O Bank of America reduziu de forma expressiva sua estimativa de crescimento da economia brasileira para 2027, revisando a projeção de alta de 2,0% para apenas 1,3% do Produto Interno Bruto. Os números foram apresentados nesta sexta‑feira, 3 de julho de 2026, em encontro com jornalistas na cidade de São Paulo pelo chefe de
economia para o Brasil e estratégia para a América Latina da instituição, David Beker. A mudança deriva de dois fatores centrais que devem atuar simultaneamente como freio: a manutenção da taxa Selic em patamar elevado por período mais longo do que se esperava anteriormente e o esgotamento gradual do impulso proporcionado por medidas de estímulo adotadas pelo governo federal. Na avaliação do banco, a desaceleração ocorrerá independentemente de quem venha a ser eleito presidente no pleito do próximo ano; o que pode variar é apenas a intensidade do ajuste fiscal e a qualidade da
política econômica adotada após a disputa.
A nova estimativa coloca o Bank of America em patamar consideravelmente mais cético do que a média do
mercado financeiro e também do que o próprio governo federal. Dados mais recentes do Boletim Focus, pesquisa semanal divulgada pelo
Banco Central com cerca de cem instituições, indicam mediana de crescimento de 1,8% para 2027 e de 2,0% para 2028. Já o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias enviado ao Congresso em abril trabalha com expansão de 2,56% em ambos os anos. A instituição americana, por sua vez, projeta que após o avanço de 1,3% em 2027, o ritmo deve recuar ainda mais, para apenas 1,0% de alta do PIB em 2028. Para o corrente ano de 2026, a projeção permanece em 2,3%, puxada principalmente pelo desempenho ainda forte do
agronegócio e pelo efeito residual das transferências de renda e incentivos ao crédito.
Juros permanecem em 14,25% até final de 2026 e ciclo de cortes só recomeça em meados de 2027
Um dos pilares da revisão para baixo é a convicção de que o Comitê de Política Monetária manterá a taxa Selic em 14,25% ao ano durante todo o resto de 2026, sem novas reduções. Essa posição representa uma mudança clara em relação a meses anteriores, quando o banco projetava encerrar o ano com a taxa em 13,25%. A alteração reflete tanto a deterioração recente das expectativas de inflação — que permanecem acima do teto da meta até meados de 2027 — quanto a pressão cambial e a incerteza sobre a trajetória fiscal. Na avaliação de Beker, o último corte de 0,25 ponto percentual, ocorrido em junho, deve ser o último movimento do ciclo atual, dando início a uma pausa prolongada que só deve ser interrompida em meados do próximo ano.
Quando voltar a se mover, a política monetária o fará com passo lento e cauteloso. A projeção do Bank of America é de quatro reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual ao longo de 2027, levando a Selic para 13,25% no encerramento do ano. Em 2028, são esperadas mais quatro reduções de mesma magnitude, até que a taxa chegue a 12,25% em dezembro. Mesmo assim, permanece em nível considerado fortemente contracionista, com juros reais positivos e elevados, capazes de inibir a tomada de crédito por parte de famílias e
empresas, de pesar sobre o consumo durável e de reduzir a atratividade de projetos de investimento de longo prazo.
O canal de transmissão é direto e amplo. Juros mais altos por mais tempo encarecem financiamentos, alongam o período de retorno de aplicações produtivas e aumentam o peso do serviço da dívida pública, que já se aproxima de 84% do PIB. Para investidores em renda variável, o ambiente pressiona múltiplos de avaliação de ações, reduz o espaço para expansão de margens operacionais e torna ativos de renda fixa comparativamente mais atraentes, alterando a alocação de carteiras em bolsa. Para fundos imobiliários, por sua vez, o patamar elevado de taxa limita a valorização de cotas e pressiona a captação de novos empreendimentos, ainda que a geração recorrente de caixa permaneça o principal critério de escolha.
Atividade hoje é “artificialmente sustentada por medidas insustentáveis”, diz economista‑chefe
O segundo freio, e talvez o mais decisivo na visão do banco, é o esgotamento do impulso proporcionado por medidas de estímulo que mantiveram a atividade aquém do seu potencial de queda, mas que não têm condições de ser repetidas ou mantidas após as eleições. Na frase‑síntese de Beker, a economia brasileira está sendo “artificialmente sustentada por medidas insustentáveis”. A avaliação é que o conjunto de expansão de benefícios sociais, reajustes acima da inflação para servidores, incentivos tributários setoriais e medidas de expansão do crédito público funciona como um suporte de curto prazo, mas não cria capacidade de crescimento autossustentado e encontra limites claros nas próprias contas públicas.
Dados do próprio governo, contidos nas peças orçamentárias para 2027, já apontam para um arrefecimento programado: o crescimento real da despesa primária fica limitado a 0,6% acima da variação do IPCA, benefícios tributários são congelados ou reduzidos e gatilhos de ajuste automático do arcabouço fiscal são acionados caso as metas de resultado primário não sejam cumpridas. Como mais de 90% do orçamento federal é composto por gastos obrigatórios e com crescimento atrelado a índices legais, a fatia discricionária que pode ser ajustada é pequena — o que torna o ajuste mais lento ou mais doloroso sobre os programas que ainda têm alguma flexibilidade.
Para o Bank of America, esse duplo choque — monetário de um lado, fiscal do outro — retira simultaneamente os dois principais motores que mantiveram o PIB em movimento acima do seu equilíbrio de longo prazo. Sem o impulso adicional do gasto público e com o dinheiro ainda caro e pouco acessível, a
economia tende a caminhar com velocidade bem menor, independentemente da orientação ideológica do próximo governo. O que o resultado eleitoral pode alterar, na leitura da instituição, é a composição desse ajuste, a velocidade com que ele é implementado e a confiança com que o mercado o recebe — mas não a existência da própria desaceleração.
Projeção de 1,3% em 2027 é 0,7 ponto percentual abaixo da antiga estimativa e contrasta com governo
A dimensão da revisão chama atenção: o corte de 0,7 ponto percentual em relação à projeção anterior de 2,0% para 2027 é uma das maiores alterações promovidas por uma instituição de grande porte nos últimos meses e aprofunda uma divisão já visível no mercado. De um lado, analistas que ainda veem espaço para crescimento em torno de 1,8%–2,0% com inflação convergindo gradualmente para a meta e ciclos de cortes mais cedo ou mais profundos. Do outro, vozes como a do Bank of America, para as quais a combinação de inflação persistente, dívida pública em trajetória ainda não estabilizada e juros externos elevados impõem uma barreira difícil de transpor.
Para 2028, a estimativa de apenas 1,0% de expansão do PIB também fica um ponto percentual abaixo da mediana do Boletim Focus, que permanece estacionada em 2,0% há mais de cem semanas consecutivas. Se confirmada, a trajetória desenhada pelo banco significaria um período de três anos consecutivos — 2026, 2027 e 2028 — com ritmo de expansão decrescente: de 2,3% para 1,3% e depois para 1,0%. Trata‑se de um perfil de crescimento baixo para um país com renda per capita ainda em fase de recuperação e com necessidades enormes de investimento em infraestrutura, transição climática e inclusão produtiva.
Beker ressalva, no entanto, que não se trata de uma previsão de recessão, mas sim de um retorno mais rápido e acentuado do que o esperado para uma velocidade de cruzeiro modesta. A economia não deve encolher, mas também não deve gerar ganhos expressivos de renda real ou de emprego formal no período. Para empresas, o ambiente significa demanda doméstica mais fraca, pressão maior sobre eficiência e custos e necessidade de buscar produtividade em vez de contar com a expansão natural do mercado.
Para o trabalhador, significa concorrência maior por vagas e reajustes salariais mais contidos.
Ajuste fiscal virá depois da eleição, mas intensidade e desenho ainda são desconhecidos
Um ponto‑chave na análise do Bank of America é a convicção de que algum tipo de ajuste nas contas públicas ocorrerá logo após a posse do próximo governo, em janeiro de 2027. A instituição não aposta em um vencedor nem em uma plataforma específica, mas parte da constatação matemática de que a dívida pública em ascensão e o conjunto de regras atuais do arcabouço fiscal forçarão medidas de contenção de despesa ou de ampliação de receita, cedo ou tarde. O que
hoje falta é clareza sobre como esse ajuste será feito: se por via de cortes em investimentos e programas sociais, se por reforma tributária adicional, se por mudança nas regras de gastos obrigatórios ou por uma combinação dessas peças.
Essa incerteza, por si só, já funciona como mais um fator de contenção sobre o investimento privado. Empresas e famílias tendem a adiar decisões de maior porte enquanto não tiverem visibilidade sobre a carga tributária futura, sobre o custo do crédito e sobre o ritmo geral da economia. Quanto mais tempo durar a indefinição política e fiscal, mais fraco tende a ser o desempenho do PIB já no primeiro semestre de 2027. Mesmo assim, para o banco, a desaceleração seria observada em qualquer cenário eleitoral, pois deriva de restrições macroeconômicas que transcendem preferências partidárias.
Na avaliação do economista, o esforço fiscal atual do governo é real e demonstra compromisso com as metas anunciadas, mas ainda é insuficiente para promover a estabilização da relação dívida/PIB em um horizonte curto ou médio. Para tanto, seria necessário um ajuste primário maior do que o que está desenhado hoje — algo que, na prática, só poderá ser construído com apoio político no Congresso depois da eleição. Enquanto isso, a política monetária continua carregando quase todo o peso do combate à inflação, mantendo os juros em níveis que penalizam o crescimento.
Riscos externos e inflação doméstica limitam espaço para alívio mais rápido da Selic
Dois fatores adicionais explicam por que o Bank of America não antecipa cortes mais numerosos ou mais rápidos da taxa básica. O primeiro é a própria dinâmica dos preços domésticos: a inflação de serviços permanece resiliente, os núcleos de inflação ainda aceleram em algumas medidas e as expectativas para o IPCA de longo prazo permanecem acima do centro da meta, em torno de 3,5%–4,0%. O segundo é a política monetária dos Estados Unidos, onde o Federal Reserve ainda sinaliza possibilidade de novas elevações ou, no mínimo, de manutenção de juros elevados por tempo prolongado — o que reduz a liberdade do Copom para se distanciar para baixo sem provocar desvalorização cambial e pressão inflacionária adicional.
Para o Brasil, o equilíbrio é delicado. Qualquer movimento de queda da Selic que não seja acompanhado por dados de inflação convincentes e por uma postura igualmente branda do Fed corre risco de se dissipar em câmbio mais fraco e preços administrados e de importação mais altos — anulando, em última instância, o próprio benefício que se buscava com a redução dos juros. Nesse sentido, a pausa longa projetada pelo banco funciona como uma estratégia de preservação de espaço para o futuro: manter a taxa alta hoje para, com inflação mais controlada amanhã, poder reduzi‑la com segurança e sem retrocessos. O custo desse caminho, admite Beker, é um PIB mais baixo no curto e no médio prazo.
Revisão do crescimento altera avaliação de ativos e expõe desacordo com consenso
A alteração significativa na trajetória do produto interno bruto também vem acompanhada de ajustes na visão do Bank of America sobre ativos brasileiros. Recentemente, a instituição reduziu sua recomendação para ações do Brasil de “acima do peso” para “neutro” dentro da carteira de referência da América Latina, justamente por antecipar juros mais altos por mais tempo e lucros corporativos menores do que o consenso precifica. A preferência dentro do mercado acionário passa a recair sobre empresas com balanços robustos, geração de caixa consistente e menor sensibilidade ao ciclo doméstico — especialmente nomes do setor financeiro com qualidade de ativos preservada e de utilidades públicas com reajustes regulatórios previsíveis.
Para o mercado de câmbio, a instituição projeta taxa de câmbio em R$ 5,25 por
dólar ao final de 2026 e mantém esse patamar durante 2027, sustentada em parte pelos preços ainda favoráveis de commodities exportadas pelo país, mas limitada pelo diferencial de juros que, embora ainda largo, deve encolher apenas muito gradualmente. Para o investidor pessoa física, a mensagem que sai da coletiva é de cautela e de realismo: o período de crescimento mais baixo do PIB que se aproxima não é uma queda‑livre, mas também não é um ambiente de retorno fácil ou rápido em nenhuma classe de ativos.
Projeção mais fraca para 2027 aprofunda debate sobre modelo de crescimento pós‑eleição
Ao colocar o crescimento brasileiro quase um ponto percentual abaixo da média do mercado para os próximos dois anos, o Bank of America devolve ao centro da discussão uma pergunta que costuma aparecer com força em ano eleitoral: de onde virá o próximo ciclo de expansão sustentada do PIB. Na ausência de espaço fiscal para novos estímulos e com a política monetária ainda de pé no freio, a instituição sugere que apenas ganhos de produtividade, abertura comercial, melhoria do ambiente regulatório e estabilidade institucional capaz de atrair investimento externo de longo prazo poderiam elevar de forma duradoura a velocidade da economia.
Como nenhum desses fatores depende apenas de medidas de curto prazo, a conclusão implícita é que o período de crescimento modesto deve durar algum tempo — independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto a partir de 2027. O que o próximo governo poderá decidir, e isso faz toda a diferença, é se o ajuste que virá será feito de forma ordenada, com regras claras e preservando o mínimo de investimento público, ou se será um ajuste forçado pela restrição orçamentária, com cortes casuais e perda de qualidade do gasto. Em qualquer das versões, porém, a economia caminhará mais devagar do que se imaginava até pouco tempo atrás.