A trajetória das hortaliças no Brasil começou muito antes da formação de uma agricultura comercial organizada e atravessou mudanças sociais, migratórias, científicas e tecnológicas que transformaram a maneira como o país produz e consome alimentos. Essa evolução é o eixo de “História das Hortaliças no Brasil: do descobrimento aos tempos atuais”, nova obra do engenheiro agrônomo e ex-professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) Paulo César Tavares de Melo.
Dividido em três partes e 11 capítulos, o livro acompanha a olericultura brasileira desde os hábitos alimentares existentes antes da chegada dos portugueses, em 1500, até a formação de uma cadeia produtiva marcada atualmente por melhoramento genético, produção profissionalizada, sistemas modernos de distribuição e ampla diversificação de produtos. A publicação foi editada pelo próprio autor com apoio da Associação Brasileira de Horticultura (ABH).
A obra é resultado de uma investigação que antecede em muitos anos sua publicação. Em 2016, Tavares de Melo já havia publicado, em coautoria com Arlete M. T. Melo, um trabalho dedicado à evolução da olericultura brasileira desde o período do descobrimento até o século XXI. Cinco anos depois, ao registrar sua aposentadoria da Esalq, a própria universidade informou que o pesquisador se dedicava à finalização de um livro sobre a história das hortaliças no país.
O novo trabalho amplia essa investigação e organiza em uma única linha histórica episódios que normalmente aparecem dispersos entre documentos coloniais, estudos agronômicos, registros da imigração, pesquisas sobre melhoramento vegetal e a evolução da produção agrícola brasileira.
Alimentação indígena antecedeu a formação da olericultura colonial
A primeira parte da obra volta a um período anterior à organização do território brasileiro pela Coroa portuguesa. Povos originários já consumiam espécies vegetais disponíveis nos diferentes biomas e dominavam práticas de cultivo e aproveitamento de alimentos muito antes da introdução das espécies trazidas posteriormente pelos europeus.
Um dos registros históricos utilizados pelo autor está relacionado à carta escrita por Pero Vaz de Caminha em 1500. O documento descreve alimentos consumidos pelos indígenas encontrados pelos portugueses no litoral. Em trabalhos anteriores, Tavares de Melo destacou referências feitas àquilo que os europeus identificaram como inhame — posteriormente relacionado à mandioca — e ao palmito.
A chegada portuguesa inicia outra etapa dessa história. A circulação de pessoas, plantas e sementes provocada pelas grandes navegações colocou o território brasileiro em contato com espécies originárias de diferentes partes do mundo. Ao longo dos séculos seguintes, variedades trazidas da Europa, da Ásia e de outras regiões passaram a conviver com alimentos já existentes no continente americano.
Essa combinação ajudou a formar um sistema alimentar muito mais diversificado. O processo, porém, não ocorreu de maneira linear. Algumas espécies adaptaram-se rapidamente às condições brasileiras, enquanto outras dependeram de seleção, pesquisa e mudanças nas técnicas de cultivo para que pudessem ser produzidas com regularidade em ambientes tropicais e subtropicais.
O livro acompanha essa primeira fase até a transição do século XIX para o século XX, período em que mudanças demográficas, urbanização crescente e novas correntes migratórias começaram a alterar a estrutura de produção e comercialização de verduras, legumes, raízes e outras hortaliças.
Imigração japonesa mudou produção e variedade disponível
Um dos acontecimentos destacados na reconstrução histórica é a chegada dos primeiros grandes contingentes de imigrantes japoneses ao Brasil, iniciada oficialmente em 1908 com o desembarque do Kasato Maru no Porto de Santos. Embora muitos desses imigrantes tenham sido inicialmente direcionados para as lavouras de café, parte das famílias posteriormente passou a desenvolver pequenas propriedades e atividades ligadas à horticultura.
A contribuição ultrapassou o simples aumento da produção. Registros técnicos da pesquisa agropecuária brasileira apontam que famílias japonesas começaram a cultivar pequenas hortas para consumo próprio a partir da década de 1910 e posteriormente avançaram para a produção comercial, utilizando conhecimentos e técnicas intensivas trazidos do Japão.
Esse processo ampliou significativamente o repertório de hortaliças cultivadas no país. Levantamentos técnicos atribuem aos imigrantes japoneses a introdução de pelo menos três dezenas de espécies, além da disseminação comercial de plantas que já estavam presentes no território brasileiro. A atuação desses produtores também se conectou posteriormente ao trabalho de instituições de pesquisa responsáveis pela seleção e pelo desenvolvimento de novas variedades.
A imigração, dessa maneira, alterou tanto o lado da produção quanto o consumo. A crescente presença de hortaliças antes pouco conhecidas ajudou a modificar hábitos alimentares e abriu mercados que, décadas depois, estariam incorporados definitivamente ao varejo brasileiro.
O livro trata esse movimento como parte de uma transformação mais ampla da olericultura no início do século XX, quando a atividade começa a se afastar gradualmente de um modelo baseado principalmente em pequenas hortas de subsistência e passa a adquirir maior importância comercial.
Segunda Guerra acelerou desenvolvimento de sementes no Brasil
Outro ponto de inflexão ocorreu a partir de 1939, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. A interrupção ou dificuldade de importação de sementes provenientes da Europa, dos Estados Unidos e do Japão expôs a dependência brasileira de material genético produzido no exterior.
O problema estimulou uma resposta científica nacional. Entre as décadas de 1940 e 1960, programas de pesquisa ganharam importância na seleção de plantas capazes de produzir sob as condições brasileiras. Instituições como o Instituto Agronômico, a Esalq e posteriormente outros centros de pesquisa passaram a desempenhar papel crescente no desenvolvimento de cultivares e técnicas de produção.
Essa adaptação tornou-se especialmente importante porque parte das hortaliças cultivadas no país tinha origem em regiões de clima diferente. Produzir comercialmente determinadas variedades sob temperaturas, regimes de chuva e pressões de doenças típicos de ambientes tropicais exigia soluções próprias.
O melhoramento genético passou, assim, a ser um dos pilares da modernização do setor. A seleção de plantas mais produtivas, resistentes e adequadas às condições locais permitiu ampliar regiões produtoras, elevar produtividade e reduzir algumas limitações impostas pelo clima.
Esse é também um ponto em que a história narrada no livro se encontra com a trajetória profissional de seu autor. Tavares de Melo construiu parte substancial de sua carreira justamente nas áreas de melhoramento genético e produção de hortaliças, acompanhando de dentro das instituições de pesquisa várias das transformações tecnológicas abordadas na publicação.
Produção deixou de ser atividade periférica no agronegócio
A segunda metade do século XX levou a olericultura brasileira a outra escala. Expansão urbana, crescimento das redes de supermercados, novas centrais de abastecimento, irrigação, mecanização, desenvolvimento de híbridos e aperfeiçoamento dos sistemas de produção modificaram a cadeia desde a propriedade rural até o consumidor.
Um retrato apresentado pelo próprio Tavares de Melo em trabalho técnico publicado na década passada mostra a dimensão adquirida pelo setor. Dados referentes a 2012 apontavam produção próxima de 19 milhões de toneladas de hortaliças no Brasil e área cultivada da ordem de 800 mil hectares. Batata, tomate, cebola, melancia e cenoura respondiam por parcela majoritária do volume produzido.
Naquele levantamento, estimava-se ainda a geração de aproximadamente 2 milhões de empregos diretos na atividade. Os números são históricos e não devem ser interpretados como uma fotografia do mercado em 2026, mas ajudam a dimensionar a distância percorrida desde as pequenas hortas que caracterizaram etapas anteriores da olericultura nacional.
O crescimento também provocou deslocamentos geográficos. Novas fronteiras produtivas foram consolidadas em áreas como São Gotardo, em Minas Gerais, Cristalina, em Goiás, e a Chapada Diamantina, na Bahia. Melhorias em irrigação, genética, manejo e logística permitiram produzir determinadas hortaliças em regiões que antes tinham participação muito menor na oferta nacional.
Do campo às prateleiras, cadeia tornou-se mais complexa
A terceira parte do livro se concentra justamente nessa estrutura contemporânea. O autor analisa a modernização da produção e da comercialização, a multiplicação da oferta de produtos e a evolução dos canais usados para fazer as hortaliças chegarem ao consumidor.
A cadeia atual envolve viveiros de mudas, empresas de sementes, produtores rurais, fornecedores de fertilizantes e defensivos, fabricantes de equipamentos, transportadores, centrais de abastecimento, atacadistas, supermercados, feiras e empresas especializadas em produtos frescos. Mais recentemente, comércio eletrônico e sistemas de entrega rápida adicionaram novos caminhos entre o campo e as famílias.
Também houve mudança no próprio produto vendido. Variedades diferenciadas, hortaliças minimamente processadas, folhas prontas para consumo, cultivares especiais e produtos destinados a nichos específicos passaram a disputar espaço com itens tradicionalmente comercializados a granel.
Essa evolução trouxe novos desafios. Produtos altamente perecíveis continuam sujeitos a perdas entre a colheita e o consumo, enquanto alterações climáticas, disponibilidade de água, custo de insumos, mão de obra, sanidade vegetal e exigências de qualidade aumentam a complexidade da atividade.
Para o autor, portanto, a história da olericultura não termina com a modernização tecnológica. A evolução futura dependerá da capacidade de produtores, pesquisadores, empresas e poder público de responder a pressões ambientais e econômicas sem comprometer produtividade e abastecimento.
Livro reúne investigação histórica e cinco décadas de experiência científica

Nascido em João Pessoa, em 1948, Paulo César Tavares de Melo graduou-se em Agronomia pela antiga Escola de Agronomia do Nordeste, atualmente integrada ao Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal da Paraíba. Posteriormente realizou mestrado e doutorado em Melhoramento Genético de Plantas no Departamento de Genética da Esalq/USP.
Ao longo da carreira, passou pelo Instituto Agronômico de Pernambuco, pela Embrapa Hortaliças, pela iniciativa privada e pela própria Esalq, onde atuou como professor no Departamento de Produção Vegetal. Aposentou-se da universidade em 2020, depois de aproximadamente cinco décadas dedicadas à pesquisa, ensino e extensão.
Em 2021, tornou-se membro titular da Academia Brasileira de Ciência Agronômica, ocupando a cadeira 64. Também presidiu a Associação Brasileira de Horticultura por dois mandatos e desenvolveu atividades de pesquisa, consultoria e cooperação internacional relacionadas ao cultivo e ao melhoramento de hortaliças.
A publicação de “História das Hortaliças no Brasil” ocorre praticamente em paralelo a outro trabalho recente do pesquisador. Em agosto, a Esalq anunciou a obra “História da Agroindústria do Tomate no Brasil: do agreste pernambucano ao cerrado goiano”, na qual Tavares de Melo reconstrói 135 anos da produção e do processamento industrial do tomate no país.
Com o novo livro, o foco deixa uma cultura específica e alcança a formação de toda a olericultura brasileira. Mais do que registrar uma sequência de acontecimentos, a obra mostra como alimentação, imigração, ciência, desenvolvimento de sementes e construção de mercados se combinaram para transformar hortaliças cultivadas inicialmente em pequena escala em componentes permanentes e economicamente relevantes do sistema brasileiro de produção de alimentos.
FONTES:
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz — Divisão de Comunicação — comunicado institucional “História das hortaliças no Brasil: do descobrimento aos tempos atuais” — 31 de agosto de 2026.
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz — perfil institucional de Paulo César Tavares de Melo e registro de sua trajetória em pesquisa de olericultura — 2021.
Repositório da Produção USP — “Olericultura brasileira: do descobrimento ao século XXI: parte I” — Paulo César Tavares de Melo e Arlete M. T. Melo — 2016.
Embrapa — documentação técnica sobre agricultura e contribuição da imigração japonesa para a olericultura brasileira.
Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz — “História da Agroindústria do tomate no Brasil” — agosto de 2026.










