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Ex-funcionária diz que devolvia salário no gabinete de Mario Frias; comprovantes indicam PIX a familiares

Documentos bancários mostram repasses ao ex-chefe de gabinete, à mãe do deputado e pagamento de cartão da esposa; parlamentar nega conhecimento das suspeitas

por Júlia Campos
22/05/2026 às 22h20
em Política
Ex-Funcionária Diz Que Devolvia Salário No Gabinete De Mario Frias; Comprovantes Indicam Pix E Pagamento A Familiares - Gazeta Mercantil

Comprovantes de transferências via PIX e extratos bancários de uma ex-funcionária do gabinete do deputado federal Mario Frias (PL-SP) indicam repasses de parte de sua remuneração ao então chefe de gabinete do parlamentar, Raphael Azevedo, e a familiares dele. Os registros também mostram pagamentos relacionados à mãe e à esposa do deputado entre fevereiro de 2023 e março de 2024.

Gardênia Morais, nomeada secretária parlamentar na Câmara dos Deputados em fevereiro de 2023 e exonerada em maio de 2024, afirma que devolvia mensalmente parte do salário recebido. Segundo ela, o procedimento teria sido combinado com Azevedo e seria de conhecimento de Mario Frias.

Os pagamentos identificados nos comprovantes somam R$ 35.116. A ex-servidora sustenta, porém, que realizou outras transferências que não aparecem no conjunto de documentos apresentado. Ela também afirma que outros funcionários do gabinete teriam participado de práticas semelhantes.

As declarações de Gardênia constituem acusações e ainda dependem de apuração pelas autoridades competentes. Os documentos bancários mostram a existência das movimentações financeiras, mas, isoladamente, não comprovam a finalidade atribuída pela ex-servidora a cada pagamento nem permitem estabelecer responsabilidades criminais.

Transferências começaram após nomeação no gabinete

Os registros indicam que Gardênia recebia a remuneração da Câmara dos Deputados em uma conta no Banco do Brasil. No período analisado, os valores líquidos mensais variaram de aproximadamente R$ 10 mil a R$ 21 mil.

Após o crédito do salário, parte dos recursos era transferida para uma conta da própria servidora no Itaú. Dessa segunda conta saíam pagamentos destinados a Raphael Azevedo, à ex-mulher dele e a outro familiar.

Em fevereiro de 2023, mês em que Gardênia começou a trabalhar no gabinete, foi registrada uma transferência de R$ 4.600 para Azevedo. No mês seguinte, houve outro pagamento ao então chefe de gabinete, desta vez no valor de R$ 5.000.

Os documentos também mostram uma transferência de R$ 1.500 para Azevedo em abril de 2023. Em maio daquele ano, Gardênia enviou R$ 3.200 à ex-mulher do então chefe de gabinete.

Em julho, os registros apontam dois pagamentos: R$ 3.200 para a ex-mulher de Azevedo e R$ 816 para um parente dele. Entre agosto e novembro de 2023, foram realizados outros quatro PIX de R$ 3.200 cada para a mesma destinatária.

O último pagamento identificado diretamente para Azevedo ocorreu em março de 2024, no valor de R$ 4.000.

Raphael Azevedo exerceu o cargo de secretário parlamentar no gabinete de Mario Frias entre fevereiro de 2023 e fevereiro de 2024, de acordo com os registros funcionais da Câmara.

Gardênia afirma que ficava com até R$ 7 mil

Procurada pela Gazeta Mercantil, Gardênia confirmou que devolvia parte do salário recebido como secretária parlamentar. Segundo seu relato, o valor dos repasses aumentava conforme sua remuneração avançava nos níveis salariais previstos para o cargo.

“O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os ‘steps’. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu ‘step’”, declarou.

A ex-servidora afirmou que o acordo teria sido estabelecido no início de sua passagem pelo gabinete. Segundo ela, as operações cotidianas eram tratadas com Azevedo, a quem atribuiu a função de principal auxiliar político e administrativo de Frias naquele período.

“O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado”, afirmou.

Até 22 de maio de 2026, não havia manifestação direta de Mario Frias sobre a afirmação de que teria conhecimento dos repasses. Também não havia informação sobre a abertura de investigação formal destinada a examinar especificamente as movimentações descritas pela ex-servidora.

Documentos registram pagamentos a familiares de Frias

O conjunto de comprovantes também inclui transações relacionadas a parentes do deputado.

Em 29 de janeiro de 2024, Gardênia realizou um PIX de R$ 1.000 para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar. O comprovante bancário registra a destinatária e o valor, mas não apresenta a justificativa do pagamento.

Outro documento indica que, em dezembro de 2023, a então funcionária pagou uma fatura de cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do deputado. A cobrança era de R$ 4.832,32.

Gardênia associa esses pagamentos ao mesmo arranjo que, segundo ela, envolvia a devolução de parte de sua remuneração. Os documentos, contudo, não esclarecem se as duas despesas tinham relação direta com o salário recebido pela servidora ou se decorreram de outra obrigação financeira.

O atual chefe de gabinete de Mario Frias, Diego Ramos, afirmou desconhecer as suspeitas. Ele disse que passou a integrar a equipe depois do período abrangido pelas transações e declarou ter convicção de que o parlamentar também não tinha conhecimento dos fatos relatados.

Não havia, até a data desta publicação, manifestação direta de Maria Lucia Frias ou de Juliana Frias sobre os pagamentos registrados nos comprovantes.

Empréstimos consignados chegaram a R$ 174 mil

Gardênia também declarou ter contratado cinco empréstimos consignados em seu nome enquanto ocupava o cargo na Câmara. As operações somaram R$ 174.886.

Segundo ela, apenas um dos contratos, no valor de R$ 35 mil, foi realizado para atender a uma necessidade pessoal. Os demais teriam sido contratados a pedido de Mario Frias e Raphael Azevedo.

A ex-servidora afirma que os recursos seriam utilizados para o pagamento de compromissos relacionados à campanha eleitoral de 2022. Essa versão ainda não foi confirmada por documentos eleitorais ou por manifestação dos acusados.

“Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa”, declarou Gardênia.

Parte dos valores obtidos nos empréstimos teria sido transferida para Azevedo em datas próximas à liberação do dinheiro. A análise completa dessas operações exigiria a verificação dos contratos bancários, dos destinatários finais e da eventual correspondência entre os créditos e despesas da campanha.

Gardênia afirmou que permaneceu responsável pelo pagamento das parcelas, teve o nome negativado e passou a enfrentar dificuldades financeiras. Segundo ela, sua situação econômica se deteriorou depois da saída do gabinete, e ela passou a morar de favor na residência da ex-sogra.

Saque de R$ 49.999,99 permanece sem destinatário identificado

Os extratos também registram uma movimentação de quase R$ 50 mil realizada em março de 2024.

No dia 26 daquele mês, Gardênia recebeu três depósitos atribuídos a Raphael Azevedo e à esposa dele. As transferências totalizaram R$ 50 mil e foram creditadas em sua conta-salário no Banco do Brasil.

Na mesma data, a então servidora transferiu o dinheiro para sua conta no Itaú. No dia seguinte, 27 de março, sacou R$ 49.999,99 em espécie.

Gardênia afirmou que entregou o valor a outra pessoa, mas não revelou a identidade do destinatário. Também não informou qual seria a origem da obrigação que motivou o saque ou por que a operação foi realizada em dinheiro vivo.

Os registros confirmam a entrada, a transferência entre contas e a retirada do valor, mas não permitem determinar o destino final dos recursos. A identificação de quem recebeu o dinheiro dependeria de depoimentos, registros adicionais ou de eventual investigação com acesso aos dados completos das operações.

A movimentação deverá ser examinada caso as autoridades decidam instaurar procedimento formal sobre as acusações apresentadas pela ex-servidora.

Relato levanta suspeita de devolução de salário

A prática conhecida como “rachadinha” ocorre quando um servidor nomeado devolve parte de sua remuneração ao parlamentar responsável pela indicação ou a pessoas ligadas ao gabinete.

A legislação brasileira não estabelece um crime denominado especificamente “rachadinha”. Dependendo das circunstâncias e das provas reunidas, condutas desse tipo podem ser examinadas sob a perspectiva de crimes como peculato, quando há apropriação ou desvio de recursos públicos em benefício próprio ou de terceiros.

Outros enquadramentos somente podem ser considerados depois da apuração da origem, da finalidade e dos beneficiários das movimentações. A existência de transferências financeiras, por si só, não demonstra que houve desvio de verba pública.

Para caracterizar eventual ilícito, seria necessário comprovar que Gardênia foi obrigada ou orientada a devolver parte do salário, identificar os beneficiários efetivos dos recursos e demonstrar a participação consciente dos envolvidos no arranjo descrito.

Também precisariam ser examinadas as atividades efetivamente desempenhadas pela servidora, os pagamentos realizados durante sua permanência no gabinete, os empréstimos consignados e a relação das operações com despesas pessoais, políticas ou eleitorais.

Ex-chefe de gabinete não respondeu

Diego Ramos afirmou que desconhecia as movimentações relatadas por Gardênia porque ainda não trabalhava no gabinete durante a maior parte do período analisado.

Segundo ele, “aparentemente, são ex-funcionários aproveitando a situação midiática”. O atual chefe de gabinete não apresentou documentos sobre as transações, mas rejeitou a possibilidade de envolvimento de Mario Frias.

Raphael Azevedo não respondeu aos questionamentos sobre os pagamentos recebidos, as transferências destinadas a familiares, os empréstimos consignados e os depósitos que antecederam o saque de R$ 49.999,99.

Mario Frias também não havia apresentado resposta direta sobre as acusações até 22 de maio de 2026. A ausência de manifestação não representa confirmação das alegações feitas pela ex-servidora.

Os documentos permanecem como indícios de relações financeiras entre Gardênia, integrantes do antigo gabinete e familiares das pessoas citadas. A definição sobre a existência de irregularidades dependerá da análise das autoridades, da obtenção dos registros bancários completos e do esclarecimento da finalidade de cada operação.

Tags: Banco do BrasilBanco MasterCâmara dos DeputadosDaniel VorcaroDark HorseFlávio BolsonaroGardênia MoraisItaúMario FriaspeculatoPIXPLPolíticarachadinhaRaphael Azevedo

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