O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), companhia aberta negociada no segmento Bovespa Mais sob o código CTCA3, entrou em uma etapa decisiva de seu plano para dobrar a produtividade dos canaviais brasileiros até 2040. A estratégia parte de uma referência de 74 toneladas de cana por hectare na safra 2022/23 e estabelece como objetivo alcançar 148 toneladas por hectare sem depender da expansão da área cultivada. O salto será buscado pela combinação de quatro frentes: melhoramento genético, biotecnologia, manejo orientado por dados e um novo sistema de plantio baseado em sementes sintéticas.
A distância entre a meta e o desempenho atual mostra a dimensão do projeto. A Companhia Nacional de Abastecimento estima produção de 705,2 milhões de toneladas de cana na safra 2026/27, com avanço de 4,7% sobre o ciclo anterior e recuperação de 3,6% da produtividade média. A estimativa corresponde a um rendimento próximo de 78 toneladas por hectare. Assim, atingir 148 toneladas significaria elevar em cerca de 90% a produtividade observada atualmente no paÃs, além de representar exatamente o dobro da referência de 74 toneladas adotada pelo próprio CTC para sua Visão 2040.
O efeito potencial desse ganho pode ser dimensionado pela área hoje utilizada. Mantida uma área colhida próxima de 9 milhões de hectares, um rendimento médio de 148 toneladas por hectare levaria a uma produção teórica superior a 1,3 bilhão de toneladas de cana. O cálculo não é uma projeção de produção para 2040, porque clima, renovação dos canaviais, adoção tecnológica e diferenças regionais impedem uma extrapolação direta. Ele mostra, porém, por que elevar a produtividade passou a ser uma variável estratégica: produzir mais matéria-prima deixa de exigir, na mesma proporção, novas áreas agrÃcolas.
O histórico recente confirma que o caminho não será linear. Na região Centro-Sul, dados da Plataforma de Benchmarking do CTC apontaram produtividade média de 77,7 toneladas por hectare entre abril e setembro de 2025, queda de 6,5% sobre igual intervalo da safra anterior. No acumulado até outubro daquele ano, a média caiu para 75,7 toneladas por hectare, 5,1% abaixo do ciclo precedente. Variações climáticas, idade dos canaviais, ambiente de produção e manejo continuam exercendo influência suficiente para afastar o resultado efetivo do potencial genético das plantas.
Sementes sintéticas reduzem de 16 toneladas para 400 quilos o material de plantio
É no sistema de plantio que o CTC colocou em operação uma das mudanças mais profundas de sua estratégia. Em abril de 2026, a companhia inaugurou em Piracicaba, no interior de São Paulo, sua primeira Unidade de Produção de Sementes, construÃda com investimento superior a R$ 100 milhões. A instalação ocupa aproximadamente 10 mil metros quadrados e foi concebida para transformar uma tecnologia desenvolvida em laboratório em um processo industrial capaz de ser testado e ampliado no campo.
A diferença em relação ao modelo convencional está no material utilizado para formar o canavial. O plantio tradicional depende de colmos ou segmentos da própria cana, o que exige transportar grande quantidade de biomassa entre viveiros e áreas agrÃcolas. Segundo os parâmetros apresentados pelo CTC, são necessárias aproximadamente 16 toneladas de cana para implantar um hectare. Com as sementes sintéticas, o volume pode cair para cerca de 400 quilos.
A redução é de 97,5%, ou seja, o novo sistema utiliza aproximadamente um quadragésimo da massa movimentada no modelo tradicional. O efeito ultrapassa o custo do material. Menos peso significa menor necessidade de transporte, máquinas, diesel e operações agrÃcolas, além da possibilidade de reduzir a compactação do solo e aumentar a velocidade de implantação das novas variedades. A produção em ambiente controlado também busca entregar maior uniformidade e sanidade ao material levado ao campo.
Outra mudança ocorre dentro da própria área agrÃcola. Os viveiros usados para multiplicar material de plantio podem ocupar, segundo o CTC, até 5% das terras destinadas à cultura. A empresa estima que sua substituição poderia liberar aproximadamente 500 mil hectares atualmente empregados na produção de mudas. Considerando a dimensão atual do canavial brasileiro, a ordem de grandeza é compatÃvel com centenas de milhares de hectares que poderiam voltar à produção comercial sem abertura de nova área agrÃcola.
A tecnologia, contudo, ainda está longe de uma disseminação comparável à dimensão do setor. A primeira unidade tem capacidade inicial para atender até 500 hectares por ano operando em um turno. Diante de uma área nacional próxima de 9 milhões de hectares, isso corresponde a menos de 0,01% do canavial brasileiro. A comparação deixa claro que a fábrica de Piracicaba é uma estrutura de validação e inÃcio de escala, e não capacidade suficiente para substituir imediatamente o sistema convencional.
O CTC afirma desenvolver a tecnologia desde 2013, com participação de cerca de 150 especialistas e previsão de investimentos acumulados da ordem de R$ 1 bilhão até o lançamento comercial. A lógica econômica é acelerar a introdução das novas variedades: uma genética mais produtiva tem efeito limitado se sua multiplicação e chegada aos canaviais continuar dependente de um processo demorado e intensivo em biomassa.
Genética e biotecnologia atacam produtividade e perdas no mesmo sistema
O segundo componente da estratégia é o melhoramento genético. A série CTC Advana foi desenvolvida para ampliar simultaneamente produtividade, teor de açúcar, sanidade e adaptação aos diferentes ambientes de produção. Nos ensaios divulgados pelo centro para a CTC Advana 1, a variedade registrou vitória em 95% das comparações com o principal padrão utilizado como referência e incremento médio de 2,1 toneladas de açúcar por hectare. O cálculo considera a média de 17 ensaios experimentais e cinco cortes.
Esse indicador, porém, não deve ser confundido com a meta de 148 toneladas. O desempenho da variedade é expresso em toneladas de açúcar por hectare, enquanto a Visão 2040 mede toneladas de cana por hectare. O primeiro indicador incorpora também a concentração de açúcar da matéria-prima; o segundo mede exclusivamente a massa colhida. A distinção é relevante porque o retorno econômico de um canavial depende não apenas do volume fÃsico de cana, mas da quantidade de açúcar recuperável obtida nessa matéria-prima.
A CTC Advana 2, apresentada em 2026, amplia a estratégia para ambientes mais restritivos. A companhia informou taxa de vitória de 87% nos ensaios e estima ganho de produtividade próximo de 10% frente aos padrões utilizados em suas comparações. Em vez de apostar em uma única variedade para todo o território, a companhia trabalha com diferentes materiais para condições especÃficas de solo, clima, época de corte e ambiente produtivo.
A biotecnologia funciona como a camada destinada a preservar parte desse potencial. Em maio, o CTC recebeu aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança para o primeiro evento da plataforma VerdPRO2, que reúne resistência à broca-da-cana e tolerância a herbicida. A companhia estima que a broca provoque perdas próximas de R$ 8 bilhões por ano no setor, enquanto o controle de plantas daninhas movimenta mais de R$ 6 bilhões anuais entre herbicidas e operações agrÃcolas.
Somados, os dois problemas representam uma dimensão econômica superior a R$ 14 bilhões por ano segundo as estimativas utilizadas pelo CTC. Isso não significa que a nova tecnologia eliminará integralmente essas despesas ou perdas, mas ajuda a explicar por que proteção genética e manejo foram incorporados à estratégia de produtividade. Criar uma variedade capaz de produzir mais não basta se pragas, competição com plantas daninhas ou falhas operacionais consumirem parte do ganho antes da colheita.
Depois da aprovação regulatória, o CTC iniciou em junho o Programa Pioneiros, destinado a testar a VerdPRO2 em condições reais de manejo. Mais de 50 profissionais foram mobilizados para acompanhar as áreas e gerar dados de campo. A etapa é relevante porque desempenho experimental e resultado comercial não são equivalentes: a resposta da tecnologia precisa ser observada em diferentes ambientes, ciclos de produção e sistemas de manejo antes de uma adoção em larga escala.
CTC amplia investimento para converter pesquisa em adoção comercial
A passagem da pesquisa para escala aparece também nos números financeiros da companhia. Na safra 2025/26, o CTC registrou receita lÃquida de R$ 470,6 milhões, alta de 11,3%, e lucro lÃquido de R$ 216,5 milhões, avanço de 23,2% sobre o ciclo anterior. O Ebitda alcançou R$ 218,7 milhões, com margem de 46,5%.
Ao mesmo tempo, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento chegaram a R$ 268 milhões, crescimento de 14,6%. O valor supera o próprio lucro lÃquido do perÃodo em R$ 51,5 milhões, uma diferença de quase 24%, embora as duas medidas tenham naturezas contábeis distintas e não devam ser comparadas como se representassem a mesma conta. O dado dimensiona, ainda assim, o peso financeiro atribuÃdo ao desenvolvimento de novas tecnologias.
O Capex avançou de forma ainda mais acelerada, para R$ 139 milhões, aumento de 142,4%. Os recursos foram destinados principalmente à Unidade de Produção de Sementes, laboratórios e infraestrutura de pesquisa. Mesmo com o aumento dos desembolsos, o CTC encerrou a safra com caixa lÃquido de R$ 501,7 milhões.
A participação da empresa no mercado de plantio chegou a 32%, seis pontos percentuais acima da safra anterior. Entre o plantio realizado com variedades protegidas, 81% foi feito com materiais lançados a partir de 2020. Esses números mostram uma segunda dimensão do desafio de 2040: além de produzir tecnologia, a companhia precisa encurtar o intervalo entre desenvolvimento, aprovação, multiplicação e adoção efetiva pelos produtores.
Etanol E32 aumenta demanda enquanto setor tenta produzir mais sem ampliar área
A busca por produtividade ocorre em um momento de expansão da produção de biocombustÃveis. No segundo levantamento da safra 2026/27, a Conab projetou 705,2 milhões de toneladas de cana, 42,89 milhões de toneladas de açúcar e 29,98 bilhões de litros de etanol produzido a partir da cana. Somado ao etanol de milho, estimado em 11,91 bilhões de litros, o paÃs poderá atingir 41,88 bilhões de litros do biocombustÃvel no ciclo.
A demanda doméstica ganhou um componente adicional em 1º de agosto, quando entrou em vigor, em caráter temporário, a gasolina E32. O percentual obrigatório de etanol anidro misturado à gasolina comum passou de 30% para 32% por 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação pelo mesmo perÃodo. A gasolina premium permaneceu com mistura de 25%.
A mudança não significa que toda cana adicional será direcionada ao etanol. As usinas ajustam o mix entre açúcar e combustÃvel de acordo com preços, contratos, condições industriais e perspectivas de mercado. Ainda assim, um rendimento agrÃcola maior amplia a quantidade de matéria-prima disponÃvel para os dois mercados sem exigir crescimento equivalente da área cultivada.
É nessa relação que a meta do CTC ganha dimensão econômica. Dobrar a produtividade de 74 para 148 toneladas por hectare não depende de uma única inovação e tampouco será demonstrado pela capacidade inicial da fábrica de sementes ou por uma nova variedade isoladamente. A estratégia exige que genética, proteção biotecnológica, manejo e plantio funcionem em conjunto e mantenham desempenho em ambientes agrÃcolas distintos por sucessivos cortes.
O cronograma até 2040 oferece tempo para que essas tecnologias avancem, mas o ponto de partida continua distante da meta. Com produtividade nacional próxima de 78 toneladas por hectare, o setor precisa adicionar cerca de 70 toneladas por hectare para alcançar o objetivo definido pelo CTC. A primeira fase já saiu do laboratório. O teste seguinte será mostrar se tecnologias desenvolvidas em escala experimental conseguem atravessar milhões de hectares e alterar de forma permanente a produtividade média da cana brasileira.
Fontes:
Centro de Tecnologia Canavieira – Visão 2040 e Relatório de Sustentabilidade com a meta de elevar a produtividade de 74 para 148 toneladas de cana por hectare
Companhia Nacional de Abastecimento – segundo levantamento da safra brasileira de cana-de-açúcar 2026/27
Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – registros regulatórios relativos à cana-de-açúcar geneticamente modificada resistente à broca e tolerante ao glifosato
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e BiocombustÃveis – regras da mistura temporária E32 em vigor desde agosto de 2026
Conselho Nacional de PolÃtica Energética – Resolução nº 9 de 2026 sobre a elevação temporária do teor de etanol anidro na gasolina










