Ouro perde brilho e prata despenca após dados dos EUA reduzirem apostas de cortes de juros
O mercado internacional de metais preciosos iniciou o ano sob forte pressão. O movimento mais recente reforça uma tendência de cautela dos investidores diante do cenário macroeconômico dos Estados Unidos. O ouro perde brilho e a prata sofre uma queda ainda mais acentuada após a divulgação de dados econômicos americanos que esfriaram as expectativas de cortes iminentes na taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed).
Na Comex, divisão de metais da bolsa de Nova York (Nymex), o ouro com vencimento em fevereiro encerrou a sessão em queda de 0,75%, cotado a US$ 4.462,5 por onça-troy. A prata para março registrou uma desvalorização expressiva de 4,22%, encerrando o dia a US$ 77,61 por onça-troy. Outros metais preciosos também acompanharam o movimento negativo, refletindo a mudança de humor do mercado global.
Reação imediata aos dados da economia americana
Desde a madrugada, os preços dos metais preciosos já operavam no vermelho, mas as perdas se intensificaram após a divulgação de indicadores relevantes da economia dos Estados Unidos. O conjunto de dados consolidou a percepção de que o Fed poderá manter os juros inalterados por mais tempo, frustrando apostas de um ciclo acelerado de afrouxamento monetário.
O setor privado norte-americano criou 41 mil empregos em dezembro, segundo levantamento da ADP com ajuste sazonal. Embora o número indique moderação no ritmo de contratações, ele ficou abaixo das expectativas do mercado. Paralelamente, as encomendas à indústria recuaram 1,3% em novembro, sinalizando desaceleração da atividade manufatureira.
Por outro lado, o Índice de Gerente de Compras (PMI) de serviços, medido pelo ISM, subiu para 54,4 pontos em dezembro, superando as projeções. O dado indica expansão do setor de serviços, que continua sendo um dos principais motores da economia americana. Esse contraste entre indicadores reforçou a leitura de que a economia desacelera de forma gradual, mas sem sinais claros de deterioração abrupta.
Por que o ouro perde brilho em um cenário de juros elevados
O comportamento recente do mercado ajuda a explicar por que o ouro perde brilho mesmo em um ambiente global ainda marcado por incertezas geopolíticas e econômicas. Tradicionalmente, o ouro tende a se beneficiar em cenários de juros baixos, pois não oferece rendimento. Quando as taxas de juros estão elevadas, ativos que pagam juros se tornam mais atrativos, reduzindo a demanda pelo metal precioso.
Com a perspectiva de manutenção dos juros americanos em janeiro e um ritmo mais lento de cortes ao longo de 2026, investidores passaram a reavaliar posições em ouro e prata. O fortalecimento do dólar, frequentemente associado a juros mais altos, também pesa sobre os preços dos metais, tornando-os mais caros para compradores que operam em outras moedas.
Leitura do mercado de trabalho influencia decisões do Fed
Analistas destacam que os dados do mercado de trabalho assumiram um papel ainda mais relevante após declarações recentes do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, pedindo cautela em relação a novos cortes de juros. Segundo especialistas, o banco central norte-americano observa atentamente qualquer sinal de enfraquecimento mais acentuado do emprego antes de alterar sua política monetária.
Para analistas da Stifel, a alta medida pela ADP sustenta a narrativa de uma moderação gradual do mercado de trabalho, mas distante de uma deterioração rápida. Esse cenário reduz a urgência de estímulos monetários adicionais, pressionando ativos sensíveis aos juros, como o ouro.
Na mesma linha, analistas do Charles Schwab avaliam que números mais fracos do mercado de trabalho poderiam levar o Fed a promover mais cortes do que os um ou dois atualmente projetados para este ano. Como isso ainda não se materializou, o ouro perde brilho diante da frustração dessas expectativas.
Prata amplia perdas e reflete maior volatilidade
A prata, que possui forte uso industrial além de seu papel como ativo financeiro, foi ainda mais impactada. A queda superior a 4% reflete não apenas a revisão das expectativas de juros, mas também preocupações com o ritmo da atividade econômica global.
Diferentemente do ouro, a prata tende a apresentar maior volatilidade, pois sua demanda está diretamente ligada a setores como eletrônica, energia solar e manufatura. Com sinais de desaceleração industrial em algumas economias, investidores reduziram exposição ao metal, ampliando as perdas.
Esse movimento reforça a percepção de que, no curto prazo, o ouro perde brilho de forma mais moderada, enquanto a prata sofre ajustes mais intensos diante de um ambiente macroeconômico menos favorável.
Outros metais preciosos acompanham o movimento
Além do ouro e da prata, outros metais preciosos também registraram quedas expressivas. A platina para abril recuou 7,21%, sendo negociada a US$ 2.275,60 por onça-troy. O paládio para março caiu 4,65%, a US$ 1.797,00 por onça-troy.
Esses metais, amplamente utilizados na indústria automotiva e em catalisadores, refletem preocupações adicionais com a demanda global. A combinação de juros elevados, dólar forte e sinais mistos da economia global criou um ambiente desfavorável para o complexo de metais preciosos como um todo.
Compras de ouro pela China não impedem queda
Mesmo com o banco central da China estendendo sua sequência de compras de ouro pelo 14º mês consecutivo em dezembro, o movimento não foi suficiente para sustentar os preços no curto prazo. As aquisições chinesas têm sido vistas como um fator estrutural de suporte ao mercado, mas não compensaram a pressão exercida pelas expectativas de política monetária dos EUA.
O interesse contínuo da China pelo metal reflete uma estratégia de diversificação de reservas e redução da dependência do dólar. Ainda assim, no cenário atual, fatores macroeconômicos de curto prazo se sobrepõem, fazendo com que o ouro perde brilho apesar desse suporte relevante.
Impactos para investidores e estratégias de alocação
Para investidores, o atual cenário exige cautela e análise cuidadosa. O ouro continua sendo considerado uma reserva de valor e um instrumento de proteção contra crises sistêmicas, mas sua performance no curto prazo tende a ser influenciada pela trajetória dos juros americanos.
Com a expectativa de manutenção das taxas em níveis elevados, muitos investidores optam por reduzir exposição a metais preciosos ou buscar estratégias de diversificação. A volatilidade recente reforça a importância de uma visão de longo prazo ao investir em ouro, evitando decisões baseadas apenas em movimentos pontuais do mercado.
Perspectivas para o mercado de metais em 2026
O comportamento futuro dos metais preciosos dependerá, em grande medida, da evolução dos indicadores econômicos dos Estados Unidos e das decisões do Fed. Caso haja sinais mais claros de desaceleração econômica ou enfraquecimento do mercado de trabalho, as apostas em cortes de juros podem ganhar força novamente, criando um ambiente mais favorável para o ouro.
Enquanto isso, o ouro perde brilho em um cenário de juros elevados, mas mantém seu papel estratégico em carteiras diversificadas. Analistas ressaltam que o metal continua sendo um ativo relevante para proteção em momentos de instabilidade geopolítica ou crises financeiras mais amplas.
Um mercado sensível a dados e expectativas
O episódio recente reforça como o mercado de metais preciosos é altamente sensível à divulgação de dados econômicos e às expectativas em torno da política monetária. Pequenas revisões nas projeções de juros podem gerar movimentos expressivos nos preços, especialmente em ativos como a prata.
Para acompanhar esse mercado, investidores precisam estar atentos não apenas aos indicadores econômicos, mas também à comunicação do Fed e de outros bancos centrais. Em um ambiente global interconectado, decisões tomadas em Washington continuam a exercer influência direta sobre o comportamento dos metais negociados em Nova York e em outros centros financeiros.






