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Copom indica corte de juros só após o Carnaval

por Álvaro Lima
11/12/2025 às 10h44
em Economia
Bc Protege+: Banco Central Cria Proteção Contra Fraudes Em Contas - Gazeta Mercantil - Copom Indica Corte De Juros Só Após O Carnaval

Foto: Banco Central do Brasil/Reprodução

Copom adia perspectivas e indica que corte de juros só virá depois do Carnaval

A última reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) confirmou o que analistas mais conservadores já previam: a taxa Selic permanecerá em 15% ao ano, e um eventual corte de juros só deve ocorrer após o Carnaval. O cenário econômico atual, marcado por inflação resistente, expectativas desancoradas e incertezas fiscais, levou o Banco Central (BC) a adotar uma postura mais cautelosa, alinhando-se a um ambiente doméstico e internacional repleto de variáveis sensíveis.

O comunicado divulgado após o encontro mostrou uma leitura firme da autoridade monetária sobre os riscos inflacionários, evidenciando que o balanço de riscos segue desfavorável. Ainda que a inflação tenha apresentado certa desaceleração, seus componentes subjacentes continuam pressionados, especialmente no setor de serviços, tradicionalmente mais sensível ao ciclo econômico. A intensa resiliência do mercado de trabalho, que mantém salários aquecidos, reforça as preocupações do Comitê.

Leia também: Ata do Copom vê cenário mais difícil para a inflação e sinaliza cautela com novos cortes.

Esse conjunto de fatores deixa claro que não há, no curto prazo, margem técnica suficiente para que o Banco Central inicie um processo de flexibilização monetária. Assim, o Copom preferiu observar as próximas movimentações do mercado, aguardar sinais de acomodação mais consistente da inflação e voltar a discutir mudanças somente na segunda reunião do ano, marcada para março.

Um comunicado sem surpresas — e sem sinalizações

Se, por um lado, a manutenção da Selic já era tida como certa, por outro, parte dos investidores acreditava que o Copom ao menos ofereceria alguma indicação sobre o início da trajetória de baixa. Mas não foi o que ocorreu. O documento repetiu, literalmente, uma expressão considerada decisiva: a política monetária deve permanecer em um patamar “significativamente contracionista por período bastante prolongado”.

Essa repetição, sem qualquer ajuste ou nuance, reforçou a percepção de que o BC não está disposto a antecipar movimentos. A leitura do mercado foi imediata: se havia alguma expectativa de flexibilização no início do próximo ano, ela foi inteiramente descartada. O Comitê optou por manter a comunicação rígida, sinalizando que não cederá à pressão por ajustes apressados.

O cenário de outubro, portanto, permanece praticamente inalterado. O BC reconhece que os juros elevados estão produzindo efeito, mas enfatiza que o processo de desinflação ainda exige cautela. A projeção do Comitê para a inflação do segundo trimestre de 2027, horizonte relevante para tomadas de decisão, caiu levemente de 3,3% para 3,2%. Apesar disso, as expectativas dos agentes econômicos continuam distantes da meta, indicando que a política monetária precisa seguir pressionada.

Desafios internos: mercado de trabalho, cenário fiscal e eleições

Três elementos internos pesam de forma significativa na análise do BC:

  1. Resiliência do mercado de trabalho, que impede um arrefecimento mais rápido da inflação de serviços.

  2. Desorganização fiscal, que aumenta o prêmio de risco do país e limita o espaço para cortes.

  3. Ano eleitoral em 2026, fator que gera incertezas adicionais sobre compromissos fiscais, fluxo de capitais e expectativas de mercado.

Diante da combinação desses fatores, qualquer movimento precipitado poderia reacender pressões inflacionárias, frustrando o trabalho de meses de aperto monetário. Assim, o Comitê preferiu sinalizar que nada ocorrerá na primeira reunião do ano — o que deixa março como o momento mais provável para qualquer decisão.

A influência do cenário internacional

A quarta-feira também foi marcada pela última reunião do Federal Open Market Committee (Fomc), o equivalente norte-americano ao Copom. Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos decidiram reduzir seus juros em 0,25 ponto percentual, passando o intervalo para entre 3,50% e 3,75% ao ano.

Apesar da decisão, o ponto mais relevante veio na entrevista coletiva. Jerome Powell afirmou não acreditar em novas altas de juros no cenário-base, o que trouxe alívio aos mercados globais. As bolsas reagiram imediatamente, tanto nos EUA quanto no Brasil, impulsionadas pela perspectiva de estabilização do ambiente monetário americano.

Para o Brasil, o panorama internacional exerce dupla influência: reduz pressões cambiais e diminui parte do prêmio de risco, mas ainda não elimina os obstáculos internos. A sinalização do Fed abre uma janela positiva, mas o Banco Central brasileiro não considera o movimento como justificativa suficiente para iniciar um ciclo de cortes antes de observar melhor a evolução doméstica.

Indicadores reforçam o ambiente de cautela

Os dados mais recentes do varejo mostraram uma retração mensal de 0,2% e queda de 0,5% no acumulado de 12 meses. As leituras refletem a desaceleração do consumo, comum em períodos de juros elevados, mas ainda não traduzem uma reversão consistente que permitiria ao BC flexibilizar a política monetária.

Os pedidos iniciais de seguro-desemprego nos EUA, que avançaram de 191 mil para 220 mil, também reforçam a leitura de leve desaquecimento na economia americana. Mas, novamente, esses movimentos não são suficientes para alterar a estratégia do Copom no curto prazo.

Por que o corte só deve vir após o Carnaval?

A decisão de aguardar até março decorre da necessidade de observar:

  • o comportamento da inflação no início do ano, período tradicionalmente mais sensível;

  • reajustes sazonais de preços administrados;

  • negociações salariais que influenciam serviços;

  • definição mais clara sobre a trajetória fiscal;

  • impactos da política monetária americana;

  • volatilidade pré-eleitoral.

O Carnaval funciona como um marco temporal. A primeira reunião de janeiro ocorre antes do feriado, em um ambiente ainda nebuloso para interpretação de dados. A segunda reunião, marcada para março, permitirá ao Comitê analisar informações mais robustas do trimestre, o que oferece segurança adicional para tomar decisões.

Assim, o BC evita movimentos arriscados e mantém firme a política contracionista, buscando alinhar expectativas e consolidar a trajetória de desinflação.

Perspectivas para os próximos meses

O Brasil deve atravessar o início de 2026 com juros elevados. A inflação pode continuar desacelerando, mas a ancoragem das expectativas é o aspecto mais importante na avaliação do BC. A comunicação rígida reforça a intenção de garantir que o processo desinflacionário continue, sem brechas para interpretações equivocadas.

O mercado, por sua vez, deve ajustar projeções e acompanhar atentamente não apenas os dados econômicos, mas também sinais do governo sobre responsabilidade fiscal. A manutenção de um ambiente estável é essencial para reduzir incertezas e permitir que cortes mais consistentes ocorram no segundo semestre.

Para investidores, empresas e consumidores, o recado é claro: a política monetária seguirá restritiva por algum tempo. A estratégia busca preservar a credibilidade da autoridade monetária e evitar qualquer movimento que comprometa a trajetória inflacionária.

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