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Unesp vence prêmio com tecnologia de baixo custo para monitorar piscicultura em tempo real

Aqua-On Plus coleta dados ambientais a distância, foi testado em fazendas aquícolas e deverá avançar para patente e licenciamento.

por Daniel Wicker
23/07/2026 às 14h05
em Agronegócio
Unesp Acquaon - Gazeta Mercantil

Pesquisadores e estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) conquistaram o primeiro lugar na categoria Produção do Prêmio Inovação Aquícola 2026 com o Aqua-On Plus, uma estação inteligente de baixo custo desenvolvida para monitorar, em tempo real, as condições ambientais de sistemas de criação de peixes. A tecnologia, concebida na Incubadora Tecnológica Aquário de Ideias, no câmpus de Registro, foi premiada durante a Aquishow, em Uberlândia, por seu potencial de reduzir riscos, melhorar a gestão das fazendas aquícolas e ampliar o acesso de pequenos e médios produtores à aquicultura de precisão.

O Aqua-On Plus automatiza a coleta e a transmissão remota de informações limnológicas e meteorológicas. Na prática, o equipamento permite acompanhar mudanças na qualidade da água e nas condições climáticas sem depender apenas de medições presenciais ou verificações feitas em intervalos mais longos.

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A proposta é oferecer ao produtor uma base contínua de informações para decisões relacionadas ao manejo, à alimentação dos animais, ao uso de insumos e à prevenção de perdas. Alterações no ambiente de cultivo podem afetar rapidamente o desenvolvimento dos peixes e, quando identificadas tarde, reduzir a capacidade de reação dentro da propriedade.

O reconhecimento obtido na Aquishow também alcançou a própria Incubadora Tecnológica Aquário de Ideias. A estrutura da Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira foi premiada na categoria Academia, destinada a iniciativas desenvolvidas por universidades e instituições de pesquisa.

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Aqua-On Plus transforma dados ambientais em apoio ao produtor

O principal diferencial do Aqua-On Plus está na capacidade de realizar leituras contínuas e transmitir os dados a distância. A tecnologia foi desenhada para acompanhar parâmetros ambientais relevantes para a produção aquícola e organizar essas informações de forma que possam ser utilizadas na rotina de manejo.

Em uma fazenda de piscicultura, mudanças de temperatura, chuvas intensas, variações na água e alterações nas condições do reservatório podem comprometer o equilíbrio do sistema produtivo. Dependendo da intensidade e da duração dessas mudanças, os efeitos podem aparecer no consumo de ração, no crescimento dos animais, na sanidade e nos índices de mortalidade.

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O monitoramento não substitui a assistência técnica nem elimina a necessidade de inspeções no local. A função do Aqua-On Plus é ampliar a frequência das leituras e reduzir o intervalo entre o surgimento de uma alteração e sua identificação pelo produtor.

Com informações atualizadas, a equipe responsável pela criação pode ajustar o manejo antes que o problema alcance uma dimensão maior. Esse ganho de tempo é especialmente importante em sistemas intensivos, nos quais uma falha ambiental pode afetar um grande número de animais em poucas horas.

Segundo o professor Guilherme Wolff Bueno, integrante do projeto, a tecnologia permite acompanhar continuamente parâmetros ambientais e produtivos. Os dados fornecidos em tempo real podem apoiar decisões, reduzir riscos operacionais e aumentar a eficiência dos sistemas de cultivo.

Redução de custos orientou desenvolvimento da estação

O Aqua-On Plus começou a ser desenvolvido em 2022 e passou por sucessivos ajustes para se aproximar das necessidades encontradas nas propriedades. Uma das prioridades da equipe foi reduzir o custo da solução sem comprometer sua capacidade de monitoramento.

A engenheira de pesca e doutoranda Brennda Cheretti, uma das idealizadoras do equipamento, afirma que o acesso à ciência e à tecnologia ainda é caro para parte dos pequenos produtores. Sensores, sistemas de transmissão e plataformas de acompanhamento podem exigir investimentos incompatíveis com a capacidade financeira de operações de menor escala.

A equipe buscou enfrentar essa limitação com uma estrutura modular e replicável. Em vez de desenvolver um sistema único e rígido, os pesquisadores trabalharam em uma solução que possa ser adaptada a diferentes condições de cultivo e necessidades produtivas.

Essa característica poderá permitir configurações distintas conforme o tamanho da propriedade, o ambiente de instalação e os parâmetros que precisam ser acompanhados. A modularidade também tende a facilitar atualizações e substituições de componentes ao longo da vida útil do equipamento.

O preço comercial do Aqua-On Plus ainda não foi definido. A estação continua em desenvolvimento e deverá passar por uma última rodada de testes antes do pedido de patente. Somente após a definição do modelo industrial será possível calcular custos de produção, instalação, manutenção e suporte técnico.

Para pequenos e médios produtores, a viabilidade dependerá da relação entre o investimento exigido e os ganhos obtidos com a redução de perdas, o melhor aproveitamento dos insumos e a maior previsibilidade da produção.

Tecnologia avançou do laboratório para fazendas de piscicultura

Ao longo de quatro anos, o Aqua-On Plus evoluiu do nível 2 para o nível 7 na escala de maturidade tecnológica, conhecida pela sigla TRL. O avanço indica que o projeto deixou a fase inicial de formulação, passou por avaliações em ambiente controlado e chegou aos testes em condições próximas da realidade produtiva.

A primeira simulação em campo ocorreu em um tanque escavado na região do Vale do Ribeira. O protótipo foi instalado para que a equipe pudesse avaliar a realização das leituras, a transmissão dos dados e a resistência da estrutura ao uso contínuo em ambiente aquícola.

Essa etapa permitiu identificar problemas que nem sempre aparecem em laboratório. Equipamentos instalados próximos ou dentro da água ficam expostos à umidade, à chuva, ao calor, às variações de temperatura e ao desgaste provocado pela permanência prolongada no campo.

Depois dos testes no Vale do Ribeira, o Aqua-On Plus foi levado para um reservatório de maior escala no município de Chavantes, no interior de São Paulo. O novo ambiente permitiu observar o funcionamento do equipamento sob condições mais próximas das encontradas em uma operação comercial.

Em Chavantes, a estação foi submetida a mudanças climáticas, precipitações e outros fatores de estresse capazes de interferir tanto nas leituras quanto na integridade do protótipo. O objetivo era verificar se o sistema manteria a estabilidade diante de eventos reais e variações ambientais menos previsíveis.

Os resultados foram considerados positivos pela equipe, mas o Aqua-On Plus ainda deverá passar por novos ajustes. A validação em campo representa uma etapa relevante, embora não signifique que o equipamento esteja pronto para ser produzido e comercializado em grande escala.

Maturidade tecnológica ainda não representa produto pronto

O nível 7 na escala TRL mostra que o Aqua-On Plus já foi demonstrado em ambiente operacional relevante. O estágio, no entanto, ainda exige trabalho de engenharia antes que a solução possa chegar regularmente ao mercado.

Entre o protótipo funcional e o produto comercial existem etapas relacionadas à padronização dos componentes, à estabilidade do sistema, à definição de fornecedores e à capacidade de fabricação em série. Também será necessário estruturar procedimentos de instalação, manutenção e atendimento ao produtor.

Outro ponto decisivo será a comunicação dos dados. Uma estação de monitoramento precisa não apenas coletar informações, mas apresentá-las de forma compreensível e útil para quem toma decisões na propriedade.

Alertas excessivamente técnicos ou difíceis de interpretar podem reduzir o valor prático do sistema. Para alcançar produtores com diferentes níveis de formação e estrutura, o Aqua-On Plus deverá combinar precisão científica com operação simples.

A conectividade representa outro desafio. Parte da produção aquícola está localizada em regiões rurais com acesso limitado à internet ou instabilidade na transmissão de dados. A solução comercial terá de considerar essas restrições para evitar que o equipamento fique dependente de uma infraestrutura inexistente em algumas áreas.

A capacidade de operar em diferentes condições será fundamental para a expansão do projeto. A aquicultura brasileira reúne viveiros escavados, tanques-rede, reservatórios e sistemas com características ambientais distintas, o que exige flexibilidade tecnológica.

Patente deverá anteceder licenciamento para empresas

A próxima etapa planejada pelos pesquisadores é o depósito da patente com apoio da Agência Unesp de Inovação, a AUIN. A proteção da propriedade intelectual deverá ocorrer antes da negociação com startups ou empresas interessadas na produção e na comercialização do Aqua-On Plus.

O professor Érico Tadao Teramoto, coautor do projeto, destaca que o caminho entre a ideia inicial e a chegada de uma inovação ao produtor pode levar vários anos. O processo envolve experimentação, testes, correções e validações sucessivas.

Depois do depósito da patente, a Unesp poderá avaliar modelos de licenciamento. Nesse formato, uma empresa recebe autorização para utilizar a tecnologia e assume responsabilidades relacionadas à fabricação, à distribuição e ao atendimento do mercado.

A transferência para o setor privado pode acelerar a transformação do protótipo em produto, mas dependerá do interesse comercial e da demonstração de viabilidade econômica. Empresas potenciais licenciadas precisarão avaliar o tamanho do mercado, o custo industrial, a demanda dos produtores e a possibilidade de prestar suporte em diferentes regiões.

O Aqua-On Plus também terá de demonstrar que o monitoramento produz resultados financeiros mensuráveis. A adoção será mais provável se o produtor conseguir relacionar o equipamento à redução de mortalidade, à melhoria do uso de ração, à diminuição de deslocamentos ou ao aumento da produtividade.

O prêmio obtido na Aquishow aumenta a exposição do projeto diante de empresas, investidores e agentes da cadeia aquícola. Ainda assim, o reconhecimento técnico não elimina as exigências de escala, confiabilidade e retorno econômico associadas à comercialização.

Aquicultura de precisão avança com expansão da produção

A busca por sistemas de monitoramento acompanha o crescimento e a profissionalização da aquicultura brasileira. À medida que as propriedades aumentam sua escala, o controle das condições ambientais se torna mais importante para reduzir perdas e preservar margens.

Na criação de peixes, a alimentação representa uma parcela relevante dos custos. Alterações ambientais podem reduzir o consumo dos animais e comprometer a conversão da ração em ganho de peso, elevando o custo por quilo produzido.

O monitoramento contínuo pode ajudar a identificar momentos em que o manejo precisa ser ajustado. A utilização mais eficiente dos insumos tem impacto direto sobre a rentabilidade, sobretudo em operações pressionadas por custos de ração, energia, mão de obra e transporte.

O uso de dados também melhora a capacidade de planejamento. Informações acumuladas ao longo do tempo permitem comparar períodos, identificar padrões e avaliar como o sistema reage a mudanças de clima ou manejo.

Essa base histórica pode se tornar um ativo relevante para a gestão. Em vez de depender apenas da observação imediata, o produtor passa a contar com registros capazes de apoiar decisões futuras e orientar investimentos.

A adoção de tecnologias de precisão, contudo, permanece desigual. Grandes operações têm maior capacidade de absorver equipamentos e equipes especializadas, enquanto pequenos produtores enfrentam restrições de crédito, conectividade e assistência técnica.

É nesse segmento que o Aqua-On Plus pretende se diferenciar. Ao priorizar baixo custo e modularidade, o projeto busca ampliar o acesso a ferramentas que normalmente ficam concentradas em sistemas mais capitalizados.

Incubadora aproxima pesquisa acadêmica do mercado

A Incubadora Tecnológica Aquário de Ideias está instalada no câmpus da Unesp em Registro e atua como ambiente de desenvolvimento de projetos científicos e empresariais ligados à aquicultura.

A estrutura reúne estudantes, professores, pesquisadores e parceiros externos em iniciativas voltadas à solução de problemas encontrados no setor produtivo. O Aqua-On Plus é resultado desse modelo de colaboração.

Além da Unesp, o desenvolvimento contou com a participação de pesquisadores e instituições parceiras. O projeto recebeu recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e do governo federal.

O financiamento público permitiu realizar as etapas de pesquisa, construção dos protótipos e testes em campo. A fase comercial, no entanto, deverá exigir novos recursos e a participação de empresas capazes de assumir a fabricação em escala.

A incubadora também exerce papel de formação. Estudantes envolvidos nos projetos acompanham etapas que vão da concepção científica à validação tecnológica, aproximando a atividade acadêmica das demandas empresariais e produtivas.

A premiação na categoria Academia reconheceu a capacidade da Aquário de Ideias de articular pesquisa, inovação e aplicação prática. O resultado reforça a posição do câmpus de Registro como polo de desenvolvimento tecnológico para a aquicultura.

Prêmio acelera caminho do Aqua-On Plus até o mercado

O Aqua-On Plus foi projetado inicialmente para sistemas de criação de peixes, mas os pesquisadores consideram a possibilidade de ampliar seu uso para a produção de camarões e moluscos. A expansão dependerá de adaptações específicas para cada espécie e ambiente.

Os parâmetros relevantes para uma fazenda de peixes não são necessariamente os mesmos exigidos em outras modalidades de aquicultura. Por isso, a modularidade deverá ser testada também como capacidade de adaptação técnica.

Antes dessa ampliação, a prioridade será concluir a validação do sistema atual. A equipe pretende realizar uma nova etapa de testes, corrigir eventuais limitações e preparar a documentação necessária para o depósito da patente.

A futura empresa licenciada terá de transformar a estação experimental em uma solução confiável para uso diário. Esse processo inclui fabricação padronizada, garantia de peças, atualização tecnológica e assistência ao produtor.

O prêmio recebido em Uberlândia funciona como uma vitrine para o projeto e pode facilitar a aproximação com parceiros comerciais. O avanço efetivo, porém, dependerá da capacidade de manter o baixo custo quando o Aqua-On Plus deixar a escala experimental.

Se concluir essa transição, a tecnologia poderá ampliar o acesso à aquicultura de precisão e oferecer a pequenos produtores uma ferramenta para acompanhar riscos que hoje são identificados de forma tardia ou descontínua.

O desafio agora é converter o reconhecimento científico em uma solução economicamente viável, resistente às condições do campo e capaz de gerar resultados mensuráveis dentro das fazendas aquícolas.

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