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China conecta UnionPay ao Pix em meio à crise entre Brasil e Estados Unidos

Piloto permite que aplicativos chineses paguem na rede Pix; integração não anuncia reciprocidade para brasileiros e ocorre enquanto EUA questionam o sistema

por Antônio Lima
09/08/2026 às 19h31
em Economia
China Conecta Unionpay Ao Pix Em Meio À Crise Entre Brasil E Estados Unidos - Gazeta Mercantil - Economia

A aproximação financeira entre Brasil e China ganhou um novo componente em uma das infraestruturas mais estratégicas do sistema financeiro brasileiro. A UnionPay International iniciou um projeto-piloto que conecta aplicativos de pagamento chineses à rede Pix, permitindo que usuários da China paguem comerciantes brasileiros diretamente por QR Code.

O projeto começou a ser testado em 30 de julho de 2026 e permite, nesta primeira etapa, que usuários do aplicativo UnionPay e de aplicativos de bancos chineses conectados à plataforma da empresa façam pagamentos em estabelecimentos integrados ao Pix.

A facilidade, porém, não foi anunciada no sentido inverso.

O comunicado oficial da UnionPay descreve o acesso dos usuários chineses à infraestrutura brasileira, mas não informa que clientes de bancos brasileiros poderão utilizar seus aplicativos ou o Pix para pagar comerciantes dentro da China.

Isso não significa que brasileiros não disponham de outros meios de pagamento na China. Significa especificamente que, até agora, não foi anunciada uma interoperabilidade equivalente que permita ao usuário brasileiro chegar ao território chinês, abrir o aplicativo de seu banco no Brasil e utilizar o Pix em um estabelecimento conectado ao sistema de pagamentos local.

A diferença ganha relevância porque a integração acontece em um momento de forte tensão nas relações entre Brasil e Estados Unidos — e justamente quando o Pix passou a integrar formalmente uma investigação comercial americana sobre serviços eletrônicos de pagamento.

Chineses poderão usar aplicativos domésticos na rede Pix

O anúncio da UnionPay detalha o funcionamento do piloto.

Usuários do UnionPay App e de aplicativos bancários chineses integrados à UnionPay Network Payment Platform poderão escanear códigos de pagamento de comerciantes conectados à rede brasileira e concluir a transação por seus aplicativos de origem.

Segundo a empresa, a infraestrutura do Pix alcança aproximadamente 15 milhões de estabelecimentos comerciais brasileiros.

A UnionPay pretende posteriormente ampliar o projeto para outras carteiras digitais participantes de sua rede internacional.

Na prática, o comerciante brasileiro continua recebendo por meio de uma infraestrutura vinculada ao ecossistema do Pix, enquanto o turista chinês utiliza uma experiência de pagamento familiar.

Para turismo e comércio, a vantagem é evidente: reduz a necessidade de dinheiro físico, aquisição de cartões específicos ou utilização de aplicativos brasileiros pelo visitante estrangeiro.

A dimensão estratégica aparece na estrutura financeira utilizada para colocar esse sistema em funcionamento.

Projeto começou a ser construído em 2025

A conexão não surgiu isoladamente.

Em julho de 2025, durante a cúpula do BRICS realizada no Brasil, a UnionPay International e o Industrial and Commercial Bank of China — por meio do ICBC Brasil — assinaram um memorando para avançar na interoperabilidade entre pagamentos chineses e a rede Pix.

Na ocasião, a UnionPay informou que havia firmado acordos com participantes da rede brasileira e afirmou que o ICBC Brasil atuaria na infraestrutura de liquidação da operação.

Mais importante: a companhia chinesa declarou que o projeto permitiria realizar, pela primeira vez no varejo financeiro brasileiro, liquidação transfronteiriça utilizando renminbi, ampliando as possibilidades de uso internacional da moeda chinesa.

A empresa associou explicitamente a iniciativa à internacionalização do renminbi.

O piloto anunciado agora representa a transformação daquele acordo em uma operação efetivamente testada no mercado.

Bancos centrais ampliaram cooperação financeira

A aproximação entre as infraestruturas financeiras de Brasil e China também ocorre em nível institucional.

Documentos do Banco Central mostram que a cooperação entre a autoridade monetária brasileira e o Banco Popular da China vem sendo ampliada há vários anos.

Em janeiro de 2023, os dois bancos centrais assinaram um memorando de entendimento para cooperação em serviços financeiros. Entre os objetivos estavam a ampliação das operações em renminbi no Brasil e discussões sobre arranjos relacionados à moeda chinesa.

Em 2025, os dois países avançaram para uma nova negociação envolvendo um swap de moedas de até R$ 157 bilhões e 190 bilhões de yuans.

O Banco Central registrou que o mecanismo pretende facilitar o funcionamento dos mercados financeiros e transações envolvendo as duas moedas.

Entre 2020 e 2024, as operações cambiais envolvendo diretamente real e yuan atingiram aproximadamente US$ 51 bilhões, segundo documento do próprio BC. A quantidade dessas transações cresceu, em média, 79,5% ao ano no período.

O documento também observa que a internacionalização do renminbi vem reduzindo a dependência histórica do dólar em determinadas operações comerciais e financeiras internacionais.

É nesse processo mais amplo que a integração UnionPay-Pix precisa ser compreendida.

Pix está no centro de investigação dos Estados Unidos

Ao mesmo tempo em que a conexão financeira com a China avança, o sistema brasileiro passou a enfrentar questionamentos formais dos Estados Unidos.

O USTR, órgão responsável pela política comercial americana, abriu em julho de 2025 uma investigação contra determinadas políticas e práticas do Brasil com base na Seção 301 do Trade Act.

Entre os temas investigados estão comércio digital e serviços eletrônicos de pagamentos.

Em junho de 2026, o órgão concluiu que determinadas políticas brasileiras nessas áreas seriam “não razoáveis” e prejudicariam ou restringiriam o comércio americano.

No processo, o Pix aparece nominalmente.

O USTR registrou manifestações segundo as quais o Banco Central brasileiro enfrentaria um potencial conflito por atuar simultaneamente como regulador do sistema financeiro e operador do Pix.

Também foram apresentadas alegações de que determinadas normas brasileiras ofereceriam tratamento preferencial ao sistema desenvolvido pelo BC.

Essas são conclusões e argumentos do governo americano e de participantes da investigação — e são contestados pelo Brasil.

Brasil rejeita acusação de favorecimento ao Pix

O governo brasileiro sustenta uma interpretação oposta.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços afirma que o Pix é uma infraestrutura pública digital aberta, criada para promover inclusão financeira e ampliar o acesso de cidadãos e empresas a pagamentos instantâneos.

O governo argumenta ainda que a expansão do Pix não eliminou o crescimento dos cartões privados. Segundo os dados apresentados pelo Brasil na defesa perante os Estados Unidos, o uso de cartões de crédito cresceu 150% entre 2019 e 2024, apesar da rápida disseminação do sistema instantâneo.

Brasília também destaca que dezenas de bancos centrais procuraram o Banco Central brasileiro para obter informações técnicas sobre sistemas instantâneos de pagamentos.

A posição brasileira é, portanto, que não existe discriminação contra empresas estrangeiras, mas uma infraestrutura pública aberta à competição.

Tarifa de 25% envolve Pix, mas não foi aplicada apenas por causa dele

Um cuidado importante é necessário na interpretação da atual crise comercial.

Em 15 de julho de 2026, o USTR anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros.

O sistema de pagamentos está entre os temas que fundamentaram a investigação, mas seria incorreto afirmar que os Estados Unidos aplicaram 25% exclusivamente por causa do Pix.

A decisão americana também envolve alegações relacionadas a comércio digital, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso americano ao mercado brasileiro de etanol, práticas anticorrupção e desmatamento ilegal.

O Pix é, entretanto, um dos elementos expressamente citados no processo.

E é justamente essa coincidência temporal que torna a chegada da UnionPay à infraestrutura brasileira especialmente relevante.

Enquanto Washington questiona se o desenho do sistema brasileiro prejudica concorrentes americanos no mercado de pagamentos, uma rede chinesa acaba de ganhar uma nova forma de interoperabilidade com esse ecossistema.

Reciprocidade não aparece no anúncio

A questão mais delicada está no desenho do projeto.

A UnionPay denomina o modelo atualmente em teste como uma operação na qual carteiras domésticas chinesas são utilizadas no exterior.

O comunicado de 30 de julho descreve detalhadamente como os usuários chineses pagarão no Brasil.

Não existe no mesmo anúncio uma descrição equivalente permitindo que aplicativos bancários brasileiros acessem comerciantes chineses a partir do Pix.

Isso não permite concluir que uma integração recíproca jamais será criada.

Mas permite afirmar que ela não foi anunciada nesta fase.

O Banco Central brasileiro, inclusive, ainda mantém o chamado Pix Internacional entre os projetos em discussão de sua agenda evolutiva, e não como uma funcionalidade universal já implantada.

Portanto, chamar o atual projeto de uma integração bilateral totalmente simétrica entre Pix e o sistema chinês seria impreciso.

Hoje, o benefício anunciado é essencialmente para o usuário de aplicativos chineses que está no Brasil.

União com China se conecta a uma agenda maior

A expansão da UnionPay também ocorre no contexto de uma transformação discutida dentro do BRICS.

O grupo vem defendendo maior utilização de moedas nacionais em transações comerciais e financeiras internacionais, além do desenvolvimento de instrumentos capazes de reduzir custos e aumentar a eficiência dos pagamentos transfronteiriços.

Documentos oficiais do BRICS defendem o fortalecimento das liquidações em moedas locais e o desenvolvimento da BRICS Cross-Border Payments Initiative.

A iniciativa é voluntária e não pressupõe, por si só, a criação de uma nova moeda.

Essa distinção é importante.

Não existe atualmente uma moeda comum operacional do BRICS que substitua o dólar.

A estratégia desenvolvida até agora concentra-se principalmente na utilização mais ampla das moedas de cada país, na integração de sistemas financeiros e na criação de alternativas de pagamento e liquidação.

A própria UnionPay afirma que seus projetos internacionais podem contribuir para ampliar a circulação do renminbi.

Dólar continua central, mas surgem novas rotas

Nada disso significa que o dólar esteja prestes a perder sua posição dominante no sistema financeiro global.

Também não significa que Brasil e China estejam construindo um substituto direto para a infraestrutura financeira americana.

O movimento é mais gradual.

Cada operação bilateral realizada em real e yuan, cada swap de moedas entre bancos centrais e cada rede de pagamento capaz de liquidar transações sem recorrer necessariamente ao dólar adiciona uma rota financeira alternativa à arquitetura existente.

Individualmente, essas iniciativas têm impacto limitado.

Somadas ao longo dos anos, entretanto, elas ampliam a capacidade de países realizarem determinadas operações sem depender exclusivamente de infraestruturas denominadas em dólar.

É justamente essa transformação que faz dos sistemas de pagamentos uma questão geopolítica.

Brasil se aproxima da China, mas mantém fortes vínculos com os EUA

Os documentos disponíveis comprovam um aprofundamento significativo da cooperação financeira entre Brasil e China.

Não comprovam, entretanto, que o país tenha abandonado sua tradicional política de manter relações simultâneas com diferentes grandes potências.

A China é o maior parceiro comercial brasileiro desde 2009, enquanto os Estados Unidos continuam sendo uma fonte central de investimentos, tecnologia, comércio de produtos industriais e financiamento para a economia brasileira.

A atual crise com Washington e a expansão da cooperação financeira com Pequim fazem essa equação ficar mais sensível.

O Pix tornou-se um caso emblemático dessa disputa.

Criado como infraestrutura doméstica de pagamentos, passou a interessar a outros países, entrou numa investigação comercial americana e agora começa a ser conectado a uma das maiores redes financeiras chinesas.

A disputa agora passa pela infraestrutura

A integração UnionPay-Pix não transforma, isoladamente, a posição geopolítica do Brasil.

Mas mostra que a competição entre Estados Unidos e China não se limita mais a fábricas, commodities, semicondutores ou tarifas.

Ela também passa pelos trilhos por onde circula o dinheiro.

Washington questiona aspectos da infraestrutura brasileira por considerar que determinadas políticas criam desvantagem para empresas americanas.

Pequim, simultaneamente, aprofunda sua integração com essa mesma infraestrutura e cria novas possibilidades para utilização internacional do renminbi.

No meio das duas potências está o Brasil, dono de um sistema de pagamentos que passou de solução doméstica de baixo custo a ativo econômico e estratégico internacional.

O passo dado pela UnionPay revela, entretanto, uma questão que continuará exigindo atenção: até que ponto a internacionalização do Pix ocorrerá em condições recíprocas?

Por enquanto, o projeto lançado com a China permite que aplicativos chineses cheguem ao Pix.

A estrada no sentido contrário ainda não foi anunciada.

Fontes:

  • UnionPay International — anúncio oficial do projeto-piloto de interoperabilidade China-Brasil, 30 de julho de 2026.
  • UnionPay International — memorando de cooperação para integração com a rede Pix, julho de 2025.
  • Banco Central do Brasil — documentos sobre cooperação financeira Brasil-China e swap entre real e renminbi.
  • Banco Central do Brasil — Agenda Evolutiva do Pix e discussão sobre Pix Internacional.
  • USTR — investigação da Seção 301 sobre o Brasil e decisão de junho de 2026.
  • USTR — ação comercial e tarifa adicional anunciada em julho de 2026.
  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — defesa brasileira no processo da Seção 301.
  • BRICS — documentos sobre pagamentos transfronteiriços e utilização de moedas nacionais.
Tags: Banco CentralBRICSChinaDonald TrumpEconomiaEstados UnidosLulapagamentos digitaisPIXUnionPayyuan

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