A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em uma nova fase de tensão em 2026. Depois de um período de aproximação e negociação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, Washington voltou a elevar as barreiras comerciais contra produtos brasileiros, Brasília acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o intercâmbio entre as duas maiores economias das Américas perdeu força.
Desde 22 de julho, determinados produtos brasileiros estão sujeitos a uma tarifa adicional de 25% nos Estados Unidos. A medida foi adotada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da legislação comercial americana, após uma investigação que durou aproximadamente um ano.
A crise, porém, ultrapassa a discussão sobre tarifas.
O conflito bilateral combina questões comerciais, tecnológicas, políticas, ambientais e institucionais. Desde 2025, decisões tomadas pelo governo Trump passaram a relacionar explicitamente medidas econômicas contra o Brasil a temas internos brasileiros, incluindo decisões judiciais, regulação das plataformas digitais e o processo envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A nova rodada tarifária de 2026 utiliza uma fundamentação jurídica diferente daquela adotada no auge da crise em 2025, mas mostra que as divergências entre os dois países não foram superadas.
Crise começou a ganhar outra dimensão em 2025
A deterioração das relações ganhou escala em julho de 2025.
Naquele momento, Donald Trump declarou que determinadas políticas e ações do governo brasileiro constituíam uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos.
Com essa justificativa, a Casa Branca declarou uma emergência nacional e impôs uma tarifa adicional de 40% a determinados produtos brasileiros. Dependendo do enquadramento da mercadoria, a cobrança poderia se somar a outras tarifas existentes.
O documento presidencial americano também inseriu questões políticas brasileiras no centro da disputa econômica.
A Casa Branca criticou decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, referentes a plataformas digitais e liberdade de expressão e classificou o processo contra Jair Bolsonaro como perseguição política.
Essas eram posições oficiais do governo Trump, contestadas pelas autoridades brasileiras. A inclusão de questões judiciais brasileiras em um decreto tarifário transformou o conflito comercial em uma crise política e diplomática mais ampla.
O governo brasileiro rejeitou a interpretação americana e passou a defender que decisões soberanas das instituições nacionais não poderiam ser utilizadas como justificativa para sanções econômicas.
Lula e Trump chegaram a abrir espaço para negociação
A escalada não ocorreu em linha reta.
Em 6 de outubro de 2025, Trump conversou por telefone com Lula e os dois governos iniciaram negociações sobre os pontos de conflito. No mês seguinte, a Casa Branca retirou determinados produtos agrícolas brasileiros da sobretaxa de 40%.
Ao justificar a mudança, o próprio governo americano afirmou que havia ocorrido um progresso inicial nas negociações com o Brasil.
O cenário mudou novamente em fevereiro de 2026.
Em 20 de fevereiro, Trump determinou o encerramento das tarifas adicionais impostas com base na International Emergency Economic Powers Act, a IEEPA. A decisão atingiu não apenas as tarifas aplicadas contra o Brasil, mas também medidas semelhantes adotadas contra outros países.
A retirada da cobrança, contudo, não encerrou formalmente a emergência declarada contra o Brasil.
A ordem executiva de fevereiro estabeleceu expressamente que as emergências anteriormente declaradas permaneceriam em vigor. Também preservou tarifas adotadas por outros instrumentos da legislação americana, incluindo as Seções 232 e 301.
Na prática, uma parte da pressão comercial foi retirada, mas a base política do conflito continuou existindo.
EUA abrem uma segunda frente contra o Brasil
Paralelamente à disputa política iniciada em 2025, o USTR conduzia uma investigação comercial específica contra práticas brasileiras.
O processo havia sido aberto em 15 de julho de 2025.
Os Estados Unidos passaram a investigar políticas brasileiras relacionadas a comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
Representantes dos dois países realizaram consultas em abril de 2026.
Em junho, o USTR concluiu que determinadas práticas brasileiras seriam “não razoáveis” e prejudicariam ou restringiriam o comércio americano.
O governo brasileiro apresentou uma defesa diferente. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços sustenta, entre outros pontos, que a maior parte das exportações americanas entra no Brasil com tarifa zero ou alíquotas efetivamente baixas e que as regras brasileiras são aplicadas de maneira transparente e não discriminatória.
As divergências permaneceram.
Em 15 de julho, o USTR anunciou a decisão final: uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos originários do Brasil, com vigência a partir de 22 de julho.
Tarifa não atinge todas as exportações brasileiras
A estrutura atual é mais complexa do que uma sobretaxa única aplicada a tudo o que o Brasil vende aos Estados Unidos.
Cálculos do MDIC mostram que, tomando como referência a pauta comercial de 2024, aproximadamente 52,7% das exportações brasileiras aos EUA permanecem fora das sobretaxas das Seções 301 e 232 e estão submetidas apenas às tarifas ordinárias americanas.
Nesse grupo aparecem produtos importantes como café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, ferro fundido, diversos produtos químicos e grande parte da celulose.
Outra parcela enfrenta diferentes combinações tarifárias.
Segundo o levantamento oficial brasileiro, 1,9% das exportações estão sujeitas apenas à tarifa adicional de 25% da Seção 301 específica sobre o Brasil. Outros 4,7% estão submetidos a uma sobretaxa de 12,5% decorrente de outra investigação comercial americana.
Em aproximadamente 16,5% da pauta, as duas medidas podem se acumular, resultando em tarifa adicional de 37,5%. Outros 24,2% são alcançados por tarifas setoriais da Seção 232.
O efeito econômico, portanto, varia significativamente conforme o produto exportado.
Comércio entre Brasil e EUA perde força
A crise já coincide com uma desaceleração mensurável das trocas comerciais.
As exportações brasileiras aos Estados Unidos atingiram um recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024. Em 2025, recuaram para US$ 37,7 bilhões.
A queda continuou em 2026.
No primeiro semestre deste ano, o Brasil vendeu US$ 17,4 bilhões em mercadorias aos Estados Unidos, redução de 13% em comparação com igual período de 2025.
Entre os produtos que mais contribuíram para o recuo aparecem os óleos brutos de petróleo, cujos embarques diminuíram 30,4%, e produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço, com queda de 21,7%.
A participação americana nas exportações brasileiras também diminuiu.
Os Estados Unidos respondiam por 12,1% das exportações do Brasil no primeiro semestre de 2025. Um ano depois, a proporção caiu para 9,4%.
As importações brasileiras de produtos americanos também recuaram, levando a corrente comercial bilateral a diminuir 12,8% no primeiro semestre.
Em julho, já sob o novo ambiente tarifário, as exportações brasileiras aos Estados Unidos somaram US$ 3,64 bilhões e apresentaram nova queda de 5% na comparação utilizada pelo MDIC.
Brasil leva Estados Unidos à OMC
Brasília decidiu responder pela via multilateral.
Em 27 de julho de 2026, o Brasil solicitou consultas formais com os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio.
O caso foi registrado como DS646 — United States — Additional Duties on Certain Products Originating in Brazil.
O Brasil questiona duas decisões americanas.
A primeira é a tarifa adicional de 25% estabelecida na investigação específica da Seção 301 sobre o país.
A segunda envolve outra investigação americana relacionada ao trabalho forçado, que resultou em tarifa adicional de 12,5% sobre determinados produtos brasileiros e de outras economias.
A OMC informa que o processo está atualmente na etapa de consultas.
Essa fase abre espaço para uma solução negociada antes da eventual criação de um painel de disputa.
Crise ultrapassa Lula e Trump
A sucessão de medidas mostra que o problema bilateral tornou-se maior do que uma divergência pessoal entre os presidentes.
Há uma disputa sobre como os Estados Unidos interpretam políticas brasileiras de tecnologia, tributação, comércio, propriedade intelectual, meio ambiente e regulação das grandes plataformas.
Há, simultaneamente, um conflito político sobre soberania e o alcance de decisões tomadas por instituições brasileiras.
E existe uma consequência econômica concreta: empresas precisam decidir como reagir a tarifas que podem modificar preços, margens e acesso ao mercado americano.
Essa combinação torna a relação mais imprevisível.
Washington afirma que continua aberto a negociações. Ao anunciar a tarifa de julho, o USTR disse que as conversas realizadas ao longo do último ano não resolveram as preocupações americanas, mas deixou aberta a possibilidade de novos entendimentos.
O Brasil, por sua vez, mantém a estratégia de negociar bilateralmente enquanto contesta juridicamente as medidas na OMC.
Governo prepara R$ 18,5 bilhões para empresas afetadas
A dimensão econômica do conflito também levou Brasília a ampliar sua política de proteção às empresas potencialmente atingidas por tarifas e outras barreiras internacionais.
A nova etapa do Plano Brasil Soberano, anunciada em 22 de julho, prevê R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento.
Do total, R$ 13,5 bilhões virão do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do BNDES. Os recursos podem financiar capital de giro, investimentos produtivos, aquisição de bens de capital, inovação e abertura de novos mercados.
A estratégia mostra que o governo trabalha com a possibilidade de a instabilidade comercial persistir.
Para empresas mais dependentes do mercado americano, a busca por novos destinos de exportação pode se tornar parte permanente da estratégia comercial.
Uma relação econômica grande demais para ser ignorada
Apesar da crise, Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação comercial suficientemente relevante para que uma ruptura profunda imponha custos aos dois lados.
Os números mostram, entretanto, uma mudança.
A fatia dos Estados Unidos nas exportações brasileiras está diminuindo, enquanto empresas brasileiras ampliam relações com mercados da Ásia, Europa, América Latina e Oriente Médio.
Isso não significa que o mercado americano tenha perdido importância. Os Estados Unidos continuam sendo destino estratégico para produtos industriais, aeronaves, energia, commodities e bens de maior valor agregado.
O que mudou foi o grau de previsibilidade.
Em pouco mais de um ano, produtos brasileiros passaram por uma tarifa de 40% baseada em emergência nacional, exceções posteriores, retirada dessa cobrança, uma nova investigação comercial e, finalmente, uma tarifa adicional de 25% baseada em outro dispositivo legal americano.
Essa sequência ajuda a explicar por que a atual crise Brasil–EUA não pode ser reduzida apenas a um “tarifaço”.
O conflito envolve comércio, política, tecnologia, soberania, diplomacia e a própria interpretação que os dois governos fazem das regras da relação bilateral.
A disputa na OMC acrescentou agora uma nova frente.
A questão para os próximos meses será saber se Brasília e Washington conseguirão reconstruir um canal de negociação capaz de reduzir as tarifas ou se a relação entre os dois países permanecerá submetida a ciclos sucessivos de pressão econômica e confronto político.
Fontes:
- Office of the United States Trade Representative — decisão e investigação da Seção 301 sobre o Brasil.
- Casa Branca — ordem executiva de 30 de julho de 2025 sobre o Brasil.
- Casa Branca — alteração de novembro de 2025 nas tarifas aplicadas ao Brasil.
- Casa Branca — ordem executiva de 20 de fevereiro de 2026 encerrando tarifas adicionais impostas pela IEEPA.
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — alcance das tarifas americanas e dados do comércio bilateral.
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — defesa brasileira no processo da Seção 301.
- Organização Mundial do Comércio — disputa DS646 aberta pelo Brasil contra os Estados Unidos.
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — Plano Brasil Soberano.









