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Rede elétrica entra em disputa entre data centers e indústria, e conexões podem demorar mais de cinco anos

Crescimento da inteligência artificial pressiona infraestrutura de transmissão e leva governo a adotar leilões para definir acesso à capacidade disponível.

por Maria Helena Costa
22/06/2026 às 19h10
em Economia
Rede Elétrica Entra Em Disputa Entre Data Centers E Indústria, E Conexões Podem Demorar Mais De Cinco Anos-Gazeta Mercantil

O avanço acelerado dos data centers no Brasil, impulsionado pela corrida global da inteligência artificial, está provocando uma disputa sem precedentes pela capacidade da rede elétrica nacional. Com número recorde de pedidos de conexão ao sistema de transmissão, empresas de tecnologia e indústrias de base enfrentam filas que, em algumas regiões, já avançam para além de 2030. Diante da pressão sobre a infraestrutura, o governo federal substituiu o modelo tradicional de atendimento por ordem cronológica por um sistema competitivo que permitirá a conexão de quem oferecer maior valor financeiro pela capacidade disponível.

O cenário evidencia um novo desafio para o setor elétrico brasileiro. Embora o país disponha de excedente na geração de energia, o gargalo está concentrado na rede de transmissão, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo e em áreas estratégicas do Nordeste, como o entorno do Porto do Pecém, no Ceará. Nessas localidades, a expansão dos data centers e de projetos industriais intensivos em consumo energético elevou a demanda a níveis inéditos.

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Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que os pedidos em análise já superam o total registrado entre 2022 e 2024 e se aproximam dos níveis recordes observados em 2025. Dos 61 processos atualmente avaliados pelo órgão para conexão direta à rede básica, 38 estão ligados a projetos de data centers.

A situação expõe um conflito crescente entre setores considerados estratégicos para a economia brasileira. De um lado, gigantes da tecnologia ampliam investimentos para atender à crescente demanda por processamento de dados e inteligência artificial. Do outro, indústrias tradicionais alertam para riscos à expansão produtiva, aos investimentos e à geração de empregos.

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Corrida por energia muda regras do setor elétrico

A transformação do mercado levou o Ministério de Minas e Energia (MME) a alterar significativamente as regras de acesso à rede de transmissão.

Até recentemente, grandes consumidores solicitavam conexão e aguardavam atendimento conforme a ordem de entrada dos pedidos. O novo modelo, regulamentado em dezembro de 2025, substituiu a fila cronológica pelas chamadas “temporadas de acesso”, mecanismo que reúne as solicitações em ciclos periódicos.

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Nas regiões em que a capacidade da rede for suficiente, a análise seguirá critérios técnicos convencionais. Porém, onde houver mais demanda do que infraestrutura disponível, será realizado um processo competitivo semelhante a um leilão.

Nessas situações, os interessados disputarão a capacidade oferecendo um bônus financeiro por quilowatt de conexão. Os projetos que apresentarem os maiores ágios terão prioridade para acessar a rede.

A mudança foi motivada pelo crescimento acelerado de empreendimentos de alto consumo energético, principalmente data centers e futuras plantas ligadas à produção de hidrogênio de baixa emissão de carbono.

Segundo o MME, o aumento dos pedidos associados aos centros de processamento de dados elevou significativamente a pressão sobre uma infraestrutura que já operava próxima de seus limites em determinadas regiões.

Data centers lideram expansão da demanda

O setor de tecnologia tornou-se o principal vetor da nova corrida por capacidade elétrica.

Os grandes complexos de processamento de dados exigem quantidades expressivas de energia para alimentar servidores, sistemas de resfriamento e equipamentos de alta performance utilizados em aplicações de inteligência artificial.

Em muitos casos, os pedidos de conexão superam 200 megawatts (MW) por empreendimento, volume equivalente ao consumo de cidades inteiras de médio porte.

A Região Metropolitana de Campinas, no interior paulista, tornou-se um dos principais polos dessa expansão. Empresas como Microsoft, Ascenty e Odata já operam ou desenvolvem projetos na região.

A demanda crescente, contudo, começou a esbarrar nos limites físicos da infraestrutura existente. Apenas no ano passado, o ONS negou 25 solicitações de conexão apresentadas por empreendimentos do segmento em municípios paulistas.

As recusas atingiram projetos localizados em cidades como Sumaré, Jundiaí, Campinas, Paulínia, Cabreúva e Santa Bárbara d’Oeste, além de localidades da Grande São Paulo.

O avanço dos investimentos reflete uma tendência global. A expansão da inteligência artificial elevou a necessidade de processamento computacional em escala sem precedentes, estimulando empresas a buscar mercados com energia abundante, estabilidade regulatória e potencial de expansão.

O Brasil reúne essas características, mas a limitação da infraestrutura de transmissão passou a representar um fator de risco para novos aportes.

Indústria teme perda de espaço para gigantes da tecnologia

A mudança nas regras gerou preocupação entre representantes da indústria de base, que agora competem diretamente com empresas de tecnologia pela mesma capacidade da rede.

A Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), que reúne 59 grupos responsáveis por aproximadamente 40% do consumo elétrico nacional, argumenta que a disputa tende a favorecer empreendimentos com maior capacidade financeira.

Segundo a entidade, diversos projetos industriais enfrentam incertezas para ampliar suas operações devido à falta de garantia de acesso à infraestrutura elétrica.

O problema afeta especialmente setores como siderurgia, mineração, metalurgia, química e transformação industrial, cujos investimentos costumam ser planejados com vários anos de antecedência.

Representantes da indústria afirmam que fábricas frequentemente solicitam ampliações relativamente pequenas em comparação aos volumes demandados pelos data centers, mas ainda assim enfrentam dificuldades para obter aprovação.

O receio é que investimentos produtivos sejam adiados ou redirecionados em função das limitações da rede.

A Abrace defende a criação de mecanismos que preservem parte da capacidade disponível para empresas já instaladas no país. A proposta da entidade prevê a reserva de até 10% da infraestrutura para projetos ligados à expansão industrial doméstica.

O argumento é que atividades manufatureiras geram maior quantidade de empregos diretos por megawatt consumido quando comparadas aos centros de processamento de dados.

Gargalo está na transmissão, não na geração

Apesar da disputa crescente, especialistas ressaltam que o problema não decorre da falta de energia produzida no país.

O Brasil possui ampla capacidade instalada de geração, sustentada por fontes hidrelétricas, eólicas, solares e térmicas. O desafio está na capacidade de transportar essa energia até os locais onde ela será consumida.

A rede de transmissão opera dentro de limites físicos rigorosos. A conexão de novos consumidores exige análises detalhadas para evitar sobrecargas, aquecimentos excessivos e riscos operacionais.

A avaliação técnica considera fatores como capacidade das subestações, estabilidade do sistema e impacto sobre a operação da rede em diferentes cenários de demanda.

Quando a potência solicitada ultrapassa a margem disponível, torna-se necessário ampliar a infraestrutura por meio de novas linhas, transformadores e subestações.

Esse processo exige licenciamento ambiental, investimentos bilionários e prazos de execução que frequentemente ultrapassam vários anos.

Por essa razão, mesmo em regiões com abundância de geração, a conexão de grandes consumidores pode ser inviabilizada temporariamente pela ausência de capacidade de transmissão.

Governo aposta em investimentos para ampliar capacidade

Para enfrentar o problema, o planejamento energético nacional prevê uma série de reforços estruturais.

Segundo o Ministério de Minas e Energia, já estão programadas obras capazes de liberar aproximadamente 8 gigawatts (GW) de nova capacidade para conexão de consumidores, com foco principalmente em São Paulo e Campinas.

Grande parte desses empreendimentos já recebeu autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Além disso, estudos de longo prazo indicam expansão significativa da infraestrutura no Nordeste, região considerada estratégica para projetos de hidrogênio verde e para novos investimentos em tecnologia.

As projeções do setor elétrico apontam potencial para incorporar cerca de 4 GW adicionais de capacidade de conexão na região até 2040.

Também estão em andamento avaliações para reforços estruturais no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

O objetivo é preparar o sistema para absorver uma nova geração de consumidores de grande porte, incluindo data centers, projetos industriais avançados e empreendimentos ligados à transição energética.

Leilão de acesso pode redefinir mapa dos investimentos

A primeira temporada de acesso deverá se tornar um marco para o setor elétrico brasileiro.

O processo em andamento definirá quais empreendimentos terão direito à conexão nos anos de 2027, 2028 e 2029. Entre os participantes estão empresas de tecnologia, operadoras de data centers e grandes grupos industriais.

O cronograma prevê a divulgação dos candidatos habilitados até o fim de junho. Em agosto, ONS e Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentarão o levantamento das margens disponíveis em cada ponto da rede. O processo competitivo está previsto para começar em outubro.

A decisão terá impacto direto sobre bilhões de reais em investimentos previstos para os próximos anos.

De um lado, o avanço da inteligência artificial transforma o Brasil em destino relevante para grandes operadores globais de infraestrutura digital. De outro, setores industriais pressionam por condições que garantam previsibilidade para projetos produtivos já estabelecidos.

A disputa pela rede elétrica tornou-se, assim, um dos principais desafios da infraestrutura nacional. O resultado dos primeiros leilões poderá definir não apenas quem terá acesso à energia disponível, mas também quais setores liderarão a próxima fase de crescimento econômico e tecnológico do país.

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