Novas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro ampliaram nesta terça-feira (15) o alcance da crise provocada pelo caso Banco Master dentro do Supremo Tribunal Federal (STF). O material mostra contatos do ex-banqueiro com pessoas próximas aos ministros Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e André Mendonça e veio a público justamente quando o Plenário se reúne para decidir se os elementos encontrados pela Polícia Federal justificam uma investigação sobre Alexandre de Moraes. Os registros mencionam pagamentos relacionados ao filho de Kassio, encontros e articulações comerciais com o filho de Fux, uma viagem internacional solicitada pelo próprio Nunes Marques e a atuação de um advogado próximo a Mendonça em reuniões e decisões de interesse de terceiros.
O conteúdo não demonstra, por si só, que os três ministros tenham recebido dinheiro de Vorcaro ou interferido em decisões judiciais para favorecê-lo. Em diferentes partes do material, as referências são feitas por terceiros, os pagamentos não aparecem concluídos ou envolvem pessoas próximas aos magistrados, e algumas negociações não chegaram a se concretizar. A relevância dos diálogos está no acesso que Vorcaro mantinha ao entorno de integrantes da Corte que agora precisa avaliar o tratamento dado às suspeitas envolvendo outro ministro. Essa circunstância passou a ter consequência imediata: Kassio Nunes Marques declarou-se impedido de votar no julgamento sobre Moraes depois da divulgação das novas informações. Dias Toffoli também se declarou suspeito, reduzindo para oito o número máximo de ministros que poderão participar da votação.
A sequência aumenta a pressão sobre o STF porque uma das discussões abertas durante a crise é justamente se houve tratamento diferente para informações relacionadas a diferentes magistrados. Moraes sustenta que André Mendonça direcionou a investigação contra ele. Mendonça nega e afirma ter apenas determinado que a Polícia Federal identificasse interlocutores citados no material apreendido. As novas mensagens não resolvem essa controvérsia, mas mostram que o celular de Vorcaro continha uma rede de contatos bem mais ampla do que o eixo Moraes-Master.
Mensagens mencionam R$ 500 mil mensais relacionados ao filho de Kassio
No caso de Kassio Nunes Marques, um dos registros de maior repercussão envolve Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro. Em conversas com Daniel Vorcaro, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, menciona pagamentos de R$ 500 mil por mês e associa o nome de Kevin à discussão. Em outubro de 2024, Rennó enviou ao banqueiro uma planilha com o nome e o telefone do advogado. Em conversas posteriores, voltou a tratar de pagamentos considerados essenciais.
Os diálogos, porém, não comprovam que Kevin tenha recebido R$ 500 mil mensais. O advogado nega ter prestado serviços ao Banco Master ou recebido pagamentos diretamente de Vorcaro. O que está documentado por registros financeiros divulgados anteriormente é uma relação indireta: a Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Master entre outubro de 2024 e julho de 2025 e transferiu R$ 281,6 mil ao escritório de Kevin em 11 pagamentos. O filho de Nunes Marques afirma que esse dinheiro correspondeu a serviços de assessoria jurídica prestados à consultoria e que não tinham relação com o STF.
O contraste entre a menção aos R$ 500 mil mensais nas conversas e os R$ 281,6 mil efetivamente identificados nos registros financeiros é importante. A primeira cifra aparece em diálogos entre executivos do banco e não pode ser apresentada como pagamento comprovado. Já a segunda consta das movimentações financeiras conhecidas. A Consult afirmou que contratou Kevin por serviços técnicos e jurídicos e sustentou que os trabalhos foram efetivamente realizados.
Os R$ 6,6 milhões pagos pelo Master à Consult também já haviam chamado a atenção porque o volume movimentado era muito superior ao faturamento anteriormente declarado pela empresa. Isso levou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras a apontar incompatibilidades financeiras e a possibilidade de a companhia ter funcionado como conta de passagem. A classificação de uma movimentação como atípica, entretanto, não equivale à comprovação de crime.
Agente perguntou a Vorcaro quem pagaria viagem solicitada por Kassio
Outro grupo de mensagens envolve diretamente Nunes Marques. Em dezembro de 2024, um agente de viagens identificado como Leo Serrano encaminhou a Vorcaro uma mensagem atribuída a um dos números utilizados pelo ministro. No texto, Kassio pedia ajuda para organizar uma viagem de aproximadamente dez dias para cinco pessoas em janeiro de 2025, tendo Viena como base e visitas a cidades da Europa Central.
Depois de encaminhar o pedido, o agente perguntou ao banqueiro se deveria apenas atender Nunes Marques ou se as despesas seriam faturadas para Vorcaro. O empresário respondeu para que ele atendesse “tudo”. Na sequência, Serrano voltou a perguntar quem arcaria com o custo da viagem. As mensagens conhecidas não mostram a resposta final de Vorcaro sobre o pagamento. Dez dias depois, o próprio agente informou que Kassio havia deixado de responder sobre a programação.
O registro, portanto, demonstra que um prestador de serviços ligado a Vorcaro consultou o banqueiro sobre a possibilidade de custear uma viagem solicitada por Nunes Marques, mas não comprova que a viagem ocorreu ou que o ex-controlador do Master pagou pelas despesas. A diferença é relevante diante da repercussão política das mensagens. Até que existam comprovantes financeiros, bilhetes ou outros registros, a eventual assunção dos custos pelo empresário continua sem demonstração documental.
Horas depois de o conteúdo ganhar repercussão, Nunes Marques anunciou que não votaria na sessão sobre Alexandre de Moraes. O afastamento reduz o número de ministros aptos a participar de uma decisão que já estava cercada por discussões sobre possíveis conflitos de interesse.
Rodrigo Fux manteve contatos com Vorcaro por mais de um ano
As mensagens relacionadas a Luiz Fux envolvem principalmente seu filho, o advogado Rodrigo Fux. O material indica que ele e Vorcaro mantiveram contato entre maio de 2024 e agosto de 2025, período em que combinaram encontros em diferentes cidades e discutiram aproximações profissionais. Em algumas conversas, o tratamento é informal e demonstra proximidade maior do que a conhecida publicamente até agora.
Em uma das trocas, Vorcaro pede ajuda de Rodrigo em um caso que não é identificado no material divulgado. Em outra, o advogado orienta o banqueiro a encaminhar uma mensagem por e-mail à secretária de Luiz Fux no Supremo. Também aparecem convites feitos por Vorcaro para Rodrigo e familiares frequentarem seu camarote no Carnaval do Rio de Janeiro.
O escritório Fux Advogados afirma que nenhuma relação profissional com Vorcaro foi efetivamente formalizada e que não recebeu pagamentos do empresário. Segundo a banca, ocorreram tentativas de aproximação comercial, mas elas não se converteram em contratação. Não há, entre os registros conhecidos, comprovação de pagamento de Vorcaro a Rodrigo Fux nem prova de que Luiz Fux tenha praticado ato judicial em benefício do banqueiro em razão dessas conversas.
As mensagens, contudo, ampliam o conhecimento sobre o grau de acesso do empresário à família de outro integrante da Corte. Até então, o principal episódio conhecido era o convite feito a Rodrigo para o camarote de Vorcaro na Marquês de Sapucaí. O novo conjunto revela contatos distribuídos por mais de um ano e pedidos de interlocução que ultrapassam aquele encontro social isolado.
Advogado próximo a Mendonça celebrou decisão com Vorcaro
O terceiro eixo envolve André Mendonça e o advogado Ciro Soares. Soares participou da mobilização política pela indicação de Mendonça ao STF em 2021 e posteriormente apareceu como um dos intermediários dos contatos entre Daniel Vorcaro e o ministro. Foi ele, junto com o deputado Cezinha de Madureira, que atuou na aproximação que levou a um encontro entre Vorcaro e Mendonça em março de 2025.
Uma conversa anterior ganhou nova relevância. Em 10 de outubro de 2024, data em que André Mendonça concedeu habeas corpus ao então governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro, Ciro escreveu a Vorcaro comemorando o resultado. Ele afirmou que havia dado certo e utilizou a expressão “ganhamos”, encaminhando na sequência um arquivo que aparentava ser relacionado à decisão. Poucos dias depois, Ciro tentou novamente falar por telefone com o banqueiro.
O diálogo não esclarece qual interesse Vorcaro teria na decisão referente a Castro nem demonstra que o ex-banqueiro tivesse participado do processo. Também não comprova interferência de Ciro sobre Mendonça. O fato relevante é que uma pessoa próxima ao ministro tratou uma decisão judicial favorável a terceiro como uma vitória compartilhada em conversa com Vorcaro, circunstância cuja explicação não aparece nos registros divulgados.
O gabinete de Mendonça afirma que o ministro recebeu Daniel Vorcaro apenas uma vez, em março de 2025, antes de assumir a relatoria das investigações do Master. Segundo a versão oficial, o empresário pediu a reunião, foi ouvido e apresentou memoriais sobre um processo. O gabinete sustenta que Mendonça posteriormente votou contra a posição defendida por Vorcaro nesse caso.
Vorcaro foi convidado e depois desconvidado de evento do Iter
As conversas de Ciro Soares acrescentam informações também sobre a relação de Vorcaro com o Instituto Iter, fundado por André Mendonça. Em maio de 2025, o advogado encaminhou ao empresário convite para um evento da instituição em Belo Horizonte. Dias depois, afirmou estar irritado porque Cezinha de Madureira considerava melhor que Vorcaro não comparecesse.
Ciro disse ao banqueiro que o convite havia partido do próprio “homem”, expressão utilizada no contexto da conversa em referência a Mendonça, mas que Cezinha discordava da presença. Outros registros mostram que Vorcaro recebeu convites para atividades do instituto e buscou diferentes caminhos para se aproximar do ministro durante 2024 e 2025.
Não está demonstrado que o empresário tenha comparecido ao evento em questão. O episódio, contudo, adiciona contexto ao encontro realizado no escritório do Iter em São Paulo em março de 2025, confirmado pelo gabinete de Mendonça. Naquela época, Vorcaro ainda não havia sido preso e o ministro não era relator das investigações do Banco Master.
Novos diálogos alteram ambiente do julgamento em curso
A divulgação desse material não muda automaticamente o objeto formal do julgamento iniciado nesta terça-feira. O Plenário analisa se os elementos reunidos pela Polícia Federal podem sustentar uma investigação relacionada a Alexandre de Moraes e enfrenta, paralelamente, a contestação da PGR sobre a validade da ordem que levou à identificação dos interlocutores de Vorcaro.
Politicamente e institucionalmente, porém, o ambiente mudou. Kassio Nunes Marques deixou a votação depois das revelações que atingem seu entorno. Toffoli já havia se declarado suspeito. Moraes não vota sobre a própria situação. Com três ministros fora, restam no máximo oito votos na deliberação.
Luiz Fux permaneceu no julgamento até a última atualização desta reportagem. As mensagens envolvendo seu filho não demonstram pagamento ou favorecimento judicial, mas passaram a integrar o debate sobre a possibilidade de magistrados com familiares citados no material participarem de uma decisão que envolve apenas um dos colegas mencionados no universo do caso Master.
O conjunto divulgado nesta terça também reforça uma constatação que ultrapassa as acusações específicas contra Moraes: Daniel Vorcaro cultivava canais de acesso a diferentes áreas do Supremo e ao entorno familiar, político e profissional de integrantes da Corte. Determinar se algum desses contatos ultrapassou os limites de relações sociais, comerciais ou institucionais exige análise individualizada e provas adicionais.
Essa distinção será decisiva para evitar que a amplitude da rede de relacionamentos seja confundida com demonstração automática de ilegalidade. As mensagens mostram acesso. Algumas mostram negociações. Outras fazem referência a valores. Documentos financeiros confirmam determinados pagamentos indiretos, enquanto outros permanecem apenas mencionados em conversas. A tarefa das investigações será estabelecer, em cada caso, onde termina a proximidade e começa uma operação que possa ter relevância criminal.
Fontes:
Supremo Tribunal Federal – andamento da sessão plenária de 15 de setembro de 2026 e informações processuais sobre a análise do material relacionado a Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes
UOL – mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro envolvendo Kassio Nunes Marques, Kevin Marques, Rodrigo Fux, Ciro Soares e pessoas do entorno de ministros do Supremo
Folha de S.Paulo – registros das conversas de Daniel Vorcaro com Rodrigo Fux e informações sobre os pagamentos da Consult Inteligência Tributária ao escritório de Kevin Marques
Folha de S.Paulo – informações sobre o afastamento de Kassio Nunes Marques da votação e as relações de familiares de ministros com pessoas e empresas ligadas ao Banco Master
Conselho de Controle de Atividades Financeiras – informações reproduzidas em documentos e reportagens sobre movimentações da Consult Inteligência Tributária e pagamentos ao escritório de Kevin Marques
Gabinete do ministro André Mendonça – posicionamento sobre o encontro com Daniel Vorcaro em março de 2025 e a natureza da conversa mantida naquela ocasião
Fux Advogados – posicionamento sobre contatos entre Rodrigo Fux e Daniel Vorcaro e inexistência de contratação ou recebimento de valores do ex-banqueiro






