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Eleições derrubam dólar e levam Ibovespa a recorde: o que o mercado está precificando

Após o primeiro turno, Ibovespa saltou 7,70% e dólar caiu para perto de R$ 5 com a reprecificação das expectativas para 2027.

por Camila Braga
08/10/2026 às 10h24
em Mercados
Mercados - Gazeta Mercantil

O primeiro pregão depois das eleições mostrou em poucas horas quanto uma mudança na expectativa política pode alterar os preços dos ativos brasileiros. Na segunda-feira, 5 de outubro, o Ibovespa disparou 7,70% e terminou aos 206.911,89 pontos, no maior fechamento de sua história, enquanto o dólar caiu para a região de R$ 5. O movimento ocorreu depois de Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abrindo uma disputa direta pela Presidência que será decidida em 25 de outubro.

A intensidade da reação não significa que as empresas brasileiras tenham se tornado 7,7% mais lucrativas de um dia para o outro nem que os fundamentos do câmbio tenham mudado na mesma proporção. O que mudou foi o preço atribuído pelos investidores aos cenários possíveis para os próximos anos. Bolsa, dólar e juros futuros incorporam diariamente expectativas sobre crescimento, inflação, dívida pública, resultado fiscal, taxa Selic e fluxo de capital. Quando uma eleição altera a probabilidade atribuída a cada política econômica, esses preços são recalculados antes mesmo de qualquer medida ser efetivamente aprovada.

Foi exatamente o que ocorreu após o primeiro turno. Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, segundo a Justiça Eleitoral. A diferença de 1,87 ponto percentual surpreendeu parte do mercado e aumentou a probabilidade atribuída pelos investidores a uma mudança de governo em 2027. A resposta veio primeiro nos ativos que conseguem ajustar preços imediatamente: ações, câmbio e contratos futuros de juros.

Mercado compra expectativas antes que políticas existam

O mercado financeiro trabalha permanentemente com projeções. O preço de uma ação não reflete apenas quanto determinada empresa lucra atualmente, mas quanto os investidores acreditam que ela poderá gerar de resultado no futuro. A mesma lógica vale para títulos públicos, juros futuros e moedas, que incorporam expectativas sobre inflação, contas públicas, política monetária e risco.

Uma eleição presidencial interfere em todas essas variáveis ao mesmo tempo. Um candidato pode propor aumento ou redução de despesas, mudanças tributárias, privatizações, investimentos públicos, alterações nas regras fiscais ou reformas estruturais. Mesmo antes de essas propostas serem transformadas em legislação, investidores tentam calcular como cada possibilidade afetaria empresas, dívida pública e crescimento econômico.

Esse processo explica por que uma pesquisa eleitoral pode mexer com a bolsa sem que nada tenha mudado concretamente na economia naquele dia. Se o resultado aumenta a probabilidade de um cenário considerado mais favorável a determinados setores ou à trajetória fiscal, os investidores passam a aceitar preços diferentes pelos ativos. Quando ocorre o contrário, o ajuste também pode ser rápido.

O movimento após o primeiro turno de 2026 foi particularmente forte porque as urnas alteraram de maneira significativa algumas dessas probabilidades. A reação ficou evidente não apenas no Ibovespa, mas também nas taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro de longo prazo, que caíram de forma acentuada nos primeiros pregões depois da votação.

Fiscal explica parte importante da reação

O principal elemento por trás da leitura do mercado foi a política fiscal. O Brasil entra no próximo mandato com juros ainda elevados, dívida pública pressionada e pouco espaço orçamentário, fatores que aumentam a importância das decisões sobre receitas e despesas do governo.

A relação entre política fiscal e preço dos ativos segue uma cadeia relativamente direta. Quando investidores avaliam que a dívida pública poderá crescer mais rapidamente, costumam exigir uma remuneração maior para financiar o governo. Esse prêmio aparece nas taxas de juros de longo prazo e pode afetar o custo de capital das empresas, o crédito, o câmbio e a avaliação das ações negociadas na bolsa.

No sentido inverso, quando cresce a expectativa de estabilização da dívida e melhora do resultado fiscal, o prêmio exigido pelos investidores tende a diminuir. Taxas futuras menores podem elevar o valor presente dos lucros esperados pelas empresas e reduzir o retorno exigido para manter recursos aplicados no país.

É esse mecanismo que ajuda a explicar a reação registrada depois da eleição. Parte dos investidores passou a atribuir maior probabilidade a uma política fiscal mais restritiva caso Flávio vença o segundo turno. Essa percepção, porém, não equivale a uma política já definida. O candidato ainda precisará detalhar medidas, formar equipe econômica e, se eleito, construir apoio no Congresso para executar mudanças relevantes.

Bancos e empresas domésticas responderam mais rapidamente

A alta do Ibovespa não foi uniforme entre todas as empresas. No primeiro pregão depois do resultado, bancos e companhias mais expostas à economia doméstica estiveram entre os papéis com maior valorização, enquanto algumas ações ligadas principalmente ao cenário internacional tiveram desempenho diferente.

Esse comportamento está relacionado ao efeito dos juros sobre os negócios. Empresas dependentes do consumo, crédito e investimento doméstico tendem a ser mais sensíveis a mudanças na curva de juros. Quando as taxas futuras recuam, diminui a taxa utilizada pelo mercado para descontar os resultados esperados dessas companhias, aumentando, em tese, o valor atribuído aos fluxos de caixa futuros.

Os bancos também podem ser beneficiados por uma melhora na percepção sobre atividade econômica e risco de crédito, embora juros menores produzam efeitos diferentes sobre cada linha de negócio. O resultado líquido depende do comportamento das margens financeiras, crescimento do crédito, inadimplência e atividade econômica.

No pregão de 5 de outubro, o avanço generalizado desses setores contribuiu para levar o Ibovespa acima de 206 mil pontos. Durante o dia, o índice chegou a 209.605 pontos, estabelecendo também uma máxima intradiária.

Alta de 7,70% foi excepcional até para padrões eleitorais

Eleições costumam aumentar a volatilidade, mas o movimento de segunda-feira foi incomum mesmo dentro desse padrão. O avanço de 7,70% ficou entre as maiores altas diárias do Ibovespa desde 2020, período marcado pela turbulência provocada pela pandemia.

A valorização também levou o índice a uma nova máxima não apenas em termos nominais. Em cálculo que atualiza as pontuações históricas pela inflação, o fechamento superou a referência anterior de maio de 2008, segundo levantamento divulgado pela B3. Isso significa que o índice ultrapassou um antigo pico mesmo depois de descontada a perda do poder de compra da moeda no período.

O dado ajuda a dimensionar a intensidade da reprecificação. A eleição não apenas produziu uma alta cotidiana do mercado, mas levou o principal índice acionário do país a superar uma referência que permanecia havia mais de 18 anos quando corrigida pela inflação.

Ainda assim, movimentos fortes imediatamente depois de eleições não são novidade. Dados históricos compilados pela B3 mostram que o Ibovespa subiu no primeiro pregão depois do primeiro turno em seis das sete eleições presidenciais realizadas desde 2002. O tamanho e a duração dessas altas, contudo, foram diferentes em cada ciclo.

Dólar reage ao risco e ao fluxo de recursos

O câmbio responde aos mesmos fatores por outro caminho. Quando investidores internacionais aumentam sua exposição ao Brasil, precisam comprar reais para adquirir ações, títulos ou outros ativos locais. Esse fluxo aumenta a oferta de dólares e pode fortalecer a moeda brasileira.

O movimento inverso ocorre quando há maior percepção de risco. Investidores retiram recursos, buscam moedas consideradas mais seguras e elevam a demanda pelo dólar. Por isso, a cotação funciona como um dos indicadores mais imediatos da avaliação externa sobre o país, embora também seja profundamente influenciada por fatores internacionais.

No primeiro pregão depois da votação, a moeda americana caiu mais de 4% durante a sessão e terminou próxima de R$ 5. Nos dias seguintes, parte desse movimento foi devolvida, mostrando como as expectativas continuam sujeitas a revisões enquanto o segundo turno permanece aberto.

A eleição brasileira também não acontece isoladamente. Juros dos Estados Unidos, preço das commodities, petróleo, crescimento da China e conflitos geopolíticos podem produzir movimentos capazes de neutralizar ou ampliar os efeitos da política doméstica. Nesta semana, por exemplo, a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano voltou a pressionar moedas emergentes e contribuiu para uma recuperação parcial do dólar.

Juros futuros mostram como política chega à economia

A curva de juros é talvez o mercado em que a percepção fiscal aparece de maneira mais direta. Os contratos futuros negociados na B3 refletem a taxa de juros que os investidores exigem para diferentes períodos e incorporam expectativas para a Selic, inflação, risco fiscal e prêmio exigido para emprestar dinheiro no longo prazo.

Depois do primeiro turno, os vencimentos mais longos tiveram quedas expressivas. O movimento indicou redução do prêmio associado aos próximos anos, sobretudo porque uma parte do mercado passou a atribuir maior chance a uma política de controle das despesas e estabilização da dívida.

Essa redução tem consequências que ultrapassam as mesas de negociação. Juros futuros servem de referência para precificação de títulos, financiamentos, emissões de dívida e decisões empresariais de investimento. Se uma queda se torna consistente, ela pode reduzir o custo de financiamento de empresas e famílias; se é apenas uma oscilação temporária, o efeito sobre a economia real tende a ser limitado.

É justamente por isso que o mercado acompanhará com atenção as propostas econômicas dos dois candidatos nas próximas semanas. A reação inicial pode ser rápida, mas sua permanência depende da credibilidade das medidas apresentadas e da capacidade política de executá-las.

Eleição não explica tudo

Associar cada movimento diário do dólar ou da bolsa a uma notícia política também pode produzir conclusões equivocadas. Os preços dos ativos respondem simultaneamente a dezenas de informações, muitas delas vindas do exterior.

Uma eleição pode dominar os negócios em determinado momento e ter efeito secundário em outro. Em períodos de grande liquidez internacional, alta das commodities ou crescimento global acelerado, fatores externos podem reduzir a importância de crises políticas domésticas. Em momentos de fragilidade fiscal ou aversão global ao risco, uma declaração ou pesquisa eleitoral pode ganhar peso muito maior.

O próprio comportamento desta semana mostra essa interação. A reação inicial ao primeiro turno foi fortemente favorável aos ativos brasileiros, mas, nos pregões seguintes, Treasuries mais altos, petróleo próximo de US$ 100 e incertezas sobre a política monetária americana voltaram a influenciar dólar, juros e bolsa.

Por isso, atribuir automaticamente uma valorização ou queda ao nome de um candidato é uma simplificação. O mercado está precificando um conjunto de consequências econômicas que acredita estarem associadas a cada cenário e recalcula continuamente essas probabilidades à medida que novas informações aparecem.

Segundo turno mantém volatilidade elevada

A disputa entre Flávio e Lula será definida em 25 de outubro, deixando mais de duas semanas em que pesquisas, apoios partidários, debates e propostas econômicas poderão alterar novamente as expectativas.

O resultado do primeiro turno colocou Flávio em vantagem, mas não definiu a eleição. Da mesma maneira, a reação positiva observada na bolsa e no câmbio não garante que os preços permanecerão nesses níveis. Se as expectativas que justificaram o movimento forem frustradas, parte da alta pode ser devolvida; se forem reforçadas por novas informações, a reprecificação pode continuar.

O episódio desta semana mostra por que eleições provocam tanta oscilação nos mercados: os investidores não esperam o próximo governo começar para calcular seus efeitos. Eles tentam antecipar hoje quanto valerão empresas, títulos e moedas em um ambiente econômico que ainda não existe.

Esse mecanismo transforma cada nova informação em uma alteração de probabilidades. Pesquisa eleitoral, anúncio fiscal, composição de equipe econômica ou resultado de debate pode modificar o preço atribuído a um cenário e produzir movimentos intensos mesmo meses antes de uma política efetivamente chegar à economia.

No primeiro pregão depois das urnas, essa antecipação produziu uma das maiores altas recentes da bolsa brasileira e levou o dólar de volta à região de R$ 5. Até o segundo turno, o desafio do mercado será descobrir quanto desse movimento representa uma mudança duradoura na percepção sobre o Brasil e quanto foi apenas uma reação inicial ao resultado eleitoral.

Fontes:

B3 — desempenho do Ibovespa no primeiro pregão após o primeiro turno, máxima intradiária, fechamento e comparação histórica das variações do índice

Tribunal Superior Eleitoral — resultado oficial do primeiro turno da eleição presidencial de 2026 e calendário do segundo turno

Banco Central do Brasil — séries e informações sobre mercado de câmbio, expectativas econômicas e taxa básica de juros

Tesouro Nacional — relatórios sobre dívida pública, resultado fiscal e estrutura de financiamento do governo federal

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