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Vorcaro interferia em notícias e articulava pagamentos a veículos de imprensa, indicam mensagens

Conversas atribuídas ao ex-controlador do Banco Master expõem pedidos de alterações em reportagens, negociações de patrocínio e tentativas de influenciar a cobertura política.

por Carlos Menezes
15/10/2026 às 15h47
em Política
Daniel Vorcaro - Gazeta Mercantil

Imagem feita por inteligência artificial

Mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, revelam negociações de contratos publicitários milionários com empresas de comunicação e pedidos de alterações em reportagens sobre seus negócios e personagens políticos. Entre os valores identificados está um contrato de R$ 20 milhões com o Metrópoles, acompanhado de referências a parcelas de R$ 5 milhões, além de pagamentos anteriores e negociações envolvendo outros veículos. As conversas, extraídas do celular do empresário pela Polícia Federal e divulgadas nesta quinta-feira (15), também mostram solicitações para retirar informações, modificar abordagens e examinar textos antes de sua publicação.

As revelações alcançam Metrópoles, Brazil Journal, IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo (DCM) e CartaCapital. Conforme investigação publicada pelos jornalistas Renata Agostini e Tiago Dantas, do UOL, Vorcaro mantinha contato direto com dirigentes de algumas publicações e utilizava intermediários que possuíam vínculos comerciais ou societários com outras. Em determinados episódios, seus interlocutores responderam que as alterações solicitadas haviam sido realizadas; em outros, as mensagens registram negociações e intenções cuja execução ainda depende de verificação independente.

O material expõe três dimensões distintas do relacionamento entre o banqueiro e empresas de imprensa: contratos comerciais, participações em sociedades ligadas à produção de conteúdo e interferências relatadas em decisões jornalísticas. A coincidência entre negócios financeiros e pedidos editoriais levanta questionamentos sobre a autonomia das redações, mas não permite concluir automaticamente que todos os pagamentos tinham como contrapartida a publicação ou supressão de notícias. A documentação bancária integral e os contratos completos não estão disponíveis nesta apuração, o que impede apresentar um total auditado de recursos transferidos.

Metrópoles: contrato de R$ 20 milhões e reportagens submetidas a Vorcaro

A maior cifra individual divulgada envolve o Metrópoles. Em novembro de 2024, o Banco Master negociou com o portal um contrato publicitário de R$ 20 milhões, segundo mensagens reproduzidas pela investigação. Na ocasião, Ana Matos, então responsável pelo marketing do conglomerado, questionou Vorcaro sobre o custo da contratação e sobre a possibilidade de distribuir a despesa entre diferentes empresas do grupo, incluindo a seguradora Kovr e o banco digital Will Bank.

O ex-banqueiro aprovou a negociação e demonstrou atribuir importância estratégica ao relacionamento comercial. De acordo com os registros divulgados, os R$ 20 milhões foram quitados ao longo de 2025 por meio de parcelas de R$ 5 milhões. A informação, contudo, resulta das conversas examinadas pela investigação jornalística, sem que a Gazeta Mercantil tenha acessado os respectivos extratos bancários, notas fiscais ou comprovantes de liquidação.

A relação financeira com o portal havia começado anteriormente. Em junho de 2024, o Master teria realizado um pagamento de R$ 1 milhão ao Metrópoles, depois de contatos entre Vorcaro, seus assessores e a direção do veículo. No mês seguinte, foi acertado outro pagamento de R$ 900 mil para financiar projetos de educação financeira ligados à Kovr e ao Will Bank. Os registros mencionam operações distintas, mas ainda não permitem estabelecer se todos esses valores integravam obrigações comerciais independentes ou se houve compensações posteriores.

A relevância das cifras aumenta diante das mensagens sobre a produção jornalística. Segundo levantamento divulgado pelo UOL, pelo menos 14 textos foram encaminhados antecipadamente a Vorcaro, dos quais 11 passaram por alterações depois de suas solicitações. Também foram identificados dois conteúdos publicados a pedido do empresário, embora a investigação não atribua uma contrapartida financeira específica a cada reportagem.

Mudanças em notícias sobre Banco Master e Banco Central

Entre os episódios relatados está uma reportagem de abril de 2025 que mencionava uma suposta proposta de compra de ativos do Master por R$ 1. Vorcaro contestou a informação, e Lilian Tahan, dirigente do Metrópoles, respondeu indicando que o trecho havia sido retirado. Em maio, o banqueiro também solicitou a exclusão de uma referência à Hapvida em notícia sobre negociações envolvendo o BTG Pactual, mudança que teria sido atendida.

As intervenções alcançaram assuntos relacionados ao Banco Central. Vorcaro recebeu textos sobre Renato Gomes, diretor da autoridade monetária que participava da análise da tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Em agosto de 2025, sugeriu alterações em reportagens sobre o dirigente, incluindo a retirada de referência à possibilidade de quebra do banco e a introdução de informações sobre divergências internas no órgão regulador.

O conteúdo das mensagens permite distinguir dois tipos de intervenção. Uma fonte pode legitimamente contestar dados incorretos e apresentar esclarecimentos antes de uma publicação. A situação é diferente quando passa a influenciar quais temas merecem destaque, quais personagens devem ser abordados ou quais informações relevantes devem ser omitidas. A determinação de eventuais responsabilidades exige, entretanto, examinar as versões originais das reportagens, as modificações realizadas e suas justificativas editoriais.

PlatôBR: pedidos para retirar notícias e restringir cobertura política

Outro núcleo das conversas envolve Flávio Carneiro, empresário ligado à Foone, companhia participante da estrutura societária do PlatôBR. Carneiro atuava em atividades relacionadas à imagem de Vorcaro e aparece como intermediário entre o banqueiro e empresas de comunicação. Em março de 2025, dois dias depois do anúncio da operação entre Master e BRB, ofereceu ao empresário a possibilidade de examinar previamente reportagens destinadas à publicação.

Uma entrevista com Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, foi encaminhada a Vorcaro antes de sua divulgação. O empresário questionou o destaque dado aos precatórios, ativos associados a direitos de crédito judicial, e solicitou alterações na apresentação do conteúdo. As mensagens mostram que o texto foi modificado e que o banqueiro voltou a reclamar no dia seguinte, quando recebeu nova sinalização de mudança.

A interferência relatada também alcançou personagens políticos. Em agosto de 2025, Vorcaro pediu que o PlatôBR evitasse publicar conteúdos sobre Ciro Nogueira, do PP, e Antônio Rueda, do União Brasil. No mesmo período, solicitou uma cobertura desfavorável a Ricardo Cappelli, então presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e pré-candidato ao governo do Distrito Federal. Carneiro respondeu que procuraria articular a iniciativa, mas a extensão das publicações efetivamente produzidas em consequência desses pedidos não foi comprovada de forma independente.

IstoÉ: pedidos envolvendo Biomm e integrantes do Congresso

Os relacionamentos empresariais de Carneiro também envolviam IstoÉ e IstoÉ Dinheiro, publicações associadas a Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Segundo as mensagens divulgadas, o intermediário participava de investimentos relacionados às revistas e mantinha interlocução com Vorcaro sobre assuntos que poderiam receber cobertura. A natureza dessas conexões exige distinguir investimentos formalizados de influência editorial efetivamente exercida.

Em 2024, Vorcaro solicitou uma capa da IstoÉ Dinheiro sobre a farmacêutica Biomm, empresa na qual havia investido. Também demonstrou interesse em acompanhar previamente reportagens relacionadas a políticos com influência no Congresso Nacional, incluindo Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta. As solicitações revelam a intenção de participar do direcionamento da cobertura, mas não identificam, isoladamente, o pagamento correspondente a cada conteúdo ou a existência de uma obrigação contratual para publicá-lo.

Brazil Journal: participação de 49,86% em empresa de conteúdo

No Brazil Journal, as mensagens revelam contato direto entre Vorcaro e Geraldo Samor, fundador do site. A relação empresarial incluía a BJ Conteúdo, criada em 2023 para atividades de vídeos e eventos. Conforme as informações societárias apresentadas na investigação, a Foone, de Flávio Carneiro, detinha 49,86% dessa companhia, enquanto outra participação relevante permanecia vinculada a Samor.

O percentual representa participação societária em uma empresa específica e não comprova que Vorcaro fosse acionista direto do portal. Para quantificar o investimento, também seria necessário conhecer o capital efetivamente integralizado, eventuais aportes posteriores e a titularidade econômica final das participações. Mensagens de dezembro de 2023 registram discussões sobre a possível entrada de Freixo Júnior nessa estrutura, incluindo alternativas para organizar o investimento por meio de outra sociedade.

No campo editorial, Vorcaro aparece solicitando alterações em textos relacionados ao Master. Em fevereiro de 2024, pediu a retirada de uma expressão sobre o agronegócio, e Samor respondeu que a mudança havia sido realizada. Em outra reportagem, sobre o Will Bank, solicitou a exclusão de uma referência ao Voiter e sua substituição por uma formulação sobre reorganização societária. As conversas também registram o envio antecipado de conteúdo sobre um evento do Master em Londres, que contou com a participação do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

DCM: mensagens citam mensalidade para evitar críticas ao Master

As revelações sobre o Diário do Centro do Mundo apresentam um relacionamento de natureza diferente. Em outubro de 2024, depois da publicação de conteúdo negativo sobre o Banco Master, Vorcaro pediu que Felipe Mourão, responsável por atividades ligadas à sua reputação digital, negociasse um pagamento periódico ao portal. A condição mencionada nas mensagens era evitar novas referências críticas ao empresário e à instituição financeira.

Mourão relatou posteriormente que o acordo havia sido fechado e informou que o DCM estava pago. Também mencionou a possibilidade de publicar mensalmente conteúdo favorável ou desfavorável sobre pessoas determinadas. Em maio de 2025, depois que o portal divulgou um artigo crítico ao Master, Vorcaro solicitou sua retirada imediata, e Mourão respondeu que a publicação havia sido excluída naquele dia.

Apesar dessas declarações, não foi divulgado o valor exato da suposta mensalidade. Os registros disponíveis também não permitem identificar quantos pagamentos teriam ocorrido, quem recebeu os recursos ou durante quanto tempo o acordo teria permanecido em vigor. Assim, não há base documental suficiente para calcular o desembolso total associado ao DCM.

CartaCapital: adiantamento de R$ 300 mil e negociação de sociedade

Na CartaCapital, as mensagens descrevem um relacionamento financeiro anterior aos episódios registrados com outros veículos. Segundo a investigação divulgada nesta quinta-feira, a revista celebrou em 2021 um contrato de patrocínio de cinco anos com o Banco Máxima, posteriormente denominado Banco Master. Em dezembro de 2020, a instituição já teria antecipado R$ 300 mil à publicação.

As conversas atribuídas a Manuela Carta, ligada à direção da revista, incluem pedidos posteriores de recursos para pagamento de despesas operacionais e da folha salarial. Em agosto de 2023, Vorcaro e Manuela também discutiram a possibilidade de participação societária do empresário na publicação. Informações sobre as dívidas da companhia teriam sido encaminhadas ao banqueiro, mas a aquisição não foi concretizada.

Em 2024, novos contatos envolveram pedidos de antecipação de receitas publicitárias e alternativas de apoio financeiro. As mensagens também indicam que uma decisão sobre a divulgação de reportagem teria sido submetida ao empresário. A existência dessas negociações não permite estabelecer quanto a revista efetivamente recebeu durante todo o relacionamento comercial, nem comprova que o patrocínio previsse interferência em decisões editoriais.

Quanto o Banco Master efetivamente pagou aos veículos?

A comparação dos valores divulgados revela a principal limitação financeira da investigação: contratos, pagamentos relatados, compromissos negociados e participações societárias não representam a mesma categoria de informação. Os R$ 20 milhões do Metrópoles correspondem a um contrato identificado nas mensagens, acompanhado de referências à quitação posterior. Os R$ 1 milhão anteriores foram descritos como pagamento realizado, enquanto os R$ 900 mil aparecem como compromisso financeiro acertado. Na CartaCapital, os R$ 300 mil correspondem a um adiantamento relatado.

O percentual de 49,86% atribuído à Foone na BJ Conteúdo não representa uma quantia que possa ser somada aos contratos publicitários. Também não é possível estabelecer um valor para os pagamentos mencionados ao DCM ou calcular quanto teria sido investido nas relações envolvendo IstoÉ e PlatôBR. A ausência de documentos completos impede identificar eventuais sobreposições, pagamentos não concluídos ou transferências realizadas por empresas intermediárias.

A verificação dessas cifras exigiria confrontar contratos assinados, aditivos, notas fiscais, extratos bancários e demonstrações contábeis. Também seria necessário identificar quais pessoas jurídicas contrataram os serviços e quais foram as beneficiárias finais dos pagamentos. Até que esses registros sejam disponibilizados e analisados, seria incorreto apresentar a soma dos valores citados como o total comprovadamente desembolsado por Vorcaro ou pelo Banco Master.

Tentativa de compra pelo BRB e liquidação do Master

Parte das conversas ocorreu durante a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB, anunciada em março de 2025. Documentos oficiais do banco público registram que o negócio envolvia 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais do Master, equivalentes a 58,04% de seu capital total. Em junho daquele ano, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica aprovou a operação sem restrições, mas sua conclusão ainda dependia de outras condições e autorizações regulatórias.

A transação não chegou a ser concluída. Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, apontando grave crise de liquidez, comprometimento significativo de sua situação econômico-financeira e violações às normas do Sistema Financeiro Nacional. A decisão alcançou instituições do conglomerado e determinou a indisponibilidade de bens de controladores e ex-administradores nos termos da legislação aplicável.

A cronologia ajuda a explicar a relevância empresarial da cobertura sobre o Master naquele período. Notícias relacionadas à situação de liquidez, à qualidade dos ativos, aos órgãos reguladores e ao eventual comprador tinham potencial para afetar a percepção pública do banco. Entretanto, a coincidência temporal entre a crise e os contratos de publicidade não comprova, por si, que os pagamentos tenham sido realizados com a finalidade específica de influenciar reportagens.

Independência editorial e identificação de publicidade

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, mantido pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), estabelece que a informação deve atender à veracidade dos fatos e ao interesse público, sem subordinação indevida a interesses particulares. Já o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), determina que anúncios sejam claramente identificados. Seu artigo 30 exige que conteúdos em formato jornalístico veiculados mediante pagamento sejam diferenciados das matérias editoriais.

Essas normas oferecem parâmetros para examinar os episódios descritos nas mensagens, mas sua aplicação exige análise individual. A contratação de publicidade é uma atividade legítima, assim como a consulta a fontes para corrigir informações. O problema surge quando interesses comerciais podem influenciar a decisão de publicar ou suprimir notícias sem transparência para o leitor.

Outro lado e pontos ainda sem resposta

Questionada na investigação sobre o Metrópoles, Lilian Tahan afirmou que a consulta prévia a fontes integra sua prática profissional e negou qualquer condicionamento editorial decorrente do contrato publicitário com o Banco Master. Também destacou a publicação de reportagens críticas às empresas relacionadas a Vorcaro. Na apuração sobre os demais veículos, Flávio Carneiro e Geraldo Samor haviam sido procurados, mas não apresentaram manifestações até a divulgação, enquanto o DCM e a CartaCapital não foram localizados para comentar os episódios.

A Gazeta Mercantil não teve acesso à extração forense integral do telefone de Vorcaro nem aos comprovantes bancários de todas as operações descritas. As revelações sobre mensagens e contratos são atribuídas à investigação jornalística que as tornou públicas, enquanto as informações sobre a operação entre BRB e Master e a liquidação da instituição foram confrontadas com documentos oficiais. Essa separação permite identificar o que está documentalmente confirmado e quais elementos ainda dependem de comprovação independente.

A dimensão completa das relações entre Vorcaro e empresas de comunicação dependerá da identificação dos pagamentos efetivos, dos beneficiários econômicos e das alterações realizadas nas reportagens. As mensagens já expõem pedidos concretos de intervenção editorial e negociações financeiras relevantes, mas permanecem questões sobre a extensão dos vínculos e suas consequências. Mais do que estabelecer quanto dinheiro foi negociado, a apuração busca esclarecer em que circunstâncias interesses empresariais chegaram ao processo de produção das notícias.

Fontes

Banco de Brasília (BRB) — Fato Relevante de 17 de junho de 2025 sobre a aprovação, pelo Cade, da operação de aquisição de participação no Banco Master

Banco Central do Brasil — Comunicado nº 44.234, de 18 de novembro de 2025, sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master

Banco Central do Brasil — Nota oficial de 18 de novembro de 2025 sobre os regimes especiais aplicados às instituições do Conglomerado Master

Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) — Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros

Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) — Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, artigos 28 e 30

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