destituição por julgamento político.
A oposição defende que o processo de impeachment prossiga mesmo após a manifestação de Peña. Um dos argumentos apresentados pelos parlamentares é que a destituição pode produzir consequências diferentes da saída voluntária, especialmente em relação às prerrogativas previstas para ex-presidentes.
A Constituição paraguaia estabelece a condição de senador vitalício para ex-presidentes eleitos democraticamente, com as exceções previstas no próprio texto constitucional. Essa condição possui características e prerrogativas específicas, que passaram a integrar o debate parlamentar sobre os possíveis efeitos da renúncia.
A definição sobre a continuidade do julgamento depende das decisões das instâncias legislativas competentes. A aprovação da acusação pela Câmara não significa que Peña já tenha sido destituído, assim como o anúncio da renúncia não equivale à sua aceitação pelo Congresso.
Após o impasse parlamentar, o presidente divulgou nova manifestação afirmando que pretende comparecer ao processo de impeachment e exercer seu direito de defesa. Também declarou disposição para colaborar com as autoridades responsáveis pelas investigações e defendeu que a recuperação dos depósitos bancários não fique condicionada à resolução de sua situação política.
Governo e Banco Central iniciam devolução de recursos aos depositantes
A crise do Ueno Bank também levou o governo e o Congresso a acelerar medidas para permitir a restituição de recursos aos clientes. O Banco Central anunciou o início do pagamento das garantias previstas na legislação, utilizando o Fundo de Garantia de Depósitos.
Pelas regras paraguaias, a cobertura ordinária alcança até 75 salários mínimos por depositante e por instituição financeira. Com o salário mínimo vigente, o limite corresponde a 228,3 milhões de guaranis, abrangendo o conjunto dos depósitos elegíveis mantidos pela mesma pessoa no banco.
O valor funciona como um teto de proteção, e não como uma quantia a ser entregue indistintamente a todos os clientes. O montante efetivamente recebido depende do saldo elegível, das obrigações existentes e dos procedimentos de pagamento estabelecidos pelo regulador.
Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, o Banco Central informou que o primeiro grupo de restituições abrangerá clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis, sem dívidas com o Ueno e que possuam contas habilitadas em outras instituições financeiras do país.
Para os demais clientes, os pagamentos deverão seguir cronogramas específicos, conforme a evolução do processo de resolução. Os recursos que ultrapassarem o limite de garantia dependerão dos mecanismos de recuperação dos ativos e da definição das obrigações da instituição.
A legislação aprovada em caráter emergencial também permite antecipações de recursos para acelerar o atendimento aos depositantes. As medidas procuram reduzir os efeitos da suspensão bancária sobre famílias que dependem de suas contas para despesas cotidianas, salários e benefícios previdenciários.
Crise do Ueno coloca supervisão bancária e sucessão presidencial sob exame
A intervenção no Ueno Bank e a crise política que atingiu Santiago Peña passaram a exigir decisões simultâneas de diferentes instituições paraguaias. O Banco Central deverá continuar a avaliação dos ativos e passivos da instituição financeira, enquanto o Ministério Público investiga as operações suspeitas e a eventual responsabilidade de administradores e autoridades públicas.
No Congresso, a prioridade será resolver a situação da Presidência e definir os próximos atos do impeachment. O processo ocorre antes do encerramento do mandato presidencial iniciado em agosto de 2023, cujo término está previsto para agosto de 2028.
Pelas regras constitucionais, Pedro Alliana é o sucessor previsto caso a Presidência fique definitivamente vaga. A rejeição do pedido de impeachment contra ele preservou essa possibilidade, mas a transferência permanente do cargo depende de uma definição formal sobre a situação de Peña.
A crise bancária também deverá produzir consequências para a fiscalização do sistema financeiro. A investigação sobre empréstimos a empresas relacionadas, a atuação do Banco Central e a concentração de depósitos públicos poderá levar à revisão de procedimentos de supervisão e à adoção de novas medidas regulatórias, desde que determinadas pelas autoridades competentes.
Até esta quinta-feira, a renúncia anunciada por Peña continuava sem aprovação conclusiva do Congresso, enquanto a acusação de impeachment havia avançado na Câmara dos Deputados. A investigação criminal e o processo de recuperação dos depósitos seguem procedimentos próprios, e nenhuma dessas etapas permite antecipar uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade do presidente ou dos demais envolvidos.
Fontes:
Câmara dos Deputados do Paraguai — Comunicados oficiais de 5 de novembro de 2026 sobre a aprovação da acusação de impeachment contra Santiago Peña, por 78 votos, e a rejeição do pedido contra Pedro Alliana.
Banco Central do Paraguai — Resolução de 2 de novembro e comunicado de 3 de novembro de 2026 sobre o início do procedimento de resolução do Ueno Bank e a insuficiência de solvência da instituição.
Ministério Público do Paraguai — Comunicado de 4 de novembro de 2026 sobre a imputação de 27 pessoas e as operações financeiras investigadas, e Resolução FGE nº 4.474, de 5 de novembro, que determinou a abertura de três causas adicionais.
Banco Central do Paraguai — Comunicados de 4 e 5 de novembro de 2026 sobre antecipação e pagamento das garantias aos depositantes do Ueno Bank, além das regras do Fundo de Garantia de Depósitos.
Congresso Nacional do Paraguai — Constituição da República, artigos 202, 225 e 234, referentes à aceitação de renúncias, ao julgamento político e à sucessão presidencial.









