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Investigação liga empresa de sócio apontado como PCC à rede de Dark Horse

Favela Conectada tinha contrato de R$ 12 milhões com o Instituto Conhecer Brasil, presidido pela mesma empresária que controla a produtora de Dark Horse.

por Júlia Campos
15/09/2026 às 01h49
em Política
Investigação Liga Empresa De Sócio Apontado Como Pcc À Rede De Dark Horse - Gazeta Mercantil - Política

Uma empresa subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) para atuar no programa WiFi Livre SP era controlada por Alex Leandro Bispo dos Santos, empresário apontado pelo Ministério Público de São Paulo como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC). A relação aparece no conjunto de documentos da investigação sobre contratos públicos envolvendo o instituto presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é dona da Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. O material foi tornado público depois que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo da documentação enviada pela Justiça paulista.

Alex era o único sócio da Favela Conectada Serviço e Tecnologia quando a empresa celebrou um contrato de R$ 12 milhões com o ICB para serviços relacionados à implantação de internet gratuita em comunidades da cidade de São Paulo. A relação precisa ser delimitada: quem contratou a Favela Conectada foi o Instituto Conhecer Brasil, e não a Go Up Entertainment. Os documentos conhecidos até agora também não demonstram que Alex tenha trabalhado na produção de “Dark Horse”, recebido recursos diretamente do filme ou mantido relação pessoal com seus produtores em razão da obra cinematográfica.

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A importância do vínculo para a investigação está em outro ponto. O ICB e a Go Up são comandados por Karina Gama, e as autoridades investigam se recursos públicos recebidos pelo instituto, por meio do contrato municipal e de emendas parlamentares, foram desviados de suas finalidades originais e circularam entre empresas e entidades vinculadas à mesma rede. Ao analisar os documentos enviados a Brasília, Dino afirmou que a linha investigativa menciona possíveis vínculos da organização sob apuração com o PCC. A decisão, porém, não identifica Alex nominalmente como a pessoa que estabelece essa conexão.

Contrato de R$ 12 milhões identificava empresário apenas como “Alex”

A representação da Polícia Civil incorporada aos autos chamou atenção para a maneira como Alex foi identificado no contrato da Favela Conectada com o Instituto Conhecer Brasil. Segundo os investigadores, o documento original não apresentava dados considerados essenciais de qualificação do representante da empresa e registrava apenas o primeiro nome, “Alex”. Posteriormente, a polícia o identificou como Alex Leandro Bispo dos Santos.

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A Favela Conectada foi contratada para executar parte dos serviços ligados à expansão da rede pública de internet. Documentos de prestação de contas indicam que a companhia ficou responsável pela instalação de mais de 900 pontos e que notas apresentadas pelo ICB à Prefeitura de São Paulo registravam pagamentos superiores a R$ 3,8 milhões até dezembro de 2025. Outros documentos analisados no inquérito mostram repasses de R$ 500 mil em junho, mais R$ 500 mil e R$ 2 milhões em julho daquele ano, relacionados a serviços contratados pelo instituto.

O contrato de R$ 12 milhões da Favela Conectada representava pouco mais de 11% dos R$ 108 milhões previstos originalmente na parceria entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo para a implantação, operação e manutenção do WiFi Livre SP. O tamanho da subcontratação ajuda a explicar por que a empresa passou a ser examinada pelos investigadores ao reconstruírem o caminho percorrido pelos recursos públicos depois que chegaram ao instituto.

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A apuração não trata o simples pagamento a uma fornecedora como prova de desvio. O que a Polícia Civil busca esclarecer é se as empresas subcontratadas executaram efetivamente os serviços declarados, se os preços eram compatíveis com o mercado e se parte dos valores recebidos percorreu uma cadeia de transferências sem relação com a finalidade prevista no contrato municipal.

Polícia apontou diferença entre preços do ICB e valores anteriores

O contrato do WiFi Livre SP já era investigado antes de a documentação chegar ao Supremo. A parceria original previa R$ 108 milhões para a implantação, operação e manutenção de milhares de pontos de acesso gratuito à internet em comunidades da capital. O Instituto Conhecer Brasil foi a entidade selecionada para executar o programa e recorreu a empresas terceirizadas para realizar parte considerável dos serviços.

Em uma das comparações realizadas pela Polícia Civil, os investigadores apontaram diferença entre os preços associados ao contrato do ICB e valores anteriormente praticados pela administração municipal. Registros citados na investigação indicavam custo de R$ 230 para implantação e R$ 306 mensais para manutenção de pontos atendidos em contratos anteriores envolvendo a Prodam, empresa pública de tecnologia do município. No modelo firmado com o ICB, a investigação passou a questionar uma referência de R$ 1.800 por ponto.

A comparação exige cautela porque documentos e levantamentos sobre o contrato apresentam composições diferentes entre custo de instalação, manutenção e conjunto de serviços incluídos em cada modelo. A própria Polícia Civil, contudo, classificou a diferença como um elemento que justificava aprofundar a apuração sobre eventual sobrepreço, execução dos serviços e destino dos recursos.

A Prefeitura de São Paulo contesta a existência de irregularidades. A administração municipal afirma que os serviços contratados foram prestados, que o programa continua funcionando e que a parceria é submetida a prestações de contas. O município também informou que sua Controladoria acompanha o caso e que colaborará com as investigações.

Empresa mudou de proprietário depois da prisão de Alex

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a alteração societária da Favela Conectada depois da prisão de Alex, em dezembro de 2025. Conforme a documentação reunida pela Polícia Civil, as cotas da empresa foram posteriormente transferidas para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes. A representação policial destaca que ela constava em registros societários com endereço residencial coincidente com o utilizado pelo antigo controlador.

A empresa também mudou de nome e passou a se chamar Urban Connect Serviços e Tecnologia. Para os investigadores, a troca de controle societário, combinada à continuidade das atividades, justificou investigar a hipótese de blindagem patrimonial e ocultação de pessoas. Trata-se, neste estágio, de uma linha de investigação, e não de conclusão de que a transferência tenha sido fraudulenta.

A polícia classificou a Urban Connect, em manifestação incluída no inquérito, entre as empresas que precisam ser examinadas diante de suspeitas de possível desvio de finalidade de recursos públicos e simulação contratual. O objetivo é verificar quem efetivamente controlava as operações, quais serviços foram prestados, quanto foi recebido e para onde seguiram os valores depois dos pagamentos feitos pelo ICB.

Essa reconstrução ganhou importância adicional porque a investigação passou da esfera estadual para uma apuração mais ampla, que envolve emendas parlamentares e pessoas com prerrogativa de foro. A Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal em 10 de setembro, cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. A PF apura suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a contratações públicas.

Dino menciona possível vínculo com PCC, mas não atribui elo diretamente a Alex

Ao analisar o material enviado pela Justiça de São Paulo, Flávio Dino afirmou que havia se fortalecido, dentro da investigação, a hipótese de uma estrutura articulada para destinação e possível desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares federais e da Prefeitura de São Paulo. No mesmo despacho, o ministro registrou que essa organização investigada alcançaria possíveis vínculos com o PCC, conforme linha de apuração descrita nos autos.

A formulação é relevante, mas não permite concluir que o STF tenha declarado que “Dark Horse” é financiado pelo PCC ou que o filme tenha sido produzido pela facção. Tampouco a decisão de Dino identifica Alex nominalmente como responsável pela conexão mencionada pelo ministro. A relação que está documentada é entre a empresa então controlada por Alex e o ICB, entidade presidida pela mesma empresária que controla a produtora do longa.

Alex, por sua vez, é apontado pelo Ministério Público paulista como integrante do PCC. Registros judiciais também mostram que ele possui antecedentes criminais e já cumpriu penas por outros delitos. A vinculação à facção, contudo, deve ser apresentada como atribuição feita pelas autoridades, e não como consequência automática do contrato firmado com o instituto.

O empresário também responde a processo pela morte de Maria Katiane Gomes da Silva, sua companheira, que morreu após cair do décimo andar de um edifício na zona sul de São Paulo, em novembro de 2025. Ele foi denunciado e tornou-se réu no início de 2026. Alex nega ter jogado a mulher do prédio, embora tenha admitido em depoimento que a agrediu antes da queda.

A situação processual sofreu mudanças em agosto. A prisão preventiva foi inicialmente revogada e Alex deixou a prisão no dia 10 daquele mês, submetido a medidas cautelares. Posteriormente, a Justiça decretou novamente sua prisão. Como ele não foi localizado após a nova ordem judicial, passou a ser considerado foragido.

Investigação separa contrato de Wi-Fi e financiamento do filme

A relação entre o caso do WiFi Livre SP e “Dark Horse” decorre principalmente da presença de Karina Gama nas duas estruturas. Ela preside o Instituto Conhecer Brasil e controla a Go Up Entertainment. A Polícia Federal investiga se dinheiro público que chegou ao ICB e a outras entidades relacionadas a ela foi posteriormente desviado para despesas diferentes das previstas, entre elas custos ligados ao filme.

Até o momento, porém, não há elemento conhecido que permita afirmar que os pagamentos feitos à Favela Conectada foram destinados diretamente à produção cinematográfica ou que Alex tenha participado do financiamento do longa. Essa separação é necessária porque diferentes fluxos financeiros aparecem na mesma investigação, mas não necessariamente representam a mesma operação.

A própria Operação Make Up trabalha com uma estrutura mais ampla. A PF afirma que investiga uma organização formada por agentes públicos e privados que teria direcionado recursos recebidos por organizações da sociedade civil a empresas subcontratadas irregularmente, em alguns casos sem comprovação da efetiva prestação dos serviços. Levantamentos financeiros identificaram movimentação de centenas de milhões de reais entre empresas inseridas no universo investigado.

Karina Gama nega ter cometido irregularidades e sustenta que tem colaborado com as autoridades, inclusive por meio da entrega de documentos. A Prefeitura de São Paulo afirma não ter identificado irregularidades na execução do programa de Wi-Fi e diz que os serviços foram prestados. Mário Frias, deputado federal e produtor executivo de “Dark Horse”, também nega participação em desvios e contesta as suspeitas levantadas na investigação.

A documentação revelada após a retirada do sigilo, portanto, amplia o alcance da apuração, mas não elimina a necessidade de distinguir cada relação empresarial. O dado comprovável é que o ICB contratou por R$ 12 milhões uma empresa então controlada por um homem apontado pelo Ministério Público como integrante do PCC. A possível conexão dessa relação com desvios de verbas públicas está sendo investigada. A participação de Alex na produção ou no financiamento de “Dark Horse”, por outro lado, não aparece demonstrada nos documentos divulgados até agora.

Fontes:

Supremo Tribunal Federal – decisão de Flávio Dino e informações sobre a retirada do sigilo e a investigação envolvendo recursos públicos associados ao caso Dark Horse

Polícia Federal – informações oficiais da Operação Make Up sobre suspeitas de desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares e empresas subcontratadas

Prefeitura de São Paulo – informações oficiais sobre o programa WiFi Livre SP, quantidade de pontos instalados e execução da parceria com o Instituto Conhecer Brasil

Agência Brasil – conteúdo da decisão de Flávio Dino sobre a linha investigativa que menciona possíveis vínculos da organização apurada com o PCC e posicionamento da Prefeitura de São Paulo

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