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Caixa lucra R$ 3,9 bilhões no 2T26, mas inadimplência sobe e provisões quase dobram

Banco amplia carteira de crédito para R$ 1,448 trilhão e financiamento imobiliário supera R$ 1 trilhãmônio recua para 9,2% enquanto atraso acima de 90 dias chega a 3,64%

por João Souza
27/08/2026 às 13h37
em Empresas
Caixa Economica Federal - Gazeta Mercantil

A Caixa Econômica Federal encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido recorrente de R$ 3,9 bilhões, crescimento de 5,9% em relação ao mesmo período do ano passado. O resultado veio acompanhado de uma expansão expressiva da carteira de crédito, que alcançou R$ 1,448 trilhão, mas o balanço também trouxe sinais que exigem atenção: a inadimplência acima de 90 dias avançou para 3,64%, as provisões para perdas de crédito chegaram a R$ 7 bilhões e o retorno recorrente sobre o patrimônio líquido caiu para 9,2%. O conjunto dos números mostra uma Caixa que continua ganhando escala, principalmente no financiamento habitacional, mas que precisa lidar com o custo crescente de uma carteira mais exposta a atrasos.

A expansão do crédito foi um dos principais fatores por trás do desempenho do banco no período. O saldo total cresceu 11,9% em 12 meses e as concessões realizadas no primeiro semestre chegaram a R$ 365,6 bilhões, volume 16,3% maior do que o registrado entre janeiro e junho de 2025. A Caixa avançou em diferentes linhas, mas o financiamento imobiliário permaneceu como o principal negócio da instituição e ultrapassou uma marca simbólica: a carteira habitacional chegou a R$ 1,005 trilhão, crescimento anual de 15%. Com isso, aproximadamente sete de cada dez reais emprestados pelo banco estão atualmente vinculados ao setor imobiliário.

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Crédito imobiliário reforça peso da Caixa no sistema financeiro

O avanço da carteira habitacional confirma a posição singular da Caixa no mercado de crédito brasileiro. A instituição terminou junho com 67,9% de participação no financiamento imobiliário, mantendo uma distância considerável dos demais bancos do país. Apenas no primeiro semestre, as contratações habitacionais somaram R$ 137,6 bilhões, aumento de 29,3% em relação ao mesmo intervalo de 2025. O crescimento das novas concessões foi, portanto, significativamente superior à expansão do estoque total da carteira, reflexo de um período de maior produção de contratos ao mesmo tempo em que financiamentos antigos continuam sendo amortizados pelos clientes.

A estrutura de captação acompanha esse crescimento. Os depósitos de poupança somaram R$ 405,6 bilhões no fim de junho, alta de 3,9% em um ano, e a Caixa manteve 39,7% de participação nesse mercado. As captações totais alcançaram R$ 2,052 trilhões, avanço de 13% em 12 meses. Esses recursos são fundamentais para sustentar uma operação de crédito que se aproxima de R$ 1,5 trilhão e que permanece fortemente vinculada à habitação. Ao mesmo tempo, o tamanho da exposição faz com que qualquer alteração relevante no comportamento dos mutuários, no emprego ou na renda das famílias seja acompanhada de perto, já que mudanças na qualidade dessa carteira têm efeito direto sobre o resultado da instituição.

Fora do crédito imobiliário, a Caixa também apresentou expansão em outras frentes. O consignado chegou a R$ 115,7 bilhões, aumento de 7,4% em 12 meses, e já corresponde a 73,9% da carteira comercial destinada às pessoas físicas. A instituição fechou ainda o trimestre com R$ 110,5 bilhões em crédito para infraestrutura e saneamento e R$ 62,3 bilhões destinados ao agronegócio. Embora esses segmentos tenham peso menor diante do financiamento habitacional, ajudam a mostrar como a estatal vem ampliando sua atuação em áreas distintas da economia enquanto preserva o papel central no crédito de longo prazo.

Inadimplência cresce e muda a leitura do balanço

O forte crescimento da carteira, porém, veio acompanhado de piora nos indicadores de qualidade do crédito. A inadimplência acima de 90 dias atingiu 3,64%, aumento de 0,98 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior. O movimento é relevante porque ocorre em um momento em que a Caixa também acelera as concessões. Para uma instituição financeira, aumentar o volume de empréstimos pode significar maior receita futura, mas também exige controle rigoroso da capacidade de pagamento dos clientes e da qualidade dos novos contratos incorporados ao balanço.

Esse avanço da inadimplência aparece de forma clara no comportamento das provisões para créditos de liquidação duvidosa. A Caixa separou R$ 7 bilhões no segundo trimestre para cobrir eventuais perdas, montante 97,6% superior ao observado um ano antes. Na prática, a despesa quase dobrou em 12 meses. Esse é um dos elementos que explicam por que o crescimento do crédito e da margem financeira não se converteu integralmente em uma melhora proporcional da rentabilidade. Quanto maior a percepção de risco sobre uma carteira, maior tende a ser a necessidade de provisões, reduzindo o efeito positivo que o aumento das receitas teria sobre o lucro final.

O comportamento da rentabilidade reforça essa leitura. O retorno recorrente sobre o patrimônio líquido, conhecido como ROE, terminou junho em 9,2%, uma queda de 2,7 pontos percentuais na comparação anual. O indicador mede quanto lucro o banco consegue gerar em relação ao patrimônio disponível e é acompanhado de perto na análise do setor financeiro. No caso da Caixa, o recuo ocorre apesar do crescimento de dois dígitos da carteira de crédito e evidencia que o desafio não está apenas em emprestar mais, mas em transformar essa expansão em resultados com menor custo de risco.

Lucro cresce no trimestre, mas semestre ainda mostra queda

A comparação entre o segundo trimestre e o acumulado do ano também ajuda a dimensionar o momento da instituição. Entre abril e junho, o lucro recorrente avançou 5,9% em relação ao mesmo período de 2025. No primeiro semestre, porém, o resultado acumulado foi de R$ 7,4 bilhões, queda de 17,6% na comparação anual. O desempenho do segundo trimestre representa, portanto, uma melhora em relação ao comportamento dos primeiros meses do ano, mas ainda não foi suficiente para compensar a diferença registrada no acumulado.

Ao mesmo tempo, a margem financeira somou R$ 37,9 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 16%. O dado mostra que a operação financeira continua ganhando força. A Caixa também encerrou junho com R$ 2,389 trilhões em ativos próprios, 12,7% acima do valor registrado um ano antes, enquanto os ativos administrados chegaram a R$ 4,119 trilhões, expansão de 12,1%. O banco cresce em volume, crédito, captação e ativos; a questão central passa a ser o quanto desse crescimento poderá se transformar em rentabilidade de forma consistente se a inadimplência permanecer em níveis mais elevados.

A posição de capital oferece alguma margem para atravessar esse ambiente. O Índice de Basileia ficou em 15,5%, ante cerca de 16% no segundo trimestre de 2025. Apesar do recuo, o nível permanece acima das exigências regulatórias aplicáveis à instituição. O Capital de Nível I alcançou 14,1%, também acima do mínimo exigido. Esses indicadores funcionam como uma medida da capacidade do banco de absorver perdas e ajudam a avaliar se a expansão do crédito está sendo acompanhada por capital suficiente para sustentar os riscos assumidos.

Próximos balanços mostrarão se alta do crédito compensa custo do risco

O resultado do segundo trimestre apresenta, assim, uma Caixa maior e mais ativa, mas também mais pressionada pelo comportamento da carteira de crédito. O banco continua ampliando concessões, ultrapassou R$ 1 trilhão no financiamento imobiliário e mantém presença dominante nesse mercado. Ao mesmo tempo, a alta dos atrasos, a necessidade de reforçar provisões e a redução do retorno sobre o patrimônio mostram que o ganho de escala não elimina os custos associados ao aumento do risco.

O ponto mais importante para os próximos trimestres será justamente a evolução dessa relação. Se o crescimento das concessões continuar forte e a inadimplência se estabilizar, a ampliação do crédito poderá contribuir para recuperar a rentabilidade. Se os atrasos seguirem aumentando, uma parcela maior das receitas poderá continuar sendo absorvida por provisões e despesas de risco. A diferença entre o desempenho trimestral, com lucro em alta, e o resultado acumulado do primeiro semestre, ainda negativo na comparação anual, deixa claro que a recuperação ainda precisa ser confirmada.

Para a Caixa, a marca de R$ 1,448 trilhão em crédito e de mais de R$ 1 trilhão no financiamento imobiliário reforça a dimensão do banco dentro da economia brasileira. O balanço do segundo trimestre, no entanto, mostra que tamanho e crescimento não são suficientes para definir sozinho o desempenho da instituição. A qualidade dos empréstimos concedidos, a capacidade de conter novos atrasos e a evolução das provisões serão determinantes para saber se a expansão atual poderá se transformar em melhora sustentada dos resultados ao longo do restante de 2026.

Fontes:

Caixa Econômica Federal — Divulgação dos resultados consolidados do 2T26.
Caixa Relações com Investidores — Central de Resultados e apresentação do segundo trimestre de 2026.
Caixa Relações com Investidores — Indicadores prudenciais, carteira de crédito, captações e crédito imobiliário.

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