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Transferências sintéticas de risco crescem em bancos globais e preocupam reguladores

por Álvaro Lima
17/02/2026 às 14h45
em Economia
Transferências Sintéticas De Risco Crescem Em Bancos Globais E Preocupam Reguladores - Gazeta Mercantil

Reguladores alertam para risco crescente em transferências sintéticas de crédito dos bancos

O mercado financeiro global enfrenta atenção especial de reguladores internacionais diante do crescimento acelerado das transferências sintéticas de risco (SRTs) realizadas por grandes bancos. Instituições europeias como Barclays e Raiffeisen Bank International estão entre as que mais adotam essa estratégia, que permite reduzir exigências de capital ao transferir risco de crédito para investidores externos, segundo relatório divulgado nesta terça-feira (17) pelo Comitê de Basileia para Supervisão Bancária.

As SRTs são operações financeiras sofisticadas, que têm ganhado espaço desde a crise de 2008. A prática, embora ainda considerada moderada em volume total, apresenta sinais de rápida expansão e levanta preocupações sobre estabilidade financeira, interconexão sistêmica e lacunas de transparência.

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Crescimento das SRTs no sistema bancário global

De acordo com o Comitê de Basileia, bancos nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e zona do euro utilizaram transferências sintéticas de risco para movimentar aproximadamente 750 bilhões de euros em carteiras de empréstimos. Esse montante corresponde a cerca de 1,1% dos ativos totais dessas instituições.

Entre 2016 e 2024, o volume anual de novas operações na União Europeia mais que triplicou. O crescimento é atribuído, em parte, às reformas regulatórias implementadas após a crise financeira, que facilitaram o uso dessas transações sofisticadas. Embora o índice ainda seja considerado “moderado”, a expectativa é de que a adoção das SRTs continue em ascensão, acompanhando a evolução das necessidades de gestão de risco e capital dos bancos.

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Como funcionam as transferências sintéticas de risco

As SRTs permitem que os bancos repassem parte de sua exposição de crédito a investidores externos, reduzindo temporariamente a necessidade de capital próprio para cobrir possíveis inadimplências. Na prática, essa técnica transfere o risco econômico sem que haja transferência legal dos ativos, mantendo-os no balanço da instituição.

Essa estrutura cria uma dependência maior em relação a investidores não bancários, tornando o sistema financeiro potencialmente mais vulnerável a oscilações de mercado. Além disso, a oferta de crédito passa a depender da saúde financeira desses investidores externos, levantando questões sobre interconexão e estabilidade sistêmica.

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Riscos e preocupações regulatórias

O relatório do Comitê de Basileia aponta que investidores podem alavancar recursos obtidos de bancos não emissores para financiar SRTs, prática que eleva a complexidade do risco e aumenta a exposição a “round-tripping”, situação na qual o risco permanece dentro do sistema financeiro, apesar de parecer transferido.

“As operações de financiamento de SRT podem levar o investidor a combinar a alavancagem da estrutura das tranches com a alavancagem financeira oferecida por provedores de funding”, alerta o documento. Em 2025, reguladores do Reino Unido já haviam sinalizado que operações de SRT com alto grau de alavancagem estariam sujeitas a análises rigorosas.


Destaque entre bancos europeus

Segundo o relatório, o Barclays lidera a utilização de SRTs para transferir risco de crédito corporativo entre bancos da União Europeia, Reino Unido e Suíça, atingindo cerca de 45% de sua carteira de crédito corporativo. A instituição opera o programa Colonnade, que transfere principalmente risco vinculado a empréstimos corporativos no Reino Unido e nos Estados Unidos, com garantias depositadas previamente pelos investidores para cobrir perdas potenciais.

O Raiffeisen Bank International, da Áustria, destaca-se por utilizar SRTs para reduzir exigências de capital. A instituição conseguiu diminuir sua exigência de capital principal (common equity tier 1) em mais de 1 ponto percentual por meio dessas operações, ampliando a eficiência regulatória de seu balanço.


Crescente interconexão financeira

O crescimento das SRTs aumenta a interdependência entre bancos e instituições não bancárias, exigindo maior coordenação entre supervisores. A complexidade das operações, associada ao uso de alavancagem e estruturas de tranches, reforça a necessidade de monitoramento contínuo para prevenir riscos sistêmicos.

O Comitê de Basileia sugeriu que limites para a proporção de empréstimos cobertos por SRTs ou restrições sobre alívio de capital podem ser formas eficazes de mitigar potenciais vulnerabilidades, sem prejudicar a eficiência das operações financeiras.


Diferenças em relação às securitizações pré-crise

Embora preocupações existam, o Comitê ressalta que as transferências sintéticas de risco atuais parecem estruturadas e geridas com prudência, diferenciando-se dos veículos de securitização que contribuíram para o colapso financeiro de 2008. Enquanto as antigas securitizações agregavam risco e complexidade excessiva, as SRTs atuais são desenhadas para transparência regulatória e gestão controlada de capital.


Impacto sobre a estabilidade do crédito

O uso crescente de SRTs influencia a oferta de crédito ao mercado. Dependência de investidores externos para cobertura de risco pode criar vulnerabilidades em momentos de estresse financeiro. Oscilações nos mercados de capitais podem afetar diretamente a capacidade dos bancos de conceder empréstimos, especialmente em segmentos corporativos de maior risco.

Analistas destacam que o monitoramento contínuo e a padronização de processos são essenciais para garantir que o crescimento das SRTs não comprometa a confiança do sistema financeiro.


Possíveis respostas regulatórias

O Comitê de Basileia propõe monitoramento mais rigoroso e aplicação de limites prudenciais, garantindo que a prática das SRTs não coloque o sistema em risco. A coordenação internacional entre reguladores é apontada como estratégica, considerando que os maiores bancos utilizam operações de SRT em múltiplas jurisdições simultaneamente.

O crescimento dessas operações reforça a necessidade de relatórios detalhados, maior transparência e avaliação contínua de risco sistêmico, equilibrando eficiência financeira e segurança do sistema bancário global.


Perspectivas para os bancos

Bancos que utilizam SRTs, como Barclays e Raiffeisen, ganham flexibilidade regulatória e eficiência de capital, mas enfrentam vigilância mais intensa. A técnica permite ajustes rápidos no balanço, mas requer governança robusta e comunicação clara com investidores e reguladores para evitar crises de confiança.

O desafio dos bancos está em equilibrar os ganhos proporcionados pelas SRTs com a manutenção de reputação e estabilidade de longo prazo, em um cenário global de regulação crescente e mercados voláteis.

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