Mensagens reveladas nesta quarta-feira (13) pelo portal The Intercept Brasil mostram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, tratando o banqueiro Daniel Vorcaro como “irmão” em conversas sobre repasses para o filme Dark Horse, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo a reportagem, os diálogos incluíram cobranças por parcelas atrasadas, convite para jantar com o ator Jim Caviezel e mensagens de proximidade pessoal, como “estarei contigo sempre”. A TV Globo informou ter confirmado com investigadores e pessoas com acesso ao caso a existência do áudio e do conteúdo revelado.
O material expõe uma relação direta entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em torno do financiamento do filme. De acordo com o Intercept Brasil, Vorcaro teria pago R$ 61 milhões para a produção de Dark Horse entre fevereiro e maio de 2025. A negociação total, segundo a apuração, poderia chegar a R$ 134 milhões. O dinheiro teria sido transferido para um fundo nos Estados Unidos ligado a um aliado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
As conversas ganharam repercussão porque Daniel Vorcaro está no centro da crise do Banco Master. O banqueiro foi preso pela Polícia Federal (PF) no dia seguinte a uma das últimas mensagens reveladas, enquanto tentava embarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos. A prisão ocorreu em meio a investigações sobre suspeitas de fraudes financeiras, corrupção de servidores públicos e outras irregularidades relacionadas ao banco.
Flávio tratava Vorcaro como “irmão” nas mensagens
Nas mensagens citadas pela reportagem, Flávio Bolsonaro usa tom de proximidade com Daniel Vorcaro. Em um dos trechos, o senador afirma: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
A frase foi enviada em 16 de novembro, após o envio de mensagens de visualização única. Segundo o relato, Vorcaro respondeu também com uma mensagem de visualização única, e Flávio reagiu com “Amém”. No dia seguinte, o banqueiro foi preso pela Polícia Federal.
O tratamento usado por Flávio nas mensagens tornou-se um dos pontos centrais da repercussão política. O senador vinha tentando enquadrar o caso como uma relação privada voltada exclusivamente ao patrocínio de um filme. O teor das conversas, porém, indica uma interlocução próxima, frequente e direta com o dono do Banco Master.
A proximidade não significa, por si só, prática de crime. Até o momento, não há informação pública de que Flávio Bolsonaro tenha sido formalmente acusado de delito por causa do episódio. O senador nega irregularidades, e todos os citados têm direito à defesa e à presunção de inocência.
Ainda assim, a linguagem das mensagens ampliou a pressão política sobre o parlamentar, especialmente porque a negociação envolvia um banqueiro que, naquele período, enfrentava crise regulatória e investigativa.
Áudio mostra cobrança por pagamentos pendentes
Além das mensagens de texto, a reportagem divulgou um áudio enviado por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro em 8 de setembro. Na gravação, o senador afirma que a produção do filme estava em um momento decisivo e que havia parcelas atrasadas.
Flávio diz compreender que Vorcaro enfrentava um “momento dificílimo”. Poucos dias antes, em 3 de setembro, o Banco Central havia rejeitado a compra do Banco Master pelo BRB, decisão que agravou a crise do banco e aumentou a pressão sobre o banqueiro.
Apesar disso, o senador pede uma posição sobre os pagamentos pendentes. Flávio afirma ficar constrangido em cobrar, mas diz que a equipe do filme estava tensa com os atrasos e que havia risco de a produção sofrer um efeito contrário ao esperado.
Na gravação, o senador menciona o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, nomes associados ao projeto internacional. Flávio afirma que seria ruim deixar de honrar compromissos com profissionais reconhecidos do cinema americano e mundial.
O áudio indica que o parlamentar acompanhava de perto a situação financeira da produção. Também mostra que sua interlocução com Vorcaro não era apenas institucional ou genérica, mas vinculada a cobranças específicas por repasses.
Produção estaria “no limite”, segundo mensagens
O Intercept Brasil informou que os contatos entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o filme foram frequentes. Em 22 de outubro, segundo a reportagem, Flávio voltou a enviar mensagens ao banqueiro afirmando que a produção estava “no limite”.
No mesmo dia, o senador teria convidado Vorcaro para um jantar com Jim Caviezel, ator escalado para interpretar Jair Bolsonaro em Dark Horse. O banqueiro aceitou o convite e sugeriu que o encontro ocorresse em sua casa, proposta que teria sido aceita por Flávio.
Esse trecho reforça a existência de uma relação operacional em torno do projeto. As mensagens não tratavam apenas de uma conversa inicial sobre patrocínio, mas de acompanhamento de pagamentos, pressão por desembolsos e articulação de encontros com integrantes da produção.
A reportagem também aponta que muitos contatos ocorreram por ligações telefônicas e por mensagens com imagens de visualização única. Esse tipo de recurso dificulta a reconstrução completa das conversas e deixa lacunas sobre a totalidade das tratativas entre o senador e o banqueiro.
Dinheiro privado é linha de defesa de Flávio
Após a divulgação do caso, Flávio Bolsonaro afirmou que os recursos discutidos eram privados e que o projeto não envolvia dinheiro público. Ao ser questionado por jornalistas ao sair do Supremo Tribunal Federal (STF), o senador deixou a entrevista dizendo se tratar de “dinheiro privado”.
Em nota posterior, Flávio declarou que buscava patrocínio privado para um filme privado sobre a vida de seu pai. Segundo ele, não houve uso da Lei Rouanet, recursos públicos, intermediação de negócios com o governo ou vantagem pessoal.
O senador também afirmou que não ofereceu contrapartidas a Daniel Vorcaro. A defesa tenta separar o episódio de qualquer suspeita de favorecimento político ou institucional.
A principal dificuldade da versão de Flávio é explicar o interesse de Vorcaro em financiar uma produção política de alto custo sobre Jair Bolsonaro. O contexto do Banco Master, somado à proximidade mostrada nas mensagens, mantém a controvérsia no centro da disputa pública.
Negativa anterior ampliou repercussão
Antes da divulgação do áudio e das mensagens, Flávio Bolsonaro havia negado a jornalistas ter pedido dinheiro a Daniel Vorcaro. Ao ser questionado, respondeu que a informação era “mentira”.
Depois da publicação da reportagem, o senador admitiu ter mantido contato com o banqueiro, mas sustentou que a conversa dizia respeito a um patrocínio privado. Essa mudança de tom passou a ser explorada por adversários políticos, que apontam contradição entre a negativa inicial e o teor do material revelado.
A defesa de Flávio tenta delimitar a negativa ao argumento de que ele não pediu dinheiro para si e não recebeu valores pessoalmente. O áudio, porém, mostra uma cobrança por pagamentos ligados ao filme.
Essa distinção será central para a resposta política do senador. O caso não se resume à existência de um pedido de dinheiro, mas ao contexto em que o pedido ocorreu, ao valor envolvido e à identidade do financiador.
Relação com Vorcaro pressiona pré-campanha
A divulgação das mensagens ocorre em um momento sensível para Flávio Bolsonaro. O senador se apresenta como pré-candidato à Presidência da República e tenta se consolidar como uma das alternativas do bolsonarismo para a eleição de 2026.
O caso cria desgaste porque associa o parlamentar a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e personagem central de uma investigação de grande repercussão. A revelação também expõe uma relação pessoal e financeira entre o senador e o banqueiro, com cobranças por valores destinados a uma produção sobre Jair Bolsonaro.
A Associated Press noticiou que Flávio Bolsonaro negou irregularidades após a divulgação de mensagens em que pediu recursos a Vorcaro para o filme The Dark Horse. A agência também destacou que a revelação pode prejudicar a pré-candidatura do senador.
No Congresso, aliados do governo Lula passaram a defender investigação sobre a relação entre Flávio e Vorcaro. Já aliados do senador tentam sustentar que não há crime em buscar patrocínio privado para uma produção privada.
Caso Banco Master ganha novo foco político
A crise envolvendo o Banco Master já mobilizava autoridades, reguladores e o mercado financeiro. A entrada de Flávio Bolsonaro no caso adiciona um componente eleitoral e institucional à investigação.
Daniel Vorcaro é investigado em um caso que envolve suspeitas de fraudes e relações com agentes públicos e privados. Nesse ambiente, qualquer repasse milionário a projeto ligado a uma família política de alcance nacional passa a ter relevância pública.
O ponto sensível é que o financiamento de Dark Horse não aparece isolado. As mensagens indicam conversas diretas, cobranças, proximidade pessoal e tentativa de destravar pagamentos. Esse conjunto amplia as perguntas sobre a origem dos recursos, o destino final do dinheiro e a eventual expectativa de Vorcaro com o apoio financeiro.
A defesa de Flávio sustenta que tudo ocorreu em âmbito privado. A controvérsia, porém, deve continuar enquanto não houver explicação detalhada sobre contratos, contrapartidas, intermediários e motivação econômica do banqueiro.
Mensagens mantêm Flávio sob pressão
As expressões “fala, irmãozão” e “estarei contigo sempre” passaram a sintetizar a proximidade entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Em uma crise política, a linguagem importa porque ajuda a revelar o grau de intimidade e confiança entre os envolvidos.
Para o senador, a prioridade será tentar demonstrar que a relação não extrapolou os limites de um patrocínio privado. Para adversários, as mensagens reforçam a suspeita de que Vorcaro buscava construir laços com uma família politicamente influente enquanto enfrentava problemas no Banco Master.
O caso ainda depende de novos documentos, eventuais manifestações dos envolvidos e possíveis desdobramentos da investigação sobre o banco. Até agora, a revelação já produziu um dano político imediato: mostrou que Flávio Bolsonaro mantinha contato direto e próximo com Daniel Vorcaro para tratar de repasses milionários ao filme sobre Jair Bolsonaro.







