As empresas do setor financeiro estiveram entre os principais destaques da Bolsa brasileira nesta segunda-feira, 5 de outubro, no primeiro pregão depois do primeiro turno das eleições presidenciais. A reação foi generalizada, mas ganhou uma dimensão especialmente forte entre companhias diretamente ligadas à negociação e distribuição de investimentos. O BDR da XP (XPBR31) disparou 24,43%, a B3 (B3SA3) avançou 22,63% e o BTG Pactual (BPAC11) subiu 22,52%.
As três valorizações ficaram muito acima do próprio Ibovespa, que encerrou o dia com ganho de 7,70%, aos 206.911,89 pontos, no maior fechamento de sua história. Durante o pregão, o índice chegou a 209.605,70 pontos, estabelecendo também um novo recorde intradiário. A diferença ajuda a mostrar que, embora a sessão tenha sido marcada por uma reprecificação ampla dos ativos brasileiros, o mercado financeiro concentrou parte relevante da procura dos investidores.
A XP encerrou o dia a R$ 139,61, depois de atingir R$ 144,79 na máxima. A B3 terminou a R$ 23,30 e chegou a R$ 24,28 durante a sessão. Já as units do BTG Pactual fecharam a R$ 80,89, depois de alcançar R$ 84,59. Na comparação com o Ibovespa, XPBR31 teve desempenho 16,73 pontos percentuais superior ao índice, B3SA3 ficou 14,93 pontos acima e BPAC11 apresentou uma diferença de 14,82 pontos.
Os grandes bancos também acompanharam o movimento, embora com variações menores. Bradesco (BBDC4) encerrou o pregão com alta de 13,57%, Banco do Brasil (BBAS3) avançou 11,00% e Itaú (ITUB4) ganhou 10,37%. A holding Itaúsa (ITSA4) terminou a sessão com valorização de 11,52%. Em todos esses casos, o desempenho também ficou acima dos 7,70% registrados pelo Ibovespa.
Queda dos juros mudou rapidamente o preço dos ativos
A força do movimento esteve ligada principalmente à mudança das expectativas dos investidores depois da divulgação do resultado do primeiro turno. Flávio Bolsonaro terminou a votação com 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 45,16%. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
A resposta do mercado apareceu simultaneamente em diferentes classes de ativos. A Bolsa disparou, o real se valorizou diante do dólar e os contratos de juros futuros registraram forte queda. Investidores passaram a incorporar aos preços a possibilidade de mudanças na condução da política fiscal a partir do próximo mandato, especialmente diante do resultado presidencial e da nova composição do Congresso.
Esse movimento, no entanto, representa uma alteração de expectativas e não uma mudança econômica já concretizada. O segundo turno ainda será realizado, e as diretrizes efetivas para a política fiscal e econômica dependerão do resultado definitivo da eleição, da composição do próximo governo e das medidas que eventualmente forem propostas e aprovadas.
A queda dos juros futuros tem efeito particularmente importante sobre as ações porque reduz a taxa usada pelo mercado para descontar os resultados que as empresas deverão gerar nos próximos anos. Quando essa taxa cai, o valor presente desses fluxos tende a aumentar, mantidas as demais condições. Ao mesmo tempo, rendimentos menores na renda fixa podem reduzir o custo de oportunidade de manter recursos em Bolsa.
Para os bancos tradicionais existe um segundo componente. Juros menos pressionados, caso se transformem posteriormente em condições financeiras mais favoráveis, podem aliviar o custo do crédito para famílias e empresas. Isso tende a reduzir a pressão sobre a capacidade de pagamento dos clientes e pode contribuir para uma melhora gradual na inadimplência e na qualidade das carteiras.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, relacionou a valorização do setor financeiro justamente à revisão das expectativas para a curva de juros. Na avaliação do economista, a mudança reduz a taxa de desconto utilizada nos valuations e também pode melhorar as perspectivas para o crédito caso o movimento se consolide.
A diferença de desempenho entre os grandes bancos e empresas como XP, B3 e BTG mostra, porém, que o mercado não precificou todos os negócios da mesma maneira.
Por que XP, B3 e BTG subiram ainda mais
A B3 e a XP possuem uma ligação mais direta com o nível de atividade do mercado financeiro. Uma eventual migração de recursos da renda fixa para ações e outros produtos de investimento pode aumentar o volume negociado, a distribuição de produtos financeiros e a movimentação de investidores. É justamente essa exposição que faz com que essas empresas possam reagir de maneira mais intensa quando há uma mudança brusca nas expectativas para juros e Bolsa.
No caso da B3, o aumento da atividade no mercado pode se refletir em maior negociação de ações, derivativos e outros instrumentos financeiros. A companhia está no centro da infraestrutura do mercado brasileiro e participa diretamente da liquidação, registro e negociação de diferentes ativos. Uma perspectiva de maior volume tende, portanto, a ser rapidamente incorporada às expectativas sobre a empresa.
A XP também está diretamente exposta ao comportamento dos investidores. Uma Bolsa mais aquecida e um ambiente de maior busca por ativos de risco podem elevar os volumes distribuídos pela plataforma e ampliar a demanda por diferentes produtos financeiros. A disparada de 24,43% de XPBR31, mais de três vezes a alta percentual do Ibovespa, mostra o tamanho dessa reprecificação em apenas uma sessão.
O BTG Pactual reúne características dos dois grupos. Além das atividades bancárias, possui presença relevante em investment banking, gestão de recursos, wealth management e operações no mercado de capitais. Um cenário de maior atividade financeira pode favorecer diferentes linhas de receita simultaneamente, razão pela qual as units do banco também avançaram mais de 20%.
Há uma diferença importante, portanto, entre a lógica que sustentou a alta dos bancos tradicionais e aquela que impulsionou as empresas mais diretamente ligadas ao mercado de capitais. Bradesco, Itaú e Banco do Brasil receberam uma leitura favorável principalmente pela combinação entre juros, crédito, inadimplência e valuation. B3, XP e BTG adicionaram a essa equação uma expectativa de expansão da própria atividade financeira.
Essa diferença aparece claramente nos números do fechamento. Enquanto os três grandes bancos subiram entre 10% e 14%, aproximadamente, B3, XP e BTG avançaram mais de 22%. A distância em relação ao Ibovespa chegou a quase 17 pontos percentuais no caso da XP.
Movimento dependerá do que acontecer até o segundo turno
A dimensão das altas também aumenta a possibilidade de oscilações mais fortes nas próximas sessões. Depois de uma valorização superior a 20% em um único dia, parte dos investidores pode optar por realizar lucros, enquanto novas informações sobre a eleição e a política econômica podem alterar novamente as expectativas incorporadas aos preços.
O primeiro turno funcionou como o gatilho inicial para uma reprecificação extremamente rápida. Isso não significa, porém, que os ganhos observados nesta segunda-feira sejam necessariamente permanentes. Até 25 de outubro, pesquisas eleitorais, declarações dos candidatos, propostas econômicas, sinalizações sobre política fiscal e mudanças no fluxo internacional poderão continuar alterando a percepção de risco sobre o Brasil.
O comportamento da curva de juros deverá ser particularmente relevante. Se as taxas futuras continuarem recuando, ações que dependem de crédito, atividade econômica e mercado de capitais poderão permanecer entre as mais sensíveis ao movimento. Caso os juros voltem a subir, parte da reprecificação poderá seguir o caminho inverso.
Também será necessário observar o fluxo estrangeiro. Grandes bancos, B3, BTG e XP estão entre os ativos capazes de absorver volumes expressivos de capital, o que os coloca naturalmente entre os primeiros destinos de investidores institucionais que desejam aumentar rapidamente sua exposição ao Brasil.
A sessão desta segunda-feira mostrou com clareza essa preferência. O Ibovespa teve uma alta histórica de 7,70%, mas o mercado financeiro avançou ainda mais. Bradesco, Itaú, Banco do Brasil e Itaúsa registraram ganhos de dois dígitos, enquanto B3, XP e BTG superaram 22%.
Mais do que uma alta isolada de algumas ações, o movimento representou uma mudança ampla no preço atribuído pelo mercado ao risco brasileiro e às perspectivas para juros, crédito e atividade financeira. A partir de agora, a permanência dessa valorização dependerá de quanto das expectativas formadas depois do primeiro turno será confirmado — ou revisto — nas três semanas que antecedem a votação decisiva.
Fontes
B3 — fechamento do Ibovespa e dados do pregão de 5 de outubro de 2026
Tribunal Superior Eleitoral — resultado oficial do primeiro turno das Eleições 2026
B3 — cotações e movimentação dos ativos no pregão
Forum Investimentos — análise sobre curva de juros e setor financeiro
Reuters — reação dos ativos brasileiros ao resultado do primeiro turno
Dados de mercado — B3SA3, XPBR31, BPAC11, BBDC4, ITUB4, BBAS3 e ITSA4







