A Embraer (EMBJ3) entregou 65 aeronaves entre abril e junho de 2026, volume 48% superior ao registrado no primeiro trimestre e 7% acima das 61 unidades entregues no mesmo período do ano passado. O resultado, divulgado na quinta-feira (2), representa o melhor desempenho da fabricante brasileira em um segundo trimestre nos últimos 16 anos e reforça a avaliação de que a companhia está avançando no processo de estabilização de sua produção.
A reação do mercado foi positiva. Por volta das 10h20 desta sexta-feira (3), as ações da Embraer subiam 1,68% na B3, negociadas a R$ 84,50. A valorização refletia não apenas o crescimento anual das entregas, mas também o fato de o volume ter superado as projeções divulgadas por algumas instituições financeiras.
No acumulado dos primeiros seis meses de 2026, a empresa entregou 109 aeronaves, contra 91 unidades no mesmo intervalo de 2025. O avanço semestral foi de aproximadamente 20%, desempenho que a Embraer atribuiu à continuidade das medidas adotadas para distribuir a produção de maneira mais equilibrada ao longo do ano.
A melhora reduz, ao menos parcialmente, a concentração histórica das entregas nos últimos meses de cada exercício. Essa concentração costuma elevar a necessidade de capital de giro, pressionar a logística e aumentar os riscos de atrasos causados por fornecedores ou por dificuldades na conclusão das aeronaves.
Aviação executiva concentra aceleração das entregas
A principal contribuição para o desempenho do segundo trimestre veio da aviação executiva. A divisão entregou 45 jatos entre abril e junho, crescimento de 55% sobre as 29 unidades do primeiro trimestre e de 18% em relação aos 38 aviões entregues no segundo trimestre de 2025.
Segundo a fabricante, houve aumento tanto nas entregas de jatos leves quanto nas de aeronaves de médio porte. A Embraer não informou, no comunicado resumido, a distribuição completa por modelo nem a composição dos clientes atendidos no período.
Esses detalhes são relevantes porque diferentes modelos, configurações e contratos possuem preços e margens distintos. Um trimestre com maior participação de aeronaves executivas de maior valor pode produzir uma receita mais elevada, mas a rentabilidade final também depende das condições comerciais negociadas com cada cliente, dos custos de fabricação e do estágio de reconhecimento contábil dos contratos.
Na aviação comercial, foram entregues 20 jatos no segundo trimestre, o dobro das dez unidades registradas entre janeiro e março e 5% acima das 19 aeronaves entregues no mesmo período de 2025. Seis unidades eram do modelo E195-E2, o maior avião atualmente produzido pela companhia nesse segmento.
A divisão de Defesa & Segurança não registrou entregas no segundo trimestre. No primeiro trimestre, a Embraer havia entregue cinco aeronaves militares, incluindo um KC-390 Millennium e quatro A-29 Super Tucano. Dessa forma, o total semestral de 109 aeronaves inclui 30 jatos comerciais, 74 executivos e cinco unidades de defesa.
Metas anuais exigem manutenção do ritmo no segundo semestre
A Embraer manteve a previsão de entregar entre 80 e 85 aeronaves comerciais e entre 160 e 170 jatos executivos em 2026. Considerando o ponto médio dessas faixas, a empresa espera encerrar o ano com aproximadamente 247 aeronaves comerciais e executivas.
Com 30 jatos comerciais entregues no primeiro semestre, a companhia cumpriu entre 35,3% e 37,5% da meta anual dessa divisão. Para alcançar a orientação, ainda precisará entregar entre 50 e 55 unidades comerciais nos seis meses finais do ano.
Na aviação executiva, as 74 entregas realizadas até junho representam entre 43,5% e 46,3% da projeção para o exercício. A divisão terá de entregar entre 86 e 96 aeronaves no segundo semestre para atingir a faixa prevista.
Embora os números revelem que a produção continuará mais concentrada na segunda metade do ano, o volume necessário é semelhante ao observado em 2025. No ano passado, a Embraer entregou 78 jatos comerciais e 155 executivos. Desse total, 52 comerciais e 94 executivos foram entregues no segundo semestre.
A comparação indica que o cumprimento do guidance de 2026 não exige uma mudança radical em relação à capacidade demonstrada pela fabricante no ano anterior. Ainda assim, depende da regularidade no fornecimento de motores, componentes estruturais, sistemas eletrônicos e outros equipamentos aeronáuticos.
A companhia prevê ainda receita consolidada entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões em 2026, margem Ebit ajustada de 8,7% a 9,3% e fluxo de caixa livre ajustado, excluindo a Eve Air Mobility, de pelo menos US$ 200 milhões. As metas foram divulgadas em março, juntamente com os resultados de 2025.
Bancos estimam receita acima do consenso
Os relatórios originais das instituições financeiras não foram disponibilizados publicamente. Segundo informações publicadas pelo InfoMoney, o JPMorgan projetava 61 entregas para o segundo trimestre, quatro unidades abaixo do resultado efetivamente divulgado.
O banco calculou que a composição das 65 entregas pode resultar em receita trimestral próxima de US$ 2,05 bilhões. O valor ficaria cerca de 8% acima do consenso de mercado de US$ 1,91 bilhão e em linha com a estimativa própria da instituição.
Na avaliação atribuída ao JPMorgan, o número maior de jatos executivos compensou um volume inferior ao esperado de aeronaves da família E2. O banco também destacou que a evolução das entregas demonstra avanços no nivelamento da produção.
O Bradesco BBI estimou que o desempenho pode provocar uma elevação de aproximadamente US$ 30 milhões em sua projeção de receita para o trimestre. Para o consenso de mercado, a possível revisão seria de cerca de US$ 45 milhões.
Esses cálculos são projeções e não representam resultados financeiros confirmados. O faturamento de uma fabricante de aeronaves não depende apenas do número de aviões entregues. Modelo, configuração, cliente, preço contratual, condições de pagamento e reconhecimento de receitas de serviços e defesa também afetam o resultado consolidado.
O BBI avaliou ainda que o maior volume pode favorecer a diluição dos custos fixos das divisões comercial e executiva. Em termos operacionais, fábricas e equipes que produzem mais aeronaves conseguem distribuir determinadas despesas entre um número maior de unidades, reduzindo o custo médio.
O efeito sobre as margens, entretanto, somente poderá ser avaliado quando a empresa divulgar as demonstrações financeiras do segundo trimestre. A composição dos clientes, os custos logísticos, eventuais despesas extraordinárias e o mix entre modelos de maior ou menor margem ainda não foram informados.
Carteira de pedidos amplia visibilidade da produção
A evolução das entregas ocorre em um momento de carteira de pedidos elevada. Ao final do primeiro trimestre, o backlog consolidado da Embraer alcançava o recorde de US$ 32,1 bilhões, crescimento de 22% em relação ao mesmo período de 2025.
A carteira representa contratos firmes ainda não convertidos integralmente em receita. Embora ofereça maior previsibilidade, o backlog não elimina os riscos industriais: os pedidos precisam ser transformados em aeronaves concluídas, certificadas, aceitas pelos clientes e entregues dentro dos prazos contratuais.
O valor do backlog do segundo trimestre ainda não foi divulgado. A atualização deverá incorporar, entre outros negócios, uma nova encomenda da empresa de leasing Azorra para 15 aeronaves E195-E2, anunciada em junho.
O contrato inclui direitos de compra de outras 15 unidades e elevou para 54 o número de pedidos firmes da Azorra junto à Embraer. Com o negócio, o programa E2 ultrapassou a marca de 500 encomendas acumuladas.
Analistas do Santander estimaram que o pedido firme, sem considerar as opções adicionais, poderia adicionar aproximadamente US$ 500 milhões à carteira da Embraer. O valor não foi confirmado pela fabricante, que não divulgou os termos financeiros da operação.
Entregas mais equilibradas podem reduzir pressão operacional
Um dos principais pontos observados pelo mercado é a distribuição das entregas ao longo do exercício. No primeiro semestre, a Embraer completou aproximadamente 36% do ponto médio de sua meta comercial e 45% da orientação da aviação executiva.
Segundo o resumo dos relatórios publicado pelo InfoMoney, o percentual comercial ficou acima dos 33% registrados no mesmo período de 2025 e da média de 34% observada nos quatro anos anteriores. Na aviação executiva, o avanço foi mais significativo: 45% da meta anual, contra 39% um ano antes e média histórica de 34%.
Essa mudança tende a reduzir a dependência do quarto trimestre, tradicionalmente o mais forte para a fabricante. Em 2025, por exemplo, a Embraer entregou 91 aeronaves apenas entre outubro e dezembro, o equivalente a 37% das 244 unidades entregues durante todo o ano.
Uma concentração menor pode melhorar a previsibilidade dos recebimentos, facilitar a gestão dos estoques e reduzir a volatilidade do fluxo de caixa. Também pode limitar a necessidade de transportar grande quantidade de componentes e aeronaves em estágios avançados de produção para o fim do exercício.
A estratégia, contudo, não elimina a sazonalidade da indústria. O calendário dos clientes, os processos de aceitação e financiamento e a disponibilidade de peças continuam influenciando o momento em que cada avião é efetivamente entregue.
Próxima divulgação mostrará efeito sobre margens e caixa
O balanço completo do segundo trimestre será a próxima referência para avaliar se o aumento das entregas foi acompanhado por crescimento proporcional da receita, melhora das margens e geração de caixa.
O relatório também deverá apresentar a nova posição da carteira de pedidos e detalhar os impactos das encomendas anunciadas no período. Segundo o calendário de Relações com Investidores da Embraer, a divulgação dos resultados do segundo trimestre está programada para 10 de agosto de 2026.
Até essa publicação, as estimativas de receita e rentabilidade permanecem projeções dos analistas. Os dados confirmados mostram uma aceleração operacional e maior equilíbrio na produção, mas ainda não permitem concluir qual será o efeito final sobre o lucro líquido, as margens e o fluxo de caixa.
O desempenho das entregas também não constitui, isoladamente, indicação de compra ou venda das ações. A cotação depende de expectativas futuras, ambiente macroeconômico, taxas de juros, câmbio, riscos geopolíticos, custos industriais e preço já incorporado aos papéis.
Fontes e documentos
Embraer: Embraer reports 65 aircraft delivered in the second quarter, up 48% quarter-over-quarter — segundo trimestre de 2026 — 2 de julho de 2026
U.S. Securities and Exchange Commission/Embraer: Form 6-K — resultados do quarto trimestre e do exercício de 2025 e guidance de 2026 — 6 de março de 2026
Embraer: Embraer delivers 61 aircraft in the 2nd quarter, up 30% from 2Q24 — segundo trimestre de 2025 — 2 de julho de 2025
Embraer Relações com Investidores: Events Calendar — calendário corporativo de 2026 — consultado em 3 de julho de 2026








