O Brasil pode ter sua classificação soberana revista negativamente antes da conclusão do ciclo eleitoral de 2026 caso o quadro fiscal continue se deteriorando e as medidas de ajuste sejam consideradas insuficientes. A avaliação foi apresentada por Jeferson Bittencourt, head de Macroeconomia do ASA, em coletiva realizada na terça-feira (4). O economista ponderou que as agências podem evitar decisões durante a campanha para não serem interpretadas como participantes do processo político, mas afirmou que esse comportamento não oferece garantia de postergação.
O alerta não corresponde a uma indicação formal de rebaixamento. Até esta quarta-feira (5), Moody’s, S&P Global Ratings e Fitch Ratings mantinham perspectiva estável para a nota do Brasil. A Moody’s classifica o país em Ba1, enquanto S&P e Fitch atribuem BB. As três avaliações permanecem abaixo do grau de investimento.
A perspectiva estável registra a avaliação corrente das agências, mas não impede uma mudança diante de fatos materiais. O rating soberano expressa uma opinião sobre a capacidade e a disposição de um governo para honrar obrigações financeiras. Ele não determina mecanicamente o custo da dívida, embora influencie a percepção de risco, o prêmio exigido por investidores e as regras de fundos que restringem ativos de grau especulativo.
Notas seguem estáveis, mas fiscal limita avanço
A Fitch reafirmou em junho a nota BB do Brasil, com perspectiva estável. A agência destacou o tamanho e a diversidade da economia, a flexibilidade cambial e a robustez das contas externas, mas apontou o endividamento elevado, a trajetória ascendente da dívida e a rigidez orçamentária como restrições. A S&P também manteve BB em junho, em decisão que incorporou o ambiente anterior às eleições de outubro.
Na Moody’s, a nota Ba1 foi reafirmada com perspectiva estável na última ação soberana localizada, publicada em maio de 2025. Na ocasião, a agência apontou capacidade de absorção de choques, mas elevou sua estimativa para a dívida pública. A perspectiva estável, em qualquer das três escalas, não representa compromisso de preservação automática da nota.
Para Bittencourt, o principal fator capaz de alterar esse equilíbrio é a confiança na estratégia fiscal. O ASA reconhece que o Brasil conserva reservas internacionais elevadas, economia diversificada, câmbio flutuante e financiamento relevante das contas externas por investimento direto. Esses amortecedores reduzem a vulnerabilidade externa, mas não substituem a necessidade de estabilizar o endividamento público.
A instituição já havia advertido, em análise publicada em junho, que era difícil identificar um ajuste fiscal em curso. O texto assinado por Bittencourt apontou o avanço simultâneo da dívida bruta e da dívida líquida e sustentou que o atual arcabouço, isoladamente, não seria suficiente para produzir trajetória compatível com melhora do rating.
Dívida bruta sobe a 81,9% do PIB
Os números mais recentes do Banco Central reforçam a centralidade do tema. A dívida bruta do governo geral atingiu R$ 10,8 trilhões em junho, equivalente a 81,9% do Produto Interno Bruto. O indicador avançou 0,9 ponto percentual em relação a maio e acumulou alta de 3,3 pontos em 2026. Segundo o BC, a incorporação de juros nominais foi o principal fator de crescimento no ano.
A dívida líquida do setor público chegou a R$ 9 trilhões, ou 68,5% do PIB, com aumento de 0,6 ponto no mês e de 3,2 pontos no ano. A medida desconta ativos financeiros do setor público e ajuda a avaliar a qualidade do balanço estatal, embora a dívida bruta seja a referência mais frequente nas comparações internacionais.
Em 12 meses até junho, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 157,2 bilhões, correspondente a 1,19% do PIB. Os juros nominais alcançaram R$ 1,160 trilhão, ou 8,80% do PIB, e o déficit nominal chegou a R$ 1,318 trilhão, equivalente a 9,99% do PIB. A pressão, portanto, decorre tanto do desequilíbrio primário quanto do custo de carregamento da dívida.
O Tesouro Nacional também descreveu o cenário como desafiador. Em relatório divulgado no fim de junho, o órgão afirmou que a dívida tende a crescer no curto prazo e que sua estabilização no médio prazo depende de medidas de consolidação, por recuperação de receitas ou revisão de despesas. A trajetória projetada, assim, está condicionada à execução de políticas ainda sujeitas ao processo político.
Operações parafiscais ampliam zona de incerteza
Outro ponto levantado pelo ASA é a expansão de mecanismos parafiscais, como políticas de crédito, garantias, fundos e operações conduzidas fora da despesa primária convencional. Parte dessas iniciativas pode não aparecer imediatamente no resultado primário, mas produzir efeitos sobre o resultado nominal, a necessidade de financiamento e os riscos assumidos pelo governo.
Nem toda operação de crédito público representa perda fiscal. Em muitos casos, a União recebe um ativo ou uma obrigação de pagamento. O impacto depende da remuneração, do risco de recuperação, do subsídio, do prazo e do custo de captação do Tesouro. Quando o retorno do ativo fica abaixo do custo do passivo ou o risco é absorvido pelo setor público, o efeito econômico pode ser negativo mesmo sem despesa primária imediata.
Na coletiva, Bittencourt associou a preocupação ao crescimento da dívida líquida e à qualidade dos ativos constituídos pelo governo. O detalhamento público da estimativa monetária mencionada no encontro, entretanto, não havia sido localizado em documento oficial do ASA até o fechamento. Por essa razão, o valor não é apresentado como dado fiscal consolidado nesta reportagem.
Para as agências, a questão não se restringe ao enquadramento contábil. Transparência, previsibilidade e coerência entre medidas anunciadas e decisões posteriores integram a avaliação institucional. Operações que transferem risco ao Tesouro, criam obrigações contingentes ou dificultam a leitura das contas podem afetar a confiança antes que uma perda apareça integralmente na dívida.
Reservas e dívida em reais amortecem o risco externo
O Brasil chega a essa discussão com posição externa mais resistente do que em crises anteriores. Reservas internacionais, câmbio flutuante, mercado doméstico de dívida e predominância de obrigações em moeda local reduzem a exposição direta do governo a movimentos cambiais. Essas características ajudam a explicar por que o país mantém nota próxima do grau de investimento apesar da dívida elevada.
A proteção, contudo, tem limites. Um país pode preservar reservas robustas e sofrer deterioração do crédito soberano por causa da dinâmica fiscal interna. O rating combina dimensões econômicas, institucionais, fiscais e externas. Para o ASA, a fragilidade brasileira está na ausência de uma trajetória convincente de estabilização da dívida.
Pacote fiscal será teste de credibilidade
Bittencourt afirmou que as próximas medidas fiscais funcionarão como teste para as classificadoras. O efeito dependerá da capacidade de execução, do impacto permanente sobre receitas e despesas e da coerência do conjunto. Um pacote apoiado em receitas temporárias ou compensado por novas expansões de gastos tende a produzir menos confiança do que mudanças estruturais e verificáveis.
Essa distinção ganha peso em ano eleitoral. As agências observam não apenas a aprovação formal das medidas, mas sua probabilidade de cumprimento, o apoio político e a permanência das regras depois de mudanças no governo ou no Congresso. O ASA defende contenção do crescimento real das despesas, redução de exceções ao regime fiscal e revisão mais ampla de gastos, posição que não representa consenso entre economistas nem exigência idêntica das três agências.
Do lado oficial, o Tesouro sustenta que a estabilização pode resultar de uma combinação entre receitas e revisão de despesas. O contraste revela o núcleo do debate: mais do que cumprir uma meta anual, o governo precisa mostrar que o resultado primário avançará o suficiente para compensar a relação entre juros e crescimento e impedir alta continuada da dívida em proporção do PIB.
Calendário político não impede revisão
A possibilidade de as agências aguardarem o fim das eleições decorre do cuidado com decisões sensíveis durante campanhas. Não existe, porém, regra que proíba uma ação de rating nesse período. Cada classificadora mantém calendário próprio e pode alterar nota ou perspectiva quando entende que os fundamentos mudaram de forma relevante.
Na avaliação de Bittencourt, a espera pode ocorrer se houver expectativa de um pacote fiscal crível após a eleição. O cenário muda caso as medidas sejam consideradas tímidas, incoerentes ou incapazes de conter a dívida. Nesse caso, as agências poderiam concluir que a deterioração já está suficientemente caracterizada para uma ação anterior ao encerramento do ciclo político.
Há ainda diferença entre rebaixar a nota e alterar sua perspectiva. Uma mudança de estável para negativa sinalizaria maior possibilidade de rebaixamento futuro, sem reduzir imediatamente a classificação. Uma ação direta sobre o rating colocaria o país em nível inferior. Até o fechamento, nenhuma das três grandes agências havia anunciado qualquer dessas medidas.
Execução das medidas definirá resposta das agências
O risco apontado pelo ASA permanece, portanto, condicionado. Os dados mostram aumento da dívida e déficit nominal elevado, enquanto as decisões recentes das agências preservam as notas e reconhecem os amortecedores externos. Não há evidência pública de rebaixamento iminente, mas tampouco existe proteção associada ao calendário eleitoral.
Nos próximos meses, a avaliação será formada pela combinação entre anúncio, aprovação e execução das medidas. Para evitar uma revisão negativa e criar condições de recuperar o grau de investimento, o Brasil terá de demonstrar que consegue estabilizar a dívida sem depender continuamente de receitas extraordinárias, exceções recorrentes ou instrumentos que reduzam a transparência fiscal. É essa capacidade, mais do que a proximidade das urnas, que definirá a margem de tolerância das agências.









