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Retornos acima de 100% do CDI com crédito privado? O que está por trás do crescimento explosivo dos FIDCs

Fundos de direitos creditórios superaram R$ 800 bilhões em patrimônio e ganharam espaço após abertura ao público geral.

por Camila Braga
18/06/2026 às 22h56
em Mercados
Fidcs Crescem No Crédito Privado E Atraem Investidor Em Busca De Retorno Acima Do Cdi - Gazeta Mercantil

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, conhecidos como FIDCs, ganharam força no mercado brasileiro de crédito privado e passaram a atrair investidores em busca de retornos acima do CDI. A indústria, que já existe há cerca de 25 anos, superou R$ 800 bilhões em patrimônio e caminha para se consolidar como uma das principais alternativas de financiamento fora do sistema bancário tradicional. O crescimento foi impulsionado por mudanças regulatórias, maior demanda das empresas por capital e busca dos investidores por rentabilidade em produtos estruturados.

O avanço dos FIDCs ocorre em um momento de expansão do crédito privado no Brasil. Empresas de diferentes setores têm buscado captar recursos diretamente no mercado de capitais, reduzindo a dependência de empréstimos bancários. Para os investidores, esses fundos oferecem acesso a carteiras formadas por recebíveis, financiamentos, empréstimos e outros direitos creditórios.

Leia também: STF Avalia Pedido do Executivo para Abertura de Crédito Extraordinário e Revogação do Teto de Precatórios.

Na prática, o FIDC compra ou reúne créditos que uma empresa tem a receber. Esses créditos podem vir de parcelas de veículos, empréstimos consignados, cartões de crédito, duplicatas, recebíveis comerciais, mensalidades, financiamentos ou outras obrigações de pagamento. O investidor compra cotas do fundo e passa a participar do resultado dessa carteira.

O crescimento recente também foi favorecido pela Resolução CVM 175, que modernizou as regras dos fundos de investimento e ampliou o acesso de pessoas físicas a estruturas antes restritas a investidores profissionais ou qualificados. Com isso, os FIDCs deixaram de ser um produto concentrado em grandes investidores e passaram a aparecer com mais frequência nas plataformas de investimento.

O que é um FIDC

Um FIDC é um fundo que investe majoritariamente em direitos creditórios. Direito creditório é um valor que alguém tem a receber no futuro. Quando uma empresa vende a prazo, concede crédito, financia um cliente ou tem parcelas a receber, ela pode transformar esses recebíveis em ativos financeiros.

O FIDC compra esses direitos creditórios e antecipa recursos para a empresa que originou os créditos. Em troca, o fundo passa a receber os pagamentos futuros dos devedores. Esse modelo permite que empresas obtenham capital fora do empréstimo bancário tradicional.

Para o investidor, o retorno vem do fluxo de pagamento desses créditos. Se os devedores pagam corretamente, o fundo recebe os valores previstos e distribui o resultado de acordo com as regras de cada classe de cota.

A lógica parece simples, mas a estrutura exige análise. O desempenho do FIDC depende da qualidade dos créditos, da inadimplência, da capacidade do gestor, das garantias, da subordinação entre cotas, da concentração de devedores, da liquidez e das regras de resgate.

Por que os FIDCs cresceram tanto

O crescimento dos FIDCs está ligado a três fatores principais: mudança regulatória, demanda das empresas por financiamento e busca dos investidores por retornos superiores ao CDI.

A mudança regulatória ampliou o público potencial desses fundos. Antes, os FIDCs eram mais restritos a investidores com maior patrimônio e maior conhecimento técnico. Com a abertura gradual ao público geral, o produto passou a chegar a mais pessoas físicas.

Do lado das empresas, os FIDCs funcionam como uma alternativa para levantar recursos. Em vez de depender apenas dos bancos, uma empresa pode vender recebíveis para um fundo e antecipar dinheiro. Isso pode ser útil para financiar capital de giro, expansão, estoque, vendas a prazo ou operações recorrentes.

Do lado dos investidores, o atrativo está na possibilidade de ganhar acima do CDI. Em um cenário de juros elevados, produtos que entregam CDI mais um prêmio adicional ganham espaço, especialmente quando combinam proteção estrutural e diversificação de crédito.

Daniel Belem, gestor de fundos estruturados de crédito da BTG Pactual Asset Management, afirmou no podcast Touros e Ursos que a indústria alcançou cerca de R$ 800 bilhões em patrimônio e pode ultrapassar R$ 1 trilhão. A projeção acompanha o avanço do mercado de capitais como fonte de financiamento para empresas brasileiras.

Como funcionam as cotas sênior, mezanino e subordinada

Uma das principais características dos FIDCs é a divisão em camadas de risco. Em muitos fundos, as cotas são organizadas em três grupos: sênior, mezanino e subordinada.

A cota sênior costuma ser a mais protegida. Ela tem prioridade para receber pagamentos do fundo e, por isso, geralmente oferece retorno menor do que as demais classes. É a cota mais voltada a investidores que buscam menor risco relativo dentro da estrutura.

A cota mezanino ocupa uma posição intermediária. Ela assume mais risco do que a sênior, mas menos risco do que a subordinada. Por isso, pode oferecer retorno maior, mas também está mais exposta a perdas se a inadimplência aumentar.

A cota subordinada é a primeira a absorver prejuízos. Em muitos FIDCs, a própria empresa que cede os créditos compra parte dessas cotas. Isso cria um alinhamento de interesses, porque o originador dos créditos passa a ter capital em risco dentro da estrutura.

Esse mecanismo é importante porque ajuda a proteger os cotistas mais conservadores. Se parte dos devedores não pagar, a perda atinge primeiro a camada subordinada. Somente depois, em caso de perdas mais severas, as camadas mezanino e sênior seriam impactadas.

Subordinação cria proteção, mas não elimina risco

A existência de cotas subordinadas é um dos argumentos mais usados para explicar a segurança relativa dos FIDCs. Quando o originador mantém capital na primeira camada de perda, ele tem incentivo para selecionar bons créditos e monitorar a qualidade da carteira.

Essa estrutura reduz parte do risco para investidores das cotas superiores, mas não transforma o FIDC em investimento sem risco. Se a inadimplência for maior do que o previsto, se houver fraude, deterioração dos créditos, falha operacional ou concentração excessiva, o fundo pode sofrer perdas.

O investidor precisa entender que a proteção depende do tamanho da subordinação, da qualidade dos ativos e das regras do fundo. Uma cota sênior de um FIDC bem estruturado pode ter risco menor do que uma cota subordinada do mesmo fundo, mas ainda está sujeita ao comportamento da carteira de crédito.

Outro ponto relevante é a liquidez. Muitos FIDCs não permitem resgate imediato. Alguns têm prazos de conversão e pagamento mais longos, justamente porque os ativos da carteira também têm vencimentos futuros. O investidor que precisa de liquidez diária deve avaliar esse ponto com cuidado.

Pulverização reduz impacto de calotes isolados

Outro elemento de proteção nos FIDCs é a pulverização. Em vez de concentrar todo o risco em uma única empresa ou em poucos devedores, muitos fundos compram milhares de créditos de pessoas físicas ou empresas diferentes.

Essa diversificação reduz o impacto de calotes individuais. Se poucos devedores deixam de pagar, o efeito sobre o fundo pode ser limitado. O risco aumenta quando há concentração elevada em poucos cedentes, poucos sacados, um único setor ou uma mesma região econômica.

FIDCs ligados a crédito consignado, por exemplo, costumam ter comportamento diferente de FIDCs ligados a cartão de crédito, financiamento de veículos, antecipação de recebíveis comerciais ou crédito empresarial. Cada tipo de carteira tem dinâmica própria de inadimplência, prazo, recuperação e sensibilidade ao ciclo econômico.

Por isso, analisar apenas o retorno prometido é insuficiente. O investidor precisa observar de onde vêm os créditos, quem são os devedores, qual é o histórico de pagamento, qual é a experiência do originador e qual é a proteção oferecida pela estrutura.

Retorno acima do CDI depende do nível de risco

O principal atrativo dos FIDCs é a possibilidade de retorno acima do CDI. Esse ganho adicional é chamado de prêmio de crédito. Ele remunera o investidor por aceitar riscos superiores aos de instrumentos mais conservadores.

Nas cotas sênior, Daniel Belem afirma que o retorno costuma ficar entre 1% e 2% acima do CDI em estruturas mais seguras. Um exemplo citado são fundos que compram direitos creditórios de empréstimos consignados para aposentados do INSS, nos quais o desconto em folha reduz o risco de inadimplência.

Nas cotas mezanino, o retorno tende a ser maior. Segundo o gestor, essa camada pode entregar algo entre 2% e 3% acima do CDI, porque assume risco intermediário dentro da estrutura.

Nas cotas subordinadas, o retorno potencial pode superar 4% acima do CDI, mas o risco também é maior. Essa é a camada que absorve primeiro eventuais perdas. Por isso, costuma ser mais adequada para investidores com maior tolerância a risco e capacidade de entender a estrutura do fundo.

O ponto central é que não existe retorno maior sem risco adicional. Quando um FIDC promete ou busca entregar CDI mais um prêmio elevado, o investidor precisa identificar exatamente qual risco está sendo assumido para gerar esse retorno.

Apolo FIDC mostra estratégia de diversificação da BTG Asset

O Apolo FIDC, da BTG Pactual Asset Management, é citado por Daniel Belem como o principal veículo da gestora nessa classe. Segundo o gestor, o fundo foca operações com empresas e devedores que já possuem histórico consolidado, evitando estruturas consideradas novas ou experimentais.

Com quase um ano de operação, o fundo já reúne patrimônio superior a R$ 1,5 bilhão, segundo dados mencionados no podcast. Belem afirma que o Apolo FIDC tem 45 ativos de diferentes operações de crédito e originadores, com objetivo de entregar diversificação e reduzir concentração.

A estratégia descrita pelo gestor prioriza cedentes conhecidos, estruturas familiares à equipe e seleção rigorosa de operações. A proposta é oferecer exposição a crédito estruturado com controle de risco e diversificação entre diferentes carteiras.

O fundo está aberto ao público geral e possui regra de resgate D+90. Isso significa que o investidor precisa aguardar 90 dias para a conversão financeira do resgate, de acordo com as regras do produto. Esse prazo ajuda a proteger a liquidez da carteira em momentos de estresse no mercado de crédito.

Investidor precisa olhar carteira, gestor e liquidez

A expansão dos FIDCs aumenta as opções para o investidor, mas também exige análise mais cuidadosa. Esses fundos são mais complexos do que produtos tradicionais de renda fixa, como Tesouro Selic, CDBs de grandes bancos ou fundos DI.

Antes de investir em um FIDC, é importante avaliar o tipo de crédito dentro da carteira. Créditos consignados, financiamentos de veículos, recebíveis de cartão, duplicatas comerciais e empréstimos empresariais têm riscos diferentes.

Também é necessário verificar quem originou os créditos. A qualidade do cedente influencia diretamente a qualidade da carteira. Um originador com histórico sólido, boa política de concessão de crédito e sistemas de cobrança eficientes tende a reduzir o risco operacional.

Outro ponto é a experiência do gestor. FIDCs exigem análise de crédito, estruturação, monitoramento, cobrança, controle de garantias e acompanhamento de indicadores. Gestores especializados em crédito estruturado podem ter mais capacidade de identificar riscos antes que eles se materializem.

A liquidez também deve ser observada. Prazos como D+60, D+90 ou superiores são comuns em fundos de crédito estruturado. O investidor não deve aplicar recursos que pode precisar no curto prazo.

Crescimento dos FIDCs muda financiamento das empresas

A expansão dos FIDCs tem impacto além das carteiras de investimento. Ela altera a forma como empresas se financiam no Brasil. Ao vender recebíveis para fundos, companhias conseguem transformar créditos futuros em dinheiro presente.

Esse modelo pode reduzir a dependência dos bancos, ampliar a concorrência no crédito e tornar o mercado de capitais mais relevante para empresas médias e grandes. Também permite que investidores participem indiretamente de operações de financiamento antes concentradas no sistema bancário.

A mudança acompanha uma tendência mais ampla de desintermediação financeira. Empresas acessam diretamente investidores por meio de debêntures, CRIs, CRAs, notas comerciais, fundos de crédito e FIDCs. Para o mercado, isso amplia alternativas. Para o investidor, aumenta a necessidade de avaliação técnica.

O crescimento para perto de R$ 1 trilhão em patrimônio indicaria uma mudança estrutural no crédito brasileiro. Ao mesmo tempo, quanto maior a indústria, maior a importância de governança, transparência, regulação e fiscalização.

Touros e Ursos também destacou Nubank, Tesouro IPCA+, Musk e petróleo

No quadro Touros e Ursos da Semana, o podcast também destacou eventos que movimentaram o mercado. Entre os pontos negativos, apareceu o episódio envolvendo o Nubank (ROXO34), após clientes receberem mensagens indevidas sobre uma suposta liquidação da instituição. O banco afirmou que houve erro operacional e que suas operações seguiram normalmente.

Outro destaque negativo foi o estresse nos títulos públicos indexados à inflação. O Tesouro IPCA+ voltou a oferecer taxas reais elevadas, acima de 8% ao ano, refletindo maior desconfiança com o cenário fiscal, inflação e trajetória dos juros.

Entre os destaques positivos, Elon Musk apareceu após se tornar o primeiro trilionário do mundo com a abertura de capital da SpaceX. A estreia da companhia na Nasdaq elevou de forma expressiva o valor de sua participação acionária.

Também entrou no lado positivo o acordo entre Estados Unidos e Irã, que reduziu a percepção de risco geopolítico, pressionou o preço do petróleo para baixo e trouxe alívio a bolsas globais. A queda do petróleo favorece expectativas de inflação menor, embora o impacto dependa da duração do acordo e da reação dos produtores.

FIDCs entram no radar do investidor, mas exigem seleção rigorosa

O avanço dos FIDCs mostra que o crédito privado brasileiro entrou em uma nova fase. A indústria superou R$ 800 bilhões, ganhou acesso ao investidor comum e se tornou uma alternativa relevante para empresas que buscam capital fora dos bancos.

A promessa de retorno acima do CDI é o principal atrativo, mas o produto exige leitura cuidadosa. O investidor precisa entender o tipo de crédito, a estrutura de cotas, a subordinação, a pulverização, o gestor, o prazo de resgate e o histórico de inadimplência.

A abertura dos FIDCs ao público geral amplia oportunidades, mas também aumenta a responsabilidade de distribuidores, gestores e investidores. Em um mercado em rápida expansão, a diferença entre um bom fundo e uma estrutura frágil pode estar nos detalhes da carteira.

Os FIDCs devem continuar crescendo enquanto empresas buscarem alternativas de financiamento e investidores aceitarem maior complexidade em troca de prêmio sobre o CDI. O próximo teste da indústria será sustentar esse avanço com transparência, governança e controle de risco em um ciclo econômico ainda marcado por juros elevados e crédito seletivo.

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