Os Estados Unidos se consolidaram em setembro como o principal vetor de expansão entre os grandes mercados da carne bovina brasileira, justamente no momento em que a China reduziu fortemente as compras em razão da salvaguarda adotada por Pequim. O Brasil exportou 48,3 mil toneladas de carne bovina aos norte-americanos no mês, alta de 389% sobre setembro de 2025, com receita de US$ 313,8 milhões, avanço de 333,8%. O desempenho fez os embarques aos Estados Unidos atingirem o maior volume mensal da série para o país.
Dentro desse total, a carne bovina in natura respondeu por 44,44 mil toneladas. O resultado superou por cerca de 310 toneladas, ou 0,7%, o recorde anterior de 44,13 mil toneladas, registrado em abril de 2025. O aumento ocorreu em um mercado que já vinha ampliando as compras e ganhou uma nova condição de acesso a volumes sob a cota tarifária dos Estados Unidos a partir de setembro.
A mudança não significou a retirada geral das tarifas sobre a carne brasileira. Em 26 de agosto, o governo de Donald Trump ampliou temporariamente em 300 mil toneladas a quantidade de aparas de carne bovina magra que poderia entrar nos Estados Unidos dentro da tarifa reduzida da cota. O volume adicional foi dividido em três parcelas mensais de 100 mil toneladas, com a primeira válida em setembro. A medida foi direcionada a produtos usados principalmente na produção de carne moída e ficou disponível para países classificados pelo sistema americano como “outros países ou áreas”.
O efeito sobre o comércio brasileiro apareceu em um momento de reorganização dos destinos das exportações. Enquanto as vendas aos Estados Unidos cresciam, a China praticamente deixou de exercer o mesmo papel no terceiro trimestre. Em setembro, o mercado chinês recebeu apenas 12,9 mil toneladas de carne bovina brasileira, com receita de US$ 75,2 milhões. Na comparação anual, o volume caiu 93,2% e o valor recuou 92,9%.
Estados Unidos avançam enquanto China perde espaço
O contraste entre os dois mercados alterou de forma significativa a composição das exportações brasileiras no mês. As 48,3 mil toneladas destinadas aos Estados Unidos representaram cerca de 21% de todo o volume de carne bovina exportado pelo Brasil em setembro, enquanto os embarques para a China corresponderam a aproximadamente 5,6%.
Em termos absolutos, os norte-americanos compraram quase 3,7 vezes o volume enviado ao mercado chinês no mês. Essa diferença seria muito menor em um ambiente comercial normal, porque a China vinha sendo, com ampla margem, o principal destino da carne bovina brasileira.
A retração chinesa está diretamente relacionada à salvaguarda implementada pelo país asiático no início de 2026. A medida estabeleceu cotas específicas por origem. Para o Brasil, o limite do primeiro ano foi fixado em 1,106 milhão de toneladas. Depois do preenchimento da cota, os embarques adicionais ficam sujeitos a uma tarifa de 55% sobre a alíquota regular.
O Ministério do Comércio da China informou em 30 de setembro que a cota brasileira havia atingido 100% em 29 de setembro. A partir de 1º de outubro, portanto, as importações brasileiras que ultrapassassem o limite passariam a receber a sobretaxa prevista pela salvaguarda.
A restrição ajuda a explicar por que a queda chinesa foi muito superior ao avanço norte-americano. Em setembro do ano passado, o Brasil havia enviado cerca de 189,7 mil toneladas à China, segundo a variação informada para o período. A diferença para as 12,9 mil toneladas deste ano equivale a uma redução próxima de 176,8 mil toneladas. Já o aumento das compras dos Estados Unidos entre agosto e setembro, estimado a partir dos dados divulgados pelo setor, ficou em aproximadamente 14,2 mil toneladas.
Isso significa que o acréscimo mensal das vendas americanas compensou pouco mais de 8% do volume perdido pela China na comparação anual de setembro. A expansão dos Estados Unidos, portanto, é relevante para a diversificação dos compradores, mas ainda não substitui a escala que o mercado chinês representa para os frigoríficos brasileiros.
Receita do setor cresce mesmo com queda no volume
As exportações brasileiras de carne bovina somaram 229,3 mil toneladas em setembro, redução de 35,1% diante das 353,1 mil toneladas registradas no mesmo mês de 2025. A receita caiu menos, para US$ 1,38 bilhão, ante US$ 1,90 bilhão um ano antes, retração de 27,6%.
A diferença entre as duas taxas mostra que a valorização média da tonelada exportada ajudou a reduzir o impacto da queda física dos embarques. Pela relação entre receita e volume, o valor médio exportado por tonelada ficou aproximadamente 11,6% acima do registrado em setembro de 2025.
No acumulado de janeiro a setembro, o quadro é mais favorável. O Brasil exportou 2,43 milhões de toneladas de carne bovina, praticamente o mesmo patamar de 2025, com queda de 0,5%. A receita, porém, atingiu US$ 14,17 bilhões, alta de 14,1%.
A diferença equivale a um avanço aproximado de 14,7% no valor médio obtido por tonelada no período, cálculo que evidencia o peso dos preços internacionais e da composição dos mercados sobre o faturamento do setor. A indústria conseguiu preservar a geração de receita mesmo sem repetir o volume extraordinariamente elevado observado no ano anterior.
Os Estados Unidos contribuíram para esse resultado. Entre janeiro e setembro, o país importou 317,4 mil toneladas de carne bovina brasileira, crescimento de 45%. A receita alcançou US$ 2,08 bilhões, alta de 60,8%. O faturamento avançou, portanto, mais rapidamente do que o volume, sinalizando aumento próximo de 10,9% no valor médio por tonelada vendida ao mercado americano.
A China permaneceu muito acima dos demais destinos em escala acumulada, com 912 mil toneladas e US$ 5,59 bilhões entre janeiro e setembro. Ainda assim, a participação chinesa recuou para 37,5% do volume e 39,4% da receita no período, diante da retração observada no terceiro trimestre.
Nova cota americana amplia espaço para a carne brasileira
A medida anunciada por Trump em agosto criou uma oportunidade específica para exportadores de carne bovina magra. A proclamação elevou em 300 mil toneladas a quantidade sujeita à tarifa dentro da cota americana, distribuída em três blocos de 100 mil toneladas.
A primeira parcela foi disponibilizada a partir de 1º de setembro, coincidindo com o salto das exportações brasileiras. A segunda começou em 1º de outubro e a terceira está prevista para 31 de outubro, permanecendo disponível até o preenchimento do volume ou até 30 de novembro.
A regra é importante porque o governo americano justificou a ampliação pela necessidade de reforçar a oferta doméstica de aparas magras, utilizadas na produção de carne moída. A medida não foi criada especificamente para o Brasil e tampouco garante que o volume adicional será integralmente ocupado por frigoríficos brasileiros. O ganho para as empresas brasileiras depende de competitividade, disponibilidade de produto, habilitação dos estabelecimentos e capacidade de atender às especificações do mercado.
Mesmo assim, o aumento das compras americanas no mesmo mês da abertura da primeira parcela da nova cota mostra a relevância daquele mecanismo para a cadeia exportadora. O Brasil possui escala de produção suficiente para disputar esse espaço e já vinha aumentando sua presença nos Estados Unidos antes da expansão temporária.
O movimento também reduz parcialmente a concentração geográfica das exportações. Com a China submetida a uma limitação específica, mercados capazes de absorver grandes volumes ganham importância estratégica para os frigoríficos. Os Estados Unidos são o principal exemplo desse processo em 2026.
Outros destinos também ampliam compras
A recomposição dos mercados não ficou restrita aos Estados Unidos. O Chile recebeu 19,4 mil toneladas em setembro, aumento de 87,2% sobre um ano antes, enquanto a receita alcançou US$ 117,5 milhões, alta de 107,7%.
A Rússia importou 13,1 mil toneladas, crescimento de 20,5%, e gerou US$ 66,5 milhões, avanço de 40,2%. A Arábia Saudita recebeu 7,7 mil toneladas, 35,8% acima de setembro de 2025, com faturamento de US$ 44,4 milhões.
Também chamaram atenção os mercados de menor participação relativa. A Indonésia ampliou as compras em 822%, para 9,4 mil toneladas, e o Canadá elevou os embarques em 870,7%, para 4 mil toneladas. A Turquia recebeu 5,9 mil toneladas, aumento de 129,5%.
Esses mercados ajudam a distribuir a demanda, mas nenhum deles possui, isoladamente, escala comparável à China. O resultado de setembro mostra, portanto, uma mudança na composição dos destinos mais do que uma substituição integral de um comprador por outro.
Europa adiciona outra restrição ao comércio brasileiro
A diversificação dos mercados ocorre ao mesmo tempo em que a União Europeia passou a aplicar novas exigências relacionadas ao uso de medicamentos antimicrobianos. A regra europeia entrou em aplicação em 3 de setembro e exige garantias sobre o cumprimento dos requisitos previstos pela legislação do bloco.
Em junho, a Comissão Europeia retirou o Brasil da lista de países autorizados para determinadas categorias, incluindo bovinos, após informar que não havia recebido garantias consideradas suficientes de que as exigências seriam cumpridas. A mudança atingiu diretamente as exportações brasileiras de carne bovina para o bloco a partir de setembro.
Os dados acumulados até setembro ainda refletem meses anteriores à interrupção. A União Europeia recebeu 107,1 mil toneladas de carne bovina brasileira no período, com receita de US$ 942,8 milhões, altas de 27% e 37,9%, respectivamente. O desempenho, portanto, não representa integralmente o efeito da nova restrição, porque boa parte dos embarques ocorreu antes da mudança regulatória.
O ambiente comercial do segundo semestre combina, assim, três movimentos distintos: a perda temporária de espaço na China, a expansão acelerada dos Estados Unidos e novas barreiras sanitárias na Europa. Para os exportadores brasileiros, a capacidade de redistribuir embarques entre destinos tornou-se decisiva.
O resultado de janeiro a setembro indica que a indústria manteve praticamente estável o volume exportado e aumentou significativamente a receita. A continuidade desse desempenho dependerá da duração das restrições chinesas, do aproveitamento das oportunidades abertas nos Estados Unidos e da capacidade de recuperar mercados afetados por exigências sanitárias.
Fontes:
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – dados consolidados do comércio exterior brasileiro e informações da Secretaria de Comércio Exterior
Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes – estatísticas de exportação de carne bovina, desempenho por destino e informações setoriais de setembro de 2026
Casa Branca dos Estados Unidos – proclamação de 26 de agosto de 2026 sobre a ampliação temporária da cota tarifária para aparas de carne bovina magra
Ministério do Comércio da China – decisão sobre a salvaguarda das importações de carne bovina e tabela de cotas por país para 2026
Comissão Europeia – regulamentação sobre requisitos relacionados ao uso de medicamentos antimicrobianos e autorização de países exportadores de produtos de origem animal
Comex Stat – dados de embarques brasileiros de carne bovina in natura por país de destino









