Fechamento de refinarias elevou em R$ 76 bilhões a conta de combustíveis da África do Sul
Estudo do banco central calcula custo adicional entre 2021 e 2024; importações já suprem mais da metade da demanda, enquanto governo prepara reconstrução da Sapref
Por Sandro Dias
A perda de capacidade de refino de petróleo custou à África do Sul cerca de 76 bilhões de rands em importações adicionais de combustíveis entre 2021 e 2024, segundo estudo econômico publicado pelo South African Reserve Bank (SARB). O montante equivale a aproximadamente US$ 4,7 bilhões pela referência cambial utilizada na comparação e mostra que o fechamento de refinarias deixou de ser apenas um problema da indústria de petróleo para se transformar em uma questão de balança comercial, atividade industrial e segurança energética. O país, que durante anos esteve próximo da autossuficiência em combustíveis líquidos, passou a depender crescentemente da compra de gasolina, diesel, querosene de aviação e outros derivados já processados no exterior.
O cálculo do SARB considera um cenário em que os derivados refinados continuariam representando aproximadamente 25% das importações de petróleo do país, proporção observada antes da deterioração mais acentuada da capacidade de processamento doméstico. Se essa composição tivesse sido mantida, a conta de importações do setor teria sido, em média, 6,1% menor entre 2021 e 2024. O exercício não significa que a África do Sul poderia prescindir de compras externas, já que suas refinarias também dependem de petróleo bruto importado, mas mostra a diferença econômica entre comprar a matéria-prima e processá-la localmente ou adquirir no exterior o combustível já pronto e com maior valor agregado.
Dependência de combustível importado mudou o setor de petróleo
A África do Sul construiu ao longo de décadas uma das maiores estruturas de produção de combustíveis líquidos do continente africano. Somadas as refinarias convencionais e as unidades capazes de converter carvão e gás em combustíveis, a capacidade instalada chegou a aproximadamente 720 mil barris por dia, volume que em determinados períodos era suficiente para cobrir grande parte de um consumo nacional pouco superior a 600 mil barris diários. Esse quadro começou a mudar com uma sequência de paralisações, acidentes, dificuldades financeiras e decisões empresariais que reduziram substancialmente a capacidade efetivamente disponível.
A Sapref, em Durban, que processava cerca de 180 mil barris por dia e chegou a ser a maior refinaria de petróleo bruto do país, deixou de operar. A Enref, também localizada em Durban, foi convertida para atividades ligadas à importação e ao armazenamento de combustíveis, enquanto a unidade da PetroSA em Mossel Bay interrompeu a produção após enfrentar problemas com o suprimento de matéria-prima e custos operacionais. Com menos petróleo sendo processado dentro do país, os importadores passaram a trazer volumes cada vez maiores de derivados acabados. Produtos refinados, que anteriormente respondiam por aproximadamente um quarto das importações associadas ao petróleo, passaram a representar mais da metade da oferta necessária para atender o mercado doméstico.
Essa transformação tem efeitos que vão além do preço pago pelos combustíveis. Quando o petróleo bruto é importado e refinado internamente, uma parte maior do valor econômico permanece no país por meio da atividade industrial, dos salários, da manutenção das instalações, da contratação de serviços especializados e da movimentação de fornecedores. Ao substituir esse modelo pela importação do combustível já processado, a África do Sul continua garantindo o abastecimento, mas transfere para outros países uma parcela da atividade que antes era realizada dentro de suas fronteiras.
Apenas duas refinarias de petróleo bruto continuam operando
A infraestrutura disponível atualmente é muito menor do que a existente há uma década. A África do Sul mantém duas refinarias de petróleo bruto em operação: a Natref, em Sasolburg, e a unidade da Astron Energy na Cidade do Cabo. A Sasol também continua operando em Secunda uma grande instalação que transforma carvão em combustíveis líquidos e desempenha papel importante no abastecimento nacional. A concentração da produção em poucas unidades, entretanto, tornou o sistema mais sensível a falhas operacionais, manutenções programadas e interrupções inesperadas.
A Natref voltou a enfrentar restrições operacionais em agosto e setembro de 2026, afetando principalmente a oferta de combustível de aviação. O episódio mostrou como uma dificuldade em apenas uma instalação pode ganhar dimensão nacional quando existem poucas alternativas domésticas disponíveis. A lacuna precisa ser coberta por estoques ou importações, o que exige capacidade nos portos, terminais, dutos e sistemas de transporte terrestre. Parte dessa infraestrutura foi concebida para complementar o refino nacional, e não necessariamente para sustentar de forma permanente um mercado no qual mais da metade dos combustíveis é atendida por fornecedores externos.
Essa dependência acrescenta novos riscos ao abastecimento. Além do preço internacional do petróleo, entram na conta os custos dos derivados, do frete marítimo e do seguro, a disponibilidade de navios, a situação dos portos e eventuais interrupções nas principais rotas comerciais. Uma crise internacional pode, portanto, afetar simultaneamente preço e disponibilidade, enquanto uma desvalorização do rand diante do dólar amplia o impacto em moeda local.
Perda industrial atingiu produção e cerca de 5,4 mil empregos
O estudo publicado pelo SARB mostra que o efeito das paralisações não ficou restrito às compras externas. A produção da indústria relacionada a petróleo e produtos químicos caiu aproximadamente 20% desde 2019, enquanto cerca de 5,4 mil empregos diretos e indiretos foram afetados pela redução da atividade. A estimativa considera aproximadamente 2.150 postos diretamente vinculados às instalações atingidas e outros 3.300 distribuídos pelas cadeias de fornecedores, manutenção, engenharia, transporte, armazenagem e serviços especializados.
O impacto econômico desses empregos é relevante porque refinarias concentram mão de obra técnica e atividades industriais de maior complexidade. Engenheiros, operadores, técnicos de manutenção, empresas de equipamentos e prestadores de serviços formam um ecossistema que não é integralmente reproduzido quando uma refinaria é substituída por um terminal de importação. Armazenar e distribuir gasolina ou diesel comprado no exterior também demanda trabalhadores e investimentos, mas envolve uma cadeia produtiva menor do que aquela necessária para transformar petróleo bruto em diferentes produtos finais.
A deterioração da capacidade também coincidiu com o adiamento de investimentos. Modernizar uma refinaria antiga exige recursos elevados e, durante anos, empresas do setor enfrentaram incerteza sobre novas exigências ambientais, especificações de combustíveis e retorno econômico dos projetos. Para algumas companhias, a combinação de instalações envelhecidas, necessidade de grandes aportes e margens pressionadas tornou a saída do refino mais atraente do que a modernização dos ativos.
Custo adicional ficou concentrado principalmente em 2022
Os pesquisadores do banco central estimaram o impacto sobre as importações comparando o que efetivamente ocorreu com uma composição hipotética em que o petróleo bruto continuaria respondendo por 75% das compras externas do setor e os derivados refinados permaneceriam em 25%. A diferença calculada foi de aproximadamente 7,2 bilhões de rands em 2021, quase 40 bilhões em 2022, 18,5 bilhões em 2023 e 10,4 bilhões em 2024. No conjunto dos quatro anos, o valor ultrapassa 76 bilhões de rands.
O peso de 2022 chama atenção: sozinho, o ano concentrou mais da metade da diferença estimada para todo o período. Além da queda da capacidade doméstica, o mercado mundial de energia atravessava forte pressão sobre preços e disponibilidade de combustíveis. Para um país que já estava aumentando a participação de derivados importados, o choque internacional encontrou uma estrutura mais dependente do mercado externo do que poucos anos antes.
Os números também ajudam a esclarecer o significado econômico da perda de refinarias. O custo não corresponde simplesmente ao valor de petróleo que deixou de ser produzido no país, até porque a África do Sul não dispõe de produção doméstica suficiente de petróleo bruto para alimentar toda a sua indústria. A diferença está no estágio em que o produto é importado. Quanto maior a parcela de derivados acabados na pauta de compras externas, maior é a quantidade de processamento e valor agregado realizada fora da economia sul-africana.
Governo aposta na reconstrução da Sapref
A principal tentativa de alterar essa trajetória está concentrada na Sapref. A antiga refinaria ao sul de Durban, anteriormente controlada por Shell e BP, tinha capacidade próxima de 180 mil barris por dia antes da paralisação. Os ativos foram transferidos para o Central Energy Fund (CEF), grupo estatal responsável por investimentos considerados estratégicos no setor energético, e passaram a fazer parte de um plano de recuperação mais amplo da capacidade de refino do país.
A estratégia apresentada em setembro de 2026 foi dividida em três etapas. A primeira prevê o aproveitamento imediato dos tanques e de outras estruturas existentes para armazenar e movimentar combustíveis importados, permitindo que o ativo volte a gerar receita mesmo antes do reinício do processamento de petróleo. A fase seguinte prevê a reconstrução da refinaria com capacidade aproximada de 400 mil barris por dia, mais do que o dobro da capacidade histórica da Sapref e um volume que, se efetivamente alcançado, seria suficiente para modificar de forma significativa a relação atual entre produção doméstica e importações.
Uma terceira etapa admite a ampliação da instalação para algo entre 400 mil e 650 mil barris diários. O projeto, contudo, ainda depende de financiamento, licenciamento, engenharia e definições sobre o cronograma de execução. A distância entre capacidade anunciada e capacidade disponível é particularmente importante em projetos desse porte. Uma refinaria capaz de processar centenas de milhares de barris por dia exige investimentos de grande escala, contratos de longo prazo para fornecimento de petróleo, infraestrutura logística adequada e mercado suficiente para operar com eficiência econômica.
Estoques estratégicos ganham importância
Enquanto tenta reconstruir o parque de refino, o governo sul-africano também trabalha para aumentar sua proteção contra interrupções externas. Em julho, o gabinete aprovou para consulta pública uma política de estoques estratégicos de petróleo e derivados. A proposta estabelece que a South African National Petroleum Company mantenha inicialmente reservas correspondentes a 60 dias das importações líquidas, com uma expansão gradual para 90 dias no longo prazo.
A política busca reduzir a vulnerabilidade a crises internacionais, problemas em rotas marítimas ou falhas de fornecimento. Os estoques, no entanto, cumprem funções diferentes dependendo do produto armazenado. Reservas de diesel, gasolina e querosene podem ser direcionadas diretamente ao mercado em uma emergência. Já estoques de petróleo bruto dependem da existência de refinarias operacionais capazes de transformá-los em combustíveis utilizáveis. Por isso, a recuperação da capacidade industrial e a formação de reservas são tratadas pelo governo como partes complementares de uma mesma estratégia de segurança energética.
O assunto ganhou urgência adicional em 2026 com novas tensões no Oriente Médio e a alta do petróleo Brent, que chegou a superar US$ 100 por barril em março. Em um sistema fortemente dependente de produtos importados, um choque externo pode aumentar o custo do petróleo, dos derivados e do transporte marítimo ao mesmo tempo. Se o rand se enfraquecer diante do dólar, o efeito sobre a economia doméstica torna-se ainda maior.
Refino volta ao centro da política industrial
A experiência dos últimos anos mudou a maneira como a África do Sul encara suas refinarias. Durante parte da década passada, a discussão estava concentrada principalmente na rentabilidade de instalações antigas e no custo de modernizá-las. Com o aumento das importações, o debate passou a incluir questões de balança comercial, emprego, infraestrutura logística e capacidade do país de atravessar choques internacionais sem comprometer o abastecimento.
O próprio estudo do SARB ressalta que o fechamento das refinarias não provoca, por si só, uma elevação mecânica dos preços domésticos, uma vez que a formação dos combustíveis já incorpora referências internacionais. A mudança aparece com mais clareza na composição das importações e na exposição externa. O país continua precisando comprar energia no mercado internacional, mas passou a comprar uma parcela maior do produto no estágio de maior valor agregado.
Os 76 bilhões de rands estimados em importações adicionais entre 2021 e 2024 dão uma dimensão financeira dessa mudança. Somados à redução da produção industrial, aos milhares de empregos afetados e ao aumento da dependência logística, os números explicam por que o governo decidiu voltar a tratar a capacidade de refino como um ativo estratégico. Se a reconstrução da Sapref avançar conforme o planejado, a África do Sul poderá recuperar parte do processamento perdido e reduzir a necessidade de importar combustíveis prontos. Até lá, o país continuará mais exposto ao preço internacional da energia, ao câmbio e ao funcionamento das rotas marítimas que hoje sustentam parcela crescente de seu abastecimento.
Fontes:
South African Reserve Bank – estudo econômico sobre fechamento de refinarias, importações de derivados, produção industrial, emprego e impactos sobre a balança comercial
South African Reserve Bank – boletins econômicos e dados sobre importações de petróleo bruto e produtos refinados
Central Energy Fund – plano em três fases para utilização, reconstrução e expansão da antiga refinaria Sapref
South African Government – decisão do gabinete e proposta de política para estoques estratégicos de petróleo e derivados
Department of Mineral and Petroleum Resources – informações oficiais sobre refinarias operacionais e segurança do abastecimento de combustíveis
Sasol – atualizações operacionais da refinaria Natref e informações sobre continuidade de produção e fornecimento










