O comprometimento financeiro dos consumidores brasileiros alcançou uma nova dimensão em setembro de 2026. O volume de dívidas em atraso chegou a R$ 597,4 bilhões, enquanto 84,2 milhões de pessoas passaram a integrar os registros de inadimplência da Serasa, correspondentes a 51,1% da população adulta. A deterioração ocorre em um ambiente de juros elevados, no qual a taxa média das novas operações de crédito livre para pessoas físicas atingiu 62,4% ao ano, segundo o Banco Central.
O levantamento da Serasa indica que o contingente de consumidores inadimplentes aumentou em aproximadamente 300 mil pessoas na comparação com agosto, quando 83,9 milhões estavam nessa condição. Na comparação anual, o crescimento chegou a 6%. Desde 2020, a quantidade de brasileiros com pendências financeiras registradas avançou 34,17%.
O estoque de débitos também cresceu na passagem mensal. A elevação de 0,9% representa aproximadamente R$ 5,3 bilhões adicionais em compromissos vencidos, considerando a base de comparação estimada para agosto. A expansão do montante financeiro foi proporcionalmente superior à variação do número de inadimplentes, indicando aumento da exposição média das pendências registradas.
O valor médio devido por consumidor alcançou R$ 7.093,83, equivalente a aproximadamente 4,4 salários mínimos de 2026, fixados em R$ 1.621. A dimensão desse indicador mostra que a inadimplência não está restrita a pequenos compromissos financeiros ou atrasos pontuais. O valor reúne obrigações acumuladas que podem envolver diferentes credores e modalidades de dívida.
Crédito bancário concentra a maior parcela das pendências
A composição dos débitos apresenta uma mudança relevante entre os principais grupos de credores. Bancos e cartões de crédito continuam na primeira posição, respondendo por 27,16% do total das dívidas registradas pela Serasa.
As financeiras passaram a ocupar o segundo lugar, com participação de 20,66%. O segmento ultrapassou as contas de serviços essenciais, que representam 20,32% do total. A diferença entre as duas categorias é de apenas 0,34 ponto percentual.
A aproximação indica que as obrigações financeiras associadas a instituições especializadas em crédito passaram a representar uma parcela maior do conjunto de pendências registradas. Até então, as contas de água, energia elétrica e gás ocupavam tradicionalmente a segunda posição nesse levantamento.
Somadas, as três categorias concentram 68,14% das dívidas. Isso significa que mais de dois terços do passivo registrado estão relacionados a operações bancárias, cartões, financeiras e serviços essenciais.
A distribuição também evidencia a presença de diferentes compromissos no orçamento das famílias. Enquanto atrasos em cartões e empréstimos estão associados ao acesso ao crédito, contas de energia, água e gás representam despesas recorrentes necessárias à manutenção das residências.
A composição, entretanto, não permite concluir isoladamente que o aumento da participação das financeiras tenha provocado o crescimento geral da inadimplência. Os percentuais mostram a distribuição das dívidas, e não a evolução individual de cada modalidade de crédito.
Banco Central identifica custo elevado nas novas operações
Os dados da Serasa encontram paralelo em indicadores do sistema financeiro divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro, referentes a setembro. A autoridade monetária registrou taxa média de juros de 32,4% ao ano nas novas operações de crédito, considerando todas as modalidades.
Nas operações com recursos livres destinadas às pessoas físicas, a taxa chegou a 62,4% ao ano, com aumento de 0,6 ponto percentual no mês e de 3,7 pontos percentuais em 12 meses.
Esse segmento inclui modalidades nas quais as instituições financeiras possuem maior liberdade para estabelecer condições de concessão e preços, diferentemente das linhas de crédito direcionado, submetidas a regras específicas de destinação e utilização dos recursos.
O comportamento dos juros também apareceu nas operações de cartão de crédito rotativo, cuja taxa média aumentou 6,8 pontos percentuais em setembro. A modalidade é particularmente relevante para o consumidor que não consegue quitar integralmente a fatura e passa a financiar o saldo restante.
O custo elevado do financiamento pode ampliar o valor final das obrigações quando o consumidor permanece utilizando crédito para cobrir despesas correntes ou substituir dívidas anteriores. Entretanto, os indicadores disponíveis não permitem atribuir exclusivamente aos juros a evolução dos registros de inadimplência da Serasa.
O estoque de crédito com recursos livres destinado às pessoas físicas alcançou R$ 2,6 trilhões em setembro, com expansão de 10% em 12 meses. O dado mostra a dimensão das operações realizadas fora das linhas direcionadas e ajuda a contextualizar a importância do crédito livre no financiamento das famílias.
Indicadores de inadimplência medem realidades diferentes
A comparação entre os números da Serasa e os dados do Banco Central exige uma distinção metodológica.
Os 51,1% apresentados pela Serasa representam a proporção da população adulta identificada com contas em atraso no levantamento da empresa. Já o indicador de inadimplência do Banco Central mede a parcela das carteiras de crédito do sistema financeiro com pagamentos atrasados nos critérios utilizados pela autoridade monetária.
Nas operações de crédito do sistema financeiro como um todo, a inadimplência das famílias ficou em 6% em setembro, permanecendo estável em relação a agosto. Na comparação anual, entretanto, houve aumento de 1,1 ponto percentual.
Considerando apenas as operações com recursos livres destinadas às pessoas físicas, o indicador chegou a 8,1%, com crescimento de 1,2 ponto percentual em 12 meses.
Os dois levantamentos, portanto, não apresentam resultados contraditórios. A Serasa acompanha consumidores com registros de contas vencidas, enquanto o Banco Central observa o comportamento das operações de crédito dentro das carteiras das instituições financeiras.
Essa diferença é importante para dimensionar corretamente o problema. Uma pessoa pode possuir contas atrasadas registradas na Serasa sem necessariamente estar inadimplente em uma operação bancária considerada no indicador do Banco Central. Da mesma forma, os universos estatísticos não abrangem exatamente os mesmos tipos de credores e obrigações.
O Banco Central também informou que o endividamento das famílias alcançou 50,1% em agosto, com comprometimento de renda de 29% no mesmo período. Embora esses indicadores tenham referência temporal anterior à divulgação dos dados de setembro, ajudam a demonstrar o peso das obrigações financeiras sobre a renda dos consumidores.
Serasa amplia estrutura de renegociação até dezembro
A divulgação do novo recorde coincide com o início da 36ª edição do Feirão Serasa Limpa Nome, em 3 de novembro. A iniciativa reúne mais de 3,3 mil empresas parceiras e disponibiliza mais de 750 milhões de ofertas de negociação.
O volume representa aumento de 14% em relação à edição realizada no mesmo período de 2025. As condições anunciadas incluem descontos de até 99%, parcelamento em até 72 vezes e prestações a partir de R$ 9,90.
A campanha permanece disponível até 6 de dezembro de 2026. Os consumidores podem consultar as propostas pelos canais digitais da Serasa, incluindo site, aplicativo e WhatsApp oficial, além do atendimento presencial nas agências participantes dos Correios.
A quantidade de ofertas disponibilizadas não corresponde ao número de consumidores atendidos nem representa acordos já concluídos. São propostas cadastradas pelas empresas participantes, cuja disponibilidade depende das pendências identificadas para cada CPF.
Também é necessário considerar que o desconto máximo anunciado não se aplica indistintamente a todas as dívidas. As condições variam conforme o credor, o tipo de obrigação, o tempo de atraso e as regras comerciais de cada negociação.
A Serasa funciona como intermediadora entre consumidores e empresas credoras na plataforma Limpa Nome. Os descontos e as condições de pagamento são definidos pelas próprias empresas participantes.
Nas propostas disponíveis, algumas negociações permitem parcelamento prolongado. A possibilidade de dividir o pagamento em até 72 meses amplia as alternativas, mas exige atenção ao valor total do acordo e à capacidade financeira do consumidor de manter os pagamentos até o encerramento do compromisso.
Uma prestação reduzida pode facilitar a entrada em um acordo, mas também prolongar o período de comprometimento da renda. Por isso, a comparação entre o valor original da dívida, o desconto oferecido, o custo final e o calendário de vencimentos é parte importante da decisão.
Resultado das negociações dependerá dos acordos efetivamente pagos
A ampliação do número de empresas participantes e das ofertas disponíveis aumenta o alcance potencial da iniciativa, mas não significa, por si só, redução imediata da inadimplência nacional.
O resultado do Feirão dependerá da quantidade de consumidores que conseguirem concluir acordos e, principalmente, manter os pagamentos dentro das condições estabelecidas.
Existe uma diferença entre obter uma proposta de renegociação, formalizar um acordo e efetivamente regularizar uma obrigação financeira. A disponibilidade de centenas de milhões de ofertas representa a capacidade de negociação da plataforma, enquanto a redução dos registros de inadimplência depende da concretização dessas operações.
O desempenho das renegociações poderá ser acompanhado pelas próximas atualizações do Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa.
Até lá, os dados de setembro oferecem um retrato da dimensão do problema: o país encerrou o mês com 84,2 milhões de consumidores inadimplentes e R$ 597,4 bilhões em dívidas vencidas, em um ambiente no qual o crédito livre para pessoas físicas continua apresentando taxas médias elevadas.
A combinação entre volume de pendências, custo do financiamento e comprometimento de renda mantém a regularização das obrigações financeiras como um dos principais desafios para o orçamento das famílias e para o mercado de crédito brasileiro.
Fontes:
Serasa – Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas, indicadores referentes a setembro de 2026.
Serasa – informações oficiais da 36ª edição do Feirão Limpa Nome, condições de negociação, empresas participantes e período da campanha.
CNN Brasil – reportagem sobre os indicadores de setembro de 2026 e a composição das dívidas divulgadas pela Serasa.
Banco Central do Brasil – Nota para a Imprensa de 29 de outubro de 2026, Estatísticas Monetárias e de Crédito, dados de setembro.
Senado Federal – Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025, que estabelece o salário mínimo de R$ 1.621 a partir de janeiro de 2026.








