O Grupo Casas Bahia (BHIA3) colocou em leilão 124 lotes de móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, com valores de abertura a partir de R$ 211. A disputa será realizada pela plataforma Kwara e está prevista para 20 de outubro de 2026, a partir das 10h, com encerramento sequencial dos lotes. Os bens estão armazenados em JundiaÃ, no interior de São Paulo, e incluem desde sofás e colchões até refrigeradores, fogões, lavadoras e televisores de grande porte.
Entre os produtos destacados pela plataforma estão uma lavadora Brastemp de 15 kg, refrigeradores Electrolux, uma geladeira French Door de 590 litros e Smart TVs TCL de 75 e 98 polegadas. A relação também reúne móveis de diferentes fabricantes, como Linoforte, Luizzi, Hellen, Umaflex, Herval, Politorno e Bartira. Os lotes são vendidos individualmente ou em conjuntos, o que muda de forma relevante o custo por unidade para o comprador.
Um dos menores valores de abertura aparece no lote 23, que reúne três móveis, entre eles uma fruteira, uma mini cama montessoriana e um berço. O lance parte de R$ 211, enquanto o valor de referência informado para o conjunto é de R$ 844,65. A diferença entre os dois números equivale a um desconto inicial de cerca de 75%, mas não representa necessariamente o preço final de aquisição, porque o lance ainda pode ser elevado durante a disputa e está sujeito às condições do edital.
Lance inicial não representa o custo final de compra
O principal ponto de atenção para quem pretende participar está nas condições financeiras da arrematação. O edital estabelece comissão de 5% para o leiloeiro e despesas administrativas de 15% sobre o valor do arremate. Juntas, as cobranças acrescentam 20% ao lance vencedor, antes de despesas de transporte e eventuais tributos aplicáveis.
Na prática, um lance de R$ 211 resultaria em R$ 253,20 apenas com a soma do preço e das duas cobranças. Em um arremate de R$ 1.000, por exemplo, o desembolso passaria para R$ 1.200 antes de qualquer custo adicional. A diferença é importante porque a comparação com o preço de varejo ou com o valor de referência do lote pode parecer mais vantajosa quando se considera apenas o lance exibido na tela.
Outro detalhe relevante é que os lances não geram, por si só, direito automático à aquisição. O certame é classificado como condicional e a empresa vendedora mantém a decisão final sobre a aprovação. O edital prevê prazo de até cinco dias úteis após o encerramento para que os lances sejam analisados.
Caso a oferta vencedora seja aprovada, a Kwara comunica o arrematante para o pagamento do valor do lote, da comissão e das despesas administrativas. O prazo previsto é de até um dia útil a partir da aprovação. O pagamento deve seguir as instruções encaminhadas pela plataforma, com liquidação por Pix ou créditos previamente concedidos, conforme as regras do certame.
O sistema também permite lances automáticos. Nesse mecanismo, o participante define previamente um limite e a plataforma cobre ofertas de concorrentes pelo incremento mÃnimo, até o teto estabelecido. O cronômetro pode ser prorrogado quando ocorre uma nova oferta nos segundos finais de determinado lote, evitando que a disputa seja encerrada apenas por uma oferta feita no instante final.
Produtos são vendidos no estado em que estão e podem não funcionar
O edital impõe uma condição mais rÃgida do que a encontrada em uma compra convencional no varejo. Os bens são vendidos no estado de conservação em que se encontram, sem garantia de funcionamento e sem direito à troca. Podem existir riscos, amassados, sujeira, sinais de uso, falta de componentes, acessórios ou manuais e até situações em que determinado equipamento esteja bloqueado por senha ou código.
A própria plataforma alerta que alguns bens podem estar sem testes de funcionamento. Isso significa que o comprador assume o risco de adquirir um produto que necessite de reparo, desmontagem ou substituição de componentes. A recomendação do edital é fazer a vistoria presencial sempre que possÃvel antes da oferta.
No caso de equipamentos oriundos de logÃstica reversa, a situação pode ser ainda mais complexa. Embalagens podem não corresponder exatamente ao produto que está dentro delas, e etiquetas ou registros internos da operação podem não refletir o modelo ou a condição efetiva do item. A Kwara informa que não abre determinadas embalagens para evitar novas avarias.
Há ainda uma particularidade fiscal expressamente prevista nas condições de venda: a nota fiscal emitida pelo comitente terá natureza de operação correspondente à venda de sucata, independentemente do estado de conservação ou da funcionalidade do bem. O participante declara concordar com essa condição ao oferecer o lance.
A plataforma também responsabiliza o comprador por verificar previamente eventuais senhas, bloqueios, números de identificação e demais condições necessárias ao uso dos produtos. Por isso, o valor baixo de entrada não deve ser confundido com garantia de funcionamento ou com uma compra equivalente à aquisição de um produto novo em uma loja.
Visitação ocorre antes do leilão e retirada exige transporte adequado
Os interessados poderão fazer a avaliação presencial dos lotes armazenados em JundiaÃ. Para os lotes divulgados no evento, a visitação está prevista para 16 de outubro, em horários agendados, com exigência de cadastro prévio e apresentação de informações de identificação dos participantes e do veÃculo.
A entrada no local tem regras especÃficas. O edital proÃbe menores de 18 anos e restringe o acesso de pessoas com bolsas, mochilas, sacolas, celulares, tablets, smartwatches e fones de ouvido. O uso de calçado de segurança é obrigatório. A entrada também precisa seguir as condições determinadas pelo centro de distribuição, inclusive em relação ao veÃculo utilizado.
A etapa de retirada é igualmente diferente de uma compra convencional. Depois da compensação do pagamento, a Kwara agenda a retirada, que deve ocorrer dentro dos dias e horários definidos para cada lote. No caso do lote 23, por exemplo, o cronograma informado aponta os dias 27, 28 e 29 de outubro, em janelas especÃficas de manhã e à tarde.
O comprador não pode retirar apenas parte dos produtos de um lote. Todo o conjunto precisa ser levado de uma só vez, e os custos de desmontagem, carregamento, mão de obra e transporte ficam por conta do arrematante.
A retirada também não pode ser feita a pé ou de motocicleta. O edital exige veÃculo automotor apropriado para a carga, como HR, Kombi ou VUC, e determina que o veÃculo esteja vazio no momento da operação. O comprador ou seu representante deve levar a documentação exigida e cumprir as regras de segurança do centro de distribuição.
O descumprimento do prazo de retirada pode gerar custo adicional. O edital prevê taxa de guarda de R$ 200 por dia e por lote em caso de permanência dos bens após a data limite estabelecida. O atraso prolongado ainda pode resultar na perda dos valores pagos e na revenda dos produtos a terceiros, segundo as condições do certame.
Leilão ocorre durante recuperação judicial, mas não equivale à venda de ativos do processo
A nova rodada acontece menos de dois meses depois de o Grupo Casas Bahia protocolar pedido de recuperação judicial. Em 16 de agosto de 2026, a companhia e nove sociedades do grupo recorreram à Justiça de São Paulo para reestruturar obrigações. O processo foi apresentado com passivo declarado de R$ 17,322 bilhões.
No fim de agosto, a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central CÃvel de São Paulo concedeu medidas de proteção à companhia no processo, que passou a avançar sob supervisão judicial. A recuperação foi apresentada pela empresa em meio à deterioração das condições financeiras, que a própria companhia relacionou a juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre capital de giro.
A coincidência temporal pode levar à interpretação de que o leilão esteja sendo realizado para levantar recursos destinados à recuperação. As informações disponÃveis, porém, não sustentam essa conclusão. Em operações anteriores, a Casas Bahia informou que leilões desse tipo são recorrentes e estão relacionados ao Departamento de Assistência Técnica, o DAT, e não ao processo de recuperação judicial.
A própria companhia descreve o DAT como uma estrutura ligada à economia circular e à logÃstica reversa, responsável por avaliar e recuperar equipamentos devolvidos, prolongar a vida útil dos produtos e encaminhar parte deles para revenda. O modelo inclui itens que retornam à operação por devolução, avaria ou processos de assistência técnica.
O edital do leilão atual reforça essa natureza operacional ao mencionar produtos de logÃstica reversa e itens provenientes de mostruário. Isso permite separar a existência do certame da situação financeira da empresa: o leilão ocorre enquanto a Casas Bahia está em recuperação judicial, mas não há indicação, nas regras divulgadas para esta rodada, de que os 124 lotes constituam ativos colocados à venda como parte do processo de reestruturação de dÃvidas.
Para o consumidor, a principal diferença está no risco assumido. A operação não equivale a uma promoção tradicional nem a uma venda comum de estoque. O comprador disputa bens em condição variável, paga encargos adicionais, assume a logÃstica de retirada e, em determinados casos, pode receber produtos que exigem reparos ou que não tenham condições imediatas de uso.
Com o leilão marcado para 20 de outubro, o valor anunciado de R$ 211 funciona, portanto, como ponto de entrada para a disputa, e não como preço garantido de compra. Para avaliar a vantagem econômica de cada lote, o participante precisa considerar o valor final do lance, os 20% adicionais, o transporte, eventuais tributos e o estado efetivo dos produtos antes de concluir a arrematação.
Fontes:
Kwara – edital e condições de venda do Leilão Extrajudicial K-3067 do Grupo Casas Bahia
Kwara – relação de 124 lotes, valores de abertura, descrição dos bens e cronograma de encerramento do leilão
Grupo Casas Bahia – informações institucionais sobre o Departamento de Assistência Técnica, economia circular e logÃstica reversa
CVM – fato relevante sobre o pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia em 16 de agosto de 2026
Tribunal de Justiça de São Paulo – decisão judicial do processo de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia







