O dinheiro esquecido por clientes em bancos, administradoras de consórcios e outras instituições financeiras somava R$ 6,24 bilhões em maio de 2026, informou o Banco Central nesta terça-feira (14). O montante, disponÃvel para cerca de 24 milhões de pessoas fÃsicas e 2,3 milhões de empresas, caiu 39,5% em relação a abril, principalmente após a transferência de R$ 5,7 bilhões para o Fundo de Garantia de Operações, usado para dar cobertura à s renegociações do Novo Desenrola Brasil.
Do total que ainda aparece no Sistema de Valores a Receber, R$ 4,43 bilhões pertencem a pessoas fÃsicas. Outros aproximadamente R$ 1,8 bilhão são de pessoas jurÃdicas.
A atualização produz uma mudança importante na leitura dos números. A queda do dinheiro esquecido em bancos não significa que mais de R$ 4 bilhões tenham sido necessariamente sacados pelos titulares entre abril e maio.
Grande parte da redução ocorreu porque recursos informados ao Banco Central até 31 de dezembro de 2024 foram retirados da base do sistema e encaminhados ao FGO, conforme determinação da Medida Provisória 1.355, que instituiu o Novo Desenrola Brasil.
O saldo disponÃvel havia encerrado abril em aproximadamente R$ 10,32 bilhões. Em maio, recuou R$ 4,08 bilhões, para os atuais R$ 6,24 bilhões. Na comparação com janeiro, quando havia R$ 10,27 bilhões, a queda acumulada chega a 39,2%.
Pessoas fÃsicas concentram 71% do dinheiro disponÃvel
As pessoas fÃsicas respondem por aproximadamente 71% de todo o dinheiro esquecido que permanece disponÃvel no sistema do Banco Central. Os R$ 4,43 bilhões estão distribuÃdos entre mais de 24 milhões de consumidores.
O número de beneficiários, entretanto, não corresponde ao número de contas ou registros. Uma mesma pessoa pode ter mais de um valor a receber, mantido por diferentes instituições financeiras.
As empresas concentram aproximadamente 29% do saldo. Cerca de 2,3 milhões de pessoas jurÃdicas possuem, juntas, pouco mais de R$ 1,8 bilhão ainda registrado no sistema.
O valor médio obtido pela divisão do saldo pelo número de titulares não representa necessariamente quanto cada beneficiário receberá. A distribuição é fortemente desigual e inclui desde quantias inferiores a R$ 1 até recursos superiores a R$ 1 mil.
Segundo os dados do Banco Central, 67,6% dos beneficiários possuem até R$ 10 para retirar. Outros 19,5% têm entre R$ 10,01 e R$ 100.
A faixa entre R$ 100,01 e R$ 1 mil representa 10,5% dos casos. Apenas 2,5% dos titulares possuem mais de R$ 1 mil em dinheiro esquecido.
Embora a maioria dos registros envolva valores pequenos, a consulta continua economicamente relevante. O sistema reúne saldos de contas encerradas, cobranças indevidas, sobras de cooperativas e recursos de consórcios que podem ter permanecido parados durante anos.
Consórcios respondem pela maior parcela do saldo
As administradoras de consórcios concentram R$ 2,9 bilhões, equivalentes a cerca de 46,5% do dinheiro esquecido ainda disponÃvel. A liderança está associada principalmente a recursos não procurados de grupos de consórcio encerrados.
Os bancos aparecem em seguida, com aproximadamente R$ 2,25 bilhões. O valor pode ter origem em contas correntes ou de poupança encerradas com saldo, tarifas cobradas indevidamente e parcelas de operações de crédito que deveriam ter sido devolvidas.
As cooperativas de crédito possuem R$ 586,3 milhões. Nesse segmento, o sistema pode identificar cotas de capital e rateios de sobras lÃquidas pertencentes a antigos cooperados.
Instituições de pagamento concentram R$ 311,47 milhões. Financeiras respondem por R$ 106,29 milhões, enquanto corretoras e distribuidoras mantêm aproximadamente R$ 70,95 milhões.
Outras instituições autorizadas pelo Banco Central somam R$ 8,76 milhões.
A composição ajuda a explicar por que uma pessoa que não reconhece ter deixado dinheiro em uma conta bancária ainda pode aparecer como beneficiária. O Sistema de Valores a Receber inclui relações com consórcios, cooperativas, corretoras, financeiras e plataformas de pagamento.
Também podem surgir quantias decorrentes de tarifas cobradas sem respaldo contratual ou parcelas de empréstimos e financiamentos que foram pagas além do valor devido.
Transferência de R$ 5,7 bilhões altera série do Banco Central
O recuo registrado em maio está diretamente relacionado à transferência de aproximadamente R$ 5,7 bilhões ao Fundo de Garantia de Operações. A operação foi autorizada pela Medida Provisória 1.355, publicada em 4 de maio.
A norma determinou que instituições financeiras e demais entidades supervisionadas transferissem ao FGO os recursos informados ao Banco Central, até o fim de 2024, como valores disponÃveis para devolução.
Com a transferência, esses registros deixaram de compor o saldo corrente do Sistema de Valores a Receber. Por isso, a queda mensal não deve ser interpretada apenas como aumento dos saques realizados por pessoas fÃsicas e empresas.
O FGO funciona como instrumento de compartilhamento de risco. No Novo Desenrola Brasil, o fundo oferece garantia à s instituições financeiras que concederem novos empréstimos destinados à reestruturação de dÃvidas de consumidores.
A garantia reduz parte do risco de inadimplência assumido pelos bancos e cria condições para que os débitos sejam renegociados com juros menores, descontos e prazos mais longos.
O Novo Desenrola é voltado a pessoas com renda mensal de até cinco salários mÃnimos e contempla determinadas operações de crédito contratadas até 31 de janeiro de 2026, com atraso entre 91 e 720 dias.
Entre as dÃvidas abrangidas estão cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem consignação. O programa também admite outras modalidades definidas pela regulamentação do Ministério da Fazenda.
Prazo para contestação separa recursos disponÃveis dos transferidos
A Medida Provisória estabeleceu procedimento especÃfico para os titulares dos valores enviados ao FGO. O Ministério da Fazenda publicou edital com informações sobre os montantes transferidos e concedeu prazo de 30 dias para contestação administrativa.
Os valores contestados dentro do perÃodo poderiam ser devolvidos aos titulares, após a conferência das informações pelas instituições responsáveis.
Encerrado o prazo administrativo, os recursos sem contestação foram incorporados ao patrimônio do FGO. A norma preservou, contudo, a possibilidade de reivindicação judicial dentro do prazo previsto na legislação.
Essa diferença é essencial para o cidadão. Os R$ 6,24 bilhões divulgados agora são valores que permanecem disponÃveis no sistema normal do Banco Central e podem ser solicitados pelos procedimentos regulares.
Já os recursos transferidos ao FGO não aparecem mais como saldo disponÃvel no SVR. Eventuais questionamentos sobre esses valores seguem regras e prazos diferentes dos aplicáveis ao dinheiro que ainda consta no sistema.
A retirada dos registros também evita uma distorção estatÃstica. Depois da transferência, o Banco Central passou a contabilizar no saldo apenas os recursos que podem ser prontamente solicitados à s instituições.
Valores incorporados ao FGO não são considerados devolvidos aos clientes, mas deixam de ser classificados como disponÃveis para retirada no sistema.
TCU analisa tratamento fiscal dado aos recursos
A transferência do dinheiro esquecido para o FGO passou a ser examinada pela área técnica do Tribunal de Contas da União.
O ponto central da análise é a natureza dos recursos e o tratamento orçamentário adotado pelo governo. Os técnicos avaliam se o dinheiro deveria ter transitado pelo Orçamento da União antes de ser utilizado para fortalecer um fundo garantidor ligado a uma polÃtica pública federal.
A classificação tem implicações fiscais. Recursos executados diretamente no Orçamento estão sujeitos a regras de autorização legislativa, transparência, programação financeira e limites estabelecidos pelo arcabouço fiscal.
A transferência ao FGO ocorreu fora do orçamento tradicional. Como o fundo concede garantias, a saÃda financeira efetiva depende do desempenho das operações e da ocorrência de inadimplência dos beneficiários do programa.
O governo sustenta que o procedimento possui respaldo na medida provisória e que os recursos foram transferidos a uma estrutura financeira destinada a garantir renegociações, e não utilizados como despesa pública convencional.
O TCU ainda não havia emitido decisão definitiva sobre a regularidade da operação. Até a conclusão da análise, a discussão permanece concentrada na classificação contábil, no impacto sobre os limites fiscais e na preservação dos direitos dos antigos titulares.
Como consultar o dinheiro esquecido no Banco Central
A consulta deve ser feita exclusivamente no Sistema de Valores a Receber do Banco Central. O serviço é gratuito e permite verificar recursos pertencentes a pessoas fÃsicas, empresas e pessoas falecidas.
Na consulta inicial, a pessoa fÃsica precisa informar CPF e data de nascimento. Para empresas, são exigidos o CNPJ e a data de abertura.
Caso o sistema identifique dinheiro esquecido, o usuário será encaminhado para uma área protegida. O acesso exige conta Gov.br de nÃvel prata ou ouro, com a verificação em duas etapas habilitada.
Para receber diretamente pelo sistema, o titular precisa selecionar uma chave Pix. Quando a instituição responsável aderiu ao mecanismo de devolução do Banco Central, o pagamento deve ser realizado em até 12 dias úteis.
A chave Pix precisa pertencer ao próprio beneficiário. O Banco Central não permite que o dinheiro seja direcionado pelo sistema para uma chave cadastrada em nome de terceiro.
Quando a opção de solicitação direta não estiver disponÃvel, o SVR exibirá os dados de contato da instituição. Nesse caso, o cliente deverá combinar a forma e o prazo de pagamento diretamente com o banco, a financeira, a cooperativa ou a administradora de consórcios.
Quem não possui chave Pix também pode procurar a instituição indicada e negociar outra modalidade de devolução. Outra alternativa é criar uma chave e retornar ao sistema.
Herdeiros precisam procurar diretamente a instituição
O Sistema de Valores a Receber também permite consultar recursos pertencentes a pessoas falecidas. O acesso é restrito a herdeiros, testamentários, inventariantes ou representantes legais.
O responsável deve entrar com sua própria conta Gov.br, aceitar um termo de responsabilidade e informar o CPF e a data de nascimento da pessoa falecida.
Nesse caso, o Banco Central apresenta a faixa do valor, sua origem, o nome da instituição responsável e os canais de atendimento. O pagamento não pode ser solicitado diretamente pelo sistema.
O herdeiro ou representante deverá procurar a instituição e apresentar os documentos exigidos para comprovar o direito aos recursos. Podem ser solicitados certidão de óbito, documentos do inventário, testamento, procuração ou decisão judicial.
A definição dos documentos e da forma de pagamento cabe à instituição que mantém o dinheiro.
Banco Central alerta para golpes envolvendo falsos resgates
O volume de dinheiro esquecido e a ampla procura pelo sistema estimulam tentativas de fraude. Criminosos enviam mensagens por e-mail, SMS, aplicativos e redes sociais prometendo liberar valores mediante pagamento de taxa ou fornecimento de dados bancários.
O Banco Central não envia links para solicitar resgates, não entra em contato para confirmar dados pessoais e não cobra qualquer valor pelo serviço.
Também não é necessário contratar intermediários. A consulta e a solicitação são gratuitas e devem ser feitas pelo próprio titular ou por seu representante legal.
Senhas, códigos de autenticação e credenciais da conta Gov.br não devem ser enviados a terceiros. A instituição identificada no sistema pode entrar em contato para concluir a devolução, mas não deve solicitar a senha do cliente.
A recomendação é ignorar mensagens com senso de urgência, promessas de valores elevados ou exigência de pagamento antecipado. Em caso de dúvida, o usuário deve acessar diretamente os canais oficiais do Banco Central.
Saldo de R$ 6,24 bilhões mantém milhões de clientes à espera
Mesmo após a transferência ao FGO, o dinheiro esquecido disponÃvel permanece elevado. Os R$ 6,24 bilhões representam recursos reconhecidos pelas próprias instituições como pertencentes a clientes, empresas, cooperados, consorciados ou investidores.
A predominância de valores inferiores a R$ 10 ajuda a explicar por que milhões de titulares ainda não solicitaram a devolução. Em muitos casos, o custo de atenção e o desconhecimento sobre a origem do saldo superam a percepção de benefÃcio financeiro.
O quadro é diferente para os 2,5% que possuem mais de R$ 1 mil. Nesse grupo, a ausência de consulta pode significar a manutenção de recursos relevantes em contas encerradas, consórcios ou relações financeiras antigas.
A atualização de maio também inaugura uma nova base de comparação. A partir da retirada dos valores encaminhados ao FGO, as próximas estatÃsticas refletirão com maior precisão o fluxo de novos registros e pagamentos efetivamente realizados.
Para o cidadão, a orientação permanece direta: consultar periodicamente o sistema oficial, verificar a instituição responsável e solicitar a devolução enquanto o valor estiver disponÃvel. Para o governo, o teste será demonstrar que a transferência ao Desenrola respeitou as regras fiscais e os direitos dos titulares.








