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Ataques fecham oleoduto da Arábia Saudita e ameaçam 4 milhões de barris de petróleo por dia

Paralisação atinge principal rota saudita para o Mar Vermelho enquanto estoques globais recuam e o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanece restrito.

por Eduardo Toscano
14/09/2026 às 13h00
em Mundo
Ataques Fecham Oleoduto Da Arábia Saudita E Ameaçam 4 Milhões De Barris De Petróleo Por Dia-Gazeta Mercantil

A Arábia Saudita interrompeu o funcionamento do oleoduto Leste-Oeste após ataques com drones em 10 de setembro, colocando sob risco uma rota estratégica usada para levar petróleo do leste do país ao terminal de Yanbu, no Mar Vermelho. O fechamento pode comprometer até 4 milhões de barris de petróleo por dia, aproximadamente 4% da oferta global recente, justamente quando o mercado internacional opera com estoques menores, fretes mais caros e restrições severas à circulação de petróleo pelo Estreito de Ormuz.

O governo saudita informou que vários ataques atingiram o oleoduto nas regiões de Riad e Medina e que a estrutura foi fechada inicialmente por precaução. Em comunicado posterior, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que os drones foram lançados a partir do território iraquiano e que os ataques provocaram feridos e danos materiais. Segundo a autoridade saudita, Riad decidiu não responder imediatamente para permitir que o governo do Iraque adotasse medidas contra ataques lançados de seu território.

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A dimensão do problema está na função do oleoduto. A linha Leste-Oeste, também conhecida como Petroline, atravessa cerca de 1.200 quilômetros da Arábia Saudita e conecta áreas produtoras próximas ao Golfo Pérsico ao terminal de Yanbu. Sua utilização permite que parte do petróleo saudita seja exportada sem atravessar o Estreito de Ormuz, corredor marítimo cuja operação está severamente limitada pela guerra entre Irã e forças adversárias na região.

Estoques dão poucos dias de margem para a Arábia Saudita

O principal risco imediato está na disponibilidade de petróleo já preparado para exportação. Compradores e comerciantes ouvidos pela Reuters estimaram que os estoques no porto de Yanbu seriam suficientes para manter os níveis atuais de embarques por apenas cinco a sete dias caso o oleoduto permaneça inoperante. Há reservas adicionais armazenadas em instalações egípcias conectadas à logística do Mar Vermelho, mas elas também oferecem uma margem limitada.

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A dimensão pode ser estimada pela própria vazão da infraestrutura. Considerando um fluxo próximo de 4 milhões de barris por dia, como o registrado antes da paralisação, cinco dias correspondem a aproximadamente 20 milhões de barris e sete dias equivalem a cerca de 28 milhões de barris. Trata-se de uma referência matemática para a escala da reserva necessária, e não de uma estimativa oficial do volume existente em Yanbu. O dado mais importante é que o estoque disponível não substitui indefinidamente a entrada contínua de petróleo pelo oleoduto.

O problema também é agravado pela redução da produção saudita. De acordo com o relatório mais recente da Agência Internacional de Energia (AIE), a oferta de petróleo do país ficou em aproximadamente 6 milhões de barris por dia em agosto, enquanto a produção havia sido significativamente maior antes do agravamento da guerra. O próprio relatório registra redução de mais de 10 milhões de barris por dia na produção do Golfo em agosto, resultado da insegurança sobre instalações e rotas de exportação.

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Em termos relativos, a AIE prevê que a oferta mundial de petróleo caia 5,7 milhões de barris por dia em 2026, para uma média de 100,7 milhões de barris por dia. A queda corresponde a aproximadamente 5,4% da média projetada para o ano. A agência também adiou para 2027 a recuperação completa da oferta do Oriente Médio, em razão da continuidade das restrições provocadas pelo conflito.

A Arábia Saudita continua sendo um dos maiores produtores mundiais, mas sua produção efetiva em agosto estava muito abaixo de sua capacidade sustentável indicada pela AIE. O relatório aponta produção saudita de 5,97 milhões de barris por dia em agosto, contra capacidade sustentável estimada em 10,42 milhões e capacidade adicional efetiva de 12,11 milhões.

Mercado já opera com estoques em queda

A interrupção do oleoduto ocorre sobre um mercado que perdeu parte importante de sua margem de segurança desde o início da guerra. A AIE informou que os estoques globais observados recuaram 95 milhões de barris em agosto. Desde fevereiro, a redução acumulada chegou a 507 milhões de barris, equivalente a uma retirada média de cerca de 2,8 milhões de barris por dia das reservas.

Esse movimento reduz a capacidade do mercado de compensar rapidamente uma nova interrupção. O mercado não enfrenta apenas uma perda potencial de fluxo da Arábia Saudita. Há simultaneamente menor circulação de petróleo pelo Golfo Pérsico, limitações no Bab el-Mandeb, riscos sobre instalações energéticas e redução dos estoques globais.

Na sessão de 14 de setembro, o Brent chegou a superar US$ 108 por barril, enquanto o petróleo nos Estados Unidos também avançou. Na semana anterior, o Brent já havia acumulado alta superior a 8%, refletindo a deterioração das condições de oferta e transporte.

O preço, porém, não é o único mecanismo de transmissão do choque. A restrição física da infraestrutura saudita pode alterar a origem dos barris disponíveis para diferentes mercados. Compradores que normalmente contam com petróleo do Oriente Médio podem precisar recorrer a cargas de outras regiões, aumentando distâncias de transporte e pressionando as tarifas de navios-tanque. A AIE já registrou alta expressiva nos custos de frete e afirmou que o transporte marítimo de petróleo passou a sofrer novas interrupções com os ataques no Oriente Médio.

Yanbu ganhou importância justamente durante a crise de Ormuz

A relevância estratégica do oleoduto aumentou porque a rota marítima que ele deveria contornar está entre os pontos mais afetados pelo conflito. Antes da guerra, o Estreito de Ormuz concentrava uma parcela muito significativa do comércio mundial de petróleo e derivados. Com a redução do tráfego, a Arábia Saudita passou a depender mais de sua infraestrutura no Mar Vermelho para manter as exportações.

Dados compilados pela indústria indicam que os embarques de petróleo bruto e condensado pelo terminal de Yanbu cresceram para cerca de 3,7 milhões de barris por dia em setembro, ante 3,2 milhões em agosto. Isso representa aumento aproximado de 15,6% em apenas um mês. O dado mostra como a costa do Mar Vermelho passou a absorver uma parcela maior da logística de exportação saudita no momento em que Ormuz perdeu confiabilidade como corredor de transporte.

A interrupção, portanto, não elimina apenas uma determinada vazão de petróleo. Ela enfraquece a principal alternativa terrestre do país para evitar o ponto de estrangulamento marítimo. É essa combinação que elevou o risco para o mercado internacional: a rota alternativa tornou-se mais importante exatamente quando também passou a ser alvo de ataques.

As estimativas sobre o tempo necessário para recuperar integralmente a infraestrutura ainda variam. Fontes do setor consultadas pela Reuters apontam que alguns reparos podem levar cinco a seis semanas, embora também exista a expectativa de retomada parcial antes da conclusão de todas as obras. A diferença entre os cenários é relevante porque determina se a atual pressão será absorvida por estoques e desvio de cargas ou se haverá perda prolongada de oferta efetivamente exportável.

Imagens de satélite e informações sobre danos à infraestrutura reforçaram a percepção de que a ocorrência não se limita a uma paralisação administrativa preventiva. A Arábia Saudita, por sua vez, informou oficialmente que equipes de emergência e técnicos foram mobilizados para proteger a instalação e avaliar sua integridade após os ataques. Até o momento, o governo saudita não divulgou prazo definitivo para a normalização completa do oleoduto.

O impacto também alcança o mercado de derivados. A AIE informou que as exportações líquidas de diesel e gasóleo dos países do Golfo ficaram em média em 390 mil barris por dia em agosto, pouco mais de um quarto dos níveis anteriores à guerra. O volume de derivados exportados da região estava quase 60% abaixo do registrado em fevereiro, o que amplia o risco de que a restrição adicional de petróleo bruto se transforme também em pressão sobre combustíveis refinados.

A questão central agora é a velocidade de recuperação da infraestrutura. Uma retomada rápida reduziria o impacto sobre os estoques e permitiria ao mercado voltar a contar com a principal rota saudita de desvio de Ormuz. Uma interrupção prolongada, ao contrário, encontraria um sistema já submetido a retiradas recordes de estoques, restrições de transporte e queda da produção regional.

Para a Arábia Saudita, a prioridade é restabelecer a circulação até Yanbu e preservar sua capacidade de exportação pelo Mar Vermelho. Para o mercado internacional, cada dia adicional de paralisação aumenta a necessidade de encontrar barris alternativos e amplia a sensibilidade dos preços a novos ataques sobre instalações ou corredores marítimos. Enquanto a guerra mantiver pressionados Ormuz e Bab el-Mandeb, o oleoduto Leste-Oeste deixará de ser apenas uma infraestrutura nacional e continuará funcionando, quando disponível, como uma das principais válvulas de segurança do mercado mundial de petróleo.

Fontes:

Saudi Press Agency – comunicado do Ministério da Energia sobre o fechamento preventivo do oleoduto Leste-Oeste após ataques em 10 de setembro de 2026

Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita – comunicado sobre os ataques com drones lançados do território iraquiano e os danos provocados ao oleoduto

Agência Internacional de Energia – Oil Market Report de setembro de 2026, com dados de produção, oferta global, estoques, exportações e fluxos de derivados

Reuters – informações sobre a interrupção do oleoduto, estoques disponíveis em Yanbu, capacidade de transporte e estimativas de prazo para reparos

Reuters – dados de mercado sobre os preços do petróleo e os impactos da interrupção da infraestrutura saudita

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