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Risco-país da Argentina volta aos 511 pontos e mercado aumenta cautela com Milei

Indicador sobe 27% desde a mínima de julho, enquanto títulos e ações argentinas recuam e investidores voltam a cobrar prêmio maior pelo risco do país.

por Álvaro Lima
18/08/2026 às 21h58
em Economia
Risco-País Da Argentina Volta Aos 511 Pontos E Mercado Aumenta Cautela Com Milei - Gazeta Mercantil - Economia

A Argentina encerrou esta terça-feira (18) com uma mudança importante no humor dos mercados. O risco-país avançou para 511 pontos-base, alta de 4,5% em relação aos 489 pontos da sessão anterior, e voltou a níveis que não eram registrados desde maio e início de junho. O movimento amplia uma correção que vem desmontando parte da forte valorização dos ativos argentinos observada durante o primeiro semestre de 2026.

A deterioração é mais expressiva quando comparada ao melhor momento recente. Em 10 de julho, o indicador havia fechado em 402 pontos, menor patamar da gestão do presidente Javier Milei. A diferença até os atuais 511 representa uma elevação de aproximadamente 27% em pouco mais de cinco semanas, cálculo feito pela Gazeta Mercantil a partir da série histórica. Apenas desde o encerramento de julho, quando estava em 430 pontos, a alta acumulada chega a 18,8%.

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O risco-país é uma referência do prêmio adicional exigido pelo mercado para carregar dívida argentina em comparação com títulos considerados de menor risco, especialmente os Treasuries dos Estados Unidos. Quanto maior o indicador, maior tende a ser o custo implícito para que o país volte a captar recursos internacionalmente em condições competitivas.

A alta não significa uma volta aos períodos mais agudos da crise financeira argentina. Em setembro de 2025, o indicador chegou a superar 1.400 pontos. O nível atual, porém, interrompe a narrativa de redução quase contínua do risco que havia acompanhado Milei durante parte dos últimos meses e recoloca no radar questões que o mercado considerava parcialmente controladas.

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Bonança de julho foi rapidamente devolvida

A trajetória recente mostra a velocidade da mudança.

No fim de julho, o risco-país estava em 430 pontos. Em 3 de agosto caiu para 411. Depois disso, a direção praticamente se inverteu: passou para 421 no dia 4, 428 no dia 5, 446 no dia 6, 451 no dia 7 e 465 no dia 10. Na semana seguinte avançou para 471, 472 e 480 pontos, até alcançar 489 na segunda-feira e 511 nesta terça.

Em outras palavras, dos dez pregões argentinos registrados entre 4 e 18 de agosto na série consultada, o indicador encerrou praticamente todo o período em trajetória ascendente. O movimento sugere que não se trata apenas de uma oscilação isolada de uma sessão.

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Ao mesmo tempo, a pressão chegou à Bolsa. O S&P Merval recuou 1,89% nesta terça-feira, enquanto recibos de empresas argentinas negociados nos Estados Unidos também registraram perdas. Entre eles, a YPF (NYSE: YPF) caiu 3,83%, enquanto Banco Macro (NYSE: BMA), BBVA Argentina (NYSE: BBAR) e Grupo Financiero Galicia (Nasdaq: GGAL) também terminaram a sessão no campo negativo.

Os títulos soberanos denominados em dólares seguiram a mesma direção. A queda de preço desses papéis produz o efeito inverso sobre o rendimento exigido pelo comprador: quanto menos o investidor aceita pagar pelo título, maior passa a ser o retorno implícito necessário para assumir o risco argentino.

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Esse mecanismo ajuda a explicar a subida do EMBI associado ao país.

Argentina começa a se descolar de outros emergentes

Uma parte da correção pode ser explicada pelo ambiente internacional mais difícil. Juros de longo prazo elevados nas principais economias tornam títulos considerados seguros relativamente mais atraentes e reduzem o espaço para ativos de maior risco nos portfólios globais.

Mas a dimensão doméstica ganhou importância.

Dados de mercado mostram que os títulos argentinos passaram a apresentar desempenho inferior ao de alguns pares emergentes. Em agosto, os bônus soberanos acumularam perdas em dólar enquanto o risco-país aumentou. Analistas ouvidos pelo mercado argentino também passaram a chamar atenção para esse descolamento.

A diferença é relevante porque, se a deterioração fosse exclusivamente provocada pelas taxas americanas, seria esperado um movimento mais uniforme entre os mercados emergentes. Quando a Argentina cai mais, investidores procuram explicações adicionais nas próprias condições econômicas, monetárias e políticas do país.

Um dos pontos observados é a atividade econômica.

O dado oficial mais recente do Estimador Mensal de Atividade Econômica, referente a maio, mostrou crescimento de apenas 0,2% na comparação anual e retração de 0,5% contra abril na série dessazonalizada. No acumulado dos cinco primeiros meses do ano, a atividade ainda crescia 1,7%, mas a desaceleração em relação aos ritmos observados anteriormente tornou-se mais evidente.

A indústria oferece outro retrato desse contraste. Embora a produção industrial manufatureira tenha crescido 2% em junho na comparação anual, o acumulado entre janeiro e junho permanecia 2,2% abaixo do mesmo período de 2025, segundo o Indec.

Inflação deixou de cair em linha reta

A inflação também voltou ao centro das discussões.

O índice de preços ao consumidor argentino avançou 2,1% em julho, depois de 1,9% em junho. Com isso, a inflação acumulada entre janeiro e julho alcançou 19,3%. O núcleo do índice subiu 1,8% no mês.

A diferença de dois décimos parece pequena, sobretudo diante das taxas mensais de dois dígitos registradas no começo do governo Milei. O problema para o mercado está menos no nível absoluto do que na trajetória: investidores vinham precificando a continuidade do processo de desinflação e qualquer interrupção desse caminho passa a influenciar expectativas de juros, câmbio e renda fixa.

Essa combinação é especialmente sensível porque o governo precisa equilibrar objetivos que podem entrar em tensão. Juros e condições monetárias mais restritivas ajudam a conter a procura por dólares, mas também podem limitar crédito, consumo e investimentos. Uma flexibilização acelerada poderia favorecer a atividade, mas elevar a pressão cambial e inflacionária.

É justamente nesse ponto que o comportamento dos títulos começa a ganhar significado maior do que a variação diária das ações.

Superávit fiscal resiste à piora do mercado

A deterioração financeira ocorreu no mesmo dia em que o Ministério da Economia divulgou um dado favorável para uma das principais âncoras do programa de Milei.

O setor público nacional argentino registrou em julho superávit primário de 2,960 trilhões de pesos e superávit financeiro de 244,897 bilhões de pesos, já considerando o pagamento de juros. Nos sete primeiros meses de 2026, o resultado financeiro positivo ficou em aproximadamente 0,1% do PIB, enquanto o superávit primário correspondeu a cerca de 0,9%.

O dado é importante porque mostra que o aumento do risco-país não decorre, neste momento, de uma ruptura da disciplina fiscal.

Isso diferencia o episódio atual de outras crises argentinas, frequentemente marcadas por déficits elevados, emissão monetária para financiar o Tesouro e perda acelerada de capacidade de pagamento.

A mensagem enviada pelos ativos é mais complexa: o equilíbrio fiscal continua sendo reconhecido, mas já não é suficiente sozinho para sustentar a compressão do risco-país.

O mercado passou a exigir respostas também para crescimento, inflação, reservas internacionais, liquidez da economia e capacidade futura de refinanciamento da dívida.

O grande teste está em 2027

Outro elemento importante é o calendário da dívida.

A Argentina enfrenta mais de US$ 23 bilhões em amortizações de principal denominadas em moeda estrangeira em 2027. Quando os juros são incluídos, os compromissos ultrapassam US$ 32 bilhões, segundo números do Fundo Monetário Internacional citados pela Reuters.

O ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que o governo pretende enfrentar esses pagamentos combinando empréstimos de organismos multilaterais, privatizações e emissões no mercado doméstico, evitando por enquanto uma volta ampla aos mercados internacionais de dívida.

Essa estratégia torna a evolução do risco-país particularmente relevante.

Em maio, quando o indicador havia caído para perto de 500 pontos, já existia discussão sobre quando a Argentina poderia recuperar acesso pleno ao mercado internacional. À época, Caputo chegou a mencionar que um risco de aproximadamente 250 pontos criaria condições muito mais favoráveis, embora o governo sustentasse que não havia urgência em emitir dívida no exterior.

O movimento desde julho está indo na direção contrária.

Eleição presidencial ainda está a mais de um ano

Há também um componente político, mas é importante dimensioná-lo corretamente.

A Argentina não realiza eleição presidencial em 2026. A próxima disputa nacional pela Presidência ocorrerá em 2027, quando Milei poderá buscar a reeleição. Ainda falta mais de um ano, mas gestores começaram a incorporar esse horizonte às avaliações sobre dívida e câmbio, especialmente porque os grandes vencimentos externos também se concentram naquele ano.

O risco político, portanto, não é uma eleição iminente. É a sobreposição de três fatores: vencimentos relevantes, necessidade de manter reservas e possibilidade de mudança das expectativas sobre a continuidade das políticas econômicas depois de 2027.

Em mercados de dívida, essa antecipação é comum. Títulos com vencimentos longos são precificados pela expectativa do que acontecerá durante vários anos, e não apenas pelas condições econômicas da semana corrente.

De 402 para 511 pontos: o alerta que muda a leitura

O melhor resumo da virada está nos próprios números.

Em 10 de julho, o risco-país fechou em 402 pontos. Em 31 de julho, estava em 430. Nesta terça-feira, 18 de agosto, terminou em 511. Isso representa alta de 27,1% desde a mínima de julho e de 18,8% somente em relação ao fechamento daquele mês.

Ainda assim, 511 pontos estão muito distantes dos níveis superiores a 1.400 observados durante o estresse de 2025. Por isso, os dados não sustentam a interpretação de que o programa econômico tenha entrado em uma crise comparável àquelas enfrentadas anteriormente pelo país.

O que mudou foi a assimetria das expectativas.

Durante boa parte do primeiro semestre, bons resultados fiscais, queda da inflação e melhora do crédito argentino alimentavam apostas de valorização dos títulos. Agora, parte dos investidores passou a exigir evidências adicionais de que a estabilização fiscal poderá ser acompanhada por recuperação consistente da atividade, acumulação de reservas e uma trajetória administrável para os vencimentos externos.

O resultado fiscal divulgado nesta terça mostra que Milei ainda preserva uma das peças centrais de seu programa: o superávit. O fechamento dos mercados mostra, ao mesmo tempo, que o preço cobrado pelos investidores para financiar o risco argentino voltou a subir.

Essa divergência — contas públicas superavitárias de um lado e prêmio de risco crescente do outro — deve ser um dos principais indicadores a acompanhar nos próximos meses.

Fontes:

Banco Central da República Argentina — estatísticas monetárias e cambiais oficiais.

Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina — inflação, atividade econômica e produção industrial.

Ministério da Economia da Argentina — resultado fiscal do setor público nacional de julho de 2026.

Rava Bursátil — série histórica do risco-país argentino e fechamento de mercado.

Reuters — dívida externa argentina, estratégia de financiamento e avaliação do risco para 2027.

La Nación e El Cronista — informações de mercado e desempenho dos ativos argentinos no pregão de 18 de agosto.

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