O dólar fechou em alta nesta sexta-feira, 22 de maio de 2026, pressionado por uma combinação de fatores políticos, fiscais e externos. A moeda norte-americana à vista encerrou o pregão cotada a R$ 5,0282, com avanço de 0,54%, em uma sessão marcada pela repercussão da nova pesquisa Datafolha, pelas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã e pelo anúncio de ampliação do bloqueio de verbas do governo federal.
Apesar da alta no fechamento desta sexta-feira, o dólar acumulou queda de 0,78% na semana frente ao real. O movimento do dia acompanhou a leve valorização global da moeda norte-americana. Por volta das 17h, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar contra uma cesta de seis moedas fortes, como euro e libra, subia 0,03%, aos 99,287 pontos.
O mercado de câmbio manteve postura cautelosa diante de uma agenda carregada. No exterior, investidores acompanharam sinais contraditórios sobre um possível acordo entre Washington e Teerã. No Brasil, a nova rodada do Datafolha mostrou aumento da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a repercussão do caso “Dark Horse”, envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Dólar fecha 22/05/2026 acima de R$ 5
O fechamento do dólar em 22/05/2026 confirmou a volta da pressão sobre o real. A moeda norte-americana permaneceu acima de R$ 5 ao longo da sessão e encerrou o dia a R$ 5,0282, em alta de 0,54%.
O avanço refletiu a busca por proteção em meio a incertezas externas e domésticas. O mercado segue sensível ao preço do petróleo, às negociações no Oriente Médio, às expectativas para os juros nos Estados Unidos e ao cenário político brasileiro.
Embora a semana tenha terminado com queda acumulada da moeda, o desempenho desta sexta-feira mostrou que o câmbio continua vulnerável a mudanças rápidas de percepção de risco.
Para os investidores, o patamar de R$ 5 segue como referência psicológica importante. Quando o dólar se mantém acima desse nível, aumenta a atenção sobre inflação, importações, combustíveis, empresas com dívida em moeda estrangeira e fluxo de capital para o Brasil.
Datafolha coloca eleição de 2026 no centro do câmbio
No Brasil, a pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira ganhou peso na leitura dos investidores. O levantamento foi o primeiro após a repercussão dos pedidos de dinheiro feitos por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, cinebiografia sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Segundo o Datafolha, Lula ampliou de 3 para 9 pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro no primeiro turno. O presidente passou de 38% para 40% das intenções de voto, enquanto o senador recuou de 35% para 31%.
No segundo turno, o empate anterior de 45% a 45% deu lugar a uma vantagem numérica de Lula, com 47%, contra 43% de Flávio Bolsonaro. O resultado ainda configura empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas em 139 cidades entre quarta-feira (20) e quinta-feira (21). Segundo o instituto, 64% dos entrevistados disseram ter conhecimento do caso envolvendo o senador e Daniel Vorcaro. O mesmo percentual afirmou considerar que Flávio agiu mal ao negociar recursos para o filme com o banqueiro preso pela Polícia Federal.
Caso “Dark Horse” aumenta ruído político
O caso “Dark Horse” passou a influenciar o ambiente político e, por consequência, a percepção de risco doméstico. A relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro ganhou repercussão nacional por envolver um presidenciável, um ex-banqueiro investigado e uma produção audiovisual sobre Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro inicialmente classificou as revelações como “fake news”, mas depois admitiu ter buscado recursos para a produção do filme. O senador afirma que procurou financiamento privado e nega ter oferecido qualquer contrapartida.
Para o mercado, o episódio importa porque afeta a disputa presidencial de 2026 e pode alterar o equilíbrio da oposição. Mudanças nas pesquisas eleitorais costumam influenciar ativos brasileiros quando alteram expectativas sobre governabilidade, política econômica e risco fiscal futuro.
A divulgação do Datafolha, portanto, entrou no radar do dólar não apenas como notícia política, mas como fator de precificação de risco para os próximos meses.
Oriente Médio segue como foco de incerteza
No cenário externo, as negociações entre Estados Unidos e Irã continuaram no centro das atenções. O mercado avaliou informações sobre avanços nas conversas, mas também declarações que indicam divergências relevantes entre os dois países.
Segundo o Sky News Arabia, Washington e Teerã teriam alcançado um entendimento geral sobre o programa nuclear iraniano como parte das negociações para um cessar-fogo definitivo. A entrega de urânio enriquecido pelo Irã estaria vinculada à retirada de sanções impostas pelo governo de Donald Trump.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que houve “algum progresso” nas conversas, mas destacou que ainda há trabalho a ser feito. Segundo ele, as negociações ainda não chegaram a um ponto definitivo.
Do lado iraniano, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, afirmou que ainda não é possível dizer que um acordo esteja próximo, mencionando “divergências profundas e extensas”.
Essa combinação de otimismo parcial e impasse manteve o mercado cauteloso, especialmente porque o conflito tem impacto direto sobre o petróleo, a inflação global e as expectativas para juros.
Petróleo acima de US$ 100 pressiona mercados
O petróleo permaneceu acima de US$ 100 por barril, mantendo pressão sobre as expectativas globais de inflação. O risco geopolítico no Oriente Médio segue elevado por causa das incertezas envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo.
A alta da commodity afeta diretamente a leitura dos investidores sobre inflação, juros e crescimento econômico. Petróleo mais caro pode elevar custos de energia, combustíveis e transporte, pressionando bancos centrais a manter ou até elevar juros.
Esse cenário tende a favorecer o dólar globalmente. Em períodos de incerteza geopolítica e risco inflacionário, a moeda norte-americana costuma ser procurada como ativo de proteção.
Para países emergentes, como o Brasil, o impacto pode ser duplo: de um lado, commodities mais altas podem beneficiar exportadores; de outro, juros globais mais elevados e aversão ao risco pressionam moedas locais.
Fed volta a pesar sobre o câmbio
Dados econômicos dos Estados Unidos também influenciaram a sessão, ainda que tenham ficado em segundo plano diante da geopolítica e da política brasileira.
A Universidade de Michigan informou que o Índice de Confiança do Consumidor caiu para 44,8 em maio, o menor patamar histórico. A leitura ficou abaixo da prévia de 48,2 e também inferior ao resultado de abril, de 49,8.
Apesar da queda na confiança, o tom de dirigentes do Federal Reserve continuou duro. O diretor do Fed Christopher Waller afirmou ser “uma loucura” falar em corte de juros em um futuro próximo, em meio à alta das expectativas de inflação.
Com isso, operadores anteciparam apostas de alta nos juros dos Estados Unidos. Perto do fechamento, a ferramenta FedWatch, do CME Group, apontava 52,2% de chance de elevação dos juros na reunião de 28 de outubro. A probabilidade de manutenção da taxa na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano era de 47,8%.
Na véspera, as apostas de alta estavam mais divididas entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027. A mudança reforçou a pressão sobre moedas emergentes.
Bloqueio fiscal de R$ 23,7 bilhões entra no radar
No Brasil, o governo informou que precisará ampliar o bloqueio de verbas orçamentárias dos ministérios de R$ 1,6 bilhão para R$ 23,7 bilhões para cumprir o limite de despesas do ano.
A medida ocorre diante da pressão provocada pelo aumento de despesas obrigatórias. Para o mercado, o tamanho do bloqueio é relevante porque indica o grau de esforço necessário para manter a execução orçamentária dentro das regras fiscais.
A política fiscal tem relação direta com o câmbio. Quando investidores percebem risco de piora nas contas públicas, o real tende a sofrer pressão, especialmente em dias de dólar forte no exterior.
O anúncio do bloqueio não foi o único fator para a alta da moeda nesta sexta-feira, mas contribuiu para manter o ambiente local mais defensivo. O mercado deverá acompanhar a execução desse corte e eventuais impactos sobre ministérios, programas e despesas discricionárias.
Semana termina com dólar em queda, apesar da alta no dia
Mesmo com o fechamento em alta nesta sexta-feira, o dólar encerrou a semana com queda de 0,78% frente ao real. O recuo semanal refletiu sessões anteriores de alívio, com expectativa de avanço nas negociações de paz no Oriente Médio e ajustes nos juros globais.
O pregão de 22 de maio, no entanto, mostrou que o câmbio ainda opera sob forte sensibilidade a notícias políticas e externas. A moeda voltou a subir diante da combinação entre Datafolha, impasse geopolítico, petróleo elevado, Fed mais duro e bloqueio fiscal no Brasil.
Para os próximos pregões, investidores devem acompanhar a evolução das conversas entre Estados Unidos e Irã, novas declarações de autoridades do Federal Reserve, os desdobramentos do caso “Dark Horse” e a reação do mercado ao bloqueio de R$ 23,7 bilhões no Orçamento.
Enquanto esses fatores permanecerem no radar, o dólar pode continuar oscilando acima de R$ 5, com movimentos rápidos conforme novas informações alterem a percepção de risco.






