BNDES seleciona gestores para alavancar R$ 16,2 bilhões em investimentos focados na transição climática
O banco de fomento anuncia os sete fundos vencedores da Chamada Pública de Mitigação Climática, estruturando uma ofensiva financeira inédita via BNDESPAR para acelerar a descarbonização e a restauração de biomas estratégicos no Brasil.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) consolidou nesta segunda-feira (26) um dos movimentos mais robustos da história recente do mercado de capitais brasileiro voltado à sustentabilidade. Em um anúncio que reverbera tanto na Faria Lima quanto nos fóruns ambientais globais, a instituição revelou a seleção de sete fundos de investimento para integrarem a sua Chamada Pública de Mitigação Climática. A iniciativa, operada por meio da BNDESPAR, projeta aportes diretos de até R$ 4,3 bilhões, com o objetivo estratégico de mobilizar um total de R$ 16,2 bilhões em capital privado para financiar a transição climática no país.
Este movimento não é apenas uma operação de crédito ou participação societária; trata-se de uma política de Estado desenhada para posicionar o Brasil como protagonista na nova economia verde. A seleção dos fundos ocorre em um momento crucial, onde a transição climática deixa de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar o eixo central da competitividade industrial e agrícola nacional. Ao selecionar gestores de equity e crédito com expertise comprovada, o BNDES sinaliza ao mercado que a descarbonização é irreversível e financeiramente viável.
A Arquitetura Financeira da Transição Climática
O modelo adotado pelo BNDES revela uma sofisticação na engenharia financeira pública. Ao invés de atuar apenas como credor direto, o banco utiliza seu braço de participações, a BNDESPAR, para atuar como investidor âncora. Isso reduz o risco para investidores privados e atrai capital que, de outra forma, poderia considerar os projetos de transição climática demasiado arriscados ou de maturação muito longa.
A Chamada Pública, lançada originalmente em setembro de 2025, atraiu o interesse massivo do mercado, recebendo 45 propostas de gestores nacionais e internacionais. Esse volume de interesse demonstra que a liquidez global está ávida por ativos ambientais de qualidade, mas carecia de estruturação e governança — lacunas que a chancela do BNDES ajuda a preencher.
Os fundos selecionados foram divididos em duas categorias estratégicas: Transformação Ecológica (focada em tecnologia, indústria e energia) e Soluções Baseadas na Natureza (focada em uso da terra e florestas). Ambas são vitais para uma transição climática efetiva, atacando tanto as emissões de carbono quanto a captura do mesmo através da restauração florestal.
Os Protagonistas da Nova Economia: Fundos de Equity
Na vertente de equity (participação acionária em empresas), o BNDES selecionou cinco fundos que terão a missão de identificar, investir e escalar negócios que ofereçam soluções reais para a transição climática.
No pilar de Transformação Ecológica, os selecionados foram:
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Catalytic Transition Fund Brazil FIP Multiestratégia: Focado em catalisar tecnologias emergentes.
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EB Clima II – Transição Energética & Descarbonização IS FIP Multiestratégia: Com expertise em infraestrutura e energia limpa.
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Generation Just Climate Brasil FIP: Que traz o conceito de justiça climática aliado à rentabilidade.
Já no pilar de Soluções Baseadas na Natureza, área onde o Brasil possui vantagem comparativa global absoluta, os escolhidos foram:
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Patria Latam Reforest Fund I FIP Multiestratégia IS: Gerido por uma das maiores casas de investimento da América Latina, focado em reflorestamento em larga escala.
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The Amazon Reforestation Fund II FIP Multiestratégia IS – Mombak: Fundo gerido pela Mombak, startup que se tornou referência global em remoção de carbono através de reflorestamento nativo na Amazônia.
Esses gestores terão a responsabilidade de alocar o capital em teses que promovam a transição climática através da restauração de ecossistemas e da inovação tecnológica. A presença de nomes de peso como Pátria e a inovadora Mombak sugere um mix equilibrado entre a solidez financeira tradicional e a agilidade das novas climate techs.
O Crédito como Alavanca de Descarbonização
Além das participações acionárias, o BNDES selecionou dois fundos de crédito na categoria de Transformação Ecológica. O objetivo aqui é prover dívida estruturada para projetos que necessitam de capital intensivo para implementar tecnologias limpas.
Os fundos de crédito selecionados são:
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Vinci Crédito Soluções Climáticas FIC FIM: Gerido pela Vinci Partners, focado em financiar a infraestrutura da descarbonização.
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FIDC Clima Riza Farma: Um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios que deve atuar em cadeias específicas, provendo liquidez para a adaptação de processos produtivos.
O financiamento via crédito é uma peça-chave na transição climática, pois permite que indústrias já estabelecidas tomem recursos para modernizar seus parques fabris, adotar energias renováveis ou migrar para processos de economia circular sem necessariamente diluir seu controle acionário.
Impacto Real nos Biomas e na Indústria
A magnitude dos investimentos projeta resultados físicos impressionantes. Segundo o BNDES, a expectativa é que os projetos apoiados resultem na restauração de mais de 90 mil hectares de vegetação nativa. As intervenções ocorrerão nos três biomas mais críticos para o equilíbrio ambiental e econômico do país: Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.
No contexto da transição climática, restaurar 90 mil hectares significa sequestrar milhões de toneladas de CO2 da atmosfera, além de proteger bacias hidrográficas essenciais para o agronegócio e para a geração de energia hidrelétrica.
Além da restauração, os fundos de Transformação Ecológica mirarão em:
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Descarbonização industrial: Adoção de processos mais limpos em setores “hard-to-abate” (de difícil abatimento de emissões), como siderurgia e cemento.
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economia circular: Projetos de reciclagem e reaproveitamento de resíduos.
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Biocombustíveis: Expansão do etanol de segunda geração e biodiesel.
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Hidrogênio Verde: A nova fronteira energética onde o Brasil aspira ser líder global.
A Visão de Aloizio Mercadante e o Papel do Estado
Para Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, a seleção destes fundos não é um ato isolado, mas a reafirmação do papel do banco de desenvolvimento como indutor do crescimento sustentável. Em sua visão, o capital privado, embora abundante, muitas vezes é avesso ao risco inicial de projetos de transição climática que envolvem tecnologias novas ou longos prazos de maturação, como é o caso do reflorestamento.
A iniciativa reforça o papel do banco em áreas onde o capital privado ainda enfrenta desafios, ajudando a acelerar a transição climática no Brasil”, avaliou Mercadante. Ao entrar com o capital catalítico (aquele que assume as primeiras perdas ou oferece prazos mais longos), o BNDES “destrava” o investimento privado, gerando o efeito multiplicador esperado de quase quatro vezes o valor aportado (de R$ 4,3 bi para R$ 16,2 bi).
Governança e Próximos Passos: A Fase de Diligência
A seleção anunciada nesta segunda-feira (26) marca o fim da fase competitiva da Chamada Pública, mas o início do trabalho técnico detalhado. Antes que o primeiro real seja desembolsado, todos os sete fundos passarão agora por um rigoroso processo de diligência (due diligence) e pela definição final das condições de investimento.
Nesta etapa, técnicos do BNDES avaliarão a governança, as políticas de risco socioambiental e a capacidade operacional de cada gestora em entregar as metas de transição climática propostas. É um processo que garante a segurança jurídica e financeira dos recursos públicos envolvidos.
Um ponto inegociável estabelecido pelo edital é a territorialidade: 100% dos recursos devem ser aplicados em projetos dentro do território nacional. Isso assegura que os benefícios econômicos — geração de emprego, desenvolvimento tecnológico e arrecadação fiscal — permaneçam no Brasil, fortalecendo a cadeia produtiva local da transição climática.
O Cenário Macroeconômico da Sustentabilidade
A iniciativa do BNDES insere-se em um contexto macroeconômico onde a sustentabilidade deixou de ser um nicho. Com a implementação de barreiras comerciais verdes por blocos como a União Europeia, a descarbonização da economia brasileira é uma questão de sobrevivência comercial. A transição climática financiada por esses fundos permitirá que empresas brasileiras reduzam sua pegada de carbono, mantendo seus produtos competitivos no mercado internacional.
Adicionalmente, o desenvolvimento de um mercado de capitais focado em ativos verdes atrai investidores institucionais estrangeiros (fundos de pensão, fundos soberanos) que possuem mandatos estritos de alocação em ESG (Environmental, Social, and Governance). O Brasil, ao estruturar veículos de investimento confiáveis e com a participação do BNDES, torna-se um destino preferencial para esse capital.
Desafios e Oportunidades na Gestão de Ativos Climáticos
A gestão destes fundos trará desafios inéditos. No caso dos fundos de equity focados em Soluções Baseadas na Natureza, como o da Mombak e do Pátria, a complexidade envolve a regularização fundiária, o manejo florestal e a monetização dos créditos de carbono gerados. A transição climática exige não apenas capital, mas segurança jurídica no campo.
Já para os fundos de Transformação Ecológica, o desafio será selecionar tecnologias vencedoras em um cenário de rápida evolução. Apostar na tecnologia errada de hidrogênio ou biocombustível pode custar caro. Por isso, a expertise técnica dos gestores selecionados — Vinci, EB Capital, Generation, entre outros — foi o critério decisivo na seleção do BNDES.
Um Salto para o Futuro Verde
O anúncio do BNDES representa um marco na maturidade do financiamento climático no Brasil. Ao comprometer até R$ 4,3 bilhões para alavancar mais de R$ 16 bilhões, o banco estatal demonstra que a transição climática é a nova política industrial do país.
A injeção desses recursos na economia real, focada em restauração florestal e descarbonização industrial, tem o potencial de criar milhares de empregos verdes, recuperar biomas degradados e posicionar a tecnologia brasileira na vanguarda da sustentabilidade global. O sucesso destes sete fundos servirá de prova de conceito para que, no futuro, a transição climática seja financiada majoritariamente pelo mercado de capitais privado, com o Estado atuando apenas como regulador e garantidor.
Por enquanto, o mercado aguarda a conclusão das diligências e o início efetivo dos desembolsos, que prometem transformar a teoria da sustentabilidade em prática de investimento rentável e transformadora. A transição climática brasileira acaba de ganhar seu maior motor financeiro.






