A Vale (VALE3) registrou lucro líquido atribuível aos acionistas de US$ 1,255 bilhão no terceiro trimestre de 2026, uma queda de 53% em relação aos US$ 2,685 bilhões apurados no mesmo período do ano passado. O balanço, divulgado nesta quinta-feira (29 de outubro), mostra que a mineradora perdeu rentabilidade apesar do crescimento da receita, pressionada pela redução dos preços do minério de ferro, pelo aumento dos custos operacionais e por efeitos contábeis relacionados à Samarco e aos tributos sobre o lucro.
Entre julho e setembro, a receita líquida de vendas alcançou US$ 10,599 bilhões, avanço de 2% na comparação anual. Entretanto, o Ebitda proforma, indicador utilizado pela companhia para acompanhar seu desempenho operacional, caiu 20%, de US$ 4,399 bilhões para US$ 3,508 bilhões. O resultado evidencia que a ampliação do faturamento não foi suficiente para compensar o encarecimento das operações e a menor remuneração obtida com a venda de minério de ferro.
A redução do lucro corresponde a aproximadamente US$ 1,43 bilhão em relação ao terceiro trimestre de 2025. Na comparação com o segundo trimestre deste ano, quando a Vale havia registrado US$ 1,375 bilhão, o recuo foi de 9%. Apesar da deterioração da rentabilidade, a empresa manteve suas projeções de produção para 2026 e informou que continua gerando caixa suficiente para sustentar investimentos e compromissos financeiros.
Preço do minério de ferro cai 10% e reduz margem da Vale
O principal fator operacional por trás da queda dos resultados foi a redução dos preços realizados com a venda de minério de ferro. A Vale recebeu, em média, US$ 85,10 por tonelada de finos no terceiro trimestre, valor 10% inferior tanto ao registrado um ano antes quanto ao observado entre abril e junho de 2026.
O desempenho refletiu preços internacionais menos favoráveis e ajustes temporários associados às condições comerciais de parte das vendas. Como o minério de ferro continua sendo a principal fonte de receitas da companhia, mudanças relativamente pequenas no preço por tonelada podem produzir efeitos expressivos sobre a geração de caixa e as margens operacionais.
A divisão de Soluções de Minério de Ferro apresentou receita líquida de US$ 7,767 bilhões, redução de 8% na comparação anual. Esse segmento respondeu por aproximadamente 73% do faturamento consolidado da mineradora no trimestre, proporção calculada a partir dos números divulgados pela empresa.
O Ebitda ajustado dessa divisão caiu 34%, para US$ 2,633 bilhões. Considerando apenas os finos de minério de ferro, a redução foi ainda mais acentuada: o indicador recuou 39%, de US$ 3,418 bilhões para US$ 2,078 bilhões.
Segundo a demonstração apresentada pela Vale, os menores preços realizados reduziram o Ebitda dos finos de minério de ferro em US$ 705 milhões na comparação anual. O encarecimento do frete representou impacto adicional de US$ 273 milhões, enquanto a valorização do real produziu efeito negativo de US$ 66 milhões. Custos e despesas maiores também contribuíram para a deterioração, parcialmente compensada pelo aumento dos volumes vendidos.
Custos de produção e frete marítimo aumentam pressão sobre o resultado
A queda dos preços ocorreu simultaneamente ao aumento dos custos de produção e transporte. O custo caixa C1 do minério de ferro atingiu US$ 23,10 por tonelada, crescimento de 12% em relação ao terceiro trimestre de 2025.
A companhia atribuiu parte desse aumento ao encarecimento do diesel, à valorização da moeda brasileira durante o período e às condições operacionais de suas minas. A apreciação do real eleva, quando expressas em dólares, determinadas despesas realizadas no Brasil, reduzindo a margem obtida com receitas denominadas na moeda americana.
O custo total all-in de minério de ferro e pelotas, indicador que incorpora despesas adicionais de produção, logística e outros componentes, chegou a US$ 60,40 por tonelada, alta de 21% na comparação anual.
O transporte marítimo também ficou mais caro. O aumento dos preços do combustível utilizado pelos navios, conhecido como bunker, pressionou as despesas de frete em um trimestre marcado por preços mais elevados de petróleo.
Para reduzir essa exposição, a Vale utilizou contratos de proteção relacionados ao petróleo Brent e instrumentos financeiros de frete. De acordo com o relatório, essas estratégias geraram benefício econômico de US$ 97 milhões no trimestre, equivalente a aproximadamente US$ 1,40 por tonelada de minério de ferro transportado.
Considerando esse efeito, o custo all-in ajustado seria de aproximadamente US$ 59 por tonelada. O benefício, contudo, não foi suficiente para neutralizar integralmente a pressão dos combustíveis, do transporte e das demais despesas operacionais.
Samarco e impostos reduzem lucro em centenas de milhões de dólares
Além da deterioração operacional, o lucro líquido da Vale foi afetado por ajustes contábeis e tributários relevantes.
A empresa informou que o resultado de participações em coligadas e empreendimentos controlados em conjunto sofreu impacto negativo associado principalmente a um ajuste de US$ 322 milhões na provisão da Samarco, mineradora da qual a Vale é acionista.
O efeito está relacionado à contabilização das obrigações da empresa e não deve ser confundido com um desembolso de caixa de igual valor realizado durante o trimestre. A distinção é relevante porque alterações em provisões e resultados de equivalência patrimonial podem reduzir o lucro contábil sem representar necessariamente uma saída imediata de recursos.
Outro fator foi o aumento dos tributos sobre o lucro. Segundo a Vale, os resultados tributários foram prejudicados principalmente por um efeito de US$ 276 milhões decorrente de variações cambiais sobre prejuízos fiscais registrados em subsidiárias.
No demonstrativo consolidado, a companhia contabilizou despesa de US$ 259 milhões com tributos sobre o lucro, ante um efeito positivo de US$ 83 milhões no terceiro trimestre de 2025.
Essas pressões foram parcialmente compensadas por ganhos financeiros. A marcação a mercado e a liquidação de instrumentos derivativos produziram melhora de US$ 610 milhões na comparação anual, contribuindo para reduzir o impacto negativo dos custos operacionais, dos tributos e dos ajustes associados às participações societárias.
O lucro líquido proforma, que desconsidera determinados itens não recorrentes, também ficou em US$ 1,255 bilhão, recuo de 54% em relação ao resultado comparável de US$ 2,744 bilhões registrado um ano antes.
Produção de minério cai 6%, mas vendas permanecem estáveis
O balanço também revelou uma redução da produção de minério de ferro. A Vale produziu 88,4 milhões de toneladas no terceiro trimestre, volume 6% inferior ao registrado no mesmo período de 2025.
A principal contribuição para o recuo veio do Sistema Norte, especialmente das operações de Serra Norte, que enfrentaram menor disponibilidade de minério bruto e restrições operacionais em determinadas áreas de lavra.
A companhia informou que a produção em Serra Norte caiu 31% na comparação anual. Parte dessa redução foi compensada pelo desempenho de Serra Sul, que alcançou novo recorde trimestral, e pela contribuição crescente dos projetos Capanema e VGR1.
Apesar da produção menor, as vendas totais de minério de ferro permaneceram praticamente estáveis, com avanço de 0,3 milhão de toneladas em relação ao terceiro trimestre do ano passado. O resultado indica que a companhia conseguiu preservar os embarques mesmo diante das restrições de produção.
A fabricação de pelotas apresentou desempenho mais favorável, alcançando 8,6 milhões de toneladas, crescimento de 7% na comparação anual. O preço realizado desse produto atingiu US$ 134 por tonelada, alta de 2% em relação ao mesmo período de 2025.
A Vale reafirmou sua projeção de produzir entre 335 milhões e 345 milhões de toneladas de minério de ferro em 2026, mas indicou que espera alcançar a parte inferior dessa faixa. Para pelotas, a estimativa permanece entre 30 milhões e 34 milhões de toneladas, com expectativa de desempenho próximo ao ponto médio.
Cobre cresce 66% em resultado operacional e compensa parte das perdas
Enquanto a divisão de minério de ferro enfrentou deterioração das margens, as operações de metais básicos apresentaram crescimento expressivo.
A Vale Base Metals registrou receita líquida de US$ 2,832 bilhões no terceiro trimestre, avanço de 42% em relação ao mesmo período de 2025. O Ebitda ajustado da divisão cresceu 61%, alcançando US$ 1,105 bilhão.
O cobre foi o principal responsável por esse desempenho. O Ebitda ajustado do segmento aumentou 66%, de US$ 614 milhões para US$ 1,021 bilhão, impulsionado principalmente pela elevação dos preços realizados do metal e pelas receitas obtidas com subprodutos.
O preço médio realizado do cobre atingiu US$ 15.314 por tonelada, crescimento de 56% na comparação anual. A valorização ajudou a compensar a redução de 4% nas vendas do metal, afetadas por uma reforma programada do moinho SAG da operação de Sossego.
A produção de cobre ficou em 85,5 mil toneladas, queda de 6% em relação ao terceiro trimestre de 2025. O desempenho foi parcialmente compensado pelos resultados de Salobo, que registrou um recorde de produção para um terceiro trimestre.
No níquel, a produção chegou a 49,7 mil toneladas, crescimento anual de 6%. As vendas aumentaram 16,1%, enquanto o preço médio realizado alcançou US$ 16.898 por tonelada, alta de 9% na mesma comparação.
Entretanto, o Ebitda ajustado do níquel caiu 14%, para US$ 98 milhões, pressionado principalmente pelo aumento dos custos de manutenção, de matérias-primas e de processamento.
A Vale manteve as metas anuais de produção de cobre, entre 360 mil e 380 mil toneladas, e de níquel, entre 185 mil e 200 mil toneladas. Para ambos, a companhia afirmou esperar desempenho na metade superior das respectivas faixas.
Vale gera US$ 2,23 bilhões de caixa livre apesar da queda do lucro
A geração de caixa apresentou desempenho diferente do lucro contábil. O fluxo de caixa livre totalizou US$ 2,230 bilhões no terceiro trimestre, queda de 9% em relação aos US$ 2,453 bilhões registrados um ano antes, mas avanço de 48% sobre o segundo trimestre de 2026.
O fluxo de caixa livre recorrente, que exclui determinados efeitos extraordinários, ficou em US$ 1,373 bilhão, recuo anual de 12%.
A diferença entre o lucro líquido e o caixa gerado reflete a natureza distinta dos indicadores. Enquanto o lucro considera efeitos contábeis, depreciação, provisões e ajustes financeiros, o fluxo de caixa acompanha recursos efetivamente gerados e utilizados nas atividades da companhia, segundo os critérios apresentados no relatório.
A geração recorrente foi sustentada por uma liberação de capital de giro, menores pagamentos de impostos e resultados positivos na liquidação de instrumentos derivativos. Segundo a Vale, essas operações financeiras contribuíram com US$ 249 milhões para o caixa do trimestre.
A dívida líquida expandida encerrou setembro em US$ 16,413 bilhões, redução de aproximadamente US$ 264 milhões em relação aos US$ 16,677 bilhões registrados no fim de junho.
O indicador permanece relevante para a avaliação da capacidade financeira da companhia, sobretudo em um período de preços menos favoráveis para o minério de ferro e maiores necessidades de investimento em infraestrutura e projetos de expansão.
Investimentos ficam em US$ 1,25 bilhão e Vale mantém previsão para 2026
Os investimentos da mineradora totalizaram US$ 1,250 bilhão no terceiro trimestre, praticamente o mesmo valor registrado no período equivalente de 2025.
Desse montante, US$ 1,064 bilhão foi destinado a projetos de manutenção, enquanto US$ 186 milhões financiaram iniciativas de crescimento e expansão operacional.
Os investimentos acumulados de janeiro a setembro alcançaram US$ 3,467 bilhões, praticamente estáveis em relação aos US$ 3,477 bilhões registrados nos primeiros nove meses do ano passado.
A Vale manteve sua projeção de investimentos anuais entre US$ 5,4 bilhões e US$ 5,7 bilhões, embora tenha indicado expectativa de encerrar 2026 próxima ao limite inferior da faixa.
Para atingir exatamente US$ 5,4 bilhões, a companhia precisaria desembolsar aproximadamente US$ 1,933 bilhão no quarto trimestre, considerando os investimentos já realizados até setembro. O valor representa uma aceleração em relação ao ritmo médio registrado nos nove primeiros meses do ano.
Entre os projetos em andamento está a ampliação da capacidade operacional do S11D, no Pará, por meio do Serra Sul +20 e do Britador de Compactos. As iniciativas devem contribuir para ampliar a flexibilidade do processamento e aumentar a eficiência do sistema a partir de 2027.
Na área de cobre, a empresa também aprovou o projeto de Flotação de Partículas Grossas de Salobo, que prevê ampliar a capacidade de processamento da planta Salobo III de 12 milhões para 18 milhões de toneladas anuais.
A estimativa é acrescentar aproximadamente 30 mil toneladas de cobre e 15 mil onças de ouro por ano à produção. Segundo o relatório, o projeto estava com 17% de avanço físico no terceiro trimestre, com início de operação previsto para o primeiro semestre de 2028.
Lucro acumulado da Vale cai 27% nos nove primeiros meses de 2026
A redução dos resultados do terceiro trimestre também afetou o desempenho acumulado da mineradora.
Entre janeiro e setembro, o lucro líquido atribuível aos acionistas atingiu US$ 4,523 bilhões, queda de 27% em comparação com os US$ 6,196 bilhões apurados no mesmo intervalo de 2025.
A receita líquida acumulada, entretanto, cresceu 11%, alcançando US$ 30,355 bilhões. Já o Ebitda ajustado permaneceu praticamente estável, em US$ 10,833 bilhões, enquanto o Ebitda proforma avançou 4%, para US$ 11,469 bilhões.
A comparação mostra que a deterioração do terceiro trimestre foi mais intensa do que a observada no conjunto dos nove primeiros meses do ano. Isso se explica, entre outros fatores, pela combinação de menores preços realizados de minério de ferro e maiores custos no período mais recente.
A margem Ebitda proforma do terceiro trimestre ficou próxima de 33,1%, ante aproximadamente 42,2% um ano antes. O recuo de 9,1 pontos percentuais, calculado a partir da receita líquida e do indicador operacional divulgado pela companhia, mostra a dimensão da perda de rentabilidade apesar do crescimento do faturamento consolidado.
Resultado da Vale será discutido com investidores nesta sexta-feira
A Vale programou para sexta-feira (30), às 11h, no horário de Brasília, uma teleconferência com investidores e analistas para apresentar os resultados do terceiro trimestre de 2026.
A reunião deverá permitir esclarecimentos sobre a evolução dos custos operacionais, a recuperação da produção em Serra Norte, o desempenho dos metais básicos e as expectativas de investimento para o encerramento do exercício.
O presidente da Vale, Gustavo Pimenta, afirmou no comunicado de resultados que a estratégia de frete, os instrumentos de proteção financeira e a flexibilidade do portfólio contribuíram para preservar a geração de caixa. O executivo também destacou o avanço dos projetos em Serra Sul e Salobo como parte dos esforços para ampliar a competitividade da companhia.
Para os próximos meses, a evolução dos preços internacionais do minério de ferro continuará sendo determinante para a rentabilidade do principal negócio da mineradora. A perspectiva de recuperação operacional em determinadas minas também poderá influenciar os volumes produzidos e os custos unitários.
O balanço divulgado nesta quinta-feira mostra uma Vale com crescimento de receita e expansão expressiva dos resultados de cobre, mas ainda pressionada pela combinação de preços menores do minério de ferro, custos de transporte mais elevados e ajustes contábeis que reduziram o lucro líquido em mais da metade na comparação anual.
Fontes:
Vale S.A. — Relatório de Desempenho do Terceiro Trimestre de 2026, divulgado em 29 de outubro, com demonstrações financeiras, resultados consolidados e indicadores operacionais.
Vale S.A. — Divulgação oficial dos resultados financeiros do 3T26, com informações sobre produção, preços realizados, custos, geração de caixa, investimentos e metas operacionais.
Vale S.A. — Demonstrativo de reconciliação do Ebitda proforma e do lucro líquido, incluindo efeitos relacionados à Samarco, tributos e instrumentos derivativos.
Vale S.A. — Relatório de investimentos e projetos de crescimento, com informações sobre Serra Sul +20, S11D e expansão de Salobo.
Vale S.A. — Calendário oficial de divulgação de resultados e teleconferência com investidores referente ao terceiro trimestre de 2026.








