A inflação brasileira surpreendeu favoravelmente em agosto e deixou o Banco Central mais confortável para promover um novo corte da taxa Selic na próxima semana. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,32% no mês, após uma alta de 0,07% em julho, registrando a maior deflação mensal em quatro anos. Em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,44% para 4,22%, enquanto o acumulado de 2026 chegou a 3,11%.
O resultado veio melhor do que o esperado pelo mercado, que trabalhava com uma queda próxima de 0,29%, e teve contribuição importante de fatores que não deverão se repetir integralmente nos próximos meses. O principal deles foi a redução das contas de energia elétrica provocada pelo Bônus de Itaipu. Ainda assim, a leitura foi considerada positiva porque a melhora não ficou restrita aos preços administrados: alimentos, combustíveis, passagens aéreas e medidas de inflação subjacente também mostraram comportamento mais favorável.
Essa combinação reforça a expectativa de que o Comitê de Política Monetária reduza novamente a Selic em 0,25 ponto percentual na reunião dos dias 15 e 16 de setembro. A taxa básica está atualmente em 14% ao ano e, caso se confirme a redução, passará para 13,75%. Seria o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto desde que o Banco Central iniciou a atual fase de flexibilização monetária em março.
O movimento, entretanto, deverá continuar sendo conduzido com cautela. Embora o IPCA tenha voltado para dentro do intervalo de tolerância da meta e componentes importantes mostrem perda de pressão, o Banco Central ainda convive com expectativas de inflação acima dos 3% perseguidos no médio prazo, riscos fiscais, incertezas cambiais e um ambiente internacional marcado por petróleo volátil e juros elevados.
Energia elétrica explica boa parte da deflação
O grupo Habitação foi o principal responsável pela queda do IPCA em agosto, com recuo de 1,87%. A energia elétrica residencial caiu 7,63% e exerceu o maior impacto individual negativo sobre o índice.
A redução está diretamente relacionada ao Bônus de Itaipu, crédito concedido aos consumidores brasileiros a partir do resultado positivo obtido na comercialização da energia da hidrelétrica. O benefício foi aplicado às contas emitidas em agosto e produziu uma redução temporária nas tarifas.
Esse detalhe é fundamental para interpretar corretamente o dado. A queda da energia não representa uma mudança permanente no custo da eletricidade e parte desse efeito deverá desaparecer já no IPCA de setembro, quando as contas voltarem aos níveis habituais.
Mesmo descontando esse componente extraordinário, contudo, a inflação mostrou sinais considerados favoráveis pelos economistas. Quatro dos nove grupos pesquisados apresentaram variação negativa em agosto: além de Habitação, houve queda em Transportes, Alimentação e bebidas e Comunicação.
Transportes recuaram 0,86%, com destaque para as passagens aéreas, que ficaram 13,17% mais baratas no mês. Os combustíveis diminuíram 0,91%, contribuindo também para reduzir a pressão sobre o orçamento das famílias.
Alimentos ficam mais baratos pelo segundo mês
Alimentação e bebidas recuaram 0,34%, prolongando o alívio observado nos preços de vários alimentos consumidos dentro de casa. Alguns produtos tiveram quedas expressivas: a batata-inglesa ficou 19,89% mais barata, a cenoura caiu 11,22%, a cebola recuou 11,07% e o tomate teve redução de 10,94%.
A melhora dos alimentos tem peso relevante na percepção da inflação pelas famílias porque essa categoria representa parcela importante das despesas, sobretudo entre os consumidores de menor renda. Quando alimentos básicos ficam mais baratos, o efeito é percebido diretamente no supermercado e pode melhorar a renda disponível para outras despesas.
Isso não significa que todos os alimentos estejam caindo. Leite, carnes e frutas continuam apresentando movimentos de alta em determinados períodos, e a inflação alimentar permanece sujeita a condições climáticas, safras, câmbio e preços internacionais das commodities.
Além disso, o cenário para os próximos meses contém um fator adicional de risco: as possíveis consequências do El Niño sobre algumas culturas agrícolas. Uma mudança mais intensa no regime de chuvas pode afetar a oferta de alimentos e reverter parte do alívio observado recentemente.
Serviços mostram melhora mais importante para o Banco Central
Se a queda da conta de luz ajuda a explicar o número cheio do IPCA, o comportamento dos serviços é provavelmente a informação mais relevante para a política monetária.
A inflação de serviços vinha sendo uma das principais preocupações do Banco Central porque tende a responder mais lentamente aos juros e está diretamente associada ao comportamento da demanda, do mercado de trabalho e dos salários. Em agosto, porém, esse segmento voltou a mostrar sinais de moderação.
A inflação de serviços desacelerou de 5,86% para 5,47% no acumulado de 12 meses. A média dos núcleos do IPCA — medidas que tentam retirar componentes mais voláteis para identificar a tendência da inflação — subiu 0,23% no mês e ficou em 4,35% em 12 meses.
Outro núcleo importante, que exclui alimentação e combustíveis, desacelerou de 4,57% para 4,45%.
Esses números continuam acima da meta de 3%, mas mostram uma direção mais favorável. Para o Banco Central, essa mudança é mais relevante do que uma queda isolada da inflação provocada por descontos temporários na eletricidade.
A alimentação fora do domicílio também perdeu força, sinalizando menor pressão em um segmento bastante sensível ao mercado de trabalho. O comportamento dos serviços sugere que a combinação de juros elevados e desaceleração gradual da economia começa a produzir efeitos mais visíveis sobre os preços.
Selic deve cair para 13,75%
Com o resultado de agosto, a expectativa de novo corte de juros ficou ainda mais consolidada.
A Selic está em 14% ao ano desde a reunião de agosto, quando o Copom reduziu a taxa em 0,25 ponto. O Banco Central vinha indicando que o ritmo e a extensão total do ciclo dependeriam dos próximos dados e da evolução das expectativas.
O IPCA divulgado nesta sexta-feira entrega justamente uma informação favorável às autoridades monetárias.
Caso o Copom reduza a Selic para 13,75%, o Banco Central terá retirado 1,25 ponto percentual da taxa desde janeiro, quando os juros estavam em 15% ao ano. Apesar dos cortes, a política monetária continuará bastante restritiva, especialmente quando comparada à inflação corrente.
O boletim Focus mais recente mostra que a mediana das instituições financeiras espera Selic de 13,75% no final de 2026. Isso significa que, pelo cenário predominante do mercado, o corte da próxima semana poderá ser o último do ano.
Algumas instituições, no entanto, consideram possível uma continuidade da flexibilização caso a inflação siga surpreendendo para baixo, a atividade econômica perca mais força e os riscos externos diminuam.
Mercado espera inflação de 5% no fim de 2026
A surpresa de agosto também deverá provocar novas revisões nas projeções para o IPCA do ano.
No boletim Focus divulgado nesta semana, antes da publicação do índice oficial, a expectativa mediana para a inflação de 2026 estava em 5%, ligeiramente abaixo dos 5,01% da semana anterior. O número continua acima do limite superior de 4,5% do intervalo de tolerância da meta.
Algumas casas já trabalham com números menores. O ASA, por exemplo, reduziu sua projeção para o IPCA de 2026 de 5% para 4,8% após a divulgação do resultado de agosto e a manutenção de medidas que diminuem a pressão dos combustíveis.
A diferença entre o IPCA acumulado em 12 meses, atualmente em 4,22%, e a projeção de aproximadamente 5% para o fim do ano se explica pela expectativa de recomposição de alguns preços nos próximos meses, principalmente a energia elétrica.
Setembro deverá registrar uma inflação significativamente maior do que agosto porque o Bônus de Itaipu deixará de produzir o mesmo efeito nas contas de luz. O mercado trabalha com uma variação positiva expressiva para o mês.
Por isso, não há expectativa de uma sequência de deflações.
Inflação voltou para dentro do intervalo da meta
O resultado de agosto colocou o IPCA de 12 meses em 4,22%, abaixo do limite superior de 4,5% do sistema de metas de inflação.
A meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Na prática, a faixa vai de 1,5% a 4,5%.
Estar dentro desse intervalo é uma melhora relevante, mas não significa que o Banco Central considere a missão cumprida. O objetivo central da política monetária continua sendo levar a inflação para perto dos 3%, e não apenas mantê-la abaixo do teto.
Na reunião de agosto, o próprio Copom projetava inflação de 5,1% para 2026 em seu cenário de referência, 3,8% para 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028. Ao mesmo tempo, destacava que as expectativas dos agentes permaneciam desancoradas e que o ambiente exigia cautela.
O IPCA de agosto melhora esse quadro, mas não elimina essas preocupações.
Economia começa a sentir os juros elevados
Outro elemento que favorece o corte da Selic é a perda gradual de velocidade da atividade econômica.
Os dados mais recentes mostram sinais de desaceleração depois do crescimento mais intenso registrado no começo do ano. O PIB avançou 0,5% no segundo trimestre, abaixo da expansão de 1,1% observada nos três primeiros meses de 2026, enquanto o consumo das famílias recuou 0,4%.
O setor de serviços, responsável pela maior parcela da economia brasileira, também perdeu impulso nos últimos meses, embora continue operando próximo de níveis historicamente elevados.
Esse esfriamento era justamente um dos efeitos buscados pelo Banco Central ao manter a Selic em patamares elevados. Juros maiores encarecem financiamentos, reduzem o ritmo do consumo e dos investimentos e diminuem a pressão da demanda sobre os preços.
A questão agora é calibrar a retirada dessa restrição sem reacender a inflação.
Petróleo, câmbio e fiscal continuam no radar
Apesar da melhora, há razões para o Copom continuar avançando em passos pequenos.
O petróleo permanece acima dos níveis observados antes do agravamento das tensões no Oriente Médio. Uma nova escalada da commodity poderia voltar a pressionar combustíveis, transportes e custos de produção no Brasil.
O câmbio também merece atenção. Uma valorização forte do dólar tende a encarecer produtos importados, fertilizantes, componentes industriais e diversas commodities negociadas internacionalmente.
Há ainda o risco fiscal. Uma deterioração das contas públicas pode pressionar expectativas de inflação, juros futuros e câmbio, reduzindo o espaço para cortes mais rápidos da Selic.
O próprio Banco Central mencionou esses riscos na última reunião e deixou claro que não está comprometido antecipadamente com uma sequência específica de reduções.
Dado melhora cenário, mas setembro deve trazer inflação de volta
O IPCA de agosto representa uma notícia favorável para o processo de desinflação brasileiro, mas não deve ser interpretado como sinal de que os preços entrarão numa trajetória de queda generalizada.
A deflação foi ampliada por um desconto excepcional nas contas de energia, cujo efeito será parcialmente devolvido em setembro. Ao mesmo tempo, porém, a melhora dos alimentos, dos combustíveis, dos núcleos e da inflação de serviços sugere que há também um componente mais consistente de desaceleração.
É essa segunda parte que deve pesar na decisão do Banco Central.
Com a economia crescendo em ritmo mais moderado, inflação corrente dentro do intervalo da meta e serviços mostrando menor pressão, um corte da Selic de 14% para 13,75% tornou-se o cenário mais provável para a reunião da próxima semana.
A discussão seguinte será mais difícil: saber se haverá espaço para continuar reduzindo os juros ainda em 2026 ou se o Banco Central preferirá interromper o ciclo e observar os efeitos acumulados das decisões já tomadas.
Por enquanto, o dado de agosto oferece ao Copom exatamente aquilo que a autoridade monetária vinha esperando para continuar avançando: inflação menor, composição mais favorável e sinais de que a política de juros elevados está finalmente produzindo uma desaceleração mais disseminada dos preços.
Fontes:
IBGE
Banco Central do Brasil
Boletim Focus
ASA
Lifetime Gestora de Recursos
Banco BV
Reuters









