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Crise Brasil-EUA preocupa mercado de crédito e eleva risco para empresas expostas aos EUA

Relação entre Brasília e Washington volta a se deteriorar após nova sobretaxa americana; Brasil leva medidas à OMC e comércio bilateral perde força.

por Antônio Lima
09/08/2026 às 18h07
em Economia
Crise Brasil-Eua Preocupa Mercado De Crédito E Eleva Risco Para Empresas Expostas Aos Eua - Gazeta Mercantil - Economia

A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em uma nova fase de tensão em 2026. Depois de um período de aproximação e negociação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, Washington voltou a elevar as barreiras comerciais contra produtos brasileiros, Brasília acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o intercâmbio entre as duas maiores economias das Américas perdeu força.

Desde 22 de julho, determinados produtos brasileiros estão sujeitos a uma tarifa adicional de 25% nos Estados Unidos. A medida foi adotada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da legislação comercial americana, após uma investigação que durou aproximadamente um ano.

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A crise, porém, ultrapassa a discussão sobre tarifas.

O conflito bilateral combina questões comerciais, tecnológicas, políticas, ambientais e institucionais. Desde 2025, decisões tomadas pelo governo Trump passaram a relacionar explicitamente medidas econômicas contra o Brasil a temas internos brasileiros, incluindo decisões judiciais, regulação das plataformas digitais e o processo envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A nova rodada tarifária de 2026 utiliza uma fundamentação jurídica diferente daquela adotada no auge da crise em 2025, mas mostra que as divergências entre os dois países não foram superadas.

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Crise começou a ganhar outra dimensão em 2025

A deterioração das relações ganhou escala em julho de 2025.

Naquele momento, Donald Trump declarou que determinadas políticas e ações do governo brasileiro constituíam uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos.

Com essa justificativa, a Casa Branca declarou uma emergência nacional e impôs uma tarifa adicional de 40% a determinados produtos brasileiros. Dependendo do enquadramento da mercadoria, a cobrança poderia se somar a outras tarifas existentes.

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O documento presidencial americano também inseriu questões políticas brasileiras no centro da disputa econômica.

A Casa Branca criticou decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, referentes a plataformas digitais e liberdade de expressão e classificou o processo contra Jair Bolsonaro como perseguição política.

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Essas eram posições oficiais do governo Trump, contestadas pelas autoridades brasileiras. A inclusão de questões judiciais brasileiras em um decreto tarifário transformou o conflito comercial em uma crise política e diplomática mais ampla.

O governo brasileiro rejeitou a interpretação americana e passou a defender que decisões soberanas das instituições nacionais não poderiam ser utilizadas como justificativa para sanções econômicas.

Lula e Trump chegaram a abrir espaço para negociação

A escalada não ocorreu em linha reta.

Em 6 de outubro de 2025, Trump conversou por telefone com Lula e os dois governos iniciaram negociações sobre os pontos de conflito. No mês seguinte, a Casa Branca retirou determinados produtos agrícolas brasileiros da sobretaxa de 40%.

Ao justificar a mudança, o próprio governo americano afirmou que havia ocorrido um progresso inicial nas negociações com o Brasil.

O cenário mudou novamente em fevereiro de 2026.

Em 20 de fevereiro, Trump determinou o encerramento das tarifas adicionais impostas com base na International Emergency Economic Powers Act, a IEEPA. A decisão atingiu não apenas as tarifas aplicadas contra o Brasil, mas também medidas semelhantes adotadas contra outros países.

A retirada da cobrança, contudo, não encerrou formalmente a emergência declarada contra o Brasil.

A ordem executiva de fevereiro estabeleceu expressamente que as emergências anteriormente declaradas permaneceriam em vigor. Também preservou tarifas adotadas por outros instrumentos da legislação americana, incluindo as Seções 232 e 301.

Na prática, uma parte da pressão comercial foi retirada, mas a base política do conflito continuou existindo.

EUA abrem uma segunda frente contra o Brasil

Paralelamente à disputa política iniciada em 2025, o USTR conduzia uma investigação comercial específica contra práticas brasileiras.

O processo havia sido aberto em 15 de julho de 2025.

Os Estados Unidos passaram a investigar políticas brasileiras relacionadas a comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

Representantes dos dois países realizaram consultas em abril de 2026.

Em junho, o USTR concluiu que determinadas práticas brasileiras seriam “não razoáveis” e prejudicariam ou restringiriam o comércio americano.

O governo brasileiro apresentou uma defesa diferente. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços sustenta, entre outros pontos, que a maior parte das exportações americanas entra no Brasil com tarifa zero ou alíquotas efetivamente baixas e que as regras brasileiras são aplicadas de maneira transparente e não discriminatória.

As divergências permaneceram.

Em 15 de julho, o USTR anunciou a decisão final: uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos originários do Brasil, com vigência a partir de 22 de julho.

Tarifa não atinge todas as exportações brasileiras

A estrutura atual é mais complexa do que uma sobretaxa única aplicada a tudo o que o Brasil vende aos Estados Unidos.

Cálculos do MDIC mostram que, tomando como referência a pauta comercial de 2024, aproximadamente 52,7% das exportações brasileiras aos EUA permanecem fora das sobretaxas das Seções 301 e 232 e estão submetidas apenas às tarifas ordinárias americanas.

Nesse grupo aparecem produtos importantes como café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, ferro fundido, diversos produtos químicos e grande parte da celulose.

Outra parcela enfrenta diferentes combinações tarifárias.

Segundo o levantamento oficial brasileiro, 1,9% das exportações estão sujeitas apenas à tarifa adicional de 25% da Seção 301 específica sobre o Brasil. Outros 4,7% estão submetidos a uma sobretaxa de 12,5% decorrente de outra investigação comercial americana.

Em aproximadamente 16,5% da pauta, as duas medidas podem se acumular, resultando em tarifa adicional de 37,5%. Outros 24,2% são alcançados por tarifas setoriais da Seção 232.

O efeito econômico, portanto, varia significativamente conforme o produto exportado.

Comércio entre Brasil e EUA perde força

A crise já coincide com uma desaceleração mensurável das trocas comerciais.

As exportações brasileiras aos Estados Unidos atingiram um recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024. Em 2025, recuaram para US$ 37,7 bilhões.

A queda continuou em 2026.

No primeiro semestre deste ano, o Brasil vendeu US$ 17,4 bilhões em mercadorias aos Estados Unidos, redução de 13% em comparação com igual período de 2025.

Entre os produtos que mais contribuíram para o recuo aparecem os óleos brutos de petróleo, cujos embarques diminuíram 30,4%, e produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço, com queda de 21,7%.

A participação americana nas exportações brasileiras também diminuiu.

Os Estados Unidos respondiam por 12,1% das exportações do Brasil no primeiro semestre de 2025. Um ano depois, a proporção caiu para 9,4%.

As importações brasileiras de produtos americanos também recuaram, levando a corrente comercial bilateral a diminuir 12,8% no primeiro semestre.

Em julho, já sob o novo ambiente tarifário, as exportações brasileiras aos Estados Unidos somaram US$ 3,64 bilhões e apresentaram nova queda de 5% na comparação utilizada pelo MDIC.

Brasil leva Estados Unidos à OMC

Brasília decidiu responder pela via multilateral.

Em 27 de julho de 2026, o Brasil solicitou consultas formais com os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio.

O caso foi registrado como DS646 — United States — Additional Duties on Certain Products Originating in Brazil.

O Brasil questiona duas decisões americanas.

A primeira é a tarifa adicional de 25% estabelecida na investigação específica da Seção 301 sobre o país.

A segunda envolve outra investigação americana relacionada ao trabalho forçado, que resultou em tarifa adicional de 12,5% sobre determinados produtos brasileiros e de outras economias.

A OMC informa que o processo está atualmente na etapa de consultas.

Essa fase abre espaço para uma solução negociada antes da eventual criação de um painel de disputa.

Crise ultrapassa Lula e Trump

A sucessão de medidas mostra que o problema bilateral tornou-se maior do que uma divergência pessoal entre os presidentes.

Há uma disputa sobre como os Estados Unidos interpretam políticas brasileiras de tecnologia, tributação, comércio, propriedade intelectual, meio ambiente e regulação das grandes plataformas.

Há, simultaneamente, um conflito político sobre soberania e o alcance de decisões tomadas por instituições brasileiras.

E existe uma consequência econômica concreta: empresas precisam decidir como reagir a tarifas que podem modificar preços, margens e acesso ao mercado americano.

Essa combinação torna a relação mais imprevisível.

Washington afirma que continua aberto a negociações. Ao anunciar a tarifa de julho, o USTR disse que as conversas realizadas ao longo do último ano não resolveram as preocupações americanas, mas deixou aberta a possibilidade de novos entendimentos.

O Brasil, por sua vez, mantém a estratégia de negociar bilateralmente enquanto contesta juridicamente as medidas na OMC.

Governo prepara R$ 18,5 bilhões para empresas afetadas

A dimensão econômica do conflito também levou Brasília a ampliar sua política de proteção às empresas potencialmente atingidas por tarifas e outras barreiras internacionais.

A nova etapa do Plano Brasil Soberano, anunciada em 22 de julho, prevê R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento.

Do total, R$ 13,5 bilhões virão do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do BNDES. Os recursos podem financiar capital de giro, investimentos produtivos, aquisição de bens de capital, inovação e abertura de novos mercados.

A estratégia mostra que o governo trabalha com a possibilidade de a instabilidade comercial persistir.

Para empresas mais dependentes do mercado americano, a busca por novos destinos de exportação pode se tornar parte permanente da estratégia comercial.

Uma relação econômica grande demais para ser ignorada

Apesar da crise, Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação comercial suficientemente relevante para que uma ruptura profunda imponha custos aos dois lados.

Os números mostram, entretanto, uma mudança.

A fatia dos Estados Unidos nas exportações brasileiras está diminuindo, enquanto empresas brasileiras ampliam relações com mercados da Ásia, Europa, América Latina e Oriente Médio.

Isso não significa que o mercado americano tenha perdido importância. Os Estados Unidos continuam sendo destino estratégico para produtos industriais, aeronaves, energia, commodities e bens de maior valor agregado.

O que mudou foi o grau de previsibilidade.

Em pouco mais de um ano, produtos brasileiros passaram por uma tarifa de 40% baseada em emergência nacional, exceções posteriores, retirada dessa cobrança, uma nova investigação comercial e, finalmente, uma tarifa adicional de 25% baseada em outro dispositivo legal americano.

Essa sequência ajuda a explicar por que a atual crise Brasil–EUA não pode ser reduzida apenas a um “tarifaço”.

O conflito envolve comércio, política, tecnologia, soberania, diplomacia e a própria interpretação que os dois governos fazem das regras da relação bilateral.

A disputa na OMC acrescentou agora uma nova frente.

A questão para os próximos meses será saber se Brasília e Washington conseguirão reconstruir um canal de negociação capaz de reduzir as tarifas ou se a relação entre os dois países permanecerá submetida a ciclos sucessivos de pressão econômica e confronto político.

Fontes:

  • Office of the United States Trade Representative — decisão e investigação da Seção 301 sobre o Brasil.
  • Casa Branca — ordem executiva de 30 de julho de 2025 sobre o Brasil.
  • Casa Branca — alteração de novembro de 2025 nas tarifas aplicadas ao Brasil.
  • Casa Branca — ordem executiva de 20 de fevereiro de 2026 encerrando tarifas adicionais impostas pela IEEPA.
  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — alcance das tarifas americanas e dados do comércio bilateral.
  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — defesa brasileira no processo da Seção 301.
  • Organização Mundial do Comércio — disputa DS646 aberta pelo Brasil contra os Estados Unidos.
  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — Plano Brasil Soberano.

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