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Durigan vê risco fiscal em renegociação de dívidas rurais e governo avalia veto ou STF

Projeto aprovado pelo Senado prevê crédito especial para produtores rurais e pode ter impacto de até R$ 140 bilhões, segundo a Fazenda.

por Júlia Campos
10/06/2026 às 21h23
em Política
Durigan Vê Risco Fiscal Em Renegociação De Dívidas Rurais E Governo Avalia Veto Ou Stf - Gazeta Mercantil

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quarta-feira (10), em Brasília, que o governo federal avalia vetar ou questionar no Supremo Tribunal Federal (STF) o projeto que cria uma linha especial de crédito para renegociação de dívidas rurais, caso a proposta seja confirmada pela Câmara dos Deputados e enviada à sanção presidencial. O texto foi aprovado pelo Senado Federal mesmo sem acordo com a equipe econômica e é tratado pela Fazenda como uma medida de alto impacto fiscal, com potencial de pressionar a dívida pública em até R$ 140 bilhões, segundo estimativas do ministério.

A aprovação no Senado ampliou a tensão entre governo e Congresso em torno das chamadas pautas de impacto fiscal. O projeto autoriza o uso de recursos do Fundo Social do pré-sal e de fundos regionais para financiar a renegociação de dívidas rurais de produtores atingidos por eventos climáticos extremos ou por impactos econômicos associados a conflitos geopolíticos internacionais.

Como sofreu alterações no Senado, a proposta terá de voltar à Câmara dos Deputados antes de seguir para eventual sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A etapa seguinte será decisiva para o governo, que tenta evitar a consolidação de uma despesa bilionária fora do desenho originalmente negociado com a área econômica.

A tramitação ocorre em meio a um ambiente fiscal sensível, no qual o Ministério da Fazenda busca conter medidas capazes de elevar gastos obrigatórios, reduzir espaço orçamentário ou ampliar a dívida pública. O caso da renegociação de dívidas rurais tornou-se um dos principais focos de atenção da equipe econômica nesta semana.

Fazenda vê risco de impacto bilionário nas contas públicas

A principal preocupação da Fazenda é o tamanho potencial da operação. Segundo o ministério, se todos os produtores aptos aderirem ao refinanciamento, o impacto financeiro na dívida pública poderá chegar a R$ 140 bilhões. O relator da proposta no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), contesta essa estimativa e afirma que o efeito seria de R$ 120 bilhões ao longo de dez anos.

A diferença entre as estimativas está relacionada ao universo de dívidas considerado. A Fazenda trabalha com uma leitura mais ampla do potencial de adesão, enquanto Renan sustenta que o texto alcança apenas dívidas atrasadas do setor rural, e não todo o estoque de obrigações de produtores.

Mesmo na estimativa menor, o valor coloca a renegociação de dívidas rurais entre as propostas de maior impacto fiscal em discussão no Congresso. Para a equipe econômica, a medida pode elevar a necessidade de financiamento do governo e pressionar indicadores acompanhados por investidores, como dívida bruta, resultado primário e percepção de risco fiscal.

A avaliação dentro do governo é que uma operação dessa magnitude, ainda que apresentada como resposta a perdas climáticas e dificuldades do setor agropecuário, precisa ter limites claros, fonte de recursos definida e compatibilidade com o arcabouço fiscal. Sem esses elementos, o projeto pode se transformar em novo foco de incerteza para o mercado.

A preocupação fiscal ganha peso porque o setor público já opera sob forte vigilância dos investidores. Qualquer expansão de gastos ou subsídios sem compensação tende a afetar a curva de juros, a percepção de risco soberano e as expectativas para a condução da política econômica.

Senado aprovou texto mesmo sem acordo com o governo

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), incluiu a renegociação de dívidas rurais na pauta do plenário mesmo sem apoio formal do governo ao parecer apresentado por Renan Calheiros. Antes da votação, Durigan se reuniu com Alcolumbre em uma tentativa de conter o avanço de propostas com impacto relevante sobre as contas públicas.

A articulação não foi suficiente para barrar a votação. Alcolumbre reconheceu publicamente que não havia acordo com o governo, mas afirmou que havia compromisso com senadores e deputados para deliberar sobre o relatório.

A movimentação expôs a dificuldade da equipe econômica em controlar a pauta legislativa em um Congresso pressionado por bancadas setoriais e demandas regionais. No caso da renegociação de dívidas rurais, a proposta reúne apoio de parlamentares ligados ao agronegócio e de representantes de estados afetados por secas, enchentes e perdas de safra.

A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura no governo Jair Bolsonaro (PL), participou das negociações sobre o texto e esteve reunida com Durigan e Renan antes da votação. A presença da ex-ministra reforçou o peso político da bancada ruralista na construção da proposta.

Para o governo, o problema não está apenas na finalidade da medida, mas no desenho financeiro aprovado pelo Senado. A Fazenda considera que a proposta, no formato atual, não tem respaldo suficiente para ser incorporada ao planejamento fiscal sem gerar riscos adicionais.

Projeto usa Fundo Social e prevê juros subsidiados

O texto aprovado no Senado autoriza a utilização de recursos do Fundo Social, criado com receitas do petróleo do pré-sal, para bancar parte do subsídio da renegociação de dívidas rurais. A proposta também permite o uso de recursos de fundos regionais e setoriais, como o Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO), o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) e o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé).

A linha especial será operada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O financiamento terá limite de R$ 10 milhões por beneficiário individual e de R$ 50 milhões para associações e cooperativas.

As taxas de juros variam conforme o porte do produtor. Agricultores enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e pequenos produtores terão juros de 3,5% ao ano. Produtores do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e demais médios produtores terão taxa de 5,5% ao ano. Para os demais produtores rurais, os juros serão de 7,5% ao ano.

O prazo de pagamento previsto é de dez anos, com três anos de carência. A linha contempla operações de custeio, investimento, comercialização e industrialização, além de Cédulas de Produto Rural (CPR) e dívidas com cerealistas, cooperativas, fornecedores e insumos.

Na prática, a renegociação de dívidas rurais busca alongar passivos de produtores que enfrentaram perda de receita, aumento de custos, quebra de safra ou restrição de liquidez. Para o setor, a medida pode recompor capacidade de pagamento e reduzir inadimplência em cadeias produtivas dependentes de crédito.

Produtores afetados por clima e choques externos são foco da medida

A justificativa central do projeto é atender produtores rurais atingidos por eventos climáticos extremos ou por impactos econômicos decorrentes de conflitos geopolíticos internacionais. Nos últimos anos, regiões produtoras enfrentaram secas prolongadas, enchentes, quebras de safra e forte oscilação nos custos de fertilizantes, combustíveis e insumos importados.

Esses fatores pressionaram a margem de produtores e elevaram a demanda por instrumentos de refinanciamento. A renegociação de dívidas rurais aparece, nesse contexto, como uma tentativa de evitar a deterioração de balanços no campo e preservar a produção agropecuária em áreas afetadas.

O agronegócio tem peso relevante na economia brasileira, tanto na geração de divisas quanto na composição do Produto Interno Bruto (PIB). Por isso, medidas de apoio ao setor costumam mobilizar forte articulação política no Congresso.

Ao mesmo tempo, programas de crédito subsidiado ampliam a discussão sobre prioridades fiscais. Quando o governo direciona recursos públicos para reduzir o custo financeiro de determinado setor, a medida precisa ser comparada a outras demandas do Orçamento, como saúde, educação, infraestrutura, assistência social e investimentos públicos.

Essa tensão explica a reação da Fazenda. A equipe econômica procura evitar que a renegociação de dívidas rurais seja aprovada sem um limite fiscal compatível com o planejamento do governo e sem mecanismos de controle sobre a adesão.

Suspensão de cobranças amplia alcance da proposta

Além das condições financeiras, o projeto prevê a suspensão de cobranças judiciais e administrativas das dívidas abrangidas durante o período de contratação do financiamento. A medida também assegura ao produtor o direito de pedir revisão do cálculo dos encargos sem sofrer restrições em cadastros de crédito.

Esse ponto é relevante porque pode alterar a dinâmica de recuperação de crédito em bancos, cooperativas, fornecedores e demais credores ligados ao setor rural. Ao suspender cobranças enquanto a contratação da linha especial estiver em curso, o texto oferece alívio temporário aos devedores, mas também pode postergar recebimentos de instituições e empresas expostas ao crédito agropecuário.

Para produtores em situação de estresse financeiro, a regra pode abrir uma janela para reorganização de passivos. Para credores, o impacto dependerá do volume de operações enquadradas, da velocidade de contratação e das garantias associadas à nova linha.

A renegociação de dívidas rurais também poderá ter reflexos no mercado de crédito privado do agronegócio, especialmente em instrumentos como CPRs, financiamentos com fornecedores e operações estruturadas junto a cooperativas. A percepção de que o governo pode intervir em passivos do setor tende a ser acompanhada com atenção por bancos e investidores.

O texto determina ainda que o Poder Executivo apresente ao Congresso, até 180 dias após o prazo final de contratação, um relatório com os valores e operações efetivamente contratados. A exigência busca dar transparência ao alcance da medida, embora não elimine as dúvidas sobre o impacto fiscal antes da adesão efetiva.

Governo estuda veto e judicialização se Câmara mantiver texto

A fala de Dario Durigan indica que o governo trabalha com duas possibilidades caso a Câmara dos Deputados mantenha o texto aprovado pelo Senado: veto presidencial ou questionamento no STF. A avaliação jurídica e fiscal dependerá da versão final aprovada pelo Congresso.

O veto seria uma decisão política do presidente Lula, recomendada pela equipe econômica caso o governo conclua que a proposta compromete o equilíbrio fiscal ou cria despesa sem tratamento adequado. Já uma ação no STF poderia ocorrer se o Executivo entender que há vícios constitucionais, como afronta a regras orçamentárias ou interferência indevida na gestão de fundos públicos.

A eventual judicialização elevaria o grau de tensão institucional em torno da renegociação de dívidas rurais. Projetos de grande impacto fiscal costumam gerar disputa entre Executivo e Legislativo, especialmente quando envolvem subsídios, renúncias, despesas obrigatórias ou uso de fundos vinculados.

Do ponto de vista político, a decisão da Câmara será observada como teste de força entre a equipe econômica e a base parlamentar ligada ao agronegócio. A proposta já chega à Casa com apoio relevante no Senado, mas também sob resistência formal da Fazenda.

Para investidores, o avanço da renegociação de dívidas rurais sem acordo com o governo pode reforçar a percepção de que a agenda fiscal continua sujeita a pressões setoriais. Esse tipo de leitura afeta a precificação de ativos, sobretudo juros futuros, câmbio e papéis mais sensíveis ao risco fiscal.

Disputa sobre dívidas rurais pressiona relação entre Fazenda e Congresso

A discussão sobre a renegociação de dívidas rurais ocorre em um momento no qual o governo tenta demonstrar compromisso com o controle das contas públicas, mas enfrenta resistência no Congresso a medidas de contenção de despesas e aumento de receitas. O episódio expõe a dificuldade de conciliar demandas setoriais com metas fiscais.

No Senado, o projeto avançou sob o argumento de que produtores afetados por clima extremo e choques externos precisam de uma solução estruturada para evitar inadimplência em cadeia. Na Fazenda, a leitura é que o texto, embora trate de um problema real, pode criar um passivo elevado para a União se não for calibrado.

A próxima etapa na Câmara dos Deputados será determinante para o desfecho. Se os deputados alterarem o texto, a proposta poderá voltar ao Senado. Se mantiverem a versão aprovada, o projeto seguirá para análise do presidente Lula, abrindo espaço para veto total, veto parcial ou sanção.

Até lá, a renegociação de dívidas rurais seguirá no centro da disputa entre alívio ao setor produtivo e preservação fiscal. O resultado terá impacto não apenas para produtores e credores do agronegócio, mas também para a relação entre Executivo e Congresso em torno de projetos com elevado custo para o Tesouro.

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