quinta-feira, 17 de setembro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Economia

Brasileiros confiam nas finanças, mas falham na educação financeira

por Antônio Lima
10/12/2025 às 17h50
em Economia
Brasileiros Confiam Nas Finanças, Mas Falham Na Educação Financeira - Gazeta Mercantil

Brasileiros confiam no próprio dinheiro, mas pesquisa revela que a educação financeira no Brasil ainda falha no básico

A educação financeira no Brasil tornou-se um tema de debate nacional não apenas entre especialistas, mas também entre consumidores, bancos, escolas e formuladores de políticas públicas. Uma nova pesquisa conduzida pelo Santander em parceria com o instituto Ipsos escancara um cenário paradoxal: a maioria dos brasileiros acredita administrar bem as próprias finanças, mas enfrenta dificuldades em compreender conceitos econômicos elementares. O estudo ouviu 19.906 pessoas em dez países, sendo 2.028 no Brasil, e demonstra que a confiança declarada pelo público contrasta com a falta de preparo diante de questões fundamentais sobre inflação, juros e planejamento financeiro.

O descompasso entre percepção e conhecimento reforça um problema estrutural. A educação financeira no Brasil cresce como interesse generalizado, mas ainda não se traduz em conhecimento prático. Esse desequilíbrio, segundo especialistas, tem consequências diretas sobre endividamento, capacidade de poupança e resiliência econômica da população.


Confiança alta, conhecimento baixo

Os dados do levantamento mostram que 73% dos brasileiros afirmam sentir segurança na forma como administram o próprio dinheiro. O índice acompanha a média global, de 72%, e sugere que a educação financeira no Brasil é percebida pelo público de maneira positiva. No entanto, quando os entrevistados são submetidos a perguntas simples sobre economia, o desempenho cai drasticamente.

O fenômeno é explicado pelo conhecido Efeito Dunning-Kruger, que descreve a tendência de indivíduos com baixo conhecimento superestimarem suas capacidades por desconhecerem suas próprias limitações. Na prática, significa que milhões de brasileiros acreditam saber lidar com dinheiro, mas não dominam os fundamentos que dão suporte a decisões financeiras mais sólidas.


A inflação ainda é um enigma para grande parte da população

A inflação — um dos conceitos mais importantes da economia — continua sendo mal compreendida. Quando questionados sobre o comportamento dos preços caso a inflação caísse pela metade, mas permanecesse positiva, apenas 32% dos participantes globais responderam corretamente que os preços continuariam subindo, porém em ritmo menor.

No Brasil, 73% erraram essa pergunta. O dado revela uma fragilidade histórica da educação financeira no Brasil: mesmo com sua recorrência no noticiário e impacto direto no custo de vida, o tema ainda não é absorvido de forma completa pela maior parte da população.

Especialistas afirmam que o desconhecimento sobre inflação prejudica negociações salariais, escolhas de investimento, comparações de preços ao longo do tempo e compreensão de políticas econômicas. Em um país marcado por décadas de instabilidade inflacionária, esse tipo de lacuna reforça desigualdades e limita a autonomia financeira das famílias.


Juros simples, problema complexo

Outra pergunta aplicada no estudo buscava avaliar compreensão básica de juros. A maioria dos brasileiros demonstrou dificuldade para calcular o rendimento de uma aplicação simples de 2% ao ano sobre um aporte de US$ 100. Enquanto a lógica aponta para um valor final superior ao principal investido, 67% dos entrevistados do país erraram, índice bem acima da média global, de 48%.

O problema vai além das contas. A incapacidade de interpretar juros afeta diretamente contratos de crédito, financiamentos, dívidas, investimentos e poupança. Em um mercado no qual a educação financeira no Brasil deveria ser protagonista no combate ao endividamento massivo, a falta de domínio nesse campo funciona como um obstáculo para o desenvolvimento econômico individual e coletivo.


A escola como ponto de partida para a mudança

Apesar das dificuldades, a pesquisa revela um desejo claro: o público quer aprender. Para 91% dos brasileiros, a educação financeira deveria ter sido ensinada na escola. No cenário global, o índice é de 84%. O dado reforça a percepção de que o tema, embora fundamental para a vida adulta, nunca foi tratado como disciplina estruturada dentro dos currículos educacionais.

A educação financeira no Brasil aparece, no levantamento, como a segunda matéria mais desejada pelos entrevistados, superando áreas tradicionais como História e Ciências. O interesse cresce sobretudo entre jovens, que se deparam com um ambiente econômico mais complexo, exigindo domínio de temas como crédito, investimentos, impostos, aposentadoria e inflação.

A presidente global do Santander, Ana Botín, resume o impacto social: educação financeira não é tema técnico, mas ferramenta para prosperidade coletiva.


O que o brasileiro quer aprender

A pesquisa detalha que os tópicos mais procurados pelos brasileiros são:

  • Investimentos (67%)

  • Poupança (67%)

  • Orçamento doméstico (53%)

  • Impostos (51%)

A procura reflete necessidades concretas. A baixa capacidade de poupança coloca famílias em situação de vulnerabilidade frente a imprevistos. Apenas 20% dos lares brasileiros conseguem economizar regularmente, com taxa média de 1,8% da renda, uma das menores entre países monitorados por organismos internacionais.

Essa realidade demonstra que a educação financeira no Brasil precisa evoluir de maneira alinhada com a urgência social de ampliar a capacidade de poupança e reduzir riscos financeiros.


Brasil se destaca no uso de ferramentas digitais

Um dos resultados mais expressivos do levantamento é o protagonismo brasileiro na adoção de plataformas digitais de gestão financeira. O país é o único entre os dez analisados em que a confiança em ferramentas digitais é igual à dos métodos tradicionais.

Segundo a pesquisa:

  • 59% dos brasileiros utilizam ferramentas digitais semanalmente para gerenciar finanças

  • Apenas 13% nunca usaram plataformas digitais para esse fim

  • 87% da população utiliza o Pix regularmente

A educação financeira no Brasil, nesse aspecto, se beneficia da digitalização. Pagamentos instantâneos, aplicativos bancários e interfaces amigáveis criam oportunidades para que mais pessoas acompanhem gastos, entendam seu fluxo de caixa e adquiram noções práticas de organização financeira.


Monitoramento não significa segurança financeira

Mesmo com alta adoção tecnológica, a fragilidade estrutural permanece. Cerca de 84% dos brasileiros afirmam monitorar gastos regularmente, mas apenas 47% possuem reserva financeira suficiente para sustentar três meses de despesas básicas em uma eventual emergência.

O contraste mostra que o acompanhamento do orçamento não se traduz necessariamente em estabilidade financeira. A educação financeira no Brasil, portanto, precisa considerar estratégias que ajudem a transformar intenção em prática — uma das maiores lacunas reveladas pelo estudo.


Cursos ainda são pouco acessados

A demanda por educação formal ainda encontra barreiras. Apenas 28% dos brasileiros já participaram de algum curso de educação financeira. O índice supera a média global (20%), mas ainda é insuficiente para um país com mais de 200 milhões de habitantes.

Para o CEO do Santander Brasil, Mario Leão, o desafio envolve mobilização conjunta de escolas, bancos, setor público e sociedade civil. Ele destaca que a responsabilidade pela educação financeira no Brasil deve ser compartilhada e estruturada em políticas de longo prazo.


Quem deve ensinar educação financeira no Brasil?

A pesquisa identificou consenso amplo sobre os principais responsáveis pelo ensino:

  • Escolas: 91%

  • Pais: 91%

  • Bancos: 71% (índice chega a 91% na Argentina)

  • Governo: 97%

À medida que os entrevistados apontam múltiplos atores como responsáveis, reforçam que a educação financeira no Brasil não pode depender apenas de iniciativas isoladas.


Impactos macroeconômicos da alfabetização financeira

A falta de conhecimento financeiro não afeta apenas o indivíduo, mas também a economia como um todo. Estudos internacionais mostram que países com maiores níveis de alfabetização financeira exibem menor endividamento, melhor capacidade de investimento, maior resiliência a crises e menor vulnerabilidade a fraudes.

A OCDE destaca que o domínio de temas como inflação, juros compostos, poupança e orçamento está diretamente ligado ao desenvolvimento econômico sustentável.

No Reino Unido, por exemplo, a Confederação da Indústria estima que ampliar o conhecimento financeiro poderia gerar mais de 6,98 bilhões de libras por ano para a economia nacional. Embora o estudo não apresente estimativa semelhante para o Brasil, especialistas afirmam que o impacto seria igualmente significativo.


Caminhos para o futuro da educação financeira no Brasil

A pesquisa aponta direções claras para o avanço do tema no país.

Primeiro, é preciso integrar escolas, famílias, bancos e governo em um mesmo projeto nacional. Programas educacionais permanentes, trilhas de aprendizado acessíveis e plataformas gratuitas podem diminuir desigualdades no acesso à informação.

Segundo, é essencial incentivar o uso de tecnologia. Aplicativos bancários, ferramentas de simulação, aplicativos de organização financeira e sistemas de pagamento instantâneo se consolidam como aliados fundamentais da educação financeira no Brasil.

Por fim, o ensino deve ser prático. Simulações de juros, exercícios de orçamento, análise de cenários inflacionários e práticas que conectem teoria e cotidiano formam a base de uma verdadeira transformação cultural.

O estudo evidencia que o Brasil tem potencial para assumir papel de liderança na região, desde que a educação financeira seja tratada como prioridade e não como tema secundário.

LEIA MAIS

Copom Corta Selic Para 13,75% No Quinto Recuo Seguido Dos Juros - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Copom corta Selic para 13,75% no quinto recuo seguido dos juros

O Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu nesta quarta-feira, 16 de setembro, a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, prolongando pelo quinto encontro consecutivo...

Leia MaisDetails
Empresas Ampliam Venda De Dívidas Vencidas Enquanto Crédito Segue Caro-Gazeta Mercantil
Economia

Empresas ampliam venda de dívidas vencidas enquanto crédito segue caro

Empresas brasileiras estão recorrendo com mais frequência à venda de carteiras de crédito inadimplente para transformar recebíveis de difícil recuperação em liquidez imediata. O mercado movimentou R$ 17...

Leia MaisDetails
Banco Mundial Nomeia Nobel Michael Kremer Como Novo Economista-Chefe-Gazeta Mercantil
Economia

Banco Mundial nomeia Nobel Michael Kremer como novo economista-chefe

O Banco Mundial nomeou nesta quarta-feira, 16 de setembro, o economista americano Michael Kremer, vencedor do Prêmio de Economia de 2019, para os cargos de economista-chefe do Grupo...

Leia MaisDetails
Super Quarta: Fed Pode Subir Juros Enquanto Copom Deve Cortar Selic Para 13,75%
Economia

Super Quarta: Fed pode subir juros enquanto Copom deve cortar Selic para 13,75%

Brasil e Estados Unidos chegam à Super Quarta desta quarta-feira, 16 de setembro, em momentos opostos de seus ciclos monetários. O Federal Reserve deve elevar os juros americanos...

Leia MaisDetails
Minha Casa Minha Vida - Gazeta Mercantil
Economia

Minha Casa, Minha Vida recebe R$ 500 milhões extras e subsídios chegam a R$ 13 bilhões

O Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) aumentou em R$ 500 milhões o orçamento destinado aos subsídios habitacionais do Minha Casa, Minha Vida...

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

08:10:19
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Flávio Bolsonaro Usou Recentemente Apartamento Que Pertenceu A Cunhado De Vorcaro
Política

Flávio Bolsonaro usou recentemente apartamento que pertenceu a cunhado de Vorcaro

Leia MaisDetails
Copom Corta Selic Para 13,75% No Quinto Recuo Seguido Dos Juros - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Copom corta Selic para 13,75% no quinto recuo seguido dos juros

Leia MaisDetails
Lvmh Perde Mais De €250 Bilhões Em Valor De Mercado Desde 2023-Gazeta Mercantil
Empresas

LVMH perde mais de €250 bilhões em valor de mercado desde 2023

Leia MaisDetails
Brb Recebe R$ 376 Milhões Da Xp Por Créditos Ligados Ao Banco Master-Gazeta Mercantil
Empresas

BRB (BSLI3; BSLI4) recebe R$ 376 milhões da XP por ativos ligados ao Banco Master

Leia MaisDetails
Lula - Gazeta Mercantil
Política

Lula diz que Flávio Bolsonaro participou da aprovação de Kassio e Mendonça no STF

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Flávio Bolsonaro usou recentemente apartamento que pertenceu a cunhado de Vorcaro

Copom corta Selic para 13,75% no quinto recuo seguido dos juros

LVMH perde mais de €250 bilhões em valor de mercado desde 2023

BRB (BSLI3; BSLI4) recebe R$ 376 milhões da XP por ativos ligados ao Banco Master

Lula diz que Flávio Bolsonaro participou da aprovação de Kassio e Mendonça no STF

Banco do Brasil (BBAS3): JPMorgan corta preço-alvo para R$ 22 e reduz projeções de lucro

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP