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Comércio varejista cai 0,3% e acumula quinta queda em seis meses

por Gabriel Monteiro
13/11/2025 às 15h15
em Economia
Comércio Varejista Cai 0,3% E Acumula Quinta Queda Em Seis Meses - Gazeta Mercantil

Comércio varejista recua em setembro e acende alerta sobre desaceleração do consumo no Brasil

O comércio varejista brasileiro registrou nova queda em setembro e reforçou sinais de perda de dinamismo no consumo das famílias, um dos motores mais relevantes da atividade econômica nacional. Os dados, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram recuo de 0,3% na comparação com agosto, marcando o quinto resultado negativo em um intervalo de seis meses. A retração consolida uma trajetória de enfraquecimento gradativo, que já vinha sendo observada desde abril.

A queda de desempenho ocorre em um ambiente de inflação ainda resistente, endividamento elevado das famílias e crédito mais caro. Embora os juros tenham começado a recuar, o efeito positivo ainda não se refletiu de forma consistente sobre o comércio varejista, que opera com margens apertadas, custos logísticos elevados e pressões pontuais sobre preços de itens básicos.

Leia também: Vendas do Comércio Recuam em Junho: IBGE Aponta Terceira Queda Seguida no Varejo

Leia também: Banco Master: PGR Estima 6 Meses de Perícia em Dados de Operação Bilionária.

No acumulado dos últimos 12 meses, o comércio varejista avança apenas 2,1%, o menor ritmo desde janeiro de 2024, quando a economia ainda sentia impactos defasados da política monetária. Ao mesmo tempo, o setor segue 1,1% abaixo do pico registrado em março de 2025, período que representou o ápice da recuperação pós-pandemia.

Desempenho mensal confirma tendência de arrefecimento

Em agosto, o setor havia registrado leve alta de 0,1%, insuficiente para reverter as quedas entre abril e julho. O dado de setembro confirma a tendência de instabilidade, reforçando que o consumo das famílias enfrenta obstáculos relevantes. Ainda assim, quando comparado ao mesmo mês do ano anterior, o desempenho apresenta alta de 0,8%, sustentada principalmente por segmentos de serviços e vendas sazonais de bens duráveis.

Leia também: Aumento da Confiança do Comércio em Julho: Redução do Pessimismo e Perspectivas Econômicas.

A desaceleração observada no comércio varejista está alinhada ao comportamento recente de outros indicadores conjunturais. A indústria, por exemplo, caiu 0,4% em setembro, enquanto o setor de serviços cresceu 0,6%, mantendo leve vantagem no ritmo de expansão em 12 meses.

Setores que mais pesaram no resultado negativo

Entre os oito segmentos pesquisados pelo IBGE, seis apresentaram queda na passagem de agosto para setembro:

  • Livros, jornais, revistas e papelaria: -1,6%

  • Tecidos, vestuário e calçados: -1,2%

  • Combustíveis e lubrificantes: -0,9%

  • Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação: -0,9%

  • Móveis e eletrodomésticos: -0,5%

  • Hiper e supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo: -0,2%

O segmento de livros e papelaria permanece entre os mais afetados, pressionado pela migração de produtos físicos para versões digitais e pela redução estrutural do consumo de periódicos impressos.

Já o grupo de tecidos, vestuário e calçados sofre impacto direto do aumento de preços, da menor demanda por itens não essenciais e da forte concorrência com plataformas internacionais de comércio eletrônico.

No caso de combustíveis, a oscilação dos preços internacionais e a demanda mais fraca influenciaram o resultado. O segmento de supermercados, por outro lado, apresentou recuo mais moderado, refletindo o comportamento cauteloso do consumidor diante da inflação acumulada de alimentos.

Comércio varejista ampliado mostra leve fôlego

O comércio varejista na categoria ampliada, que inclui veículos, motos, peças, material de construção e produtos alimentícios, mostrou ligeira alta de 0,2% em setembro. Apesar do crescimento modesto, o resultado demonstra maior resiliência de segmentos ligados à construção e ao comércio de veículos, impulsionados por programas de incentivo e descontos pontuais oferecidos por montadoras.

No acumulado de 12 meses, o varejo ampliado cresce 0,7%, indicando um desempenho mais fraco do que o observado no período imediatamente posterior à pandemia.

Fatores que explicam a desaceleração do varejo

O contexto econômico brasileiro combina fatores que ajudam a explicar o recuo contínuo do comércio varejista:

1. Inflação persistente

Os preços dos alimentos, itens de higiene e produtos de primeira necessidade seguem pressionados, reduzindo a renda disponível das famílias. Mesmo com arrefecimento pontual, a inflação acumulada ainda corrói o poder de compra.

2. Endividamento elevado

O número de famílias com dívidas atingiu níveis historicamente altos. A inadimplência permanece como fator de preocupação, afetando diretamente o consumo.

3. Crédito mais restritivo

As taxas de juros continuam elevadas quando comparadas ao período pré-pandemia, dificultando a compra de bens duráveis e impactando as vendas de eletrodomésticos, móveis e eletrônicos.

4. Mercado de trabalho ainda em recuperação

Apesar da queda do desemprego, grande parte das vagas criadas está em setores com remuneração mais baixa ou empregos informais, o que limita a expansão da demanda.

5. Base de comparação elevada

O forte resultado de março de 2025, impulsionado por liquidações pós-verão e campanhas promocionais agressivas, cria um patamar de comparação desfavorável para avaliar os meses seguintes.

Comércio ainda está acima do pré-pandemia

Mesmo com a sequência de quedas, o comércio varejista ainda opera 8,9% acima do nível de fevereiro de 2020, período imediatamente anterior à crise sanitária. O setor foi um dos primeiros a mostrar recuperação acelerada após a reabertura econômica, impulsionado por demanda reprimida e estímulos emergenciais.

Entretanto, especialistas alertam que a retomada não se sustenta indefinidamente sem melhora no mercado de trabalho, redução do endividamento e estabilização do crédito.

Segmentos que resistiram melhor à queda

Enquanto seis segmentos operaram no negativo, dois registraram crescimento:

  • Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria

  • Outros artigos de uso pessoal e doméstico

O setor farmacêutico mantém tendência de expansão contínua, sustentado pelos preços, pela alta demanda por medicamentos e pela expansão de grandes redes de drogarias no país.

Já o grupo de artigos pessoais e domésticos tem sido beneficiado por estratégias comerciais agressivas, incluindo promoções e maior presença de varejistas digitais.

Panorama para os próximos meses

O comportamento do comércio varejista nos próximos meses deverá refletir:

  • impacto das compras de fim de ano,

  • reajustes de preços de alimentos e combustíveis,

  • evolução da taxa Selic,

  • expectativas de renda e emprego,

  • dinâmica do câmbio, que influencia o preço de eletrônicos e itens importados.

O quarto trimestre tradicionalmente concentra boa parte das vendas anuais, mas a expectativa para 2025 é de um período menos aquecido do que o observado em anos anteriores, principalmente em segmentos de maior valor agregado.

Perspectivas de crescimento em 2026

Para 2026, analistas avaliam que o ritmo do comércio varejista dependerá fortemente da política monetária, da recuperação plena do emprego formal e da desaceleração mais forte da inflação. Caso esses fatores evoluam de maneira favorável, o setor poderá retomar o patamar observado entre 2023 e 2024, quando o consumo das famílias deu impulso relevante ao PIB.

Entretanto, o cenário internacional também deve ser monitorado, já que oscilações no dólar e no preço de commodities impactam diretamente custos logísticos, importações e margens de lucro.

Comércio varejista e o papel estratégico no PIB

O comércio varejista representa uma das partes mais sensíveis da economia brasileira. Ele reflete, com rapidez, mudanças nos hábitos de consumo, pressões sobre preços, variações de renda e oscilações nas condições de crédito. Por isso, sua trajetória é acompanhada de perto por governo, analistas, investidores e empresários.

A queda em setembro reforça a necessidade de políticas que incentivem a retomada do consumo de forma sustentável, sem criar distorções ou comprometer o equilíbrio fiscal.

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