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Ministério da Justiça pede à PF investigação de ameaças contra Ana Elisa após disputa com Nikolas

Deputada eleita pelo PT nega autoria de publicação sobre fechamento de igrejas, mas reconhece mensagens antigas e pede desculpas; governo acionou a PF para apurar ameaças de morte e estupro.

por Júlia Campos
09/10/2026 às 17h13
em Política
Ministério Da Justiça Pede À Pf Investigação De Ameaças Contra Ana Elisa Após Disputa Com Nikolas - Gazeta Mercantil - Política

O Ministério da Justiça e Segurança Pública pediu nesta sexta-feira (9) à Polícia Federal (PF) a abertura de um inquérito para investigar ameaças de morte e estupro contra Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), de 21 anos, eleita deputada federal por Minas Gerais. A iniciativa ocorreu após a parlamentar denunciar ataques nas redes sociais, intensificados durante uma disputa pública com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). O conflito começou com a divulgação de publicações atribuídas à petista sobre igrejas e lideranças religiosas, cuja autenticidade passou a ser questionada pela equipe da deputada eleita.

O pedido de investigação foi encaminhado pela Secretaria Nacional de Acesso à Justiça ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, por meio do Ofício nº 974/2026/DIPRODI/SAJU/MJ. Assinado pela secretária Sheila Santana de Carvalho, o documento solicita a identificação dos responsáveis pelas ameaças e providências junto às plataformas digitais para interromper a circulação dos conteúdos ofensivos. Até a divulgação do pedido, não havia confirmação pública de abertura de inquérito federal ou identificação dos autores das mensagens.

A controvérsia ganhou novos elementos ao longo desta sexta-feira. Em comunicado oficial, Ana Elisa negou ter defendido o fechamento de igrejas, como sugere uma imagem divulgada por Nikolas na quinta-feira (8), e anunciou que solicitará uma perícia para verificar sua autenticidade. Ao mesmo tempo, reconheceu a existência de outras publicações antigas, feitas quando era adolescente, e pediu desculpas a pessoas que possam ter se sentido ofendidas. A manifestação estabelece uma diferença entre mensagens cuja autoria foi admitida e uma publicação específica que continua sendo contestada.

Ana Elisa e Nikolas foram os dois candidatos a deputado federal mais votados em Minas Gerais nas eleições de 4 de outubro. O parlamentar do PL recebeu 3.119.318 votos, enquanto a petista conquistou 524.219. A diferença de aproximadamente 2,6 milhões de votos colocou ambos entre os principais nomes da representação política mineira, embora em campos partidários opostos. A disputa nas redes ganhou repercussão nacional depois que Ana Elisa passou a colaborar com a comunicação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), marcado para 25 de outubro.

Ana Elisa nega postagem sobre igrejas e admite outras mensagens antigas

A publicação que desencadeou o confronto foi compartilhada por Nikolas Ferreira e atribuída a uma mensagem supostamente escrita por Ana Elisa em 2 de outubro de 2022. O conteúdo, apresentado como uma captura de tela da antiga plataforma Twitter, sugeria que ela havia pedido a Lula o fechamento de igrejas evangélicas. A imagem foi divulgada durante a campanha presidencial, acompanhada de críticas à atuação política da deputada eleita e de questionamentos sobre suas posições em relação à religião.

Em nota divulgada nesta sexta-feira, a equipe da petista afirmou que a mensagem sobre fechamento de igrejas não foi escrita por ela, não consta do histórico de sua conta e será submetida a pedido de perícia. A parlamentar também declarou nunca ter defendido o encerramento de instituições religiosas. A negativa é categórica, mas a autenticidade da imagem ainda não foi estabelecida por exame técnico independente ou decisão judicial conhecida.

Outras publicações atribuídas a Ana Elisa também circularam nas redes sociais. Entre elas estava uma mensagem, supostamente de abril de 2026, que questionava a presença de padres nas plataformas digitais. O conteúdo foi utilizado por adversários políticos para acusá-la de intolerância religiosa. A publicação original não foi localizada na conta da parlamentar nas verificações divulgadas inicialmente, e não há confirmação independente suficiente para tratar sua autoria como demonstrada.

A controvérsia se ampliou porque parte das mensagens antigas efetivamente foi reconhecida pela própria deputada eleita. No comunicado de 9 de outubro, sua equipe afirmou que publicações autênticas haviam sido retiradas de contexto e que a maioria remontava ao período em que Ana Elisa tinha 17 anos. A nota não apresentou uma identificação individual de todas as mensagens reconhecidas, mas informou que a parlamentar assumia o conteúdo que havia escrito e se retratava.

Entre os registros históricos recuperados da antiga conta da petista está uma publicação de abril de 2023 na qual ela utilizou referências ao fechamento de igrejas e a outras controvérsias políticas em tom de ironia. A mensagem é diferente daquela divulgada por Nikolas como sendo de outubro de 2022. A existência de uma publicação autêntica sobre assunto semelhante não comprova a autenticidade de outra captura de tela, especialmente quando há divergências de texto, data e contexto.

A equipe de Ana Elisa afirmou ainda que a deputada, atualmente com 21 anos, não mantém necessariamente as mesmas posições de quando era adolescente. Segundo a manifestação, ela é católica praticante e defende a liberdade religiosa, o Estado laico e a democracia. O reconhecimento de mensagens antigas não elimina a possibilidade de críticas ao conteúdo efetivamente publicado, mas também não autoriza atribuir à parlamentar declarações cuja autoria permaneça sem comprovação.

Ameaças levaram deputada a desativar conta na rede X

Os ataques denunciados por Ana Elisa não começaram com a divulgação das publicações sobre igrejas. Em 8 de outubro, a Agência Brasil informou que a deputada eleita havia apresentado denúncia à Polícia Civil por ameaças de morte e violência sexual recebidas ainda durante a campanha eleitoral. A parlamentar relatou mensagens de conteúdo racista e misógino, além da exposição de informações pessoais, como endereço residencial, telefone e documentos.

Uma das mensagens denunciadas havia sido enviada em 5 de setembro, cerca de um mês antes da eleição. Segundo o relato da deputada, o responsável fez referências a grupos supremacistas e incluiu ameaças contra familiares. A existência dessas ocorrências anteriores demonstra que os problemas de segurança relatados pela parlamentar precedem o confronto mais recente com Nikolas Ferreira, embora ela afirme que os ataques se intensificaram depois da repercussão das publicações.

Na quinta-feira (8), Ana Elisa anunciou a desativação temporária de sua conta na rede social X. Em vídeo divulgado em outras plataformas, afirmou que sua equipe recebia ameaças de morte e estupro com frequência de aproximadamente uma mensagem a cada dois minutos. A informação corresponde ao relato da própria deputada e não representa uma contagem independentemente auditada das mensagens.

O PT providenciou segurança particular para a parlamentar eleita, segundo informações divulgadas durante a semana. Ana Elisa também afirmou que tentava proteger seus familiares diante da circulação de dados pessoais e das ameaças. A situação passou a ser acompanhada pelas autoridades de segurança, inicialmente na esfera estadual e, agora, com um pedido formal de investigação dirigido à Polícia Federal.

No ofício encaminhado nesta sexta-feira, o Ministério da Justiça solicitou providências para identificar os autores dos ataques e obter a colaboração das empresas responsáveis pelas plataformas X e Meta. A secretaria responsável apontou a possível ocorrência de crimes de ameaça contra mulher relacionados à atuação política da deputada eleita. A definição jurídica dos fatos, porém, dependerá da apuração policial e da identificação das circunstâncias de cada mensagem.

Não há comprovação pública de que Nikolas Ferreira tenha participado da elaboração das ameaças ou determinado seu envio. O deputado é responsável pelas publicações que realizou em suas próprias redes sociais, mas a atribuição de responsabilidade por mensagens enviadas por terceiros exige identificação dos autores e elementos que demonstrem eventual participação, incentivo criminoso ou coordenação, conforme o caso.

Legislação eleitoral diferencia críticas políticas, desinformação e ameaças

A disputa entre os parlamentares envolve três questões juridicamente diferentes: a divulgação de conteúdo supostamente falso, o direito de crítica a manifestações públicas e as ameaças dirigidas a uma mulher que participa da atividade política. Embora esses acontecimentos estejam relacionados pela repercussão nas redes sociais, cada um depende de requisitos próprios para eventual responsabilização.

O artigo 323 do Código Eleitoral prevê punição para a divulgação, durante a campanha, de fatos que o responsável saiba serem inverídicos e que possam influenciar o eleitorado. A regra exige a demonstração de elementos como o conteúdo da informação, sua falsidade, o conhecimento dessa condição por quem a divulga e sua capacidade de exercer influência eleitoral. Uma captura de tela contestada não permite, isoladamente, concluir que houve crime ou que o responsável por compartilhá-la tinha conhecimento de eventual adulteração.

A legislação também assegura liberdade para manifestações políticas, críticas e divergências de opinião. Declarações autênticas de uma pessoa pública podem ser debatidas e contestadas, inclusive quando foram feitas anos antes. A responsabilização depende das características concretas da manifestação e dos limites estabelecidos pela legislação, não bastando que determinada opinião seja considerada ofensiva ou controversa por adversários.

Já a Lei 14.192, de agosto de 2021, estabeleceu mecanismos específicos para prevenir e combater a violência política contra a mulher. A norma introduziu no Código Eleitoral o artigo 326-B, que pune condutas de assédio, constrangimento, humilhação, perseguição ou ameaça praticadas com discriminação relacionada à condição de mulher ou à cor, raça ou etnia, quando destinadas a impedir ou dificultar a campanha eleitoral ou o exercício de mandato. A pena prevista é de um a quatro anos de reclusão e multa.

A eventual aplicação desse dispositivo ao caso de Ana Elisa dependerá da identificação dos responsáveis e da demonstração dos elementos exigidos pela lei. Ameaças de morte ou violência sexual também podem configurar outros crimes previstos na legislação penal, independentemente de estarem associadas à disputa eleitoral. A existência de crítica política, ainda que contundente, não autoriza ameaças ou exposição ilícita de dados pessoais.

A equipe da deputada anunciou que recorrerá à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público para questionar a divulgação da imagem sobre fechamento de igrejas. O comunicado também menciona a possibilidade de responsabilização dos responsáveis pela circulação de conteúdo considerado falso. Até o momento, contudo, não foi localizada decisão judicial específica que tenha estabelecido a autenticidade da publicação atribuída a Ana Elisa ou determinado sanções contra Nikolas por esse episódio.

Nikolas já teve publicações eleitorais questionadas pelo TSE em 2022

A controvérsia atual recuperou um antecedente da eleição presidencial de 2022, quando Nikolas Ferreira foi alvo de decisões da Justiça Eleitoral relacionadas à divulgação de informações sobre Lula. Naquele ano, o então candidato a deputado federal compartilhou um vídeo que associava uma eventual vitória do petista ao fechamento de igrejas, à perseguição de cristãos e a outras medidas apresentadas como consequências de seu retorno à Presidência.

O Tribunal Superior Eleitoral determinou a remoção do conteúdo, considerando que as mensagens divulgavam afirmações manifestamente inverídicas e prejudiciais à imagem do candidato presidencial. A decisão foi mantida pelo colegiado, e a Justiça Eleitoral também concedeu direito de resposta à campanha de Lula. O episódio foi citado pela equipe de Ana Elisa no comunicado divulgado nesta sexta-feira.

Esse precedente, entretanto, não determina automaticamente o resultado de uma eventual disputa judicial sobre as publicações atuais. Embora ambos os episódios envolvam alegações relacionadas a igrejas e adversários políticos, as circunstâncias, os documentos e os responsáveis precisam ser examinados individualmente. Uma decisão anterior pode oferecer referências jurídicas, mas não substitui a verificação das provas de um novo caso.

Em 2023, o TSE também manteve multa de R$ 30 mil aplicada a Nikolas por outro vídeo de 2022, que continha informações descontextualizadas sobre Lula e o suposto confisco de bens e ativos financeiros. Trata-se de um processo diferente daquele relacionado ao fechamento de igrejas, distinção necessária para não atribuir a uma mesma decisão fatos e penalidades de procedimentos distintos.

Disputa ocorre após eleição dos dois deputados mais votados de Minas

O confronto entre Nikolas e Ana Elisa também reflete a projeção política conquistada por ambos nas eleições de 2026. Nikolas foi reeleito com 3.119.318 votos, enquanto Ana Elisa conquistou 524.219 votos em sua primeira eleição para a Câmara. A votação do parlamentar do PL foi aproximadamente 5,95 vezes superior à da candidata petista, mas ambos ficaram nas duas primeiras posições entre os concorrentes a deputado federal em Minas Gerais.

Natural de Divinópolis, Ana Elisa tornou-se uma das deputadas federais eleitas mais jovens do país. Estudante de Direito, ganhou projeção com publicações sobre direitos trabalhistas, educação pública, igualdade racial e participação política de jovens. A campanha presidencial de Lula passou a contar com sua colaboração nas redes sociais após o primeiro turno, em uma iniciativa que também envolve outros parlamentares recém-eleitos.

Nikolas, por sua vez, consolidou uma base eleitoral expressiva em Minas Gerais e mantém presença relevante nas plataformas digitais. O parlamentar atua na oposição ao governo Lula e participa da mobilização em favor de Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial. A troca de acusações entre os dois ocorre, portanto, em um ambiente de disputa política nacional, mas a relevância eleitoral do episódio não altera a necessidade de apuração independente sobre a autenticidade das mensagens e a origem das ameaças.

A cronologia conhecida mostra que Ana Elisa já havia denunciado ameaças em setembro, foi eleita em 4 de outubro, passou a integrar iniciativas de comunicação da campanha presidencial e enfrentou nova controvérsia após as publicações divulgadas em 8 de outubro. No dia seguinte, sua equipe reconheceu a autoria de parte das mensagens antigas, contestou uma imagem específica e anunciou medidas judiciais, enquanto o Ministério da Justiça pediu a atuação da Polícia Federal.

A investigação solicitada pelo governo deverá se concentrar nas ameaças e na identificação de seus autores. Em paralelo, a discussão eleitoral sobre a autenticidade das publicações poderá ser levada ao TSE e ao Ministério Público, conforme anunciado pela equipe da deputada. Até que haja elementos técnicos ou decisões sobre os conteúdos contestados, permanece necessário distinguir as mensagens reconhecidas por Ana Elisa daquelas cuja autoria ela nega. Também não é possível atribuir a terceiros as ameaças recebidas pela parlamentar sem a correspondente comprovação de responsabilidade.

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