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Estrangeiros colocam R$ 10,06 bilhões na Bolsa em um dia após 1º turno

Entrada líquida de capital externo foi recorde e elevou o saldo estrangeiro acumulado no ano para cerca de R$ 40 bilhões; movimento coincidiu com alta de 7,70% do Ibovespa após resultado das eleições

por Camila Braga
08/10/2026 às 11h28
em Ibovespa
Ibovespa - Gazeta Mercantil

Investidores estrangeiros colocaram R$ 10,06 bilhões líquidos em ações brasileiras no primeiro pregão depois do primeiro turno das eleições presidenciais, o maior ingresso diário registrado na série acompanhada para esse fluxo na B3. O movimento ocorreu na segunda-feira, 5 de outubro, quando o Ibovespa disparou 7,70% e encerrou o dia aos 206.911,89 pontos, recorde de fechamento, após Flávio Bolsonaro (PL) terminar a votação à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O tamanho da entrada de recursos ajuda a dimensionar a reação do capital internacional ao resultado eleitoral. Antes daquele pregão, o saldo líquido de estrangeiros na Bolsa em 2026 estava próximo de R$ 29,95 bilhões. Com os R$ 10,06 bilhões adicionados em apenas um dia, o acumulado passou para aproximadamente R$ 40,01 bilhões. Em termos proporcionais, uma única sessão aumentou em cerca de 33,6% todo o saldo positivo construído pelos investidores de fora do país desde o início do ano.

O fluxo também ajuda a explicar a intensidade da valorização observada na Bolsa. O resultado das urnas alterou rapidamente as probabilidades atribuídas pelos investidores aos cenários econômicos para 2027 e provocou compras em setores diretamente sensíveis à atividade doméstica, juros e política fiscal. Bancos, empresas financeiras e ações ligadas à economia brasileira estiveram entre os principais destaques, enquanto o dólar caiu para a região de R$ 5 e os juros futuros de longo prazo recuaram de maneira acentuada.

A entrada de R$ 10 bilhões, contudo, ainda não permite concluir que o investidor internacional iniciou uma mudança permanente de alocação para o Brasil. Recursos estrangeiros podem entrar e sair rapidamente conforme mudam as expectativas sobre eleição, política fiscal, juros americanos e riscos globais. A principal informação das próximas semanas será, portanto, a continuidade ou não desse movimento.

Um pregão acrescentou um terço ao saldo estrangeiro do ano

O impacto do fluxo de segunda-feira fica mais claro quando comparado ao acumulado de 2026. Os R$ 10,06 bilhões representaram aproximadamente um quarto do saldo positivo de cerca de R$ 40 bilhões registrado após o pregão. Isso significa que cerca de 25% do dinheiro estrangeiro líquido que permanecia aplicado na Bolsa no acumulado do ano foi acrescentado em apenas uma sessão.

A comparação com o saldo anterior produz outra dimensão do movimento. Partindo dos aproximadamente R$ 29,95 bilhões registrados até então, a entrada de segunda-feira aumentou a posição líquida acumulada em cerca de um terço. Trata-se de uma variação incomum para uma série que normalmente é construída por meio de compras e vendas distribuídas ao longo de dezenas de pregões.

Os números representam fluxo líquido, ou seja, a diferença entre o valor comprado e vendido pelos investidores estrangeiros em ações dentro do universo considerado pela B3. Isso não significa que apenas R$ 10,06 bilhões tenham sido negociados por estrangeiros naquele dia. O volume bruto de compras e vendas é muito maior; o dado mostra que as aquisições superaram as vendas por esse montante.

A distinção é importante porque permite interpretar corretamente a informação. Quando o saldo é positivo, o grupo terminou o período comprando mais ações do que vendeu. Um valor negativo indicaria retirada líquida de recursos. No pregão posterior à eleição, a diferença entre compras e vendas foi excepcionalmente favorável às compras.

Resultado eleitoral alterou preço atribuído ao risco brasileiro

O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença de 1,87 ponto percentual levou os dois candidatos ao segundo turno, marcado para 25 de outubro, e alterou as projeções de investidores que até então trabalhavam com outras probabilidades para a disputa.

A reação do mercado esteve ligada principalmente às expectativas sobre política fiscal. Parte dos investidores passou a atribuir maior probabilidade a uma mudança na condução das contas públicas a partir de 2027 caso Flávio vença a eleição. Essa percepção favoreceu a redução dos prêmios de risco exigidos nos ativos brasileiros, especialmente nos contratos de juros de longo prazo.

Essa leitura não significa que um eventual governo já tenha política econômica definida nem que o resultado esperado pelo mercado vá necessariamente se concretizar. Propostas ainda precisam ser detalhadas, e qualquer governo eleito enfrentará limitações orçamentárias, dívida elevada, negociações com o Congresso e condições internacionais que não dependem da Presidência da República.

O que aconteceu no pregão foi uma reprecificação. O mercado atribuiu novos valores a ações, moeda e juros com base na alteração das probabilidades políticas. Como esses ativos são negociados continuamente, o ajuste ocorre muito antes de uma política pública entrar em vigor.

Ibovespa ganhou R$ 365 bilhões em valor de mercado

O fluxo externo coincidiu com uma das sessões mais fortes da história recente da Bolsa brasileira. O Ibovespa subiu 7,70%, para 206.911,89 pontos, e chegou a atingir 209.605,70 pontos durante o pregão. Foi a maior alta diária desde março de 2020.

A valorização das empresas listadas acrescentou aproximadamente R$ 365,2 bilhões ao valor de mercado agregado das companhias em uma única sessão. O dado não representa entrada efetiva dessa quantia em dinheiro nas empresas. Trata-se da valorização das ações multiplicada pela quantidade de papéis existentes, refletindo quanto aumentou o valor atribuído pelo mercado às companhias.

Bancos estiveram entre os principais responsáveis pelo avanço. Instituições financeiras são particularmente sensíveis às expectativas sobre atividade econômica, inadimplência, crédito e juros. Empresas mais dependentes do mercado doméstico também reagiram à queda das taxas futuras e à percepção de redução do risco fiscal.

A presença do capital estrangeiro é especialmente relevante porque investidores internacionais respondem por uma parcela elevada do volume negociado na Bolsa brasileira. Quando esse grupo aumenta de forma abrupta as compras, pode exercer forte pressão sobre preços, sobretudo em ações de grande liquidez que fazem parte do Ibovespa.

Dólar e juros confirmaram a mesma reprecificação

O movimento não ficou restrito às ações. O dólar caiu mais de 4% durante a segunda-feira e terminou próximo de R$ 5, enquanto os contratos futuros de juros tiveram forte redução, especialmente nos vencimentos mais longos.

Os três mercados responderam à mesma mudança de expectativa por mecanismos diferentes. A compra de ações brasileiras por estrangeiros aumenta a demanda por reais, porque parte do capital precisa ser convertida para a moeda local. Esse fluxo pode contribuir para a valorização do real e, consequentemente, para a queda do dólar.

Nos juros, a percepção de menor risco fiscal reduz o prêmio exigido pelos investidores para comprometer recursos por períodos mais longos. Na Bolsa, taxas futuras menores elevam o valor presente estimado dos resultados das empresas e tornam ativos de risco relativamente mais atraentes.

A combinação de Bolsa em forte alta, real valorizado e juros futuros em queda é compatível com um movimento de redução do prêmio de risco atribuído ao Brasil. A dúvida é quanto dessa reprecificação permanecerá depois que a reação inicial às eleições perder força.

Capital estrangeiro não depende apenas da eleição

Apesar da intensidade do fluxo pós-eleitoral, o investidor internacional não decide sua alocação olhando apenas para a política brasileira. O país compete por capital com Estados Unidos, Europa, Ásia e outros mercados emergentes, e essa disputa depende da relação entre retorno esperado e risco.

O nível dos juros americanos é uma das variáveis mais importantes. Quando os títulos do Tesouro dos Estados Unidos oferecem remuneração elevada, investidores podem obter retornos relevantes em ativos considerados de menor risco, reduzindo o incentivo para aumentar exposição a países emergentes. Uma alta dos Treasuries, portanto, pode limitar ou até reverter fluxos favoráveis ao Brasil.

Os preços das commodities também interferem. O Brasil possui peso expressivo de empresas de petróleo, mineração e agronegócio e recebe receitas relevantes de exportação desses setores. Alterações nas perspectivas para China, petróleo, minério de ferro e produtos agrícolas podem modificar a avaliação sobre os ativos brasileiros independentemente da eleição.

Há ainda o preço relativo das ações. Se investidores considerarem que as empresas brasileiras estão baratas em relação aos lucros esperados e aos mercados concorrentes, o país pode atrair recursos mesmo em um ambiente político mais incerto. Da mesma forma, uma Bolsa que sobe rapidamente pode perder parte desse atrativo se os resultados corporativos não acompanharem a valorização.

Fluxo precisa continuar para indicar mudança estrutural

O ingresso de R$ 10,06 bilhões funciona como evidência clara de uma reação extraordinária ao primeiro turno, mas um único pregão não estabelece uma tendência. Para que o movimento represente uma mudança mais duradoura de posicionamento internacional, será necessário observar entradas recorrentes durante as próximas semanas e, posteriormente, depois da definição do presidente eleito.

A evolução do saldo em outubro será um dos indicadores mais relevantes. Caso o estrangeiro continue comprador mesmo depois da alta inicial da Bolsa, isso indicará disposição para aumentar a exposição ao Brasil em níveis de preços mais elevados. Se o fluxo desaparecer ou se tornar negativo rapidamente, a leitura será de que parte importante da entrada teve caráter tático, associada à reação imediata às urnas.

O comportamento do câmbio e dos juros pode ajudar nessa avaliação. Uma combinação persistente de entrada de capital, real mais valorizado e redução dos prêmios de longo prazo seria mais consistente com uma mudança de percepção sobre o país. Movimentos erráticos e reversões rápidas apontariam para um ambiente ainda dominado pela negociação de curto prazo.

O segundo turno adiciona incerteza a essa análise. Pesquisas eleitorais, propostas econômicas, formação de alianças e declarações dos candidatos podem alterar novamente as probabilidades atribuídas pelo mercado antes de 25 de outubro.

Recorde mostra tamanho da aposta, não seu resultado

A entrada recorde dos investidores estrangeiros é relevante porque mostra quanto capital internacional estava disposto a ser reposicionado depois do primeiro turno. Ela não demonstra, porém, que a aposta será lucrativa nem que os riscos fiscais brasileiros foram resolvidos.

O Brasil continuará enfrentando uma dívida pública elevada, juros ainda altos e restrições importantes sobre o Orçamento. O próximo governo terá de lidar com essas condições independentemente de quem vencer a eleição, e a capacidade de apresentar medidas críveis para receitas, despesas e dívida terá influência direta sobre a permanência do capital externo.

Por enquanto, o dado objetivo é a velocidade da mudança: R$ 10,06 bilhões líquidos entraram no mercado acionário em um único pregão, elevando o saldo estrangeiro do ano para aproximadamente R$ 40 bilhões ao mesmo tempo em que o Ibovespa registrava uma alta de 7,70%.

As próximas semanas mostrarão se 5 de outubro foi apenas um dia excepcional provocado pelo resultado das urnas ou o início de uma mudança mais ampla na posição dos investidores internacionais em relação ao Brasil.

Fontes:

B3 — movimentação dos investidores estrangeiros, participação por tipo de investidor, fluxo líquido no mercado acionário e metodologia das estatísticas de mercado

B3 — desempenho do Ibovespa no primeiro pregão após o primeiro turno e dados sobre valorização das companhias listadas

Tribunal Superior Eleitoral — resultado oficial do primeiro turno da eleição presidencial de 2026 e calendário do segundo turno

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