Decisão do Copom impulsiona otimismo: Ibovespa mira novos recordes e Juros Futuros projetam queda acentuada
O mercado financeiro brasileiro amanhece nesta quinta-feira (29) sob a influência direta da mais recente decisão do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Em um movimento amplamente aguardado, mas com nuances comunicacionais que surpreenderam positivamente os agentes econômicos, a autoridade monetária manteve a taxa Selic em 15% ao ano. No entanto, o que realmente ditará o ritmo dos negócios na B3 e no mercado de câmbio não é a manutenção da taxa em si, mas a sinalização explícita de que o ciclo de cortes deve começar já em março. A decisão do Copom funciona, neste contexto, como um gatilho para a reprecificação de ativos de risco, consolidando a percepção de que o pico do aperto monetário ficou para trás.
A assimilação da decisão do Copom pelos investidores globais foi imediata e positiva. Ainda na noite de quarta-feira, os recibos de ações brasileiras negociados em Nova York, através do fundo de índice (ETF) EWZ — que replica o desempenho do índice MSCI Brazil —, registraram um salto superior a 1% no after-market. Esse movimento antecipa uma abertura eufórica para o Ibovespa, sugerindo que a decisão do Copom foi interpretada como o sinal verde que faltava para destravar valor na bolsa brasileira.
O Ibovespa Diante da Decisão do Copom
O principal índice acionário da bolsa brasileira, o Ibovespa (IBOV), encerrou o pregão de quarta-feira (28) em alta de 1,52%, atingindo o patamar histórico de 184.691,05 pontos. Este recorde nominal, contudo, pode ser apenas o piso para o movimento desta quinta-feira. Na avaliação de analistas de mercado, a decisão do Copom traz clareza ao horizonte de investimentos, reduzindo a incerteza que pairava sobre o timing do afrouxamento monetário.
Luciano Costa, economista-chefe da Monte Bravo, avalia que o mercado deve presenciar um dia de novos recordes. Segundo ele, embora a manutenção dos juros em 15% fosse a grande expectativa consensual, um comunicado tão claro e diretivo sobre o próximo movimento — o corte em março — ainda não estava completamente precificado. A decisão do Copom removeu o risco de cauda de uma manutenção prolongada sem data para acabar, permitindo que os gestores de portfólio aumentem sua exposição a ações locais.
A projeção de longo prazo também ganha contornos otimistas. Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos, projeta que o Ibovespa deve seguir em ritmo de alta sustentada, com potencial para encerrar o ano de 2026 no nível de 200 mil pontos. Essa trajetória de valorização está intrinsecamente ligada à decisão do Copom de iniciar a flexibilização, o que historicamente beneficia setores cíclicos e sensíveis a juros, como varejo, construção civil e consumo.
A Reação da Curva de Juros (DIs)
Se na bolsa o impacto é de euforia, no mercado de renda fixa a decisão do Copom provoca um ajuste técnico severo, conhecido como fechamento da curva. As taxas de Depósitos Interfinanceiros (DIs), que servem de referência para o crédito e para os títulos públicos, já vinham antecipando o movimento do Banco Central.
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, destaca que os DIs reagiram antes mesmo da publicação oficial da ata. A precificação de um corte de 0,50 ponto percentual da Selic em março já ganhava força na sessão de quarta-feira. Com a confirmação vinda da decisão do Copom, a tendência é que os juros futuros mais curtos e intermediários sofram uma pressão vendedora ainda maior, resultando em queda das taxas.
Os dados de fechamento da véspera ilustram essa tendência. A taxa do DI para janeiro de 2027 encerrou a 13,515%, ante 13,576% do dia anterior, marcando a sexta sessão consecutiva de recuo. Nos vértices mais longos, o movimento foi similar: o DI para janeiro de 2028 caiu para 12,78%, e o contrato para janeiro de 2029 fechou a 12,785%. No acumulado das últimas seis sessões, as taxas longas (2028 e 2035) recuaram entre 41 e 48 pontos-base.
A equipe da Warren Rena corrobora essa visão, afirmando que a sinalização “explícita” contida na decisão do Copom deve gerar um “movimento relevante” de queda na parte curta e intermediária da curva. A retirada da incerteza quanto ao início do ciclo de cortes permite que o mercado aumente as apostas nos cortes implícitos, ajustando os prêmios de risco para baixo. A decisão do Copom, portanto, valida a tese de que o custo do dinheiro no Brasil começará a cair, barateando o crédito e estimulando a atividade econômica.
O Comportamento do Câmbio
No mercado cambial, a decisão do Copom também exerce influência preponderante, embora divida opiniões quanto à magnitude do movimento futuro. O dólar à vista encerrou a quarta-feira cotado a R$ 5,2066. A perspectiva de início de cortes na Selic poderia, teoricamente, diminuir o diferencial de juros (carry trade) e pressionar o real. No entanto, a melhora na percepção de risco fiscal e de crescimento econômico tende a atrair capital estrangeiro, contrabalanceando esse efeito.
Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, projeta a continuidade do ritmo de queda do dólar ante o real nesta quinta-feira (29), reflexo direto da confiança gerada pela decisão do Copom. Para ele, a clareza da comunicação do Banco Central atrai fluxos de investimento.
Por outro lado, Luciano Costa, da Monte Bravo, adota um tom mais cauteloso. Ele pondera que o dólar já se encontra enfraquecido globalmente, conforme medido pelo índice DXY (que compara a moeda americana a uma cesta de divisas fortes). Com o DXY caminhando para uma estabilização nos 96 pontos, Costa avalia que o real “provavelmente já teve o seu melhor momento”, atingindo o patamar de R$ 5,20. Ainda assim, a estabilidade cambial em níveis competitivos é um subproduto positivo da decisão do Copom, ajudando a ancorar as expectativas de inflação de bens comercializáveis.
Análise Detalhada do Comunicado do Copom
Para compreender a profundidade da decisão do Copom, é necessário dissecar o comunicado oficial. A manutenção da Selic em 15% ao ano — o maior nível desde meados de 2006 — foi uma decisão unânime, o que reforça a coesão do colegiado e a credibilidade da autoridade monetária. A quinta manutenção consecutiva estava em linha com o consenso de mercado, mas a novidade residiu no guidance (orientação futura).
O texto destacou que o cenário internacional permanece incerto, com ênfase na política econômica dos Estados Unidos e nas tensões geopolíticas, exigindo cautela dos países emergentes. No front doméstico, o Banco Central observou uma trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, conforme esperado, embora o mercado de trabalho mostre resiliência.
O ponto de inflexão na decisão do Copom foi o reconhecimento de que, apesar das expectativas de inflação seguirem desancoradas, há espaço para iniciar o afrouxamento. O trecho crucial do comunicado afirma: “O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião.
Essa frase altera a dinâmica do mercado. Até então, o BC adotava um tom excessivamente duro (hawkish). Agora, ao condicionar o corte à confirmação do cenário, mas citando-o explicitamente, a decisão do Copom torna-se data dependent (dependente de dados) com um viés baixista claro. O colegiado ressaltou que a magnitude e o ritmo dos cortes dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta de inflação.
Impactos Setoriais e Estratégia de Investimentos
Diante da decisão do Copom, a estratégia de alocação de ativos deve sofrer ajustes. Com a Selic em 15% e a promessa de queda, a renda fixa pós-fixada ainda oferece retornos nominais atrativos no curtíssimo prazo, mas a janela de oportunidade para travar taxas altas em títulos prefixados e indexados à inflação (IPCA+) pode estar se fechando rapidamente. O fechamento da curva de juros futuros indica que o mercado já está antecipando rendimentos menores à frente.
No mercado de ações, a decisão do Copom beneficia diretamente empresas alavancadas e setores que dependem de crédito para o consumo. Varejistas, incorporadoras e empresas de infraestrutura tendem a performar acima da média do Ibovespa. O “kit Brasil”, composto por ações domésticas, deve receber um fluxo maior de capital, tanto local quanto estrangeiro, à medida que o custo de oportunidade da renda fixa diminui.
A decisão do Copom também envia um sinal para o setor produtivo. Embora os juros permaneçam em patamar contracionista por algum tempo, a sinalização de alívio permite que empresários retomem o planejamento de investimentos de longo prazo (Capex), antevendo um custo de capital mais acessível no segundo semestre de 2026.
Perspectivas para a Próxima Reunião
O mercado financeiro agora volta seus olhos para março. A decisão do Copom de ontem transformou a próxima reunião no evento mais importante do primeiro semestre. A dúvida que persiste não é mais “se” haverá corte, mas “de quanto” será. A precificação da curva de juros sugere uma aposta dividida entre 0,25 p.p. e 0,50 p.p., com uma leve inclinação para um corte mais agressivo de meio ponto percentual, caso os dados de inflação corrente (IPCA) continuem a mostrar arrefecimento.
A unanimidade na decisão do Copom atual sugere que a diretoria do Banco Central está alinhada quanto ao diagnóstico: a política monetária funcionou, a atividade desacelerou o necessário e a inflação, embora exija vigilância, permite um ajuste fino. A “restrição adequada” citada no comunicado significa que os juros reais permanecerão positivos, mas em um nível menos sufocante para a economia.
Em suma, a decisão do Copom de manter a Selic em 15% mas sinalizar cortes futuros é o cenário “Goldilocks” (nem muito quente, nem muito frio) que o mercado desejava. Ela combina a responsabilidade no combate à inflação com a sensibilidade necessária para não asfixiar a atividade econômica indefinidamente.
Para o investidor, a quinta-feira promete ser de ajustes de portfólio e otimismo. O Ibovespa tem caminho livre para buscar novos topos, o dólar deve se manter comportado e os juros futuros continuarão sua trajetória de queda. A decisão do Copom de janeiro de 2026 será lembrada como o ponto de virada do ciclo monetário, o momento em que o Banco Central finalmente acenou com a bandeira branca para o crescimento, sem abandonar a guarda contra a inflação.






