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FIDCs já respondem por 37% das operações do mercado de capitais em 2026

Fundos de recebíveis somaram 559 operações no primeiro semestre e ampliam espaço como alternativa de financiamento fora do crédito bancário tradicional.

por Gabriel Monteiro
18/08/2026 às 17h53
em Mercados
Fidcs - Gazeta Mercantil

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) deixaram de ocupar uma posição periférica no mercado financeiro brasileiro. No primeiro semestre de 2026, esses veículos movimentaram R$ 53,1 bilhões em 559 operações, alcançando uma presença que chama atenção principalmente pelo número de emissões. De cada dez operações realizadas no mercado de capitais brasileiro entre janeiro e junho, quase quatro envolveram FIDCs.

O cálculo feito pela Gazeta Mercantil a partir dos dados da Anbima mostra que os FIDCs representaram aproximadamente 36,9% das 1.513 operações registradas no mercado de capitais no período. Em volume financeiro, responderam por 14,7% dos R$ 361,8 bilhões captados no semestre. A diferença entre essas duas participações revela uma característica importante do segmento: os fundos de recebíveis conseguem chegar a um número grande de empresas e operações com tíquetes menores do que instrumentos tradicionais, como as debêntures.

O avanço ocorre justamente em um momento em que o mercado de capitais brasileiro bate recordes. As captações somaram R$ 361,8 bilhões no primeiro semestre, maior volume para o período desde o início da série histórica da Anbima, em 2012. O resultado superou em 9,8% o registrado nos mesmos seis meses de 2025, enquanto o número de operações cresceu 13%.

Dentro dessa expansão, os FIDCs vêm assumindo uma função cada vez mais clara: transformar contas a receber de empresas em uma fonte alternativa de financiamento e conectar originadores de crédito a investidores dispostos a assumir diferentes níveis de risco.

FIDCs fizeram duas vezes mais operações que debêntures

A comparação com as debêntures ajuda a dimensionar a mudança. As empresas captaram R$ 169,8 bilhões por meio de debêntures no primeiro semestre, distribuídos em 278 operações. Os FIDCs movimentaram menos de um terço desse valor, mas realizaram 559 operações — praticamente o dobro.

A Gazeta Mercantil calculou que uma emissão de FIDC teve tíquete médio aproximado de R$ 95 milhões no período. Nas debêntures, a média ficou próxima de R$ 611 milhões por operação. Isso significa que o valor médio de uma emissão de debêntures foi mais de seis vezes superior ao de uma operação de FIDC.

Essa diferença ajuda a explicar por que os fundos de direitos creditórios ganharam relevância como porta de entrada para empresas que não necessariamente possuem escala, estrutura financeira ou necessidade de captar centenas de milhões de reais em uma única emissão de dívida.

O desenho também torna o mercado mais pulverizado. Enquanto grandes companhias podem recorrer diretamente às debêntures para levantar volumes elevados, FIDCs permitem estruturar operações lastreadas em carteiras específicas de recebíveis, adequando prazo, risco e remuneração às características dos créditos que originam o fundo.

R$ 11,4 bilhões foram captados somente em junho

A trajetória ao longo do semestre também mostra aceleração. Nos primeiros cinco meses de 2026, os FIDCs haviam movimentado R$ 41,7 bilhões em 406 operações, valor 36,5% superior ao registrado no mesmo período de 2025.

Ao final de junho, o volume acumulado chegou a R$ 53,1 bilhões. A diferença indica que aproximadamente R$ 11,4 bilhões foram acrescentados somente no sexto mês do ano, segundo cálculo da Gazeta Mercantil a partir dos dois levantamentos divulgados pela Anbima.

O crescimento não pode ser explicado apenas pelo comportamento geral do mercado. Entre janeiro e maio, a própria Anbima já apontava os FIDCs como um dos instrumentos responsáveis pela expansão das ofertas de capitais no país.

Em número de operações, a liderança era ainda mais evidente: os 406 FIDCs registrados nos cinco primeiros meses já superavam com ampla margem as 237 emissões de debêntures contabilizadas até então.

FIDCs captaram quase o dobro de CRIs e CRAs juntos

Outra comparação mostra como o instrumento ganhou escala dentro da renda fixa privada.

As emissões de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) somaram R$ 20,3 bilhões no primeiro semestre, enquanto os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) movimentaram R$ 7,1 bilhões. Juntos, portanto, os dois mercados captaram R$ 27,4 bilhões.

Os R$ 53,1 bilhões levantados por FIDCs equivalem a quase 1,94 vez o volume combinado de CRIs e CRAs no período.

A comparação não significa que os instrumentos sejam equivalentes. CRIs, CRAs e FIDCs possuem estruturas, regras e finalidades diferentes. O dado mostra, porém, a dimensão financeira alcançada pelos fundos de recebíveis dentro de um mercado de crédito estruturado que durante muitos anos esteve associado principalmente aos certificados imobiliários e do agronegócio.

No primeiro semestre de 2026, enquanto os FIDCs ampliavam participação, as emissões de CRIs recuavam 15,8% na comparação anual e as de CRAs caíam 50,4%.

Como um FIDC transforma uma venda a prazo em dinheiro

A lógica econômica dos FIDCs parte de algo comum à maioria das empresas: dinheiro que existe contabilmente, mas ainda não entrou no caixa.

Uma indústria que vende mercadorias com pagamento em 60 ou 90 dias, por exemplo, possui um direito de receber aquele valor no futuro. Uma varejista pode ter milhares de parcelas de clientes. Uma fintech pode carregar créditos concedidos a consumidores. Prestadores de serviços podem acumular faturas que serão liquidadas nos meses seguintes.

Esses recebíveis podem ser transferidos para um FIDC. O fundo capta recursos com investidores e utiliza o dinheiro para adquirir os direitos creditórios, antecipando recursos para quem originou os créditos. Em troca, os investidores passam a estar expostos ao fluxo de pagamentos desses recebíveis e aos riscos associados à carteira.

A B3 define o FIDC como um veículo que destina parcela superior a 50% de seu patrimônio líquido a direitos creditórios. Esses ativos podem ter origem em operações comerciais, financeiras, industriais, imobiliárias e de prestação de serviços, entre outras modalidades.

Para a empresa, uma das vantagens econômicas é antecipar recursos que só seriam recebidos no futuro. Para o investidor, a remuneração decorre das condições estabelecidas na aquisição e no desempenho dos créditos que formam a carteira.

Crédito sai dos balanços bancários e chega ao mercado de capitais

A expansão dos FIDCs faz parte de uma transformação mais ampla do financiamento empresarial brasileiro. Durante décadas, companhias de pequeno e médio porte dependeram principalmente de bancos para obter capital de giro. Grandes empresas, por sua vez, tinham acesso mais amplo a instrumentos do mercado de capitais.

Essa fronteira está ficando menos rígida.

Fundos, securitizadoras, gestoras, fintechs e outras instituições passaram a estruturar formas de financiamento baseadas diretamente nos fluxos de recebíveis das empresas. Em vez de depender exclusivamente de um banco concedendo crédito e mantendo a operação em seu próprio balanço, o risco pode ser organizado e distribuído entre investidores por meio do mercado.

Os números do primeiro semestre mostram o tamanho dessa transição. Das R$ 361,8 bilhões em captações realizadas no mercado de capitais, R$ 288,8 bilhões vieram da renda fixa. Os FIDCs, isoladamente, responderam por aproximadamente 18,4% desse volume de renda fixa, segundo cálculo da Gazeta Mercantil.

Isso não significa que os bancos estejam sendo substituídos. Instituições financeiras continuam participando de diferentes etapas da estruturação, distribuição, administração e custódia dessas operações. A mudança está na existência de mais canais pelos quais o crédito pode chegar à economia.

Empresas menores encontram caminho para acessar investidores

O tíquete médio de cerca de R$ 95 milhões ajuda a compreender por que os FIDCs se multiplicaram em quantidade. Uma operação pode ser construída para adquirir recebíveis muito específicos, de uma única empresa ou de diversos originadores, permitindo adaptar a estrutura a setores que dificilmente conseguiriam recorrer ao mercado por meio de uma grande emissão convencional.

Há FIDCs ligados a crédito consignado, financiamento de veículos, cartões, mensalidades educacionais, contas de energia, duplicatas comerciais, crédito para pequenas empresas, agronegócio, operações imobiliárias e diversas outras modalidades.

Essa flexibilidade também permite a existência de diferentes camadas de risco dentro de uma mesma estrutura. Dependendo do regulamento, as cotas podem assumir prioridades distintas na absorção de perdas e no recebimento dos recursos, criando uma arquitetura na qual investidores com diferentes perfis participam da mesma carteira de créditos.

Quanto maior a complexidade, porém, maior a necessidade de avaliação dos ativos que sustentam o fundo. O crescimento do mercado não elimina riscos relacionados a inadimplência, qualidade dos recebíveis, concentração em determinados devedores, liquidez e estruturação.

Mercado de capitais bate recorde mesmo com juros elevados

O avanço dos FIDCs também chama atenção pelo ambiente em que acontece. O mercado de capitais atingiu seu maior volume histórico para um primeiro semestre apesar de um cenário marcado por juros elevados e incertezas econômicas.

As ofertas de renda fixa concentraram R$ 288,8 bilhões dos R$ 361,8 bilhões captados entre janeiro e junho. Ao mesmo tempo, houve crescimento em instrumentos híbridos e retomada da renda variável, mostrando que o recorde não ficou restrito a uma única classe de ativo.

As debêntures continuaram sendo a principal fonte privada de financiamento em volume, com R$ 169,8 bilhões. O número de emissões, entretanto, passou de 268 no primeiro semestre de 2025 para 278 neste ano, avanço muito inferior à quantidade observada nos FIDCs.

O contraste mostra dois mercados com funções complementares. Debêntures continuam absorvendo grandes captações corporativas, especialmente de companhias com presença consolidada no mercado. FIDCs avançam pela quantidade de estruturas e pela capacidade de transformar diferentes tipos de crédito em ativos financiáveis.

FIDCs deixaram de ser um nicho do mercado financeiro

O tamanho alcançado em 2026 muda a forma como os fundos de recebíveis podem ser classificados dentro do sistema financeiro brasileiro. Um segmento responsável por 559 das 1.513 operações realizadas em seis meses já não pode ser tratado apenas como uma alternativa especializada de securitização.

Pelo critério de quantidade, mais de um terço de todas as operações do mercado de capitais no primeiro semestre passou por FIDCs. Pelo critério financeiro, os R$ 53,1 bilhões captados superaram com folga o mercado combinado de CRIs e CRAs e corresponderam a quase um quinto de toda a renda fixa emitida no período.

A pulverização talvez seja o dado mais revelador. Enquanto uma operação média de debêntures movimentou cerca de R$ 611 milhões, um FIDC ficou próximo de R$ 95 milhões. Em vez de concentrar o financiamento em poucas emissões de grande porte, o segmento distribui dezenas de bilhões de reais por centenas de estruturas.

É justamente essa característica que pode determinar a próxima etapa do mercado. Quanto maior a capacidade de transformar diferentes carteiras de crédito em instrumentos financiáveis, maior é a possibilidade de empresas acessarem investidores sem depender exclusivamente das linhas bancárias tradicionais.

Os R$ 53,1 bilhões captados no primeiro semestre mostram o tamanho financeiro dos FIDCs. As 559 operações, porém, contam uma história ainda mais relevante: a de um instrumento que avançou para dentro do sistema de financiamento das empresas brasileiras e passou a ocupar uma parcela estrutural do mercado de capitais.

Fontes:

Anbima — Boletim de Mercado de Capitais e dados oficiais de ofertas encerradas no primeiro semestre de 2026.

B3 — informações institucionais sobre estrutura, funcionamento e características dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios.

Tags: Anbimacrédito privadodebênturesEmpresasFIDCfinanciamentoFundos de Investimento em Direitos Creditóriosinvestimentosmercado de capitaisrenda fixa

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