STF adia decisão sobre vínculo entre apps e motoristas e reacende debate sobre direitos trabalhistas
O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou em 30 dias o julgamento que definirá se há ou não vínculo entre apps e motoristas, além de entregadores de plataformas digitais. A decisão, anunciada pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, mantém em aberto uma das discussões mais sensíveis da economia digital: a possibilidade de reconhecimento de relação trabalhista entre profissionais e empresas como Uber e Rappi.
A expectativa é que a decisão do STF tenha impacto imediato em aproximadamente 10 mil processos trabalhistas que aguardam definição em instâncias inferiores. O caso também poderá redefinir os rumos do mercado de trabalho no Brasil, em um cenário de expansão expressiva da chamada “gig economy”.
O que está em julgamento no STF
O processo envolve duas ações distintas. A primeira, relatada pelo ministro Alexandre de Moraes, trata de uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (MG), que reconheceu vínculo de emprego de um motofretista com a Rappi, apontando a chamada “subordinação algorítmica”, em que o trabalhador se submete às regras definidas pelo sistema digital.
A segunda ação, sob relatoria do ministro Fachin, discute recurso da Uber contra decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que havia reconhecido vínculo trabalhista de uma motorista da plataforma.
As empresas sustentam que são apenas intermediadoras tecnológicas, e não empregadoras diretas. Do outro lado, sindicatos e associações defendem que os profissionais devem ter direitos garantidos, diante da precarização crescente no setor.
Posição das entidades e manifestações no plenário
Durante dois dias de debates, o STF ouviu 30 exposições de partes envolvidas e de entidades admitidas como interessadas. Entre elas, estiveram presentes a Advocacia-Geral da União (AGU), a Defensoria Pública da União (DPU) e associações de trabalhadores e empresas de tecnologia.
Enquanto entidades representativas dos motoristas e entregadores argumentaram pela necessidade de garantir direitos mínimos, como férias, 13º salário e contribuição previdenciária, representantes das plataformas alertaram que o reconhecimento do vínculo poderia reduzir a oferta de trabalho e impactar negativamente os ganhos dos próprios profissionais.
PGR e governo divergem sobre o tema
A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou parecer contrário ao reconhecimento do vínculo entre apps e motoristas. Segundo o procurador-geral Paulo Gonet, a jurisprudência do STF já é consolidada no sentido de validar formas de contratação alternativas à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
O governo federal, por sua vez, tem defendido que a regulamentação assegure direitos mínimos a esses trabalhadores, sem inviabilizar o modelo de negócios das plataformas digitais. O advogado-geral da União, Jorge Messias, reforçou que não se pode criar uma “casta” de profissionais sem garantias trabalhistas básicas.
Crescimento do trabalho por aplicativos no Brasil
Um relatório recente do Banco Central (BC) revelou que o número de pessoas atuando em aplicativos de transporte e entrega aumentou 170% entre 2015 e 2025, saltando de 770 mil para mais de 2,1 milhões. No mesmo período, a população ocupada no país cresceu apenas 10%.
Segundo o BC, sem as plataformas digitais, a taxa de desemprego poderia ter alcançado 5,5%, acima da atual de 4,3%. Embora tenham contribuído para a queda do desemprego, esses postos são considerados precarizados, com baixa proteção social.
Impactos econômicos e sociais
Pesquisas do Fairwork Brasil e do Ipea indicam que os trabalhadores de aplicativos enfrentam jornadas mais longas e redução da renda média ao longo da última década. Entre 2012 e 2015, motoristas de transporte de passageiros tinham rendimento médio de R$ 3,1 mil, valor que caiu para R$ 2,4 mil em 2022.
Outro ponto crítico é a queda na contribuição previdenciária: em 2015, 47,8% desses profissionais contribuíam regularmente. Em 2022, o percentual caiu para 24,8%. Além disso, a parcela que trabalha mais de 49 horas semanais subiu de 21,8% para 27,3%.
Esses indicadores reforçam o argumento de sindicatos de que a ausência de vínculo agrava a precarização, criando um contingente de trabalhadores sem garantias futuras de aposentadoria ou segurança social.
O futuro do vínculo entre apps e motoristas
A decisão do STF, prevista para ser retomada em cerca de 30 dias, deverá balizar não apenas o destino dos milhares de processos trabalhistas em aberto, mas também a regulamentação futura do setor.
Caso a Corte reconheça o vínculo, plataformas como Uber, Rappi, 99 e iFood terão que adaptar seus modelos de negócios para incluir garantias previstas na CLT. Por outro lado, se prevalecer o entendimento de que não há relação empregatícia, será reforçada a necessidade de criação de uma legislação específica para proteger esses trabalhadores sem comprometer a sustentabilidade do modelo digital.
O que está em jogo para o Brasil
O vínculo entre apps e motoristas é mais do que uma disputa judicial: trata-se de um divisor de águas no mercado de trabalho brasileiro. De um lado, a modernização e flexibilização proporcionada pelas plataformas digitais. Do outro, o risco de perpetuar a precarização em nome da inovação.
Com a expansão da “economia de bicos” e o aumento expressivo do número de profissionais atuando sem proteção trabalhista, a decisão do STF terá papel determinante para definir o equilíbrio entre inovação tecnológica, geração de renda e preservação de direitos sociais.






