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Há quatro anos, Lula e Bolsonaro iniciavam campanhas que definiriam a eleição de 2022

Atos em São Bernardo do Campo e Juiz de Fora anteciparam temas, símbolos e estratégias da disputa presidencial decidida por menos de dois pontos percentuais.

por Carlos Menezes
18/08/2026 às 00h03
em Política
Há 4 Anos, Lula E Bolsonaro Iniciavam Campanhas Que Definiriam A Eleição De 2022 - Gazeta Mercantil

Quatro anos antes da abertura da campanha presidencial de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) saíam às ruas para uma disputa que acabaria se tornando uma das mais acirradas da história recente do país. Em 16 de agosto de 2022, primeiro dia autorizado para a propaganda eleitoral daquele ano, os dois principais candidatos escolheram locais diretamente associados às próprias trajetórias para iniciar a corrida pelo Palácio do Planalto.

Bolsonaro, então presidente e candidato à reeleição, foi a Juiz de Fora, em Minas Gerais, cidade onde havia sido vítima de uma facada durante a campanha de 2018. Lula iniciou sua agenda eleitoral em São Paulo e fez o principal ato daquele dia em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, região onde havia construído sua carreira sindical e política décadas antes.

As escolhas estavam longe de ser apenas geográficas. Cada campanha procurava transformar o primeiro dia em uma síntese da candidatura. Bolsonaro retomava o episódio que marcou sua ascensão à Presidência quatro anos antes e reforçava pautas conservadoras e sua ligação com o eleitorado evangélico. Lula retornava ao universo industrial e sindical do ABC para apresentar a eleição como uma retomada de suas origens e concentrar o discurso em emprego, renda, fome e nas críticas ao governo que pretendia derrotar.

Naquele momento, ainda faltavam 75 dias para o segundo turno. O resultado final mostraria o tamanho da polarização que já estava presente nas primeiras horas da campanha: Lula seria eleito com 60.345.999 votos, ou 50,90% dos votos válidos, contra 58.206.354 votos, ou 49,10%, de Bolsonaro. A diferença foi de pouco mais de 2,1 milhões de votos em um universo superior a 118 milhões de votos válidos.

Bolsonaro voltou à cidade da facada de 2018

A escolha de Juiz de Fora pela campanha de Bolsonaro procurava resgatar um dos acontecimentos mais marcantes de sua trajetória política. Em 6 de setembro de 2018, quando ainda era candidato à Presidência, ele foi esfaqueado enquanto era carregado por apoiadores durante uma caminhada no centro da cidade. Quatro anos depois, voltou ao município como presidente da República e candidato a um segundo mandato.

A agenda começou com um encontro com pastores e apoiadores. Bolsonaro também participou de uma motociata e, posteriormente, discursou em um trio elétrico na região central, próximo ao local do atentado de 2018. A presença de lideranças religiosas logo no início da programação indicava a importância que o eleitorado evangélico teria novamente na estratégia eleitoral do então presidente.

No discurso, Bolsonaro retomou temas que já haviam se tornado elementos permanentes de sua plataforma política. Defendeu posições contrárias à legalização do aborto e das drogas, falou sobre propriedade privada e dirigiu críticas ao PT e aos governos anteriores comandados pela legenda. Em um dos ataques daquele dia, afirmou que o Brasil havia sido “roubado pela ‘esquerdalha’ que estava no poder”.

Economia, inflação e combustíveis também estavam entre os assuntos do primeiro ato. O país havia atravessado meses de aumento de preços, enquanto o governo adotava medidas para reduzir a tributação sobre combustíveis às vésperas da eleição. Bolsonaro precisava defender o desempenho de sua administração ao mesmo tempo em que enfrentava um adversário que transformava a situação econômica e social em um dos principais argumentos para a mudança de governo.

A então primeira-dama Michelle Bolsonaro e o general Walter Braga Netto, candidato a vice-presidente, participaram do evento. A presença de Michelle antecipava também o papel que ela desempenharia ao longo da campanha na interlocução com segmentos religiosos e com o eleitorado feminino.

Lula voltou ao ABC para marcar suas origens

Se Bolsonaro escolheu um lugar associado à campanha que o levou ao poder, Lula recorreu ao ponto de partida de sua própria trajetória política. O petista esteve em São Bernardo do Campo, onde ganhou projeção nacional como dirigente sindical durante as greves dos metalúrgicos do ABC no fim da década de 1970.

A agenda daquele 16 de agosto incluía compromissos com trabalhadores e uma visita à fábrica da Volkswagen, na Via Anchieta. A programação divulgada oficialmente pela campanha previa ainda passagem pela MWM Motores, em São Paulo, antes da ida a São Bernardo e, à noite, a participação na posse de Alexandre de Moraes na presidência do Tribunal Superior Eleitoral.

Na fábrica, Lula recuperou a própria história como metalúrgico e dirigente sindical. A estratégia era apresentar sua biografia como contraponto ao governo Bolsonaro e reconstruir a ligação entre o candidato, a indústria e o emprego formal. O ABC funcionava, portanto, simultaneamente como cenário de campanha e elemento da mensagem política.

O discurso, entretanto, não permaneceu no terreno da memória. Lula criticou a condução da pandemia de Covid-19 pelo governo federal, falou sobre as centenas de milhares de mortes registradas no país e elevou o tom contra Bolsonaro, a quem chamou naquele ato de “possuído pelo demônio”. Também acusou o adversário de explorar politicamente a religião e de disseminar informações falsas contra seus opositores.

Outro eixo foi a situação social. Lula tratou da fome e da pobreza e prometeu mudanças na política econômica caso voltasse ao Palácio do Planalto, incluindo revisão da tabela do Imposto de Renda. Emprego, renda e combate à fome permaneceriam entre os principais temas de sua campanha até o segundo turno.

Dois lançamentos anteciparam a polarização

Observados quatro anos depois, os primeiros atos funcionam como uma espécie de resumo antecipado da eleição de 2022. Bolsonaro abriu a campanha combinando conservadorismo, religião, crítica ao PT e defesa de seu governo. Lula iniciou a corrida eleitoral falando de trabalhadores, situação econômica, desigualdade social e críticas à administração do adversário.

A eleição começou oficialmente em 16 de agosto porque a legislação eleitoral permite a propaganda geral a partir dessa data. A mesma regra permanece no calendário de 2026: encerrado o período de registros em 15 de agosto, a propaganda nas ruas e na internet passou a ser autorizada no domingo, dia 16.

Em 2022, uma pesquisa Ipec divulgada na véspera do início da campanha apontava Lula com 44% das intenções de voto e Bolsonaro com 32%. O resultado das urnas mostraria uma disputa consideravelmente mais próxima do que aquela fotografia inicial sugeria.

No primeiro turno, realizado em 2 de outubro, Lula recebeu 57.259.504 votos, equivalentes a 48,43% dos válidos. Bolsonaro obteve 51.072.345 votos, ou 43,20%. Nenhum dos dois alcançou a maioria absoluta, levando a disputa para um segundo turno exclusivamente entre os dois candidatos.

A distância entre ambos cairia ainda mais nas quatro semanas seguintes. Com 100% das seções totalizadas no segundo turno, Lula terminou com 50,90% e Bolsonaro com 49,10%. A vantagem do petista foi de 2.139.645 votos.

De 2022 a 2026, o cenário mudou

A lembrança daqueles atos ganha outro significado em agosto de 2026 porque o país acaba de entrar novamente no período oficial de campanha. O TSE estabeleceu 16 de agosto de 2026 como o início da propaganda eleitoral geral, depois do encerramento do prazo de registro das candidaturas no dia 15.

Desta vez, porém, a configuração da disputa mudou. Lula voltou a ser registrado pelo PT para concorrer à Presidência, enquanto o nome apresentado pelo PL é o senador Flávio Bolsonaro. Até a manhã de 14 de agosto, ambos já estavam entre os pedidos de registro protocolados perante o Tribunal Superior Eleitoral.

Lula voltou também ao simbolismo do ABC. A campanha de 2026 escolheu São Bernardo do Campo para sua largada, desta vez com um ato na Vila Euclides, espaço diretamente associado às grandes mobilizações sindicais que projetaram sua liderança política. A própria campanha havia anunciado previamente o local como referência ao início de sua trajetória.

A repetição do cenário mostra como campanhas presidenciais recorrem à memória política para construir mensagens sobre o presente. Em 2022, Lula e Bolsonaro iniciaram suas trajetórias eleitorais em lugares que condensavam suas respectivas biografias. Um retornava ao chão de fábrica que o havia levado da liderança sindical à política nacional. O outro regressava à cidade onde um atentado havia alterado sua campanha presidencial quatro anos antes.

O que parecia apenas uma escolha para o primeiro compromisso oficial acabou antecipando muito do que viria pela frente. A eleição de 2022 foi construída em torno da oposição entre dois projetos, duas trajetórias e dois eleitorados fortemente mobilizados. Quando as urnas foram fechadas em 30 de outubro, a diferença entre vencedor e derrotado foi inferior a dois pontos percentuais.

Quatro anos depois, o calendário eleitoral volta ao mesmo ponto de partida, mas com uma composição diferente. A campanha de 2026 começa carregando parte das referências e das divisões deixadas por 2022 — ao mesmo tempo em que os partidos tentam definir quais temas, personagens e símbolos conseguirão mobilizar o eleitorado desta vez.

Fontes:

Tribunal Superior Eleitoral — calendário eleitoral, regras de propaganda e resultados oficiais das Eleições 2022 e informações sobre os registros das Eleições 2026.

Partido dos Trabalhadores — programação oficial da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em agosto de 2022.

Site oficial de Luiz Inácio Lula da Silva — informações sobre a abertura da campanha presidencial de 2026 em São Bernardo do Campo.

Tags: campanha presidencialeleições 2022Eleições 2026Flávio BolsonaroJair BolsonaroJuiz de ForaLulaPolíticaSão Bernardo do CampoTSE

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