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Eduardo Bolsonaro defende Zelle, recua e reacende disputa sobre origem do Pix

Deputado disse que Brasil poderia usar sistema dos EUA em negociação com Trump, mas depois afirmou ser pró-Pix e atribuiu criação a Bolsonaro.

por Júlia Campos
04/06/2026 às 15h07
em Política
Stf Libera Julgamento De Eduardo Bolsonaro Por Suposta Articulação De Sanções Dos Eua Contra O Brasil-Gazeta Mercantil

Eduardo Bolsonaro (PL-SP) voltou ao centro da disputa política em torno do Pix após defender que o Brasil poderia adotar o Zelle, sistema de pagamentos dos Estados Unidos, como gesto de negociação com o governo de Donald Trump. Depois da repercussão negativa, o deputado afirmou nas redes sociais ser “pró-Pix” e disse que Jair Bolsonaro teria criado o sistema brasileiro, declaração contestada pelo histórico oficial do Banco Central, que mostra que o Pix foi desenvolvido ao longo de uma agenda técnica anterior à sua operação plena em 2020.

A fala ocorreu em meio ao aumento da tensão entre Brasil e Estados Unidos, após novas ameaças tarifárias do governo Trump contra produtos brasileiros. Na avaliação de Eduardo Bolsonaro, o uso do Zelle poderia ser apresentado em uma mesa de negociação com os norte-americanos como forma de aproximação.

Leia também: Mercosul emite declaração conjunta pedindo paz em meio a disputa territorial entre Venezuela e Guiana.

“Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos. Aqui é o Zelle. Então, dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos”, declarou o deputado.

A declaração provocou reação nas redes sociais porque o Pix se tornou uma das principais infraestruturas financeiras do país. O sistema é usado por pessoas físicas, empresas, bancos, fintechs, pequenos comerciantes e prestadores de serviços, com transferências instantâneas todos os dias da semana.

Deputado tenta se desvincular de crítica ao Pix

Após a repercussão, Eduardo Bolsonaro publicou mensagem dizendo ser favorável ao Pix. “Meu pai criou o PIX e eu sou pró PIX”, escreveu o deputado, ao compartilhar vídeo de propaganda do governo Bolsonaro sobre o sistema de pagamentos.

A tentativa de associar Jair Bolsonaro à criação do Pix reacendeu a disputa política sobre a origem da ferramenta. Embora o sistema tenha entrado em operação plena em novembro de 2020, durante o governo Bolsonaro, seu desenvolvimento foi conduzido pelo Banco Central e vinha sendo estruturado antes disso.

O Pix não nasceu de uma decisão isolada do Palácio do Planalto. A ferramenta foi resultado de uma agenda técnica de modernização dos pagamentos de varejo, com participação do Banco Central, instituições financeiras, empresas de tecnologia e integrantes do mercado.

O ponto central da controvérsia está na diferença entre o governo que estava no poder quando o Pix foi lançado ao público e a autoria técnica e regulatória do sistema.

Banco Central liderou desenvolvimento do sistema

A autoria técnica do Pix é atribuída ao Banco Central. A instituição estruturou os grupos de trabalho, definiu regras de funcionamento, padrões de segurança, governança, liquidação e requisitos para participação das instituições financeiras.

A agenda de pagamentos instantâneos já era discutida antes de 2020. Em 2018, o Banco Central criou o Grupo de Trabalho de Pagamentos Instantâneos, reunindo participantes do sistema financeiro e do setor de tecnologia para desenvolver a arquitetura do novo modelo.

Ainda em dezembro de 2018, o BC divulgou diretrizes sobre governança, conectividade e funcionamento do ecossistema de pagamentos instantâneos. Em 2019, o processo avançou com definições operacionais. Em fevereiro de 2020, a marca Pix foi apresentada oficialmente. A infraestrutura operacional foi instituída em junho de 2020, e o regulamento foi aprovado em agosto do mesmo ano.

O sistema passou a operar plenamente em novembro de 2020, durante o governo Bolsonaro. Isso, porém, não equivale a dizer que Jair Bolsonaro tenha criado a tecnologia.

Lei de 2013 abriu caminho regulatório

A base regulatória que permitiu o desenvolvimento de sistemas como o Pix foi fortalecida em 2013, durante o governo Dilma Rousseff, com a Lei nº 12.865. A norma incluiu arranjos de pagamento e instituições de pagamento no Sistema de Pagamentos Brasileiro.

Essa mudança deu ao Banco Central competência para disciplinar, autorizar e supervisionar novos meios de pagamento, incluindo carteiras digitais, instituições de pagamento e modelos de transação fora da estrutura bancária tradicional.

A lei estabeleceu princípios como interoperabilidade, competição, eficiência e acesso não discriminatório. Esses elementos se tornaram fundamentais para a criação de um sistema de pagamentos instantâneos aberto, regulado e de alcance nacional.

Por isso, especialistas costumam tratar o Pix como uma política de Estado, e não como criação exclusiva de um governo. A ferramenta dependeu de legislação, regulação, desenvolvimento técnico e adoção massiva pela população.

Inclusão financeira ajudou adoção em massa

A rápida expansão do Pix também se explica pelo avanço da bancarização e da digitalização financeira no Brasil. O sistema encontrou um país mais conectado ao sistema bancário, com milhões de pessoas já usando contas digitais, aplicativos de bancos e serviços financeiros móveis.

A inclusão financeira ganhou escala ao longo de diferentes governos, com expansão do crédito, contas simplificadas, programas sociais bancarizados, crescimento de fintechs e maior competição no sistema financeiro.

Sem essa base, o Pix poderia ter sido tecnicamente viável, mas dificilmente teria alcançado a mesma velocidade de adoção. A força do sistema está justamente em sua capilaridade: ele é usado por grandes empresas, microempreendedores, trabalhadores informais e consumidores em operações cotidianas.

Essa popularidade ajuda a explicar por que qualquer proposta de substituição ou enfraquecimento do Pix produz reação política imediata.

Zelle tem estrutura diferente da brasileira

A comparação entre Pix e Zelle também exige cautela. Embora ambos permitam transferências digitais rápidas, os sistemas têm estruturas distintas.

O Pix é uma infraestrutura pública operada sob coordenação do Banco Central, com liquidação instantânea e ampla obrigatoriedade de participação para instituições financeiras relevantes. Já o Zelle é uma rede privada de pagamentos dos Estados Unidos, vinculada a bancos participantes.

No Brasil, o Pix se tornou ferramenta de inclusão financeira e redução de custos. Para pessoas físicas, a maior parte das operações é gratuita. Para empresas, o sistema reduziu dependência de meios mais caros de pagamento e ampliou alternativas no varejo.

A adoção de um modelo estrangeiro em substituição ao Pix teria implicações regulatórias, tecnológicas, concorrenciais e econômicas. Por isso, a proposta de Eduardo Bolsonaro foi recebida como tema sensível no debate público.

Pix entra em disputa sobre soberania financeira

O episódio ocorre em um momento de tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos. O governo Trump vem ameaçando tarifas contra produtos brasileiros, o que ampliou a discussão sobre soberania econômica e capacidade de negociação do país.

Nesse contexto, o Pix deixou de ser apenas uma ferramenta bancária e passou a ser tratado como infraestrutura estratégica nacional. O sistema movimenta bilhões de transações, reduz custos, aumenta competição e fortalece a autonomia do Banco Central na organização dos meios de pagamento.

A possibilidade de usar o Zelle como elemento de negociação com Washington colocou o tema no centro da disputa política. Para críticos da proposta, abrir mão do Pix ou subordiná-lo a interesses externos poderia enfraquecer uma inovação brasileira bem-sucedida. Para defensores de uma aproximação com os Estados Unidos, sistemas equivalentes poderiam ser discutidos dentro de uma agenda comercial mais ampla.

O fato concreto é que o Pix se tornou uma das políticas públicas mais populares do país, o que torna qualquer debate sobre sua substituição politicamente delicado.

Disputa sobre autoria expõe uso político do Pix

A tentativa de atribuir a criação do Pix a Jair Bolsonaro mostra como o sistema passou a ser disputado politicamente. O governo Bolsonaro estava no poder quando a ferramenta foi lançada à população, mas os registros técnicos indicam que a construção do Pix foi conduzida pelo Banco Central e antecedeu a operação pública em 2020.

A controvérsia também evidencia o peso eleitoral da ferramenta. Como o Pix é amplamente aprovado e usado pela população, diferentes grupos políticos tentam associar sua imagem ao sistema.

O episódio envolvendo Eduardo Bolsonaro combina três frentes de alta repercussão: tensão com os Estados Unidos, disputa sobre soberania financeira e tentativa de apropriação política de uma inovação criada por uma agenda técnica de Estado.

A partir de agora, o debate deve seguir no centro da agenda pública, especialmente se as ameaças tarifárias norte-americanas avançarem e se o Pix continuar sendo citado como parte das negociações entre Brasil e Estados Unidos.

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