Da plateia, megainvestidor declarou apoio ao novo CEO da Berkshire, destacou a força da cultura corporativa e comentou o peso da Apple na trajetória recente da companhia
Warren Buffett voltou ao centro das atenções neste sábado (2) ao participar, da plateia, da conferência anual da Berkshire Hathaway (BRK.A; BRK.B) e reforçar publicamente seu apoio a Greg Abel, novo CEO da companhia. O megainvestidor afirmou que a escolha de Abel para sucedê-lo foi uma decisão “100% acertada” e classificou o executivo como “a pessoa certa” para conduzir o conglomerado nos próximos anos.
A fala ocorreu em um momento simbólico para a Berkshire Hathaway. Após décadas em que Buffett foi a principal referência da empresa, a sucessão passa a ser acompanhada de perto por investidores, analistas e acionistas que buscam sinais sobre a continuidade da estratégia responsável por transformar o grupo em uma das companhias mais observadas do mercado global.
Segundo Buffett, Abel reúne as condições necessárias para preservar o modelo de gestão que marcou a Berkshire Hathaway. O investidor afirmou que o novo CEO faz tudo o que ele próprio fazia “e mais um pouco”, em uma demonstração direta de confiança no sucessor.
Ao responder ao elogio, Greg Abel afirmou que a cultura corporativa continuará sendo o principal ativo da Berkshire Hathaway. O executivo declarou que a cultura construída ao longo das últimas décadas “é a base da Berkshire” e seguirá como elemento central da companhia após a saída de Buffett do comando executivo.
Sucessão na Berkshire entra em nova fase
A presença de Buffett na plateia deu à conferência um tom diferente dos encontros anteriores. O megainvestidor, historicamente no centro do palco, passou a ocupar uma posição mais simbólica, enquanto Abel assumiu protagonismo na condução da mensagem ao mercado.
A transição é acompanhada com atenção porque a Berkshire Hathaway se tornou uma das maiores referências mundiais em alocação de capital, gestão descentralizada e disciplina de investimentos. O conglomerado reúne operações em seguros, ferrovias, energia, indústria, varejo, serviços e uma carteira bilionária de ações.
Para investidores, o principal ponto da sucessão não é apenas a troca de comando, mas a capacidade de manter uma cultura empresarial baseada em autonomia operacional, baixa dependência de dívida, paciência para grandes investimentos e foco em negócios de alta qualidade.
Ao defender Abel, Buffett tentou reduzir dúvidas sobre o futuro da companhia. O apoio explícito reforça a ideia de continuidade e busca preservar a confiança dos acionistas em um dos momentos mais relevantes da história recente da Berkshire.
Buffett destaca ganho bilionário com Apple
Na abertura do evento, Buffett também comentou o desempenho do investimento da Berkshire Hathaway na Apple (AAPL), uma das posições mais importantes da carteira do conglomerado.
Segundo ele, um aporte de aproximadamente US$ 35 bilhões na empresa de tecnologia se transformou em cerca de US$ 185 bilhões ao longo de dez anos. O cálculo considera dividendos, ganhos realizados e valorização ainda não realizada.
Buffett afirmou que a Berkshire entregou parte relevante de seus recursos à administração da Apple. “Delegamos 10% do capital da empresa à gestão da Apple”, disse o megainvestidor, ao destacar a confiança no negócio e na capacidade de geração de valor da companhia.
O investimento na Apple se tornou um dos casos mais emblemáticos da fase recente da Berkshire Hathaway. Por muitos anos, Buffett evitou grandes posições em empresas de tecnologia, alegando dificuldade para prever a evolução competitiva do setor. A Apple, porém, passou a ser vista por ele menos como uma empresa tradicional de tecnologia e mais como um negócio de consumo com marca forte, base fiel de usuários e elevada capacidade de geração de caixa.
Tim Cook recebe elogios após era Steve Jobs
Buffett também elogiou a liderança de Tim Cook, CEO da Apple, ao comentar a evolução da companhia após a morte de Steve Jobs. O investidor afirmou que a Apple “parece uma empresa nova, mesmo após 50 anos”, em referência à capacidade da companhia de preservar relevância, inovação e força comercial.
A avaliação reforça a visão de Buffett sobre a qualidade da gestão da Apple. Para a Berkshire Hathaway, a permanência da empresa como uma das maiores posições da carteira reflete não apenas a valorização das ações, mas também a confiança na execução da companhia ao longo dos anos.
A Apple continua entre as cinco maiores posições acionárias da Berkshire, ao lado de American Express (AXP), Bank of America (BAC), Coca-Cola (KO) e Chevron (CVX). Juntas, essas participações representam parcela expressiva da carteira de ações do conglomerado.
Berkshire tem lucro de US$ 10,1 bilhões no trimestre
A conferência ocorreu após a divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026. A Berkshire Hathaway reportou lucro líquido de US$ 10,1 bilhões, avanço de cerca de 120% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O resultado foi beneficiado pelo menor impacto negativo da marcação a mercado de investimentos. As perdas com investimentos somaram US$ 1,6 bilhão, valor aproximadamente 75% menor do que o registrado um ano antes.
A receita total da Berkshire Hathaway alcançou US$ 93,7 bilhões no trimestre, alta de 4,4%. O desempenho teve contribuição das áreas de seguros e das atividades industriais, dois segmentos relevantes dentro da estrutura diversificada do grupo.
O lucro antes de impostos somou US$ 12,3 bilhões, crescimento de 139% na comparação anual. Já o lucro operacional atingiu US$ 11,3 bilhões, alta de cerca de 18%.
Para analistas, o lucro operacional costuma ser um indicador acompanhado de perto na Berkshire Hathaway, porque ajuda a medir o desempenho das empresas controladas pelo grupo sem a volatilidade provocada pela variação de mercado da carteira de ações.
Caixa da Berkshire supera US$ 390 bilhões
A liquidez voltou a ser um dos principais temas da conferência. Ao fim de março, a soma de caixa e aplicações em títulos do Tesouro dos Estados Unidos superou US$ 390 bilhões.
Greg Abel explicou que a posição líquida de caixa e Treasuries era de cerca de US$ 380 bilhões, após ajustes relacionados à compra de títulos pouco antes do encerramento do trimestre. Segundo ele, o balanço mostrava aproximadamente US$ 397 bilhões, mas esse número incluía US$ 17,2 bilhões em pagamentos pendentes, com liquidação prevista para o início de abril.
O volume elevado de caixa reforça uma característica histórica da Berkshire Hathaway: manter liquidez suficiente para agir em momentos de estresse ou diante de oportunidades de grande porte. Abel afirmou que essa posição dá à companhia capacidade para investir grandes volumes de capital sem depender de financiamento externo.
“Não pretendemos ser dependentes de terceiros”, declarou o CEO.
A frase resume uma das marcas da filosofia da Berkshire: preservar independência financeira e flexibilidade para comprar empresas, ampliar participações ou atravessar períodos de turbulência sem pressão de credores.
Abel defende flexibilidade para novos investimentos
Greg Abel também ressaltou a capacidade da Berkshire Hathaway de realocar recursos entre seguros, operações industriais e investimentos em ações. Essa flexibilidade é considerada uma das principais vantagens competitivas do conglomerado.
No primeiro trimestre, a Berkshire vendeu cerca de US$ 24 bilhões em ações e comprou aproximadamente US$ 16 bilhões. Ao fim de março, a carteira de ações somava US$ 288 bilhões, abaixo dos cerca de US$ 298 bilhões registrados no fim de 2025.
A redução indica uma postura seletiva em relação ao mercado acionário. A Berkshire tem mantido uma posição elevada de liquidez em meio a um ambiente de juros altos, avaliações exigentes em alguns setores e busca por oportunidades com margem de segurança.
Mesmo com vendas líquidas de ações, a carteira permanece concentrada em grandes companhias. As cinco maiores posições representavam cerca de 61% do portfólio acionário, com destaque para Apple, American Express, Bank of America, Coca-Cola e Chevron.
Carteira segue concentrada em grandes negócios
Abel afirmou que a Berkshire mantém cerca de US$ 200 bilhões concentrados em poucas ações. Além desse núcleo principal, há aproximadamente US$ 70 bilhões em outras participações relevantes, incluindo Bank of America, Chevron e Alphabet (GOOGL).
“Conhecemos bem esses negócios e suas equipes de gestão”, disse o executivo.
A declaração reforça uma diretriz clássica da Berkshire Hathaway: investir em empresas compreensíveis, com vantagem competitiva, boa administração e capacidade de gerar caixa ao longo do tempo. A concentração em poucos nomes também reflete a convicção do grupo em negócios considerados duradouros.
Embora a Berkshire administre uma das maiores carteiras de ações do mundo, sua estratégia não se baseia em pulverização excessiva. Ao contrário, Buffett sempre defendeu que grandes oportunidades devem receber alocação relevante quando há confiança suficiente no negócio.
Com Abel no comando, o mercado observa se essa lógica será preservada. Pelas declarações feitas na conferência, a mensagem central foi de continuidade: manter a cultura da Berkshire, preservar liquidez, evitar dependência de terceiros e investir com disciplina.
Berkshire tenta mostrar estabilidade após saída de Buffett
A sucessão de Buffett representa um dos maiores testes institucionais da Berkshire Hathaway. A empresa precisa demonstrar que seu modelo não depende exclusivamente da figura do megainvestidor, mas de uma cultura empresarial suficientemente forte para atravessar gerações.
Ao elogiar Greg Abel diante dos acionistas, Buffett procurou dar um aval definitivo ao novo CEO. A mensagem foi clara: a Berkshire terá nova liderança, mas não deve abandonar os princípios que sustentaram sua trajetória.
Para os investidores, a combinação entre lucro robusto, caixa elevado e apoio explícito de Buffett a Abel ajuda a reduzir incertezas no curto prazo. O desafio, no entanto, será provar ao longo dos próximos anos que a sucessão conseguirá preservar a confiança construída em décadas.
A Berkshire Hathaway entra nessa nova fase com uma das maiores posições de liquidez do mercado, uma carteira concentrada em empresas globais e uma estrutura operacional diversificada. A partir de agora, Greg Abel terá a responsabilidade de mostrar que a cultura elogiada por Buffett continuará sendo o principal diferencial competitivo do conglomerado.










