A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) obteve do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a patente de uma tecnologia que transforma o caule excedente do açaizeiro em painéis colados de alta resistência mecânica. A concessão foi publicada em 16 de junho de 2026 e protege uma solução criada para aproveitar um material que costuma ter baixo valor econômico após o manejo dos açaizais amazônicos.
Batizada de “Painéis de Caule do Açaizeiro (Euterpe sp.)”, a invenção utiliza ripas retiradas da parte mais densa e fibrosa do caule. Depois de processadas, as peças são unidas em camadas que podem ter as fibras dispostas paralelamente ou em orientações diferentes, conforme a resistência e a finalidade pretendidas.
O método permite obter um material com aparência e características funcionais semelhantes às de produtos de madeira, madeira laminada cruzada e bambu colado. Entre as aplicações estudadas estão componentes para a construção civil, móveis, revestimentos e diferentes tipos de objetos.
A invenção foi desenvolvida pelos pesquisadores João Thiago Rodrigues de Sousa e Victor Hugo Pereira Moutinho, vinculados ao Instituto de Biodiversidade e Florestas da Ufopa, e por Bruno Monteiro Balboni, docente da Universidade de São Paulo (USP). A titularidade registrada no INPI pertence à Ufopa e à Agência de Inovação Tecnológica da universidade.
Patente protege tecnologia até maio de 2040
O pedido de patente, registrado sob o número BR 10 2020 008929-3, foi depositado em 5 de maio de 2020 e publicado inicialmente em novembro de 2021. Após o exame técnico, o INPI concedeu a patente de invenção com o código B1.
A proteção não começa a contar a partir da concessão, mas da data do depósito. Dessa forma, o prazo previsto é de 20 anos contados desde 5 de maio de 2020, o que estende a vigência até maio de 2040, desde que sejam cumpridas as condições legais, incluindo o pagamento das anuidades exigidas para a manutenção do direito.
A concessão assegura aos titulares o direito de impedir a exploração não autorizada da tecnologia protegida no território brasileiro. A patente, porém, não significa que o painel já esteja disponível comercialmente ou pronto para uso imediato em obras e produtos fabricados em larga escala.
A proteção industrial reconhece a novidade, a atividade inventiva e a aplicação industrial do método descrito. A chegada ao mercado dependerá de etapas adicionais, como definição do modelo de produção, padronização do material, análise de custos, formação de fornecedores e atendimento às exigências técnicas aplicáveis a cada segmento.
Painel aproveita parte fibrosa descartada no manejo
O painel é formado por ripas obtidas da borda do caule das palmeiras do gênero Euterpe. As peças são coladas longitudinalmente para formar camadas, cuja quantidade e orientação podem variar de acordo com o produto desejado.
A configuração permite trabalhar o caule em formato semelhante ao de tábuas e painéis industriais. Segundo a documentação técnica divulgada pela Agência de Inovação Tecnológica da Ufopa, o processo amplia as possibilidades de aproveitamento do material, até então utilizado principalmente em estado bruto ou deixado nas próprias áreas de produção.
O diferencial está em transformar um resíduo irregular e de difícil utilização em uma matéria-prima com dimensões e características mais adequadas ao processamento industrial. Essa conversão pode abrir espaço para móveis, utensílios, elementos decorativos e componentes construtivos produzidos a partir do caule.
O manejo de açaizais envolve o desbaste de estipes mais altos, finos ou com baixa produção, além do controle da densidade das plantas. Essas intervenções favorecem a entrada de luz, reduzem a competição e podem melhorar a produção de frutos, mas também geram caules que nem sempre encontram destinação econômica.
Ao criar uma utilização para esse material, a tecnologia pode acrescentar uma segunda fonte de receita à atividade. O produtor continuaria comercializando o fruto e teria a possibilidade de fornecer o caule retirado durante o manejo para unidades de processamento ou fabricantes interessados no novo painel.
Essa oportunidade, entretanto, depende da organização de uma cadeia que ainda não está estabelecida. Será necessário definir como o material será coletado, transportado, armazenado e processado sem tornar o custo logístico superior ao valor do produto final.
Tecnologia ainda precisa avançar até a escala industrial
A ficha tecnológica da Ufopa classificou a invenção no nível de maturidade tecnológica TRL 5. Nessa etapa, as funções críticas dos componentes já foram validadas em ambiente relevante, mas o desenvolvimento ainda está abaixo dos níveis associados à demonstração de protótipos completos em ambiente operacional e à produção comercial consolidada.
Na prática, isso significa que os pesquisadores já ultrapassaram as fases iniciais de conceito e testes exclusivamente laboratoriais, mas ainda precisam demonstrar a viabilidade técnica e econômica da solução em condições próximas às de uma operação industrial.
Para aplicações na construção civil, por exemplo, o produto deverá atender aos requisitos correspondentes ao uso pretendido. Fatores como resistência, durabilidade, comportamento em ambientes úmidos, adesivos utilizados, estabilidade dimensional e padronização das peças podem influenciar a possibilidade de adoção.
Na indústria moveleira e na fabricação de objetos, o caminho pode ser mais curto, especialmente em produtos nos quais o aspecto visual e a identidade amazônica do material tenham valor comercial. Mesmo nesses mercados, a disponibilidade regular de matéria-prima e a capacidade de reproduzir painéis com características uniformes serão determinantes.
A Ufopa informou que os próximos estudos estarão concentrados na viabilidade de comercialização e na inserção do produto no mercado. A estratégia inclui aproximar a pesquisa de empresas, instituições e potenciais parceiros capazes de levar o processo para uma escala superior.
Pará concentra 68% da extração nacional de açaí
A possível utilização industrial do caule ganha relevância pela dimensão econômica da cadeia do açaí no Pará. Dados mais recentes da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o país extraiu 247,5 mil toneladas de açaí em 2024.
O Pará respondeu por 168,5 mil toneladas, equivalentes a 68,1% da produção extrativa nacional. O valor gerado no estado alcançou R$ 801,9 milhões, avanço de 23,2% em relação ao ano anterior. Os números não incluem toda a produção proveniente de cultivos agrícolas, mas dimensionam o peso da atividade extrativa na economia regional.
A invenção da Ufopa procura ampliar essa cadeia para além do fruto, criando uma aplicação de maior valor agregado para o material resultante do manejo. A perspectiva está alinhada à bioeconomia amazônica, baseada no desenvolvimento de produtos, processos e serviços que aproveitem recursos regionais sem exigir a abertura de novas áreas.
Os painéis já foram apresentados durante a COP30, realizada em Belém em 2025, e na XVII Feira da Indústria do Pará, em 2026. A participação nesses eventos colocou o projeto em contato com instituições de pesquisa, representantes da indústria e potenciais parceiros para as próximas etapas de desenvolvimento.
Ufopa chega à terceira patente concedida
Com a nova concessão, a Ufopa passa a contabilizar 11 pedidos de patente depositados no INPI, dos quais três já resultaram em cartas-patentes. Uma quarta tecnologia aguarda a conclusão do processo de concessão, segundo a universidade.
O portfólio protegido também inclui um sistema baseado em gordura vegetal de murumuru para liberação prolongada de fármacos na pele e em mucosas e um produto cosmético para colorir os lábios desenvolvido com pigmento extraído das cascas do jambeiro-vermelho.
A etapa decisiva para os painéis de caule do açaizeiro será transformar a propriedade intelectual em uma operação produtiva. A patente garante a proteção jurídica da solução, mas a geração de renda para produtores e a entrada nos mercados de construção e mobiliário dependerão agora da capacidade de converter o protótipo em produto fabricado com escala, regularidade e desempenho comprovado.











